sábado, 11 de fevereiro de 2017

Anne Sexton - 2 poemas [em colaboração com Samantha de Sousa]

Anne Sexton já é conhecida aqui do bloguinho, pois dela já traduzi 3 poemas aqui, aqui e aqui. Já devo ter falado alguma coisa dela, e considerando o fato (bastante estranho, por sinal) de que, embora nenhum livro da escritora tenha sido publicado no Brasil, há uma biografia de referência da poetisa fácil de ser encontrada à venda nas livrarias, pouca coisa posso dizer da escritora que você não possa já saber... Tipo, que ela nasceu em 1928, tirou a própria vida 1974, ganhou Pulitzer, etc...

Hoje temos contudo uma convidada especial. A escritora Samantha de Sousa, que é admiradora da poetisa inglesa, administradora do blog Um Café para a Minha Gastrite e autora do livro Peregrinações (que você pode comprar aqui). Samantha nos presenteia com uma tradução do poema Anna Who Was Mad (do livro The Death Notebooks, 1974), enquanto eu traduzo Two Hands (de The Awful Rowing Toward God, de 1975).



A poesia da Anne Sexton é quase sempre muito forte e impactante. Como membro do grupo que passou a ser conhecido como "poetas confessionais", reunidos em volta de Lowell, há muito da escritora em sua poesia. Diferente deles, no entanto, a escritora se foca em temas e comportamentos desagradáveis. Anne Sexton também possui caracteristicamente uma relação muito paradoxal com a autoridade. Por fim, deveríamos ter mais da escritora em português.

Anna Who Was Mad, é um desses poemas fortes e impactantes que tratam de um assunto desagradável. O poema é um monólogo dramático (forma que não é exclusiva da Sexton nem necessariamente característica, mas que a poetisa dominou igualmente), e a Anna do título não é a persona falante, mas o objeto do discurso. A persona, que não deve ser confundido com a poetisa ou a expressão de um "eu", é alguém que foi muito próximo de Anna, provavelmente um relacionamento amoroso, o que depreendemos pelo "our pillow" (e, apenas à guisa de curiosidade, as "mary-words" são "Eis a escrava do senhor; faça-se em mim segundo sua vontade"... ou "eles não tem mais vinho"... ok, estou zoando agora). Por conta disso, presumimos que a persona que fala é homem, embora nada impedisse que o relacionamento entre o falante e Anna fosse um relacionamento homossexual, nada sugere tal hipótese também.

Como todo o bom monólogo dramático, o discurso não se constitui como uma narrativa sólida e direta, mas é dependente da situação. Aqui temos um depoimento da loucura e da morte do outro lado da história (da pessoa que não enlouqueceu, que conviveu, e talvez se culpe pela loucura e pela morte da pessoa tratada). Sabemos que Anna está morta pelo "From the grave write me, Anna!", mas antes disso descobrimos a possível causa de suicídio (como sugere "Did I tell you to climb out the window?"); sabemos que a loucura de Anna não é apenas uma "doideirazinha", mas um caso clínico e ela fora internada por isso ("Did I open the door for the mustached psychiatrist/who dragged you out like a gold cart?"), e o tempo inteiro a persona está amargurada e sentindo-se culpada por tudo isso. É aquele grande problema de quem sobrevive ao suicida, que guarda no fantasma do suicídio uma culpa ou sensação de culpa eternas, e sem respostas. A persona que fala busca e implora para que Anna responda, de modo quase obsessivo e neurótico, mas de nada isso tem serventia. Anna morreu, e não vai lhe escrever uma carta do além-túmulo para lhe reconfortar; não há sequer evidência de que ela gostaria de fazer isso se pudesse.

O poema que eu traduzi é, sobre vários aspectos mais simples. Two Hands é de um livro particularmente interessante de Anne Sexton, The Awful Rowing Toward God, publicado postumamente. O livro é literalmente uma Awful Rowning Toward God, e é uma obra de bastante delicadeza no paradoxo, principalmente no paradoxo que diz respeito ao modo como as pessoas se aproximam e afastam-se simultaneamente de Deus ou da ideia de Deus ou da moralidade que creem divina. Há muitos bons poemas no livro, mas escolhi esse pela delicadeza das imagens. Notem como há uma sutileza na descrição da sexualidade (as mãos [metonimicamente homem e mulher] se cruzando, e não há pecado nisso) e da proximidade entre os homens paradoxalmente sobreposta à prisão, individualidade, isolamento e separação dos corpos. É um poema simples de se entender, mas feita num modo complexo (e verdadeiramente poético) de expressão.




