terça-feira, 24 de abril de 2018

Poemas do Século XVIII

Hoje estou numa vibe meio século XVIII, então aqui vão 4 poemas (do Francês, Alemão, Inglês e Português), em tradução minha... exceto o poema português, claro... Traduções meio improvisadas, então não esperem muito...



L'amour laboureur - André Chénier

Nouveau cultivateur, armé d'un aiguillon,
L'Amour guide le soc et trace le sillon ;
Il presse sous le joug les taureaux qu'il enchaîne.
Son bras porte le grain qu'il sème dans la plaine.
Levant le front, il crie au monarque des dieux :
«Toi, mûris mes moissons, de peur que loin des cieux
Au joug d'Europe encor ma vengeance puissante
Ne te fasse courber ta tête mugissante.»



O Amor Trabalhador - André Chénier

Oh novo fazendeiro, armado de ferrão,
O amor guia a carroça e traça todo o chão;
E traça sobre o jugo os touros que acorrenta,
O grão pela planície o braço então aguenta.
Levanta a fronte e grita ao rei das divindades:
«Comerás do meu pasto, e lá na imensidade
Sob o jugo da Europa a vingança avultada
Não te faça dobrar tua cabeça curvada.»

Trad: Raphael Soares


An Cidli [Furcht der Geliebten] - Klopstock

Cidli, du weinest, und ich schlummre sicher,
Wo im Sande der Weg verzogen fortschleicht;
Auch wenn stille Nacht ihn umschattend decket,
Schlummr' ich ihn sicher.

Wo er sich endet, wo ein Strom das Meer wird,
Gleit' ich über den Strom, der sanfter aufschwillt;
Denn, der mich begleitet, der Gott gebots ihm!
Weine nicht, Cidli.


Cidli [Temor da Amada] - Klopstock

Cidli, choraste, e eu durmo em paz,
La em terras que estradas vão quebrar-se;
E mesmo a quieta noite as sombras cobrem,
Durmo eu em paz.

Onde se quebra, onde ondas são tormenta,
Deslizo na tormenta que gentil me engloba,
Pois ele me acompanha, Deus que a guia,
Não chores, Cidli.

Trad: Raphael Soares



When lovely woman stoops to folly - Oliver Goldsmith

When lovely woman stoops to folly,
And finds too late that men betray,
What charm can soothe her melancholy,
What art can wash her guilt away?

The only art her guilt to cover,
To hide her shame from every eye,
To give repentance to her lover
And wring his bosom, is—to die.



Quando uma moça curva-se à loucura - Oliver Goldsmith

Quando uma moça curva-se à loucura,
E tarde nota que os homens traem,
Melancolia se acha formosura?
Que artes culpa sua talvez varrem?

A sua unica arte é enganar,
Dos outros sua vergonha esconder,
E para o seu amado perdoar,
E comprimir seu seio - é morrer.

Trad: Raphael Soares



Soneto - Filinto Elíseo

Já vem a primavera, desfraldando
Pelos ares as roupas perfumadas,
E os rios vão, nas águas jaspeadas,
Os frondíferos troncos retratando;

Vão-se as neves dos montes debruçando
Em tortuosas serpes argentadas;
Pelas veigas, o gado, alcatifadas,
A esmeraldina felpa vai tosando.

Riem-se os céus, revestem-se as campinas;
E a natureza as melindrosas cores
Esmera na pintura das boninas.

Ah! Se assim como brotam novas flores,
Se remoça todo o orbe... das ruínas
Dos zelos renascessem meus amores!

sexta-feira, 16 de março de 2018

Os 6 primeiros versos de Astronomica, de Manilius

Imagem: Wikipedia

Um dia sem internet pode ser muito improdutivo ou bem produtivo, dependendo das circunstâncias... Depois de ficar desconectado do mundo um dia, fui ler um pouco, mas o livro que estava lendo era tão ruim que foi parar no meu "shitty bin", um grupo seleto de livros tão ruins, mas tão ruins que nem sequer fui capaz de concluir, por mais que tentasse... Aí fui fazer o que a maioria das pessoas normais entediadas não fazem, peguei minha gramática e dicionário de Latim, 3 edições de Manílio (Poetae Latini Minori, Housman e Goold) e comecei a tentar traduzir as primeiras linhas, afinal, por que não?

Por que Manílio? A pergunta aqui talvez seja difícil de responder... Talvez a morte recente do astrofísico Stephen Hawkins, comentada por todos, de modo que poderia fazer uma homenagem às raízes da busca pela verdade no espaço, na pretenciosa astrologia grega... Talvez pelo meu apreço ao poeta Housman (que nunca postei aqui, mas tenho 3 poemas dele publicados no meu livro, que vocês podem comprar aqui), editor de Manílio, dois poetas que tem muito a nos dizer sobre os "poetas menores"... Talvez porque o Matheus do blog Formas Fixas (que acompanho sempre) tem postado muito sobre os clássicos e não quero ficar atrás... Talvez simplesmente porque minha rotina é um caos e traduzo e leio as coisas quase que aleatoriamente... Por alguma razão, todas essas explicações parecem ser a nossa tentativa humana fútil de tentar dar razão para as coisas que não tem o menor sentido, e nisso talvez a obra de Manílio seja instrutiva, se eu fosse capaz de lê-la...

E aí vem a explicação fácil, que é porque (só) os 5 primeiros versos: a única coisa que eu tenho em comum com Shakespeare é que somos dotados de "small Latin and less Greek"... Desde que conheci o trabalho de Housman como Scholar, tive interesse na obra de Manílio, para compreender o que havia dentro do poeta latino que fez com que o inglês dedicasse mais de três décadas de árduo e ingrato trabalho de edição, ao invés de trabalhar num poeta mais congenial como Tíbulo ou Propércio... Mas alas, não tenho latim o bastante para ler e estudar Manílio dessa forma... Então permaneço sem saber completamente o que levou Housman e o igualmente brilhante (e arrogante) Bentley a gastar tanto esforço nessa obra, considerando que nenhum dos dois considerava-a de relevante qualidade literária...

A Astronomica é um poema didático sobre a astrologia clássica. Nele o poeta pretende apresentar o conhecimento dos astros e como ele influencia no destino humano, trata dos signos e explica a natureza do universo, que na época se pensava ser composto de basicamente duas esferas: o mundo (terra) e o firmamento, como na imagem... ou era algo assim, tirando a parte dos anjinhos e tudo... Os primeiros seis versos são típicos da poesia latina, o poeta apresenta o seu tema. O que é interessante desse tipo de apresentação é que os latinos pagãos (assim como os modernos) fazem questão de parecerem os "diferentões", afirmando ao apresentar em verso um tema que nunca foi exposto em verso antes (em oposição aos poetas cristãos de língua latina, que tem postura diferente em relação a arte e a criatividade, mas isso é para outro texto, provavelmente de outra pessoa). Manílo também tinha a absoluta convicção de que com a sua arte ele se imortalizaria, pois sobreviveria ao tempo com sua obra fantástica e inovadora... A grande ironia daqui é que malmente o poeta sobreviveu a idade média, mal foi conhecido e citado pelos sucessores, não é lido por quase ninguém mesmo hoje, parte da obra foi completamente perdida e os poucos que estudaram sua obra (em geral, classicistas frustrados, com 3 ou 4 exceções) chegaram a conclusão de que ele não é muito bom...

Há alguma lição a se tirar disso...

em algum lugar...

Por fim, para quem puder e ler inglês, recomendo a introdução de Housman à obra, que dá um bom apanhado do poeta, da tradição textual e recepção da obra... Embora seja um texto de estudioso para estudiosos (cheio de marcas, frases latinas, relações de manuscritos e variantes e tudo mais), a introdução é surpreendentemente hilária... Housman era foda... Não consigo deixar de, perversamente, imaginar o poeta inglês vivo nessa nossa era do Twitter, no momento de redescoberta dos clássicos, e sempre imagino ele trocando xingamentos com o professor Guilherme a respeito da edição de Propércio (esta aqui) no Facebook... We miss you, Mr. Housman...

Ah, a introdução do Housman vocês podem ler aqui, junto do texto completo do livro um, cujos primeiros versos são idênticos ao que eu uso aqui (Goold).

Fonte: Wikipédia

Astronomica: Liber I, 1-6 - Marcus Manilius

Carmine divinas artes et conscia fati
sidera diversos hominum variantia casus,
caelestis rationis opus, deducere mundo
aggredior primusque novis Helicona movere
cantibus et viridi mutantis vertice silvas
hospita sacra ferens nulli memorata priorum.


Aqui uma foto de Housman, porque não temos de Manílio e essa postagem quase virou sobre o inglês... Fonte: Wikipédia

Astronômica: Livro I, 1-6 - Marco Manílio

Canções, por diva mágica e ciente do destino,
Astros, diversifica os mais que humanos causos,
Da razão celeste obras; e extrair do mundo,
Ser o primeiro a vir com de Hélicon tais cantos
E as verdes matas, é o que desejo, esta
Estranha oferenda, outrora nunca vista.

Tradução: Raphael Soares

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Um Soneto Português de Elizabeth Barrett Browning - Parte 1: Recepção, Vida e Obra

Elizabeth Barrett Browning, aproximadamente 9 anos, pastel de Charles Hayter. Todas as imagens da página foram tiradas da Browning's Correspondence

Deus sabe que eu não queria escrever um texto sobre Elizabeth Barrett Browning. But... alas!, certamente alguém precisava. A poetisa precisava de um texto por inúmeras razões, que variam desde a parca recepção crítica (majoritariamente errônea) que a escritora recebeu nos dois lados do Atlântico até a enorme importância da escritora como ao lado dos grandes poetas do século XIX,  principalmente por ser o primeiro autor do sexo feminino a pertencer inequivocamente ao cânone literário inglês, e portanto, uma avó para todas as escritoras da língua. Como essa postagem será um pouco mais que mera tradução e comentário, vou dividi-la em três partes: 1. Recepção, vida e obra; 2. Os Sonetos e o relacionamento entre os dois Brownings; 3. Minha leitura e tradução do soneto XVIII. No fim apresento as referências e toda a minha bibliografia, que está em língua inglesa; assim todas as passagens citadas foram traduzidas apressadamente por mim.


