domingo, 2 de dezembro de 2012

The Lamb - Blake

Mais um poema do William Blake. Para quem acompanhou o blog e viu o poema The Tyger. Pode-se dizer que um poema é o "par" do outro, assim como em muitas outras obras de Canções da Inocência e Canções da Experiência.

The Lamb - William Blake

   Little lamb, who made thee?
   Does thou know who made thee,
Gave thee life, and bid thee feed
By the stream and o’er the mead;
Gave thee clothing of delight,
Softest clothing, woolly, bright;
Gave thee such a tender voice,
Making all the vales rejoice?
   Little lamb, who made thee?
   Does thou know who made thee?

   Little lamb, I’ll tell thee;
   Little lamb, I’ll tell thee:
He is callèd by thy name,
For He calls Himself a Lamb.
He is meek, and He is mild,
He became a little child.
I a child, and thou a lamb,
We are callèd by His name.
   Little lamb, God bless thee!
   Little lamb, God bless thee!




O Cordeiro – William Blake

  Cordeiro, quem te fez?
  Sabes tu quem te fez?
Deu-te vida & alimento
Na nascente no relento;
Vestiu-te em gozos, louçã,
De finas vestes de lã;
Deu-te tenra voz também,
Para alegrar vales & além?
  Cordeiro, quem te fez?
  Sabes tu quem te fez?

  Cordeiro, te direi;
  Cordeiro, te direi:
O teu nome tem inteiro,
Pois Ele chama-se cordeiro.
Ele é meigo, & sem tardança
Veio aqui como criança.
Sou criança, & tu cordeiro,
Chamados por Seu nome inteiro.
  Cordeiro, Deus te guarde!
  Cordeiro, Deus te guarde!


Trad: Raphael Soares

terça-feira, 31 de julho de 2012

Un vieux pays - Machado de Assis

Hoje posto uma poesia do nosso grande Machado de Assis. Machado escreveu apenas duas poesias em francês, e essa, de matiz baudelairiano (talvez único em sua poesia) é uma delas. Não é inédita em português, já que o próprio Machado nos apresenta em Phalenas uma tradução de um terceiro, de qualidade um tanto questionável, apesar dos elogios do próprio autor (sabemos que Machado não era econômico em elogiar conhecidos... basta consultarem a crítica que faz do Cenas da Vida Amazônica de Veríssimo). Não é a melhor poesia Machadiana, mas também não é desprezível no conjunto de sua obra.

UN VIEUX PAYS - Machado de Assis
...juntamente choro e rio.
Camões, soneto

Il est un vieux pays, plein d’ombre et de lumière,
On l’on rêve le jour, où l’on pleure le soir;
Un pays de blasphème, autant que de prière,
Nè pour le doute e pour l’espoir.

On n’y voit point de fleurs sans un ver qui les ronge
Point de mer sans tempête, ou de soleil sans nuit;
Le bonheur y parait quelquefois dans un songe
Entre le bras du sombre ennui.

L’amour y va souvent, mais c’est tout un délire,
Un désespoir sans fin, une énigme sans mot;
Parfois il rit gaîment, mais de cet affreux rire
Qui n’est peut-être qu’un sanglot.

On va dans ce pays de misère et d’ivresse,
Mais on le voit à peine, on en sort, on a peur;
Je l’habite pourtant, j’y passe ma jeunesse...
Hélas! ce pays, c’est mon coeur.



UM VELHO PAÍS – MACHADO DE ASSIS
...juntamente choro e rio.
            Camões

Este é um país pleno de luz e treva,
Alguém sonha de dia, e à tarde se lamenta;
Um país de blasfêmia e de oração sincera,
   Nata da esp’rança e da tormenta.

Onde não se vê a flor sem um verme a roendo,
O sol sem noite, e o mar sem qualquer tempestade;
Se a alegria, uma vez, em sonho aparecendo
   Em umbro braço o tédio invade.

O amor é bem frequente, e é, de fato, um delírio,
Um desespero infindo, um enigma sem termos;
Às vezes ri-se alegre, às vezes esse riso
   Não passa de um soluçar ermo.

Vive-se num país de miséria e ebriedade,
Mas o vêem com pena, ou em fado, ou temor;
Nele habitei e passei a minha mocidade...
   Oh!  Esta terra é meu amor.

Trad: Raphael Soares

terça-feira, 12 de junho de 2012

Dickinson - I Died for Beauty (poema 449)

449 (Numeração de Johnson) - Emily Dickinson

I died for Beauty — but was scarce
Adjusted in the Tomb
When One who died for Truth, was lain
In an adjoining room —

He questioned softly "Why I failed"?
"For Beauty", I replied —
"And I — for Truth — Themself are One —
We Brethren, are", He said —

And so, as Kinsmen, met a Night —
We talked between the Rooms —
Until the Moss had reached our lips —
And covered up — our names —



449 (Numeração de Johnson) - Emily Dickinson

Morri pela Beleza — e nem
Me acomodei na Tumba
Quando Outro, morto por verdade
Em outra sala ficou —

Perguntou-me “Por que partiste”?
“Por Beleza”, eu lhe disse —
“E eu — por Verdade — dá no Mesmo —
Somos Irmãos”, me disse —

Então, pela noite — conversamos
Nós, entre os salões —
Até o limo nos encontrar —
E cobrir — nossos nomes —

Trad: Raphael Soares

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Herman Melville Poeta (An Epitaph)

Fui consultar o blog nãogostodeplágio, minha leitura blogística de cabeceira, e vim descobrir que Herman Melville - sim, o que escreveu Moby Dick - escreveu poesia, além de longas narrativas navais.