Anna Who Was Mad - Anne Sexton

Anna who was mad,
I have a knife in my armpit.
When I stand on tiptoe I tap out messages.
Am I some sort of infection?
Did I make you go insane?
Did I make the sounds go sour?
Did I tell you to climb out the window?
Forgive. Forgive.
Say not I did.
Say not.
Say.

Speak Mary-words into our pillow.
Take me the gangling twelve-year-old
into your sunken lap.
Whisper like a buttercup.
Eat me. Eat me up like cream pudding.
Take me in.
Take me.
Take.

Give me a report on the condition of my soul.
Give me a complete statement of my actions.
Hand me a jack-in-the-pulpit and let me listen in.
Put me in the stirrups and bring a tour group through.
Number my sins on the grocery list and let me buy.
Did I make you go insane?
Did I turn up your earphone and let a siren drive through?
Did I open the door for the mustached psychiatrist
who dragged you out like a gold cart?
Did I make you go insane?
From the grave write me, Anna!
You are nothing but ashes but nevertheless
pick up the Parker Pen I gave you.
Write me.
Write.


Anna que estava louca - Anne Sexton

Anna que estava louca.
Eu tenho uma faca debaixo do braço.
Quando me equilibro na ponta dos pés, eu revelo verdades.
Eu sou algum tipo de infecção?
Eu a tornei louca?
Tornei os sons insuportáveis?
Mandei-lhe saltar pela janela?
Perdão. Perdão.
Diga que não o fiz.
Diga que não.
Diga.

Repita as palavras de Maria em nosso travesseiro.
Leve-me, a desengonçada de doze anos,
para dentro do seu colo derruído.
Sussurre como as flores.
Coma-me. Coma-me como um pudim.
Leve-me para dentro.
Leve-me.
Leve.

Dê-me um diagnóstico sobre minh’alma.
Dê-me um relatório completo de meus atos.
Dê-me uma flor venenosa e deixe-me ouvi-la.
Proteja-me e me carregue por entre os estranhos.
Enumere meus pecados numa lista suja e deixa-me comprá-los.
Eu a tornei louca?
Fiz soar uma sirene em seus fones de ouvido?
Abri a porta para o psiquiatra bigodudo
Que a arrastou como um carrinho dourado?
Eu a tornei louca?
Escreva-me da cova, Anna!
Você não é nada além de cinzas, no entanto
Pegue a Parker que eu lhe dei.
Escreva-me.
Escreva.
Trad: Samantha de Sousa



Two Hands - Anne Sexton

From the sea came a hand,
ignorant as a penny,
troubled with the salt of its mother,
mute with the silence of the fishes,
quick with the altars of the tides,
and God reached out of His mouth
and called it man.
Up came the other hand
and God called it woman.
The hands applauded
And this was no sin.
It was as it was meant to be.

I see them roaming the streets:
Levi complaining about his mattress,
Sarah studying a beetle,
Mandrake holding his coffee mug,
Sally playing the drum at a football game,
John closing the eyes of the dying woman,
and some who are in prison,
even the prison of their bodies,
as Christ was prisoned in His body
until the triumph came.

Unwind hands,
you angel webs,
unwind like the coil of a jumping jack,
cup together and let yourselves fill up with sun
and applaud, world,
applaud.

Duas Mãos - Anne Sexton

Do mar veio uma mão,
ignorante como um penny,
incomodada com o sal de sua mãe,
muda com o silêncio dos peixes,
rápida com os altares das ressacas,
e Deus alcançou-a com Sua boca
o chamou-a homem.
De cima veio outra mão
e Deus chamou-a mulher.
As mãos aplaudiram.
E isso não era pecado.
Era o que deveria ser.

Eu os vejo rondando as ruas:
Levi reclamando de seu colchão,
Sara estudando uma abelha,
Mandrake segurando sua caneca de café,
Sally tocando bateria num jogo de futebol,
João fechando os olhos da mulher morta,
e alguém está na prisão,
mesmo a prisão de seus corpos,
como Cristo esteve preso em Seu corpo
até vir o triunfo.