Elizabeth, aproximadamente 22 anos, rascunho à lápis pela irmã da poetisa, Henrietta Moulton-Barrett

1. Recepção, Vida e Obra

Falar de Elizabeth (doravante chamada Belinha) é uma tarefa extremamente difícil, não apenas pelo que a escritora e sua obra são de fato, mas pelo que ela representa e pelo modo como sua vida e obra plasmaram-se no imaginário inglês. Marjorie Stone, uma das mais importantes vozes críticas da poetisa na atualidade, resume parte do problema:
Assim como é, às vezes, difícil abordar Shakespeare porque ele é uma instituição, é difícil abordar Barrett Browning porque ela é uma lenda. A história romântica de sua fuga e casamento tornou-se de tal maneira parte de nossa cultura, que nós acabamos por colaborar com ela contra nossa vontade, assim como somos cúmplices das forças ideológicas que alimentamos há mais de um século. (STONE, 1995)
Então, a primeira coisa a se falar é o estado curioso da recepção da escritora. Uma coisa para a qual sempre chamei atenção, nos anos em que estudei Robert Browning em Curitiba, é o modo como a crítica moderna tende a ignorar quase completamente a obra da Belinha em detrimento da do marido (doravante chamado Bob). A primeira reação é quase que universalmente de espanto, tendo em vista que o senso comum sugere que a Belinha é muito mais conhecida que o Bob. Aqui a questão se divide em outras duas, a primeira é o quão mais e em qual sentido ela é mais famosa que ele, e a segunda qual a natureza da valorização que a poesia dela tem nos diferentes meios “como poesia”. Em primeiro lugar, embora ela de fato seja “famosa” e provavelmente “mais famosa” que o Bob, sua fama gira mais em torno dos mitos de sua biografia e casamento perfeito (há, inclusive, mais biografias do “Casamento” que da “Vida” da poetisa) do que de sua qualidade como escritora. Embora uma parcela de sua obra seja parte do patrimônio cultural comum inglês como a frase mil vezes repetida “How do I love thee”, do Soneto 43 dos Sonnets from the Portuguese — seus versos são sempre associados à figura de Belinha e seu casamento “ideal”! (Ok, o “less is more” do Robert Browning é ainda mais repetido, e no mundo todo, mas poucas pessoas sequer sabem que foi ele quem inventou a expressão!). Além disso, podemos assumir que os versos são conhecidos e repetidos por milhares de pessoas do mundo inglês que sequer leram um único poema ou livro inteiro dela. A situação já era assim pelo menos desde os anos 30, pois já notava Virgínia Woolf que:
Por uma dessas ironias da moda que teriam incomodado os próprios Brownings, parece que eles são bem mais conhecidos na carne que jamais foram em espírito. Amantes apaixonados, em cachos e suíças, oprimidos, desafiadores, fujões — dessa forma milhares de pessoas que nunca leram uma linha da poesia dos Brownings devem amá-los e conhecê-los. Eles se tornaram duas das figuras mais notáveis daquela brilhante e animada companhia de autores que, graças ao nosso hábito moderno de escrever memórias e imprimir cartas, de sermos fotografados sentados, vivem na carne, não meramente no sentido clássico da palavra: são conhecidos por seus chapéus, não pelos seus poemas. "Lady Geraldine's Courtship" é visto de relance por dois professores em universidades americanas, talvez, uma vez no ano, mas todos nós conhecemos a Sra. Barrett deitada em seu sofá, ou como ela conheceu saúde e felicidade, liberdade, e Robert Browning, na Igreja bem na esquina.
Mas o destino não foi gentil com a Sra. Browning como escritora. Ninguém a lê, ninguém discute sobre ela, ninguém se preocupa em colocá-la em seu lugar. (WOOLF, 1832)
O lugar da Belinha, claro, já foi dito no início do texto: um dos maiores escritores do século XIX e a primeira inequivocamente gigantesca figura feminina da literatura inglesa, considerando simples e sinceramente a sua obra. Os Sonnets from the Portuguese, ironicamente, contribuem significativamente para a grande popularidade da “Vida” da escritoras e péssima recepção de sua “Obra”, seja pela carência de leitores seja pelo desprezo da crítica especializada, embora eu deva mencionar a recepção dos Sonnets mais adiante.

Após a primeira constatação, a de que os poemas da Belinha não são lidos, torna-se fácil compreender como e o quão valorizada é a literatura de Elizabeth Browning: não é! A afirmação pode parecer um tanto forte porém se não é uma verdade simples (de fato, ela tem alguns leitores competentes, e de tempos em tempos aspectos de sua obra voltam a serem discutidos), é algo próximo da verdade. Comparativamente falando, ela é a única dos grandes vitorianos (Browning, Tennyson, os Rossettis, Meredith, Hopkins) a não ter uma edição crítica da sua obra poética completa. (Ok, Arnold também não, mas tem uma edição belíssima da Oxford abarcando a maior parte de sua obra). Comparando com o a atenção dada ao marido, parece ainda menor a atenção que os editores dedicaram a elas (4 edições críticas da obra completa e várias edições de antologias comparados a... bem... nenhuma!). A obra mais "famosa" da escritora, os já mencionados Sonnets from the Portuguese,  nunca teve uma edição crítica, embora  graças a W. S. Peterson existe uma edição baseada no manuscrito da British Library e as únicas obras dela que ganharam uma edição textualmente confiável e amplamente anotada foram Casa Guidi Windows, editado por Julia Markus em 1977, e Aurora Leigh, editado por Cora Kaplan em 1978, edições decorrentes do interesse da crítica feminista (consequentemente, mais por razões de gênero do que literárias propriamente ditas) e os livros nunca foram reeditados desde então. Consultando obras de referência de história literária inglesa em português vemos que tanto Carpeaux (2008) quanto Milton e Correia (2009) tratam a escritora meramente como um apêndice à poesia "maior" do Bob, e em pouco mais de um parágrafo resumem a autora de modo indiferente. Um leitor descuidado pode imaginar que no mundo inglês isso seja um pouco diferente, mas asseguro que não. David Daiches, por exemplo, em seu A Critical History of English Literature diz:
Elizabeth Barrett Browning (1806-61) é conhecida hoje principalmente pelas circunstâncias românticas de seu casamento com Robert Browning, mas em vida ela foi o mais famoso poeta dos dois. A poesia dela não tem nada da precisão verbal e força da do marido; é altamente emocional, às vezes apresenta tom embaraçosamente pessoal, e se sustenta em imagens poéticas e dicção convencionais. (DAICHES, 1997)
e posso garantir aos meus leitores que isso é a coisa mais simpática que o crítico tem a dizer sobre a escritora, no único parágrafo que dedica a ela num livro de mais de mil páginas.

Se o fato de a poesia da escritora, mundialmente famosa na "carne" (tomando as palavras de Virgínia Woolf), ser amplamente e francamente ignorada no mundo inglês costuma ser surpreendente para a maioria dos brasileiros, as razões parecem ainda mais misteriosas. Aqui, se me permitem, parto para a mera especulação. Alguns críticos atribuem essa falta de consideração principalmente à misoginia da crítica literária, e embora eu até possa admitir que há a possibilidade desse fator entrar na equação, não acredito que seja a causa ou uma das causas principais. Há três razões fortes para o desapreço que se tem pela obra da Belinha, a meu ver: 1. A popularidade que a escritora gozava na era vitoriana: "se os vitorianos gostavam não presta!" (o mesmo, por exemplo, acontece com parte da crítica que trata de Tennyson: ver por exemplo o tratamento ainda mais agressivo que Carpeaux dá ao poeta); 2. A popularidade massiva de uma obra que mesmo não sendo, ao meu ver e na visão da maioria dos críticos, uma grande obra literária, tem a peculiaridade de ser admirada pelos motivos errados; 3. A comparação quase injusta, mas sempre tentadora, que se faz da poesia dela com a do marido. Mais importante é falar, contudo, porque NÃO devemos ignorar a escritora e lê-la como mero apêndice na vida do Bob. Pode-se argumentar que a Belinha foi a mais influente e importante escritora inglesa do século XIX, exercendo influência direta e significativa em Poe e Emerson (e daí, indiretamente, também em Baudelaire) nos Estados Unidos, em Pessoa em Portugal, em Du Bos e Gide na França, além de virtualmente ter influenciado toda a escrita feminina de língua inglesa, o que, por exemplo, explica a presença massiva, nesta escrita, do léxico corporal, subjetividade marcante, acentuada consciência quanto ao "status público e privado" da "condição" feminina que marcam toda a literatura inglesa feita por mulheres. Por fim, uma abordagem honesta da obra da escritora nos revela que, embora a obra da Belinha seja extremamente desigual (o que é bem comum nos poetas britânicos, para começo de conversa), há momentos de verdadeira grandeza em toda sua obra: dos poemas longos juvenis (particularmente An Essay on Mind, a despeito do caráter epigônico) aos maduros (Casa Guidi Windows e Aurora Leigh), assim como os poemas curtos espalhados por sua obra, entre os quais posso mencionar ao leitor mais curioso "The Soul's Expression", "Insuficiency", "The Runaway Slave at Pilgrim's Point", "The Gift", "A Musical Instrument" e "Bianca Among the Nightingales", apenas para ficar com as peças interessantes que consigo lembrar de cabeça, e que em nada se encaixam no usual comentário depreciativo de uma linha que frequentemente surge nas histórias literárias. A Belinha é uma grande poetisa inglesa e deve ser lida como tal.

Apesar de tudo, precisamos conhecer a vida da escritora e lê-la com bastante cuidado e atenção, tanto para compreender o desenvolvimento artístico da Belinha, como para compreender o aspecto mais pessoal da sua obra, que inclui o Sonnets from the Portuguese. Em linhas gerais, a "história" da vida e casamento da Belinha são tão consolidadas no imaginário, que é um trabalho bastante árduo lidar com ela fora de toda concepção mítica da "Andrômeda de Wimpole Street". Em resposta a esse mito popular surgiu um contra-mito que foi basicamente incentivado pelos críticos e biógrafos do Bob que não gostavam da esposa do poeta (e, desse modo, pressupunham que o poeta também não devia gostar) e não toleravam a ideia de um "happy ending"; armados de Freud, começaram a atacar tudo o que conhecemos a respeito dos poetas e simplesmente virar ao avesso a biografia do casal. Independentemente da influência que alguns defensores dessa "revisão biográfica" tiveram, essa segunda tese nunca foi popular em nenhuma esfera da crítica. Talvez eu fale mais sobre isso na próxima seção, talvez não, até porque, honestamente, não é algo que mereça ser falado extensivamente, apenas apontado. No fim, como notou Julia Markus
As cartas confirmam que o único mito sobre os Brownings que é absolutamente verdade é o mais romântico—o drama do cortejo. Robert Browning se apaixonou por uma poetisa inválida, escreveu para ela, a visitou. O amor deles a retirou do sofá do qual ela quase nunca saiu, descendo as escadas da casa de Wimpole Street, para a sala de estar, para a caminhada no parque e depois para a Itália—um clima que iria beneficiar suas artes e a sua saúde. [...] Os cínicos [que desacreditam do amor entre os poetas] podem poupar a si mesmo o trabalho. Não há sombra o bastante na situação dos poetas além da clara luz do amor deles. (MARKUS, 1995)
Por outro lado, muitos aspectos do próprio mito ou da ideia popular a respeito dos poetas não passa de... mito. O primeiro deles decorre da própria estrutura mítica: se Bob é o herói que salva a Belinha, a donzela indefesa, os dois precisam de um vilão, e o personagem que foi escolhido para ser o vilão foi Edward Barrett, o pai da dama.