Conheço Melville só mesmo pela estória da baleiona, e ainda a li na versão espúria da Claret editora. Desnecessário dizer que odiei o livro, e fiquei muito surpreso de descobrir que o cara é poeta também. Descobri que escreveu um livro de poesias bélicas chamada "Battle-Pieces and Aspects of the War", e resolvi lê-lo. Parece que ninguém até hoje se atreveu a traduzir poesias de Melville, e não sem muita justiça. A poética dele é maçante (se Denise do nãogostodeplágio ler esse meu comentário vai discordar, sem dúvidas), e seu estilo me parece fraco, bem como a sonoridade meio afetada. Mas encontrei, dentro de um poema (The Eagle of the Blue) uns versos que me chamaram o interesse:

Aloft he guards the starry folds
  Who is the brother of the star;
The bird whose joy is in the wind
  Exultleth in the war.


No painted plume—a sober hue,
  His beauty is his power;
That eager calm of gaze intent
  Foresees the Sibyl's hour.


Que verti como:

Aquele que é o irmão da estrela
  Nos céus guarda o que é estrelado;
A ave cuja a alegria está
  No ar e em bélico fado.

Sem pluma falsa - um sóbrio tom,
  Beleza a força instila;
O seu olhar calmo e vidente
  Prevê a hora da sibila.


Desnecessário dizer (hoje estou para coisas desnecessárias) que a tradução não vale os versos, já que foi meio improvisada para esse post. No entanto, apesar de interessante, o poema não consegue manter essa beleza inicial, e fica um tanto artificial, o que não é propriamente uma desvantagem. O que importa é que não me deu a menor vontade de traduzir o poema todo. Quem sabe alguem não se habilita?

As outras poesias me desagradaram bastante. Não sei se posso recriminar a falta de tradução dos versos de Melville, já que acredito que a literatura nacional não ganharia muito com ela, no entanto, acho que todos deveriam ter o direito de ao menos conhecer. Quem sabe no futuro não temos uma antologia de poetas americanos com poesias de Melville? Ou quem sabe não teremos um livro de poesia deles aqui?

Li alguma coisa sobre o Melville poeta, e ao que parece, a critica prefere seus grandes poemas. Não tive saco de ler seu épico Clarel, que é imenso. Do livro Battle-Pieces, uma das maiores poesias não me impressionou nem um pouco, apesar de que, nesse caso, vejo algumas qualidades que não vi em outras poesias menores do livro. Muito interessante é, sobretudo estruturalmente, e é um dos poemas mais "Modernos" (como essa palavra perdeu o significado esses anos) do livro. Tematicamente também não deixa a desejar, apesar de ser quase que circustancial. Há momentos interessantes, como:

For lists of killed and wounded, see
The morrow's dispatch: to-day 'tis victory.

The man who read this to the crowd
  Shouted as the end he gained;
  And though the unflagging tempest rained,
    They answered him aloud.


Que tentei verter, sem sucesso, para:

Para ler dos mortos e feridos as histórias,
Confira o jornal de amanhã: hoje é vitória.

O homem que o lê à multidão
 Gritou sucesso ao fim;
 Choveu muito, mas ainda assim,
  Respondeu-lhe a multidão.


É muito difícil traduzir poesia quando não se identifica com o poeta e o poema, e ainda mais se traduzindo apressadamente, só para postar no blog. De qualquer modo, é ao menos um passo para alguem criticar e tentar fazer melhor.

Como não queria fazer um post inútil, vou postar aqui uma tradução de ao menos um poema completo, feito por mim. Esse poema é o mais curto do livro, mas é também o que talvez seja mais bem construído, ao meu ver. O poema narra em 8 linhas a fé de uma viuva de soldado, que ainda tem fé, após receber a notícia fúnebre. A tradução sofreu inúmeras perdas por diversos motivos. O metro um tanto adverso não favoreceu a tradução, e a riquesa monossílabica do inglês irrita qualquer tradutor. Perdi o "priest and people" vezes, simplificando-os para todos. Em geral pude seguir mais ou menos a ultraliteralidade que me é característica, mas tive de parafrasear muito o "(summering sweerly here,/In shade by waving beeches lent)". Houve algumas mudanças estruturais, como no antepenúltimo verso. Chega de blá-blá-blá, vamos ao poema:

An Epitaph - Herman Melville

When Sunday tidings from the front
  Made pale the priest and people,
And heavily the blessing went,
  And bells were dumb in the steeple;
The Soldier's widow (summering sweerly here,
  In shade by waving beeches lent)
  Felt deep at heart her faith content,
And priest and people borrowed of her cheer.