Desenlacem-se, mãos,
suas teias de anjos,
desenlacem-se como as cordas dum polichinelo,
unam-se e deixem-se preencher de sol
e aplauda, mundo,
aplauda.
Trad: Raphael Soares

domingo, 4 de setembro de 2016

Elizabeth Barrett Browning - Aurora Leigh [Fragmento]

A Era Vitoriana na literatura é talvez uma das "escolas" literárias mais difíceis de sistematizar criticamente do ocidente. Seu período é muito extenso (1830-1901), e é definida por um acidente histórico mais que qualquer semelhança puramente estética: começa e termina com o reinado da Rainha Vitória. Na verdade, se tivéssemos de sistematizar de modo sério, teríamos ao menos 4 gerações completamente distintas entre si (e um prólogo).

- A 1ª Geração contendo os Brownings e os Tennysons (Carlyle é importante aqui, mas não escrevendo verso), que iniciaram a escrever no início da década de 30 com Poems Chiefly Lyrical de Tennyson (1830), Prometheus Bound de EBB e Pauline de Browning (1833). Depois do fim do romantismo (com a morte de Byron, em 1824) também foram publicadas algumas obras que se tornaram populares no início do período e são algo entre um romantismo diluído e um anúncio da nova escola, como as obras finais de John Clare, Letitia Landon e Felicia Hemans (e Poems by Two Brothers, dos Tennysons).

- Uma 2ª Geração, sem mais o peso da influência de Wordsworth, que tinham Tennyson ou Browning como seus grandes "mestres" (além de Blake, recém descoberto) que começa a publicar no meio da década de 40. Essa geração se constitui de ao menos duas "escolas" (os Pré-Rafaelitas e os Espasmódicos) que não só não possuem nada em relação uma com a outra. Também é dessa geração Matthew Arnold, que vai ser uma voz dissidente da sua geração.

- Uma 3º "Geração" que começa a publicar a partir das décadas de 60-70 e se torna ativa na década de 80 (exceto por Hopkins, que foi publicado apenas postumamente). Não se pode nem falar de "Geração" propriamente dita porque são poetas com idades muito divergentes Fitzgerald e Edward Lear são tão velhos quanto os Brownings, Hopkins é o mais novo e não publica em vida. Para piorar, não há quase nada que une poetas tão divergentes em escrita como Carol, Hopkins, Blunt e Dowden exceto pelo período em que começaram a escrever e publicar.

- Uma 4º Geração é de escritores nascidos entre 1840-65 que já saltam para a modernidade. Muitos deles sobrevivem ao período e, novamente, são figuras tão distintas quanto Hardy, Housman, Wilde, Michael Field, Mary Coleridge, Kipling e Yeats. Muitos deles lidam com os dilemas morais de sua sociedade, e frequentemente não são mais tratados como vitorianos.

Há pouca coisa que une esses escritores, e quase todas elas os unem à modernidade. Praticamente sem exceção, os poetas vitorianos tem três coisas em comum: a incrível experiência de alteridade (que faz do monólogo dramático a sua mais importante contribuição para a poesia moderna, além do uso de diversas outras formas estruturadas na alteridade), a consciência de sua tardividade (eles vieram "depois" dos românticos e "depois" de outros grandes escritores, e não podem deixar de lidar com esse problema, o que culmina no modernismo de Pound-Eliot) e a percepção de que a poesia não possui mais a "função social" de outrora e está perdendo espaço para o romance (e isso é importante para a escrita de muitos poetas e poetas/romancistas), que é a principal produção vitoriana.