Por mais que eu tente, não consigo deixar de sentir grande curiosidade pela figura de Edward Barrett (assim como tenho grande curiosidade por Robert Browning, o pai do Bob, mas não é meu assunto de hoje). Ao que parece, todos os biógrafos sérios da Belinha e do casamento dela tem a mesma curiosidade, embora a ideia popular do monstro vilanesco permaneça em todas as esferas da crítica, simplesmente por ser a mais fácil, mas por outro lado também é a mais enganosa. Eu já li muita coisa escrita sobre Edward Barrett em português, e até onde sei a grande maioria (se não tudo o que foi escrito) já introduz uma informação que é potencialmente enganosa, que é a de que o pai da Belinha a proibia de casar, ou, de modo mais desenvolvido e ainda mais enganoso, que proibia suas filhas de casar. Daí vem as explicações quanto às razões, e alguns, como Vizioli, armados pela lógica pressupõem que proibia Elizabeth de casar porque ela era doente. Outros, armados com ainda mais Freud, pressupõe que proibia as filhas de casar por algum nefasto desejo incestuoso, e essa última é a versão mais popular, ou pelo menos é o que a famosa peça do Besier sugere.

O fato é que Edward não proibia só Elizabeth de casar, ou proibia todas as filhas, mas proibia todos os filhos, homens ou mulheres de casar, e esse fato é importante frisar, não apenas porque torna o pai da Belinha um homem incomum (pais que proibiam as filhas de casar não eram incomuns na era vitoriana, mas que os proibiam os homens também o seriam?) como todas as justificativas comuns para a proibição parecem se desintegrar frente ao fato em si. Para o patriarca dos Barretts todos os filhos deveriam viver sob seu teto, jamais ter um filho legítimo carregado ao seio da família (embora possamos presumir que ele não tinha nada contra filhos ilegítimos... mas nunca saberemos) e jamais casariam, e essas eram as leis básicas que ele impôs. Os três filhos que desobedeceram (Elizabeth, Henrietta e Alfred) essa lei simples foram não apenas deserdados, mas nunca mais tiveram qualquer contato, pessoal ou por escrito, com o pai enquanto viveu: para Edward Barrett estavam mortos. As razões para essa única e imutável lei? Ninguém sabe ao certo, e aqui só restam especulações. Isso, entre outras coisas, prova que há uma única coisa a respeito do mito Edward que também é verdadeira: Edward Barrett era de fato um tirano, se resumirmos o sentido da palavra ao homem que tem a família inteira sob a ordem de sua palavra, uma palavra que é lei inquebrável e que é só uma, não voltando atrás jamais. Agora, há tiranos e tiranos, e há também milhares de anedotas espalhadas por aí "provando" que Edward era um monstro inimaginável. Até onde pude coligir todas elas são objetivamente falsas (a história que Edward teria matado Flush, o cachorro da Belinha, após o casamento dela, por exemplo, é incompatível com o fato de que Flush morreu de velhice, aos 13 anos, em Florença, em junho de 1854), e é mais fácil encontrar anedotas verdadeiras que mostram que ele, no fim das contas, era um tirano amável ou bem humorado (como a que afirma que ele cuidou de uma ex-escrava com problemas mentais até a morte dela, ou a de que ele referia-se a Browning [sim, ele sabia dos encontros entre os dois] como o "poeta das romãs"... as duas são verdade). O que importa mesmo saber, para um estudo da biografia da Belinha é que ela não só considerava-o um bom pai (a despeito de sua Lei) como a própria proibição única que Edward impunha nunca lhe causou tanta aflição como aos irmãos, uma vez que ela, diferente deles, tinha uma herança (e por isso, fonte de renda) própria e também porque Elizabeth, extremamente doente desde a juventude, nunca sequer cogitou a hipótese de casar. Aliás, é notável saber que a Belinha era profundamente contra a instituição do matrimônio.

Elizabeth então nasceu no dia 6 de Março de 1806, filha do casal Edward e Mary, que tiveram ainda mais 12 filhos. Belinha foi uma das primeiras da família, em algumas gerações, a nascer na Inglaterra e a primeira a levar o nome Barrett Moulton-Barrett (nome esse que ela nunca usou para assinar suas obras). A família possuía negócios antigos na Jamaica, e, embora todos da família possuíssem objeções morais contra a escravidão, todo o patrimônio dos Barretts foi construído sobre o trabalho escravo. Belinha foi uma pessoa prodigiosa, tendo a melhor educação que uma menina poderia ter na sociedade vitoriana, aprendendo diversas línguas clássicas e modernas desde a juventude e lendo muito, com apoio da família. Demonstrou talento literário desde muito cedo, e graças à mãe é provavelmente um dos poetas ingleses com a juvenília mais extensa que foi preservada. Aos treze anos publicou seu primeiro livro The Battle of Marathon (epigônico, mas francamente melhor que qualquer coisa que o marido escreveu antes dos 24), graças ao apoio do pai; obra que foi distribuída entre a família e lhe rendeu o título informal de "Poeta Laureado de Hope End". A infância perfeitamente alegre (eu mencionei que ela tinha um pônei? um pônei!!!) de uma menina promissora teve de acabar por uma série de fatores: a doença que viria a se provar incurável nos anos 20 (quando ela começou a se viciar em morfina), a morte da mãe em 1828, da avó em 1829 e, mais adiante, a morte do irmão, que era seu maior amigo, em 1840 (no mesmo ano em que outro irmão morreu), a mais dura das perdas para Elizabeth. Durante esse período publicou sua primeira coleção, ainda muito imatura, An Essay on Mind, with Other Poems, em 1826, uma tradução de Prometeu Acorrentado, em 1833, e em seguida Seraphin and Other Poems, em 1838, obra que encerra a juvenília da escritora.

Os anos após a morte do irmão, em 1840 foram extremamente complicados para a escritora, pois o sentimento de culpa quase a levou à loucura. Alguns biógrafos supõem até que, não fosse por Flush, um spaniel que ganhou de presente da escritora Mary Mitford, ela teria ficado completamente biruta ou se matado. Não sei nada sobre isso. O que sei é que, a despeito da depressão e constante isolamento da Belinha, os anos entre 1841 e 1844 foram os mais produtivos para a escritora, tendo sido nesse período que ela escreveu a maior parte dos poemas publicados em 1844 e que começou a se corresponder com inúmeros intelectuais ingleses. Em 1842 (o ano que marca a literatura vitoriana, com a publicação dos dois livros-marcos do período, de Tennyson e Browning), John Kenyon, uma das únicas pessoas fora do círculo familiar dos Barretts que via a Belinha pessoalmente e tinha acesso ao quarto dela, sugeriu que a escritora contatasse o poeta Robert Browning, podendo ele próprio servir de intermediário, oferta recusada por ela, mas que serve de apresentação à obra de seu futuro marido. Em 1844 auxilia Richard Hengist Horne na série de ensaios A New Spirit of the Age, que trata de poetas contemporâneos, a partir da qual consegue um retrato de Browning e Tennyson que pendura em seu quarto ao lado do de Wordsworth. No mesmo ano publica Poems, de 1844, em dois volumes, obra que lhe renderá fama internacional e consolidará o lugar da escritora entre os maiores de seu tempo.

Em 1844, um jovem poeta, Robert Browning lê seu livro e, surpreso, descobre num poema dessa escritora consagrada ("Lady Geraldine's Courtship", que aliás, também influenciou o metro de The Raven, do Poe) uma referência à sua própria obra, nos versos "Or from Browning some 'Pomegranate,' which, if cut deep down the middle,/Shows a heart within blood-tinctured, of a veined humanity". A partir da sugestão de Kenyon (o mesmo Kenyon que, dois anos antes, tentou apresentar o poeta para a Belinha) Bob iniciou, no ano seguinte, a correspondência que culminaria no casamento mais famoso da história literária da Inglaterra. Durante os dois anos que os poetas trocaram cartas Bob escreveu e publicou bastante (bem como desistiu de escrever para o teatro), enquanto a Belinha escreveu apenas os Sonnets from the Portuguese, originalmente sem pretensões de publicar. Depois de muita relutância, tendo de literalmente escolher entre o casamento  (um destino incerto em terras estrangeiras) e a morte certa no inverno londrino de 1847, os Brownings se casam em segredo e na semana seguinte partem para a Itália, onde o clima mais brando e o menor custo de vida comporiam o melhor lugar possível para viverem. Especifico mais detalhes na parte seguinte, ou não. Como já mencionado, Belinha foi deserdada e rejeitada pelo pai, nunca mais tendo contato com ele. Elizabeth escreveu várias cartas ao pai e, anos depois, as recebeu de volta, por intermédio do marido. Os poetas passam a viver em Florença em abril de 1847. Em 20 de julho passam a morar na Casa Guidi onde a escritora vê a passeata dos florentinos no mesmo ano e que inspirará o poema Casa Guidi Windows, uma das melhores obras da escritora.

Entre a chegada em Florença, em 1847, e o nascimento do único filho, Robert Browning, doravante chamado "Pen" (que, acreditem ou não, é abreviação de Wiedemann... do mesmo jeito que "Ba" é abreviação de Elizabeth), em 1849, as únicas coisas biograficamente relevantes para um comentário curto como este foram os quatro abortos que antecederam o nascimento do Pen e o fato de que, na Itália, Belinha finalmente pode conhecer inúmeras personalidades pessoalmente, e não apenas por cartas. Em muitos lugares há a informação de que a Belinha publicou, em 1847, uma edição particular dos Sonnets from the Portuguese, mas essa edição é uma falsificação tardia. Os Sonnets foram apresentados para o Bob em 1849 (antes dessa data toda a coleção era um segredo da Belinha), logo depois do nascimento de Pen e da morte de Sarah Anna (mãe do poeta) nove dias depois, para ser mais exato. Os poemas de Elizabeth, serviram para aliviar a dor da perda e, devido à insistência do Bob, foram publicados em 1850, na coleção intitulada Poems, que incluía os poemas publicados em 1844 e uma série de novos poemas, incluindo os novos sonetos.