Um Epitáfio - Herman Melville

Chegam as novas do domingo
  Que empalidecem a todos,
Dura a benção é,
  E os sinos ficam mudos;
A viuva do soldado (em certo dia
  Quente, em sombra, abanando seu libré)
  Vi que era profunda sua fé
E todos tomavam sua alegria.

Trad: Raphael Soares

Gostaria de pedir desculpas pela má tradução, outra vez, mas se até Péricles Eugênio, Augusto de Campos e Ivo Barroso, que são meus deuses vivos na arte tradutória de poesia (PE nem tão vivo assim) já erraram ou fizeram algo infeliz em questão de tradução, posso me permitir esse luxo de vez em quando.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Das Ständchen - Ludwig Uhland

Hoje posto a tradução de um poeta alemão de uma subdivisão do romantismo alemão: o grupo dos suábios. Uhland é mais conhecido por suas baladas (várias musicadas por Loewe, por exemplo) e pelo poema Der gute Kamerad, um dos hinos das forças armadas da alemanha. Esse poema não é inédito em língua portuguesa, e, para falar a verdade, o li primeiramente em português. O poema é de uma simplicidade adorável, porém não é, como o resto da obra do autor, absolutamente genial ou incrível. O texto em alemão usado para a tradução foi tirado da Antologia organizada por Geir Campos, mas procurei traduzir sem olhar a tradução anterior, sob alguns aspectos questionável. Segue a poesia.


Das Ständchen - Ludwig Uhland

Was wecken aus dem Schlummer mich
  für süße Klänge doch?
O Mutter, sieh, wer mag es sein
  in später Stunde noch.

„Ich höre nichts, ich sehe nichts,
  o schlummre fort so lind!
Man bringt dir keine Ständchen jetzt,
  du armes krankes Kind."


Es ist nicht irdische Musik,
  was mich so freudig macht,
mich rufen Engel mit Gesang,
  o Mutter, gute Nacht.

A Serenata – Ludwig Uhland

O que acorda-me da soneca
  Para esses sons ouvir?
Mãe, vê! Quem ainda pode ser
  E em tardas horas vir?

„Não ouço nada, nada vejo.
  O sono foi-se embora!
Serenata alguma a ti trazem,
  Criança enferma, agora!”


Não é a música mortal,
  Que faz-se com açoite:
Os anjos chamam-me cantando.
  Oh, mamãe, boa noite!

Trad: Raphael Soares

domingo, 29 de abril de 2012

When Man Enters Woman - Anne Sexton

Mais uma poesia da minha poeta lunática favorita: Anne sexton.

When Man Enters Woman - Anne Sexton
When man
enters woman,
like the surf biting the shore,
again and again,
and the woman opens her mouth in pleasure
and her teeth gleam
like the alphabet,
Logos appears milking a star,
and the man
inside of woman
ties a knot
so that they will
never again be separate
and the woman
climbs into a flower
and swallows its stem
and Logos appears
and unleashed their rivers.

This man,
this woman
with their double hunger,
have tried to reach through
the curtain of God
and briefly they have,
though God
in His perversity
unties the knot. 



Quando o homem penetra a mulher - Anne Sexton

Quando o homem,
penetra a mulher
como as ondas quebrando-se
e mordendo a costa,
outra vez, e outra vez,
e a mulher com prazer abre a boca
e seus dentes aclaram
como o alfabeto,
Logos surge ordenhando um astro,
e o homem
dentro da mulher
forma um nó,
então eles nunca
serão separados outra vez.
E a mulher
monta uma flor
e engole seu talo
e Logos surge
e libera seus rios.

Esse homem
e essa mulher
com fome dupla,
tentaram ultrapassar,
e por um tempo conseguiram,
as cortinas de Deus,
e é pela perversidade
d’Ele que
o nó se desfaz.

Trad: Raphael Soares

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Le Vin des amants - Charles Baudelaire

Le Vin des amants - Charles Baudelaire

Aujourd'hui l'espace est splendide!
Sans mors, sans éperons, sans bride,
Partons à cheval sur le vin
Pour un ciel féerique et divin!

Comme deux anges que torture
Une implacable calenture
Dans le bleu cristal du matin
Suivons le mirage lointain!

Mollement balancés sur l'aile
Du tourbillon intelligent,
Dans un délire parallèle,

Ma soeur, côte à côte nageant,
Nous fuirons sans repos ni trêves
Vers le paradis de mes rêves!

O Vinho dos Amantes - Charles Baudelaire

O espaço é esplêndido agora!
Sem freio, ou brida ou espora,
Vamos cavalgar sobre o vinho
Para um céu feérico e divino!

Como dois anjos que tortura
Uma implacável calentura
Do azul da aurora, cristalino,
Indo à miragem no caminho.

Calma, balançando sobre a asa
Do turbilhão inteligente,
Em um delírio que os abraça,

Irmã, nadando concorrente,
E chegaremos sem demônios
Ao paraíso dos meus sonhos.

Trad: Raphael Soares

Tradução extremamente inspirada em outras traduções anteriores, como a de Ignácio de Souza, de Ivan Junqueira e Jamil Haddad.