Elizabeth Barrett Browning (nome artístico de solteira: Elizabeth Barrett Barrett, pois se recusava a usar o Barrett Moulton-Barrett) pertence a essa primeira geração de escritores vitorianos. Como Tennyson e seu esposo, Robert Browning, teve um desenvolvimento literário bem lento. Nenhum outro escritor inglês deve ter uma juvenilia tão extensa como Elizabeth. E.B.B. foi sem sombra de dúvidas a poetiza mais popular de seu tempo, tendo influenciado não só uma legião de escritores na Inglaterra como nos E.U.A. também: Poe era devoto da poesia dela e enviara (em 1846) seu volume The Raven and Other Poems (1845) e Tales (1845) com a dedicatória "To Miss Elizabeth Barrett Barrett with the Respects of Edgar A. Poe" (o que é estranho, considerando que Poe era quase um mendigo), além de produzir Reviews sobre as obras da escritora. Emily Dickinson anotou extensivamente um volume de Aurora Leigh, hoje no Amherst College. Apesar da profunda influência que teve durante sua vida, a obra de EBB foi muito negligenciada durante anos, geralmente em detrimento à obra de seu marido, basicamente sendo conhecida dentro e fora do mundo inglês por seu casamento e por uma única coletânea de sonetos, os Sonnets from Portuguese.

O casamento de Elizabeth Barrett e Robert Browning é um patrimônio da literatura inglesa como suas obras. Essa relação tem tanta vida própria que há mais biografias sobre a relação dos dois que sobre muitos grandes poetas ingleses. Em ordem cronológica, há as seguintes biografias, caso alguém se interesse por elas: Anne Thackeray Ritchie (Robert and Elizabeth Barrett Browning, 1892 [em jornal]), Lilian Whiting (The Brownings: Their Life and Art, 1911), Osbert Burdett (The Brownings, 1929), Daniel Karlin (The Courtship of Elizabeth Barrett and Robert Browning, 1985), Julia Markus (Dared and Done, 1996), Frances Winwar (The Immortal Lovers, 2007) e a mais nova, de Mary Sanders Pollock (Elizabeth Barrett and Robert Browning, 2016), que ainda não li. Não apenas biografias tradicionais, como várias obras derivadas já foram feitas sobre esse relacionamento, como a peça de Rudolf Besier (The Barrets of Wimpole Street, 1930), e uma porrada de adaptações cinematográficas para ela, o romance de Virgínia Woolf (Flush, 1933), e as biografias romantizadas para o público geral de Lucille Iremonger (How Do I Love Thee, 1976) e Margaret Forster (Lady's Maid, 1991).

Essa história, por ser tão popular e cheia de adaptações, fica na cabeça do povo cheia de inverdades, então vou tentar traçar uma pequena biografia da vida da poetisa, antes de falar de Aurora Leigh, sua mais ambiciosa obra.



Elizabeth Barrett nasceu em 1806. Seu nome de batismo era Elizabeth Barrett Moulton-Barrett (foi a primeira pessoa da família a ter o Molton na frente, e isso é uma looonga história), porém sempre assinou apenas Barrett Barrett. Seu pai, Edward Barrett, era um grande proprietário de terras e escravos em uma grande área do norte da Jamaica. Aquela época era uma coisa bem louca moralmente: para qualquer inglês a escravidão era algo absolutamente horrendo dentro da Inglaterra, mas de algum modo "do lado de fora" se fechava os olhos. Robert Browning (o pai do poeta, não o próprio) ao ir "tomar" suas propriedades ficou tão horrorizado com a escravidão e causou tantos problemas por tentar ensinar os escravos jamaicanos a ler que decidiu abandonar toda a sua fortuna jamaicana e trabalhar de modo simples num banco, o que causou grandes problemas no relacionamento com o seu pai, Robert Browning (o avô do poeta).

Edward Barrett era uma personalidade enigmática, e não só o maior mistério para seus biógrafos como a figura mais mal avaliada por quem não sabe nada sobre sua vida. Edward Barrett ficara famoso por ser um dos mais gentis senhores de escravo de toda a Jamaica (cuidava de todos os ex-escravos e escravos que não podiam trabalhar mais durante toda a vida, bem como cuidara dos escravos libertados por seu pai, assim como dava folgas quando um de seus filhos nascia, e ele teve 12), e era absolutamente "retrógrado" em matéria familiar: ele era o "senhor" da família até as últimas consequências.