Os anos seguintes foram prolíficos para a autora. Publica Casa Guidi Windows, em 1851, poema que merece destaque porque, na minha opinião, é a melhor e mais forte de suas obras. Uma terceira e quarta edições de Poems saíram em 1853 e 1856 respectivamente. Em 1856 Belinha publicou Aurora Leigh, considerado por virtualmente todos os outros críticos exceto eu (que, como já disse, prefiro Casa Guidi Windows) a melhor e mais ambiciosa obra da escritora. Aparentemente a própria poetisa pensava desse modo, pois chamava Aurora Leigh de "a mais madura das minhas obras"; o poema foi publicado com uma dedicatória a Kenyon (aquele mesmo), que em diversas ocasiões ajudou o casal após o matrimônio, e viria a falecer mais tarde no mesmo ano, deixando uma herança de £11.000 libras para os poetas (dividida da seguinte forma: £4.500 para a Belinha, 6.500 para o Bob), com rendimento de £700 anuais, garantindo aos dois segurança financeira. Em 1860 a escritora lança sua última coleção de poemas, com o título Poems Before Congress. Elizabeth Barrett falece na véspera do meu aniversário, em 29 de Junho de 1861, nos braços de Robert Browning, que ouviu suas últimas palavras. O funeral da Belinha foi extremamente movimentado, memoriais em sua homenagem foram erguidos e ela ficou conhecida como a poetisa do Risorgimento. O governo florentino ofereceu uma pensão para Bob, para criar e educar o filho em Florença, mas o poeta recusou. Bob cortou o cabelo do Pen e partiu o mais rápido que pode para a Inglaterra. De resto pouca coisa interessa para uma introdução biográfica da Belinha. Após 1861 a popularidade da poetisa começou a decair e, inversamente, o marido começou a tornar-se um poeta popular, fato inédito até então. Bob se encarregou de publicar Last Poems (1862), The Greek Christian Poets and the English Poets (ensaios, 1863) e uma importante antologia da obra da Belinha, em 1872. Como era de se esperar, Browning nunca permitiu a publicação de biografias ou das cartas, dele ou da esposa, enquanto viveu, com uma única exceção: as cartas dela para Richard Hengist Horne, e apenas as que envolviam assuntos estritamente literários, com o intuito de ajudar financeiramente a família do amigo comum, que passava por dificuldades financeiras. O poeta tinha grande receio que sua correspondência pessoal fosse publicada, mas na impossibilidade moral de destruir as cartas que escreveu para a esposa e, principalmente, as cartas que ela lhe escreveu, deixou a responsabilidade da decisão para o filho, que prontamente as publicou 10 anos após a morte do pai. A coleção completa encontra-se hoje na Wellesley College Library, e está disponível em na internet em todos os formatos imagináveis.



Atualização de 28/01/2018: Agradecendo ao Roberto (A.K.A. Riobaldo), que me apontou uns errinhos e me fez dar uma corrigida e aperfeiçoada no estilo. O conteúdo geral continua o mesmo.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Rainer Maria Rilke - Dois sonetos a Orfeu

Rainer Maria Rilke - Die Sonette an Orpheus, Erster Teil
2

Und fast ein Mädchen wars und ging hervor
aus diesem einigen Glück von Sang und Leier
und glänzte klar durch ihre Frühlingsschleier
und machte sich ein Bett in meinem Ohr.

Und schlief in mir. Und alles war ihr Schlaf.
Die Bäume, die ich je bewundert, diese
fühlbare Ferne, die gefühlte Wiese
und jedes Staunen, das mich selbst betraf.

Sie schlief die Welt. Singender Gott, wie hast
du sie vollendet, daß sie nicht begehrte,
erst wach zu sein? Sieh, sie erstand und schlief.

Wo ist ihr Tod? O, wirst du dies Motiv
erfinden noch, eh sich dein Lied verzehrte? –
Wo sinkt sie hin aus mir? ... Ein Mädchen fast ...



Rainer Maria Rilke - Die Sonette an Orpheus, Erster Teil
18

Hörst du das Neue, Herr,
dröhnen und beben?
Kommen Verkündiger,
die es erheben.

Zwar ist kein Hören heil
in dem Durchtobtsein,
doch der Maschinenteil
will jetzt gelobt sein.

Sieh, die Maschine:
wie sie sich wälzt und rächt
und uns entstellt und schwächt.

Hat sie aus uns auch Kraft,
sie, ohne Leidenschaft,
treibe und diene.



Rainer Maria Rilke - Sonetos a Orfeu, I 
2

Era quase uma moça, então saído
Da união feliz de lira e canto,
No véu da primavera brilhou tanto
E fez para si um leito em meu ouvido.

Dormiu em mim. Tudo era o sonho dela.
As árvores, que outrora visei, então
Distância a sentir, sentido o chão
E todo assombro que a mim se revela.

Ela dormiu o mundo. Deus cantor,
Como a acabaste, sem o seu querer,
Só a teu lado! Vê, ela acorda e cai.

Onde está sua morte? Oh, torna-te os ais
Novos, antes do canto perecer?
... Quase uma moça... Onde vais te por?

Trad: Raphael Soares



Rainer Maria Rilke - Sonetos a Orfeu, I 
18

Ouves o atual, Senhor,
Que treme e troa?
Vem o proclamador,
Um anjo que voa.

Nada que se escuta
Escapa ao caos, no entanto
A máquina luta
Por sua prece e pranto.

Vê, oh maquinário:
Vingas-te e também vira,
Nos deturpa e nos mira.

De nós vem teu vigor,
Mas tu vens te impor
E usa-nos em teu diário.


Trad: Raphael Soares

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Anne Sexton - 2 poemas [em colaboração com Samantha de Sousa]

Anne Sexton já é conhecida aqui do bloguinho, pois dela já traduzi 3 poemas aqui, aqui e aqui. Já devo ter falado alguma coisa dela, e considerando o fato (bastante estranho, por sinal) de que, embora nenhum livro da escritora tenha sido publicado no Brasil, há uma biografia de referência da poetisa fácil de ser encontrada à venda nas livrarias, pouca coisa posso dizer da escritora que você não possa já saber... Tipo, que ela nasceu em 1928, tirou a própria vida 1974, ganhou Pulitzer, etc...

Hoje temos contudo uma convidada especial. A escritora Samantha de Sousa, que é admiradora da poetisa inglesa, administradora do blog Um Café para a Minha Gastrite e autora do livro Peregrinações (que você pode comprar aqui). Samantha nos presenteia com uma tradução do poema Anna Who Was Mad (do livro The Death Notebooks, 1974), enquanto eu traduzo Two Hands (de The Awful Rowing Toward God, de 1975).



A poesia da Anne Sexton é quase sempre muito forte e impactante. Como membro do grupo que passou a ser conhecido como "poetas confessionais", reunidos em volta de Lowell, há muito da escritora em sua poesia. Diferente deles, no entanto, a escritora se foca em temas e comportamentos desagradáveis. Anne Sexton também possui caracteristicamente uma relação muito paradoxal com a autoridade. Por fim, deveríamos ter mais da escritora em português.

Anna Who Was Mad, é um desses poemas fortes e impactantes que tratam de um assunto desagradável. O poema é um monólogo dramático (forma que não é exclusiva da Sexton nem necessariamente característica, mas que a poetisa dominou igualmente), e a Anna do título não é a persona falante, mas o objeto do discurso. A persona, que não deve ser confundido com a poetisa ou a expressão de um "eu", é alguém que foi muito próximo de Anna, provavelmente um relacionamento amoroso, o que depreendemos pelo "our pillow" (e, apenas à guisa de curiosidade, as "mary-words" são "Eis a escrava do senhor; faça-se em mim segundo sua vontade"... ou "eles não tem mais vinho"... ok, estou zoando agora). Por conta disso, presumimos que a persona que fala é homem, embora nada impedisse que o relacionamento entre o falante e Anna fosse um relacionamento homossexual, nada sugere tal hipótese também.

Como todo o bom monólogo dramático, o discurso não se constitui como uma narrativa sólida e direta, mas é dependente da situação. Aqui temos um depoimento da loucura e da morte do outro lado da história (da pessoa que não enlouqueceu, que conviveu, e talvez se culpe pela loucura e pela morte da pessoa tratada). Sabemos que Anna está morta pelo "From the grave write me, Anna!", mas antes disso descobrimos a possível causa de suicídio (como sugere "Did I tell you to climb out the window?"); sabemos que a loucura de Anna não é apenas uma "doideirazinha", mas um caso clínico e ela fora internada por isso ("Did I open the door for the mustached psychiatrist/who dragged you out like a gold cart?"), e o tempo inteiro a persona está amargurada e sentindo-se culpada por tudo isso. É aquele grande problema de quem sobrevive ao suicida, que guarda no fantasma do suicídio uma culpa ou sensação de culpa eternas, e sem respostas. A persona que fala busca e implora para que Anna responda, de modo quase obsessivo e neurótico, mas de nada isso tem serventia. Anna morreu, e não vai lhe escrever uma carta do além-túmulo para lhe reconfortar; não há sequer evidência de que ela gostaria de fazer isso se pudesse.

O poema que eu traduzi é, sobre vários aspectos mais simples. Two Hands é de um livro particularmente interessante de Anne Sexton, The Awful Rowing Toward God, publicado postumamente. O livro é literalmente uma Awful Rowning Toward God, e é uma obra de bastante delicadeza no paradoxo, principalmente no paradoxo que diz respeito ao modo como as pessoas se aproximam e afastam-se simultaneamente de Deus ou da ideia de Deus ou da moralidade que creem divina. Há muitos bons poemas no livro, mas escolhi esse pela delicadeza das imagens. Notem como há uma sutileza na descrição da sexualidade (as mãos [metonimicamente homem e mulher] se cruzando, e não há pecado nisso) e da proximidade entre os homens paradoxalmente sobreposta à prisão, individualidade, isolamento e separação dos corpos. É um poema simples de se entender, mas feita num modo complexo (e verdadeiramente poético) de expressão.




Anna Who Was Mad - Anne Sexton

Anna who was mad,
I have a knife in my armpit.
When I stand on tiptoe I tap out messages.
Am I some sort of infection?
Did I make you go insane?
Did I make the sounds go sour?
Did I tell you to climb out the window?
Forgive. Forgive.
Say not I did.
Say not.
Say.

Speak Mary-words into our pillow.
Take me the gangling twelve-year-old
into your sunken lap.
Whisper like a buttercup.
Eat me. Eat me up like cream pudding.
Take me in.
Take me.
Take.

Give me a report on the condition of my soul.
Give me a complete statement of my actions.
Hand me a jack-in-the-pulpit and let me listen in.
Put me in the stirrups and bring a tour group through.
Number my sins on the grocery list and let me buy.
Did I make you go insane?
Did I turn up your earphone and let a siren drive through?
Did I open the door for the mustached psychiatrist
who dragged you out like a gold cart?
Did I make you go insane?
From the grave write me, Anna!
You are nothing but ashes but nevertheless
pick up the Parker Pen I gave you.
Write me.
Write.


Anna que estava louca - Anne Sexton

Anna que estava louca.
Eu tenho uma faca debaixo do braço.
Quando me equilibro na ponta dos pés, eu revelo verdades.
Eu sou algum tipo de infecção?
Eu a tornei louca?
Tornei os sons insuportáveis?
Mandei-lhe saltar pela janela?
Perdão. Perdão.
Diga que não o fiz.
Diga que não.
Diga.

Repita as palavras de Maria em nosso travesseiro.
Leve-me, a desengonçada de doze anos,
para dentro do seu colo derruído.
Sussurre como as flores.
Coma-me. Coma-me como um pudim.
Leve-me para dentro.
Leve-me.
Leve.

Dê-me um diagnóstico sobre minh’alma.
Dê-me um relatório completo de meus atos.
Dê-me uma flor venenosa e deixe-me ouvi-la.
Proteja-me e me carregue por entre os estranhos.
Enumere meus pecados numa lista suja e deixa-me comprá-los.
Eu a tornei louca?
Fiz soar uma sirene em seus fones de ouvido?
Abri a porta para o psiquiatra bigodudo
Que a arrastou como um carrinho dourado?
Eu a tornei louca?
Escreva-me da cova, Anna!
Você não é nada além de cinzas, no entanto
Pegue a Parker que eu lhe dei.
Escreva-me.
Escreva.
Trad: Samantha de Sousa



Two Hands - Anne Sexton

From the sea came a hand,
ignorant as a penny,
troubled with the salt of its mother,
mute with the silence of the fishes,
quick with the altars of the tides,
and God reached out of His mouth
and called it man.
Up came the other hand
and God called it woman.
The hands applauded
And this was no sin.
It was as it was meant to be.

I see them roaming the streets:
Levi complaining about his mattress,
Sarah studying a beetle,
Mandrake holding his coffee mug,
Sally playing the drum at a football game,
John closing the eyes of the dying woman,
and some who are in prison,
even the prison of their bodies,
as Christ was prisoned in His body
until the triumph came.

Unwind hands,
you angel webs,
unwind like the coil of a jumping jack,
cup together and let yourselves fill up with sun
and applaud, world,
applaud.

Duas Mãos - Anne Sexton

Do mar veio uma mão,
ignorante como um penny,
incomodada com o sal de sua mãe,
muda com o silêncio dos peixes,
rápida com os altares das ressacas,
e Deus alcançou-a com Sua boca
o chamou-a homem.
De cima veio outra mão
e Deus chamou-a mulher.
As mãos aplaudiram.
E isso não era pecado.
Era o que deveria ser.

Eu os vejo rondando as ruas:
Levi reclamando de seu colchão,
Sara estudando uma abelha,
Mandrake segurando sua caneca de café,
Sally tocando bateria num jogo de futebol,
João fechando os olhos da mulher morta,
e alguém está na prisão,
mesmo a prisão de seus corpos,
como Cristo esteve preso em Seu corpo
até vir o triunfo.

Desenlacem-se, mãos,
suas teias de anjos,
desenlacem-se como as cordas dum polichinelo,
unam-se e deixem-se preencher de sol
e aplauda, mundo,
aplauda.
Trad: Raphael Soares

domingo, 4 de setembro de 2016

Elizabeth Barrett Browning - Aurora Leigh [Fragmento]

A Era Vitoriana na literatura é talvez uma das "escolas" literárias mais difíceis de sistematizar criticamente do ocidente. Seu período é muito extenso (1830-1901), e é definida por um acidente histórico mais que qualquer semelhança puramente estética: começa e termina com o reinado da Rainha Vitória. Na verdade, se tivéssemos de sistematizar de modo sério, teríamos ao menos 4 gerações completamente distintas entre si (e um prólogo).

- A 1ª Geração contendo os Brownings e os Tennysons (Carlyle é importante aqui, mas não escrevendo verso), que iniciaram a escrever no início da década de 30 com Poems Chiefly Lyrical de Tennyson (1830), Prometheus Bound de EBB e Pauline de Browning (1833). Depois do fim do romantismo (com a morte de Byron, em 1824) também foram publicadas algumas obras que se tornaram populares no início do período e são algo entre um romantismo diluído e um anúncio da nova escola, como as obras finais de John Clare, Letitia Landon e Felicia Hemans (e Poems by Two Brothers, dos Tennysons).

- Uma 2ª Geração, sem mais o peso da influência de Wordsworth, que tinham Tennyson ou Browning como seus grandes "mestres" (além de Blake, recém descoberto) que começa a publicar no meio da década de 40. Essa geração se constitui de ao menos duas "escolas" (os Pré-Rafaelitas e os Espasmódicos) que não só não possuem nada em relação uma com a outra. Também é dessa geração Matthew Arnold, que vai ser uma voz dissidente da sua geração.

- Uma 3º "Geração" que começa a publicar a partir das décadas de 60-70 e se torna ativa na década de 80 (exceto por Hopkins, que foi publicado apenas postumamente). Não se pode nem falar de "Geração" propriamente dita porque são poetas com idades muito divergentes Fitzgerald e Edward Lear são tão velhos quanto os Brownings, Hopkins é o mais novo e não publica em vida. Para piorar, não há quase nada que une poetas tão divergentes em escrita como Carol, Hopkins, Blunt e Dowden exceto pelo período em que começaram a escrever e publicar.

- Uma 4º Geração é de escritores nascidos entre 1840-65 que já saltam para a modernidade. Muitos deles sobrevivem ao período e, novamente, são figuras tão distintas quanto Hardy, Housman, Wilde, Michael Field, Mary Coleridge, Kipling e Yeats. Muitos deles lidam com os dilemas morais de sua sociedade, e frequentemente não são mais tratados como vitorianos.

Há pouca coisa que une esses escritores, e quase todas elas os unem à modernidade. Praticamente sem exceção, os poetas vitorianos tem três coisas em comum: a incrível experiência de alteridade (que faz do monólogo dramático a sua mais importante contribuição para a poesia moderna, além do uso de diversas outras formas estruturadas na alteridade), a consciência de sua tardividade (eles vieram "depois" dos românticos e "depois" de outros grandes escritores, e não podem deixar de lidar com esse problema, o que culmina no modernismo de Pound-Eliot) e a percepção de que a poesia não possui mais a "função social" de outrora e está perdendo espaço para o romance (e isso é importante para a escrita de muitos poetas e poetas/romancistas), que é a principal produção vitoriana.

Elizabeth Barrett Browning (nome artístico de solteira: Elizabeth Barrett Barrett, pois se recusava a usar o Barrett Moulton-Barrett) pertence a essa primeira geração de escritores vitorianos. Como Tennyson e seu esposo, Robert Browning, teve um desenvolvimento literário bem lento. Nenhum outro escritor inglês deve ter uma juvenilia tão extensa como Elizabeth. E.B.B. foi sem sombra de dúvidas a poetiza mais popular de seu tempo, tendo influenciado não só uma legião de escritores na Inglaterra como nos E.U.A. também: Poe era devoto da poesia dela e enviara (em 1846) seu volume The Raven and Other Poems (1845) e Tales (1845) com a dedicatória "To Miss Elizabeth Barrett Barrett with the Respects of Edgar A. Poe" (o que é estranho, considerando que Poe era quase um mendigo), além de produzir Reviews sobre as obras da escritora. Emily Dickinson anotou extensivamente um volume de Aurora Leigh, hoje no Amherst College. Apesar da profunda influência que teve durante sua vida, a obra de EBB foi muito negligenciada durante anos, geralmente em detrimento à obra de seu marido, basicamente sendo conhecida dentro e fora do mundo inglês por seu casamento e por uma única coletânea de sonetos, os Sonnets from Portuguese.

O casamento de Elizabeth Barrett e Robert Browning é um patrimônio da literatura inglesa como suas obras. Essa relação tem tanta vida própria que há mais biografias sobre a relação dos dois que sobre muitos grandes poetas ingleses. Em ordem cronológica, há as seguintes biografias, caso alguém se interesse por elas: Anne Thackeray Ritchie (Robert and Elizabeth Barrett Browning, 1892 [em jornal]), Lilian Whiting (The Brownings: Their Life and Art, 1911), Osbert Burdett (The Brownings, 1929), Daniel Karlin (The Courtship of Elizabeth Barrett and Robert Browning, 1985), Julia Markus (Dared and Done, 1996), Frances Winwar (The Immortal Lovers, 2007) e a mais nova, de Mary Sanders Pollock (Elizabeth Barrett and Robert Browning, 2016), que ainda não li. Não apenas biografias tradicionais, como várias obras derivadas já foram feitas sobre esse relacionamento, como a peça de Rudolf Besier (The Barrets of Wimpole Street, 1930), e uma porrada de adaptações cinematográficas para ela, o romance de Virgínia Woolf (Flush, 1933), e as biografias romantizadas para o público geral de Lucille Iremonger (How Do I Love Thee, 1976) e Margaret Forster (Lady's Maid, 1991).

Essa história, por ser tão popular e cheia de adaptações, fica na cabeça do povo cheia de inverdades, então vou tentar traçar uma pequena biografia da vida da poetisa, antes de falar de Aurora Leigh, sua mais ambiciosa obra.



Elizabeth Barrett nasceu em 1806. Seu nome de batismo era Elizabeth Barrett Moulton-Barrett (foi a primeira pessoa da família a ter o Molton na frente, e isso é uma looonga história), porém sempre assinou apenas Barrett Barrett. Seu pai, Edward Barrett, era um grande proprietário de terras e escravos em uma grande área do norte da Jamaica. Aquela época era uma coisa bem louca moralmente: para qualquer inglês a escravidão era algo absolutamente horrendo dentro da Inglaterra, mas de algum modo "do lado de fora" se fechava os olhos. Robert Browning (o pai do poeta, não o próprio) ao ir "tomar" suas propriedades ficou tão horrorizado com a escravidão e causou tantos problemas por tentar ensinar os escravos jamaicanos a ler que decidiu abandonar toda a sua fortuna jamaicana e trabalhar de modo simples num banco, o que causou grandes problemas no relacionamento com o seu pai, Robert Browning (o avô do poeta).

Edward Barrett era uma personalidade enigmática, e não só o maior mistério para seus biógrafos como a figura mais mal avaliada por quem não sabe nada sobre sua vida. Edward Barrett ficara famoso por ser um dos mais gentis senhores de escravo de toda a Jamaica (cuidava de todos os ex-escravos e escravos que não podiam trabalhar mais durante toda a vida, bem como cuidara dos escravos libertados por seu pai, assim como dava folgas quando um de seus filhos nascia, e ele teve 12), e era absolutamente "retrógrado" em matéria familiar: ele era o "senhor" da família até as últimas consequências.

A excentricidade mais conhecida de Edward Barrett era, sem dúvidas, a de não permitir que nenhum de seus filhos casasse. Isso tem de ser frisado: frequentemente as pessoas afirmam ou imaginam que Edward proibia especificamente Elizabeth (como em The Barretts of Wimpole Street) por ciúmes e desejos imorais, ou afirmam (como faz John Milton no posfácio ao Flautista de Manto Malhado de Hamelin) que ele proibia as FILHAS de casar, o que é uma meia-verdade no mínimo desonesta. EBB em carta para Browning põe os termos, que "em casa ninguém, homem ou mulher, pode pensar nessas coisas (affair matrimonial)", e isso nem de longe incomodava de fato a escritora como seus outros irmãos. É verdade que Elizabeth Barrett fora deserdada ao casar e nunca mais pode ver ou falar com o pai, porém seu irmão Alfred sofrera exatamente o mesmo destino sem diferenciações. Se era relativamente comum na sociedade vitoriana da época um pai proibir o casamento das filhas, era uma excentricidade sem tamanho proibir o casamento dos filhos homens igualmente. Julia Markus acredita que isso envolva uma longa questão racial: ele não queria ter um neto negro, e havia uma suspeita entre os Barretts de que possuíam sangue mestiço (Elizabeth sempre fora descrita como "muito marrom" e de "feição escura", e pareceu ficar bem aliviada quando seu filho, Robert "Pen" Browning, nascera "branco como uma nuvem").