A excentricidade mais conhecida de Edward Barrett era, sem dúvidas, a de não permitir que nenhum de seus filhos casasse. Isso tem de ser frisado: frequentemente as pessoas afirmam ou imaginam que Edward proibia especificamente Elizabeth (como em The Barretts of Wimpole Street) por ciúmes e desejos imorais, ou afirmam (como faz John Milton no posfácio ao Flautista de Manto Malhado de Hamelin) que ele proibia as FILHAS de casar, o que é uma meia-verdade no mínimo desonesta. EBB em carta para Browning põe os termos, que "em casa ninguém, homem ou mulher, pode pensar nessas coisas (affair matrimonial)", e isso nem de longe incomodava de fato a escritora como seus outros irmãos. É verdade que Elizabeth Barrett fora deserdada ao casar e nunca mais pode ver ou falar com o pai, porém seu irmão Alfred sofrera exatamente o mesmo destino sem diferenciações. Se era relativamente comum na sociedade vitoriana da época um pai proibir o casamento das filhas, era uma excentricidade sem tamanho proibir o casamento dos filhos homens igualmente. Julia Markus acredita que isso envolva uma longa questão racial: ele não queria ter um neto negro, e havia uma suspeita entre os Barretts de que possuíam sangue mestiço (Elizabeth sempre fora descrita como "muito marrom" e de "feição escura", e pareceu ficar bem aliviada quando seu filho, Robert "Pen" Browning, nascera "branco como uma nuvem").

O maior problema é a discrepância entre o Edward Barrett dos biógrafos e do imaginário popular. Edward é pensado como um monstro opressor, um crápula e um demônio, enquanto qualquer biógrafo sério tem de lidar com um homem gentil, bom pai, mas irredutível em sua única ordem familiar. Matheus Mavericco (aqui) cita uma anedota para afirmar o como é fácil encontrar por aí um anedotário que "prova" que Edward era um crápula. A anedota refere-se a Edward matar Flush (o cachorrinho da escritora) de raiva após a partida de Elizabeth, o que seria impossível, visto que Flush fora levado na bagagem. Tirando uma única anedota (quando Edward empurra Henrietta contra o chão, após uma discussão) nenhuma anedota que consegui coligir sobre o pai da poetisa é verdadeira. No fim, o que vemos é um homem que deu grande suporte educacional à filha, lia ao pé de sua cama quando ela não conseguia ler (por causa das dores, láudano ou morfina), orava frequentemente com ela, fez questão de incentivar a carreira literária da filha e publicou todos os seus livros até 1844. Independente da nossa visão hoje, EBB sempre o considerou um ótimo pai e uma pessoa boa, embora ao fim da vida tenha se entristecido muito por a recusa dele às tentativas dela de se aproximar (por fim, chegando a conclusão de que só lamentava porque, no fundo, ela o amava mais do que ele). Também é importante mencionar que Edward sabia do relacionamento da filha com o poeta de Bells and Pomegranates, tanto das cartas quanto das visitas, desde sempre... Mas isso é outra conversa, já que a biografia não é do Ed Barroso.

Elizabeth, na juventude, teve uma doença misteriosa, e com a subsequente morte de seu irmão favorito, Edward, ficou profundamente fragilizada e nunca mais se curou do corpo ou da mente. Para aguentar as profundas dores que teve durante a vida inteira, passou a depender de láudano  (e depois de morfina), tornando-se viciada, o que provavelmente causou sua morte. Durante esse período publicou alguns livros de poesia (sempre com suporte moral e financeiro do pai), até que em 1844 publicou o livro Poems, que chamou a atenção do poeta Robert Browning, que incentivado por Kenyon (parente de Elizabeth e ex-colega do pai do escritor) escreveu no dia 10 de Janeiro de 1845 a primeira carta que comporia a coleção de correspondências mais famosa e lida de todas as literaturas. Na carta, o poeta dizia "I love your verses with all my heart [...] and I love you too".

Na verdade, dizer que eles se conheceram através da obra Poems (1844) e dessa correspondência é um tanto incorreto. Browning já havia lido The Seraphim, and Other Poems (1838), e EBB leu e apreciou as obras de Robert Browning quando ajudou a montar uma antologia da nova poesia inglesa, em que elogiava o talento do poeta. Browning não sabia, mas EBB possuía uma foto dele (que escondia quando o poeta ia visitá-la), ao lado de uma de Tennyson acima de sua cama. O período de paquera (alguém tem uma tradução melhor para Courtship?) foi dos mais bizarros já existentes em qualquer era. Para resumir as coisas, é tão cheio de coisas absurdas que se fosse um romance francês teríamos de levantar à voz reclamando da absoluta falta de verossimilhança da narrativa. Há até um Deus Ex Machina digno de Camilo Castelo Branco: Elizabeth deveria ter morrido no inverno de 1846, já que o estado de sua saúde não lhe permitiria sobreviver um inverno rigoroso, aí "Shazan!" disse o Senhor: "Pois não vai ter inverno nessa bagaça", e o que deveria ser o inverno tornou-se milagrosamente uma branda primavera (sim, isso aconteceu de fato... por mais absurdo que pareça).