O maior problema é a discrepância entre o Edward Barrett dos biógrafos e do imaginário popular. Edward é pensado como um monstro opressor, um crápula e um demônio, enquanto qualquer biógrafo sério tem de lidar com um homem gentil, bom pai, mas irredutível em sua única ordem familiar. Matheus Mavericco (aqui) cita uma anedota para afirmar o como é fácil encontrar por aí um anedotário que "prova" que Edward era um crápula. A anedota refere-se a Edward matar Flush (o cachorrinho da escritora) de raiva após a partida de Elizabeth, o que seria impossível, visto que Flush fora levado na bagagem. Tirando uma única anedota (quando Edward empurra Henrietta contra o chão, após uma discussão) nenhuma anedota que consegui coligir sobre o pai da poetisa é verdadeira. No fim, o que vemos é um homem que deu grande suporte educacional à filha, lia ao pé de sua cama quando ela não conseguia ler (por causa das dores, láudano ou morfina), orava frequentemente com ela, fez questão de incentivar a carreira literária da filha e publicou todos os seus livros até 1844. Independente da nossa visão hoje, EBB sempre o considerou um ótimo pai e uma pessoa boa, embora ao fim da vida tenha se entristecido muito por a recusa dele às tentativas dela de se aproximar (por fim, chegando a conclusão de que só lamentava porque, no fundo, ela o amava mais do que ele). Também é importante mencionar que Edward sabia do relacionamento da filha com o poeta de Bells and Pomegranates, tanto das cartas quanto das visitas, desde sempre... Mas isso é outra conversa, já que a biografia não é do Ed Barroso.

Elizabeth, na juventude, teve uma doença misteriosa, e com a subsequente morte de seu irmão favorito, Edward, ficou profundamente fragilizada e nunca mais se curou do corpo ou da mente. Para aguentar as profundas dores que teve durante a vida inteira, passou a depender de láudano  (e depois de morfina), tornando-se viciada, o que provavelmente causou sua morte. Durante esse período publicou alguns livros de poesia (sempre com suporte moral e financeiro do pai), até que em 1844 publicou o livro Poems, que chamou a atenção do poeta Robert Browning, que incentivado por Kenyon (parente de Elizabeth e ex-colega do pai do escritor) escreveu no dia 10 de Janeiro de 1845 a primeira carta que comporia a coleção de correspondências mais famosa e lida de todas as literaturas. Na carta, o poeta dizia "I love your verses with all my heart [...] and I love you too".

Na verdade, dizer que eles se conheceram através da obra Poems (1844) e dessa correspondência é um tanto incorreto. Browning já havia lido The Seraphim, and Other Poems (1838), e EBB leu e apreciou as obras de Robert Browning quando ajudou a montar uma antologia da nova poesia inglesa, em que elogiava o talento do poeta. Browning não sabia, mas EBB possuía uma foto dele (que escondia quando o poeta ia visitá-la), ao lado de uma de Tennyson acima de sua cama. O período de paquera (alguém tem uma tradução melhor para Courtship?) foi dos mais bizarros já existentes em qualquer era. Para resumir as coisas, é tão cheio de coisas absurdas que se fosse um romance francês teríamos de levantar à voz reclamando da absoluta falta de verossimilhança da narrativa. Há até um Deus Ex Machina digno de Camilo Castelo Branco: Elizabeth deveria ter morrido no inverno de 1846, já que o estado de sua saúde não lhe permitiria sobreviver um inverno rigoroso, aí "Shazan!" disse o Senhor: "Pois não vai ter inverno nessa bagaça", e o que deveria ser o inverno tornou-se milagrosamente uma branda primavera (sim, isso aconteceu de fato... por mais absurdo que pareça).

Os Brownings então casaram-se em segredo em 12 de setembro de 1846, e retornaram para suas casas. Depois partiriam para a Itália, onde o clima era melhor para a saúde de EBB, e onde o custo de vida baixo os permitiria viver sem muitos problemas financeiros. EBB, diferente de seus irmãos, possuía alguns rendimentos o que permitia que ser deserdada pelo pai não fosse financeiramente penoso, mesmo que seu marido, RB, nunca tenha trabalhado na vida e feito qualquer outra coisa que poesia (e seus livros, bom, eles nunca venderam). A saúde dela melhorou muito na Itália, e frequentemente Browning insistia para a esposa que reduzisse a quantidade de morfina. De qualquer modo, os farmacêuticos italianos se assustavam tanto com as dosagens da moça que convenciam ela de que a morfina da Itália era melhor que a da Inglaterra e reduziam a dosagem pela metade. Em 1849 nasce o primeiro filho do casal, Robert Wiedemann Barrett Browning, apelidado de "Pen" (era assim que a criança chamava o próprio nome), e o casal possuía alguma divergência em criar a criança. Em 1850 é publicado o livro Poems, em que aparece pela primeira vez os Sonnets from Portuguese, que já recebeu tradução integral no Brasil, por Leonardo Fróes. A informação de que o livro fora publicado antes, de modo privado entre os amigos do poeta, em 1847 (que vamos ver sendo divulgado aqui [press release] e ali [artigo científico]) é falsa. Na verdade, um livro com essa data existiu, mas é uma falsificação tardia, feita por um erudito desonesto, T. J. Wise, importante e infame entre os críticos dos poetas.

Publica depois Casa Guidi Windows em 1851, Aurora Leigh em 1854, Poems Before Congress em 1860, além de várias reedições aumentadas de Poems e poemas avulsos. Falece em 1861, na Itália, e seu marido publica Last Poems, em 1862. Políticos e personagens importantes da Itália queriam que Browning e seu filho permanecesse na Itália, em honra a EBB, que era tida como a poetiza do Ressorgimento. Browning achou imoral a oferta, mas recusou de modo educado e partiu em seguida para a Inglaterra (e por ironia do destino, o poeta morreria na Itália, embora seu corpo tenha sido movido para a Inglaterra). Após a morte de EBB, a recepção crítica da escritora começa a diminuir, enquanto seu marido começa a ficar mais famoso a partir de Dramatis Personae (1864). O consenso crítico moderno é que seu marido é um poeta superior, e alguns até a chamam de "medíocre com honestidade" (como diz Harold Bloom). Fora do mundo inglês, exceto pelos Sonnets from Portuguese, ela é basicamente conhecida apenas pela sua vida e casamento, e sua obra esquecida. Recentemente, a crítica feminista e socialista tem tentado reviver a valorização crítica da obra da escritora, e embora em muitos pontos eles tenham falhado miseravelmente, o futuro pode ter uma visão diferente de obras como Casa Guidi Windows e Aurora Leigh, por exemplo.

P.S.: Se vos interessar, Robert Browning NÃO chamava Elizabeth Barrett de "minha portuguesinha" ou "Catarina" e ela o chamava de "Camões". Ele sempre a chamou de "Ba" e "Ba" somente. O título do livro foi sugestão de Robert, e é um "como se fosse", intencionalmente ambíguo para evitar uma possível associação biográfica do relacionamento dos dois, que Robert queria manter em privacidade. Parem de repetir essa asneira.


Aurora Leigh foi publicado em 1856 e foi um estrondoso sucesso em seu tempo. O livro esgotou-se em duas semanas, e já estava na 5º edição inglesa em 1860. A primeira edição americana saiu bastante rápido (desculpa, não achei a data) e também fez bastante sucesso, apesar da, ou em decorrência da, ambientação tipicamente inglesa. É um romance bastante ousado para o seu tempo, e toca o dedo na ferida da situação feminina (ou, mais precisamente, as situações femininas) na Inglaterra vitoriana. Apesar do sucesso de vendas, a obra foi não foi exatamente bem recebida, tendo causado muita raiva no meio literário. Edward Fitzgerald (o tradutor dos Rubaiyat de Omar) chegou a comentar o seguinte quando soube da morte da escritora:
A morte da Sra Browning é quase um alívio para mim, tenho de dizer: sem mais Aurora Leighs, graças a Deus! Uma mulher de verdadeiro gênio, eu sei: mas qual o resultado de tudo isso? Ela e o Sexo dela serviriam muito mais na Cozinha e para as Crianças; e talvez aos Pobres: exceto em tais coisas como pequenos Romances, elas somente devotam a si mesmas ao que os Homens fazem muito melhor, deixando de lado aquilo que eles fazem mal ou de todo não fazem
Quando Robert Browning soube desse comentário Fitzgerald já havia morrido, o que deixou o poeta explodindo de raiva, literalmente, mortal. De qualquer modo, não é esse o assunto.

Parte do ultraje que alguns sentiram em relação do poema é explicado pela condição histórica da mulher. Aurora Leigh lida profundamente com a questão feminina, a estupidez do patriarcado e o abuso sofrido pelas mulheres. Como foi dito, a obra é um Romance, não um épico ou outro gênero do verso, porém é construída usando o verso. Foram outros romances, particularmente os de George Sand (que a escritora conheceu pessoalmente) que fazem parte do escopo das influências do livro, e foram o bastante para chocar a sociedade vitoriana de seu tempo. Parte do desfavor crítico que essa grande obra possui se dá decorrente de seu gênero: a leitura de poesia na sociedade moderna tem pouco espaço para poemas longos, e os romances em verso particularmente sofrem ainda mais esse desapreço (embora, venhamos lembrar o sucesso do incrível Autobiography of Red, de Anne Carson, que sonho que um dia me peçam para traduzir, já que por motivos legais não posso fazer por conta própria), já que sofrem a concorrência desleal com o romance em prosa.

O maior problema com o romance em verso está no próprio "verso": o "poema" funciona independente dele. Aurora Leigh é um grande romance, mas não é exatamente boa "poesia" em termos tradicionais de poesia, mas é quase sempre boa prosa. Comparando com Red Cotton Night Cap Country, o único romance em verso de seu marido, vemos que o "romance" de Browning ocasionalmente tem "bom verso", enquanto Aurora Leigh é, de modo bem coeso, boa prosa do início ao fim. As obras, claro, são muito diferentes: Red Cotton é muito mais moderno e experimental, mas nem sempre é bem sucedido como romance e mistura verso bom com horrendo, enquanto Aurora Leigh, embora estruturalmente mais convencional é bem sucedido como um bom romance, e é como romance que deve ser lido.

Agora, o fato de ser romance dificulta a seleção. Ele deve ser lido inteiro, ou suas partes inteiras. Dos três livros que cheguei a ler (o romance é escrito em 9 livros/partes) só encontrei uma passagem que dá para "separar". Na seguinte passagem, Aurora (a narradora) recebe a oferta de casamento de seu primo, Romney Leigh, que tenta a demover de prosseguir na carreira artística/intelectual. Para Romney, não é "coisa de mulher" escrever ou pensar, e que ela deveria fazer algo mais útil como casar e cuidar de uma casa e uma criança. Aurora fica revoltada e recusa abandonar sua atividade criativa, recusando assim o casamento. Após essa passagem, Romney faz uma chantagem, dizendo que por ele ser o herdeiro homem do tio ele ficará com todo o dinheiro e ela não terá nada. Posteriormente o tio morre, Romney oferece dinheiro a Aurora que recusa: ela se tornará uma pensadora, mulher e escritora independente.

Um resumo completo da obra vocês podem ler aqui. Além disso, tem um filme mudo de 1915, que não vi nem vou ver. Por fim, a tradução precisa de muita revisão ainda, mas como eu estou muito tempo sem publicar nada por aqui, vai assim. As pinturas que figuram o Post são todas referentes ao romance, e estão em domínio público.




Aurora Leigh [Fragment] - Elizabeth Barrett Browning
II. 77-115

The smile died out in his eyes
And dropped upon his lips, a cold dead weight,
For just a moment . . 'Here's a book, I found!
No name writ on it–poems, by the form;
Some Greek upon the margin,–lady's Greek,
Without the accents. Read it? Not a word.
I saw at once the thing had witchcraft in't,
Whereof the reading calls up dangerous spirits;
I rather bring it to the witch.'
                         'My book!
You found it.' . .
             'In the hollow by the stream,
That beach leans down into–of which you said,
The Oread in it has a Naiad's heart
And pines for waters.'
                   'Thank you.'
                             'Rather you,
My cousin! that I have seen you not too much
A witch, a poet, scholar, and the rest,
To be a woman also.'
                   With a glance
The smile rose in his eyes again, and touched
The ivy on my forehead, light as air.
I answered gravely, 'Poets needs must be
Or men or women–more's the pity.'
                               'Ah,
But men, and still less women, happily,
Scarce need be poets. Keep to the green wreath,
Since even dreaming of the stone and bronze
Brings headaches, pretty cousin, and defiles
The clean white morning dresses.'
                             'So you judge!
Because I love the beautiful, I must
Love pleasure chiefly, and be overcharged
For ease and whiteness! Well–you know the world.
And only miss your cousin; 'tis not much!–
But learn this: I would rather take my part
With God's Dead, who afford to walk in white
Yet spread His glory, than keep quiet here,
And gather up my feet from even a step,
For fear to soil my gown in so much dust.
I choose to walk at all risks.–Here, if heads
That hold a rhythmic thought, must ache perforce,
For my part, I choose headaches,–and to-day's
My birthday.'
            'Dear Aurora, choose instead
To cure such. You have balsams.'
                            'I perceive!–
The headache is too noble for my sex.
You think the heartache would sound decenter,
Since that's the woman's special, proper ache,
And altogether tolerable, except
To a woman.'

Aurora Leigh [fragmento] - Elizabeth Barrett Browning
II. 77-115

Morreu o sorriso em seus olhos
E sobre os lábios peso morto e frio,
Por um momento .. "Aqui está um livro,
Encontrei! Poemas, pela forma. Sem
Nome e um Grego (de mulher) à margem
Sem os acentos. Lê! Sem mais palavras.
E logo percebi feitiçaria,
Leitura que invoca maus espíritos;
E preferi trazê-lo à bruxa."
            "É meu!
Você o achou" ..
        "No vácuo da corrente,
A praia inclina-se - do que disseste,
O coração da Náiade na Oréade
E pinheiros p'ras águas."
            "Obrigado"
"Prima, eu vejo que tens sido muito:
Bruxa, poeta, erudita e tudo
P'ra ser também mulher."
            Com um olhar
Voltou o seu semblante a sorrir,
Tocou-me a testa leve como o ar.
Grave respondi: "Poetas devem ser
(É triste) ou homens ou mulheres."
                "Ah,
Mas homens, e ainda menos as mulheres,
Felizmente não precisam ser poetas.
Pense na grinalda, sonhar com
Pedra e bronze só traz dor de cabeça,
Prima, e suja a alva veste da manhã."
"Então julgais! Porque amo o belo devo
Amar prazer, e sobrecarregada
Ser da brancura! Bem - sabeis o mundo.
Somente perde a prima: e não é muito! -
Nas saibas disso: é melhor ter parte
Na Morte de Deus, do que andar de branco
(Ainda em sua glória), que ficar quieta,
E reter os meus pés de dar um passo,
Por medo de empoeirar o meu vestido.
Escolho andar com todo o risco. - Aqui
Se dói pensar em rima, escolho as dores
De cabeça, prefiro, - e hoje é o meu
Aniversário"
    "Aurora, escolha logo
Curar-se. Tendes bálsamos."
            "Percebo! -
Tais dores são tão nobres p'ra o meu sexo.
Pensais que as enxaquecas desordenam,
Pois é o especial de uma mulher,
E até é tolerável, exceto para
Uma mulher."
Trad: Raphael Soares

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Landor outra vez, e ele detestava sonetos (5 traduções e outras tranqueiras)


Antes de tudo um alerta: se você não gosta de poesia vitoriana, fique longe deste bloguinho durante um tempo (3 meses, um ano... sei lá), pois é o que tem para as próximas postagens.

Na última postagem que fiz (no fim do ano passado, me desculpem por isso) traduzi e fiz alguns comentários sobre Walter Savage Landor, o poeta que falarei novamente hoje. Já falei sobre ele em duas ocasiões, aqui e aqui, e na postagem passada ficou faltando eu comentar uma série de coisas, e porque não fazer agora?

A primeira delas é que o poema que traduzi anteriormente, Mild is the Parting Year, não era um poema inédito em português. Embora eu não soubesse (desculpa novamente, preguiça de procurar), Matheus Mavericco em seu blog (que recomendo a todos... é muito interessante e ele é bem mais responsável que eu) também traduziu esse poema, de modo e temperamento beeeem distintos da minha tradução, assim como vários dos mais antológicos poemas de Landor e colige algumas traduções feitas por outros, de modo que é de longe o melhor panorama que temos do poeta em português (o que não é, nem de longe, muita coisa). A segunda é que eu acabei mentindo para o Matheus quando ele comentou sobre a minha postagem anterior, e só depois me dei conta de minha mentira: não conheci Landor via Browning, mas via Pound em seu ABC da Literatura, traduzida por José Paulo Paes e Augusto de Campos, que faz um belo comentário sobre o poeta. Claro que, em minha defesa, tenho de dizer que não levei tão à sério a qualidade do autor na época, embora tenha traduzido um poema (o último dessa postagem) dele na ocasião. Apenas depois, com Robert Browning que passei a considerá-lo seriamente como poeta e ler um pouco mais de sua obra, particularmente as Imaginary Conversations e os poemas de Last Fruit, que é também uma obra bem interessante, embora ridiculamente desigual.

Mas hoje não vou falar sobre as melhores obras de Landor: vou falar das piores. Acredito que em 2013-14 me empenhei em dois projetos: traduzir A Shropshire Lad de Housman e uma seleção decente de poemas de Landor. Abandonei porque cheguei à conclusão que nenhum dos dois livros seriam publicados no Brasil. No que toca Landor, não há espaço editorial para um livro com seus poemas, de modo que ele provavelmente viverá sendo publicado em antologias de poetas ingleses. Sad, but true.

Em relação ao estilo do poeta, temos o grande problema de sua classificação didática: ora é tido como romântico, ora vitoriano. No fundo, Landor não pode ser bem classificado nem como uma coisa nem outra. Viveu no período romântico, mas viveu o bastante para conhecer, interagir e ser admirado pelos membros da nova escola, assim como os admirou, mas sem sombra de dúvidas seus versos nunca foram vitorianos, embora os tenha influenciado. O Machado de Assis poeta vive uma situação similar (poucos lembram que nasceu no mesmo ano de Casimiro de Abreu, começou a publicar antes, e influenciou inclusive poetas que lhe são anteriores, como Varela, quando se ocupava da crítica literária, bem como fora 'padrinho' de figuras díspares como Castro Alves e Alberto de Oliveira): a fortuna crítica de ambos os poetas está eivada de erros na tentativa de simplificação e descrição de seu estilo, bem como suas reais influências sobre a poesia de seus respectivos países nunca fora estudada a fundo.

Para a presente postagem, trago uma espécie de antilogia: uma amostra díspar de seu estilo, com poemas voltados à poesia e aos poetas, com uma ligeira desculpa ao final. Começo então com uma tradução que não é minha: a tradução de Augusto de Campos para um poema de Landor, que aparece em Miscelaneous Poems de suas obras completas (embora eu traga o texto como aparece em ABC of Reading), e que foi o primeiro poema que li dele em português e o que vai dar abertura a minha discussão de hoje:



CLXXXIX - Walter Savage Landor

Pode uma jovem ter tamanho acinte,
Em harmonias ter tanto requinte,
A ponto de indagar quando pretendo
Escrever um soneto? Oh, que portento!
Um soneto? Jamais. A rima obseca [sic]
Os italianos, sua prosa seca;
E amontoei já mais de três vintenas
Com sorte, morte, cuor, amor apenas.
Mas por que nós devemos, sem embargo
De haver de tudo um pouco, doce e amargo,
Dize-me, em sã consciência, por que cargas,
Nós que lançamos largas redes na água,
Devemos retalhá-las e antepor
Ao amplo oceano um débil coador?
Ora, se me pedires outra vez
Uma coisa tão fútil e soez,
Juro que pagarás caro esse vezo.
Para mostrar-te todo o meu desprezo,
Primeiro escreverei teu nome em cima,
Depois farei a tinta, rima a rima,
Um monte de sonetos, cada qual
Chamando-te de estrela, lua ou sol,
Até que no sem sal de tal remédio
Todos os menestréis morram de tédio.
Trad: Augusto de Campos
~~~~~~~~~~~~~~~~
Does it become a girl so wise,
So exquisite in harmonies,
To ask me when I do intend
To write a sonnet? What? my friend!
A sonnet? Never. Rhyme o'erflows
Italian, which hath scarcely prose;
And I have larded full three-score
With sorte, morte, cuor, amor.
But why should we, altho' we have
Enough for all things, gay or grave,
Say, on your conscience, why should we
Who draw deep seans along the sea,
Cut them in pieces to beset
The shallows with a cabbage-net?
Now if you ever ask again
A thing so troublesome and vain,
By all you charms! before the morn,
To show my anger and my scorn,
First I will write your name a-top
Them from this very ink shall drop
A score of sonnets; every one
Shall cal you star, or moon, or sun,
Till, swallowing such warm-water verse,
Even sonnet-sippers sicken worse.



A tradução, como pode ser observada, não é exatamente literal a partir da metade do poema, mas consegue, no geral, captar a fluidez no estilo e conservar intacto o humor e a sátira de Landor. O poema, nesse caso é bem claro e é capaz de nos mostrar uma coisa sobre Landor: ele DETESTA sonetos (ainda mais em inglês: "Even sonnet-sippers sicken worse"). Em Mild is the Parting Year e na seleção do Matheus (clique aqui... sério, vá lá ler o blog dele e depois volte... eu aguardo) vemos um Landor de fina lírica, cheia de simplicidade e uma fala direta, embora não sem uma símile ou metáfora genial para abrilhantar o poema (como a relação tempo-vida em Mild is the Parting Year). Mas talvez alguns se perguntem o que Pound teria visto em Landor, e a resposta não se acha em sua lírica, mas em sua sátira. Simples, direta e sem se preocupar com temas "poéticos", Landor também adora xingar seus contemporâneos, como podemos ver nesse outro poema, que também mostra seu ódio contra sonetos:



 Sem título - Walter Savage Landor

O som de flautas preenche a estrada,
O som de flautas faz com que o calor invada
  Mais quente que graus dez;
Dê-nos sonetos, amável Mathias,
Dê-nos sonetos, secos, como se poderias
  Fazer melhor, e esfriaremos de vez.
Trad: Raphael Soares
~~~~~~~~~~~~~~~~
The piper's music fills the street,
The piper's music makes the heat
  Hotter by ten degrees ;
Hand us a sonnet, dear Mathias,
Hand us a sonnet, cool and dry as
  Your very best, and we, shall freeze.'



Esse poema Landor nunca publicou. Está em uma de suas cartas para Rose Paynter, de dezembro de 1838. Ela fala sobre poeta Thomas James Matthias, poeta irrelevante que publicou o livro acima, em tom de zombaria logo após descobrir que o autor de The Pursuits of Literature passara a escrever sonetos. Para além da provocação clara das capacidades do poeta citado, chama atenção os primeiros versos, que são clara imitação de debilidade poética (talvez do próprio citado, ou uma interpretação tortuosa delas... vejo alguma semelhança em versos como "plays I could frame, like Ireland, by the score / Could sing of gardens, yet well pleas'd to see" ou "Lords of the lyre, and fathers of the song,", mas não sou um exato conhecedor da poesia de Matthias) e não se parece em nada o estilo sóbrio de Landor. Talvez algumas leitores não consigam associar esse texto imediatamente a Pound (que talvez não tenha lido esse poema, mas tinha um pouco do "temperamento" de Landor), e por isso eu vou refrescar a memória desses eventuais leitores:



Canção à maneira de Housman - Ezra Pound

O dor, dor,
Pessoas nascem e morrem,
E nós morreremos, logo em breve,
Então vamos agir, como se estivéssemos
Já mortos.

O passarinho pousa no espinheiro
Mas morrerá também, bem altaneiro.
Alguns moços são enforcados, outros alvejados.
Doloroso é o humano agrado.
Dor! Dor, etcetera....

Londres é uma dolorosa praça,
Shrophsire é mais prazerosa.
Lá sorrimos um pequeno espaço
Sobre da natura a mórbida graça.
Oh, dor, dor, dor, etcetera.
Trad: Raphael Soares
~~~~~~~~~~~~~~~~
O woe, woe,
People are born and die,
We also shall be dead pretty soon
Therefore let us act as if we were
dead already.

The bird sits on the hawthorn tree
But he dies also, presently.
Some lads get hung, and some get shot.
Woeful is this human lot.

Woe! woe, etcetera ....

London is a woeful place,
Shropshire is much pleasanter.
Then let us smile a little space
Upon fond nature's morbid grace.

Oh, Woe, woe, woe, etcetera ...


Pois é... Pound também era assim... Embora estejamos falando de um Pound inicial, esse tipo de piada pronta, disfarce estilístico e sátira direta vai estar presente também de modo bem claro nos Cantos. Desnecessário dizer que Pound está sendo bastante injusto com Housman que, embora pareça vazio, é, de longe, um poeta superior.

Mas voltemos a Landor. O poema sobre Matthias e o poema que Augusto de Campos traduziu não são os únicos em que Landor mostra seu ódio aos sonetos. Não! ele faz questão de fazer isso muitas vezes, e para simplificar eu trago aqui um de meus favoritos, que encontro numa velha edição de poemas e cartas inéditas:



O Sonetista - Walter Savage Landor

Soneto é fácil de fazer-se em tom toscano,
E poetas constroem-os como vão andando.
Um jovem professor u'a certa vez chamado
A fazê-lo só respondeu, bem irritado:
"Não guiarei-me ao soneto enquanto eu viver,
Não tenho amante alguma, eu tenho uma mulher.
E se algo acontecer, então a minha Musa
Me salvará do apuro e não haverá recusa.
Fantasia e ternura, eu tenho o suficiente
Para essa ocasião - ela: dificilmente."
Trad: Raphael Soares
~~~~~~~~~~~~~~~~
Sonnet is easy in the Tuscan tongue,
And poets drop it as they walk along.
A young professor was invited once
To try his hand, and this was the response
' I never turn'd a sonnet in my life,
I had no mistress, and I have a wife.
If anything should happen, then the Muse
To help me at a pinch might not refuse.
Fancy and tenderness, I have enough
For that occasion — but she is so tough.'



Eu juro que esse poema é engraçado se a piada é entendida de primeira. Ou eu estou acostumado a rir de piadas bobas, sei lá.

Mas apesar de todo o ódio, toda raiva contra o soneto, Landor escreveu sonetos. Aliás, um dos seus poemas mais famosos é um soneto, embora um em versos brancos (Keats já os escrevera em inglês meio século antes), que é o poema que Landor escreveu para homenagear Robert Browning:



Para Robert Browning - Walter Savage Landor
Há prazer no cantar, não ouvirás nenhum
Para além do cantor, e há também o prazer
Na louvação, e tu, que louvas fica imóvel,
Só e vê a quem louvas longe, muito acima.
Shakespeare nosso poeta não é, mas do mundo,
Por isso, nele não há voz! e é breve a ti,
Browning! pois desde Chaucer vivo e vigoroso,
Ninguém andou por nossas ruas co'este passo
Tão ativo, ou olhar tão arguto, ou língua
Com discurso tão vário. E em clima tão mais brando
Nos dê mais clara pluma, e mais robusta asa:
Brincaste co'as Alpinas brisas, e então
Levou-os por Sorrento e Amalfi, onde a Sereia
Está a esperar por ti, cantando uma canção.
Trad: Raphael Soares
~~~~~~~~~~~~~~~~
There is delight in singing, thou none hear
Beside the singer; and there is delight
In praising, thou the praiser sit alone
And see the praised far off him, far above.
Shakspeare is not our poet, but the world’s,
Therefore on him no speech! and brief for thee,
Browning! Since Chaucer was alive and hale,
No man hath walkt along our roads with step
So active, so inquiring eye, or tongue
So varied in discourse. But warmer climes
Give brighter plumage, stronger wing: the breeze
Of Alpine highths thou playest with, borne on
Beyond Sorrento and Amalfi, where
The Siren waits thee, singing song for song.



Como já foi dito, a vida de Landor foi longa. Viveu entre 1775-1864, de modo que é apenas 3 anos mais novo que Coleridge e pôde viver até a glória dos grandes vitorianos Tennyson (foi laureado em 1850, In Memorian é de 1849, Enoch Arden e outros é de 1862, e os Idílios publicados em vários anos) e Browning (Men and Women é de 1855, Dramatis Personae é de 1864, o ano da morte de Landor). Influenciou e conviveu ativamente com todas as personalidades importantes de sua época, embora, como semi-romântico que era, sempre foi tido como excêntrico. Certa vez convidou Tennyson para um banquete em sua casa com um poema:




Sem título - Walter Savage Landor
Te imploro, Tennyson, se for do agrado,
Compartilhe minha perna de veado.
Também tenho u'a garrafa de clarete,
Melhor tomado quando há bem mais gente.
Eu sei que é uma garrafinha apenas,
Tenho no fundo adega bem pequena.
Tão certo quanto faço meus versinhos
De um Rudesheimer tenho um pouquinho.
Venha; de todo o homem, mal ou bom,
Qual é mais bem vindo que Alfred Tennyson?
Trad: Raphael Soares
~~~~~~~~~~~~~~~~
I entreat you, Alfred Tennyson,
Come and share my haunch of venison.
I have too a bin of claret,
Good, but better when you share it.
Tho' 'tis only a small bin,
There's a stock of it within.
And as sure as I'm a rhymer,
Half a butt of Rudesheimer.
Come; among the sons of men is one
Welcomer than Alfred Tennyson?



Admito que é uma tradução bem porca essa... Também não consigo captar o humor bizonho das rimas em esdrúxulas com o nome Tennyson (venison, e mais patentemente em men is one, que anuncia as rimas browningianas como went trickle/ventricle, por exemplo) que tentei reproduzir com uma intencional forçação aguda (Tennysón). O mais engraçado é que, dizem os biógrafos de Landor, Tennyson fora à casa do poeta junto de Oscar Wilde e outras figuras, e Landor não parava de falar de literatura, até que em um momento (quando saíra para buscar um livro) um dos convidados caiu e quebrou uma perna. O próprio Tennyson relata o que acontecera depois: Landor retorna com um livro de Catulo e passa a comentar sobre determinado poema como se nada houvesse acontecido, o que choca a todos.

Enfim, foi uma postagem longa e cheio de inutilidades e poemetos semi-obscuros. Despeço-me, para que a viagem não fique de todo perdida para o leitor, com uma tradução minha do poema mais famoso de Landor (vocês já leram o Blog do Mavericco, né? Pois é, há outras traduções do mesmo poema lá), Rose Aylmer (na verdade, o poema não tem título... mas sabe como são esses antologistas, né?). Diferente de muita gente, não acho nem de longe um dos melhores versos do Poeta... aliás, nem gosto tanto do poema, mas ninguém jamais vai tirar seu status antológico.



Rose Aylmer - Walter Savage Landor
Ah, que vale essa tal régia raça,
    Ah, forma do próprio Deus!
Mas quanta virtude, quanta graça!
    Rose Aylmer, tudo isso é teu.
Rose Aylmer, estes olhos despertos
    Podem chorar, não os verá,
Noites de memórias e ais, decerto,
    Irei a ti consagrar.
Trad: Raphael Soares
~~~~~~~~~~~~~~~~
Ah what avails the sceptred race,
    Ah what the form divine!
What every virtue, every grace!
    Rose Aylmer, all were thine.
Rose Aylmer, whom these wakeful eyes
    May weep, but never see,
A night of memories and of sighs
    I consecrate to thee.