Os Brownings então casaram-se em segredo em 12 de setembro de 1846, e retornaram para suas casas. Depois partiriam para a Itália, onde o clima era melhor para a saúde de EBB, e onde o custo de vida baixo os permitiria viver sem muitos problemas financeiros. EBB, diferente de seus irmãos, possuía alguns rendimentos o que permitia que ser deserdada pelo pai não fosse financeiramente penoso, mesmo que seu marido, RB, nunca tenha trabalhado na vida e feito qualquer outra coisa que poesia (e seus livros, bom, eles nunca venderam). A saúde dela melhorou muito na Itália, e frequentemente Browning insistia para a esposa que reduzisse a quantidade de morfina. De qualquer modo, os farmacêuticos italianos se assustavam tanto com as dosagens da moça que convenciam ela de que a morfina da Itália era melhor que a da Inglaterra e reduziam a dosagem pela metade. Em 1849 nasce o primeiro filho do casal, Robert Wiedemann Barrett Browning, apelidado de "Pen" (era assim que a criança chamava o próprio nome), e o casal possuía alguma divergência em criar a criança. Em 1850 é publicado o livro Poems, em que aparece pela primeira vez os Sonnets from Portuguese, que já recebeu tradução integral no Brasil, por Leonardo Fróes. A informação de que o livro fora publicado antes, de modo privado entre os amigos do poeta, em 1847 (que vamos ver sendo divulgado aqui [press release] e ali [artigo científico]) é falsa. Na verdade, um livro com essa data existiu, mas é uma falsificação tardia, feita por um erudito desonesto, T. J. Wise, importante e infame entre os críticos dos poetas.

Publica depois Casa Guidi Windows em 1851, Aurora Leigh em 1854, Poems Before Congress em 1860, além de várias reedições aumentadas de Poems e poemas avulsos. Falece em 1861, na Itália, e seu marido publica Last Poems, em 1862. Políticos e personagens importantes da Itália queriam que Browning e seu filho permanecesse na Itália, em honra a EBB, que era tida como a poetiza do Ressorgimento. Browning achou imoral a oferta, mas recusou de modo educado e partiu em seguida para a Inglaterra (e por ironia do destino, o poeta morreria na Itália, embora seu corpo tenha sido movido para a Inglaterra). Após a morte de EBB, a recepção crítica da escritora começa a diminuir, enquanto seu marido começa a ficar mais famoso a partir de Dramatis Personae (1864). O consenso crítico moderno é que seu marido é um poeta superior, e alguns até a chamam de "medíocre com honestidade" (como diz Harold Bloom). Fora do mundo inglês, exceto pelos Sonnets from Portuguese, ela é basicamente conhecida apenas pela sua vida e casamento, e sua obra esquecida. Recentemente, a crítica feminista e socialista tem tentado reviver a valorização crítica da obra da escritora, e embora em muitos pontos eles tenham falhado miseravelmente, o futuro pode ter uma visão diferente de obras como Casa Guidi Windows e Aurora Leigh, por exemplo.

P.S.: Se vos interessar, Robert Browning NÃO chamava Elizabeth Barrett de "minha portuguesinha" ou "Catarina" e ela o chamava de "Camões". Ele sempre a chamou de "Ba" e "Ba" somente. O título do livro foi sugestão de Robert, e é um "como se fosse", intencionalmente ambíguo para evitar uma possível associação biográfica do relacionamento dos dois, que Robert queria manter em privacidade. Parem de repetir essa asneira.


Aurora Leigh foi publicado em 1856 e foi um estrondoso sucesso em seu tempo. O livro esgotou-se em duas semanas, e já estava na 5º edição inglesa em 1860. A primeira edição americana saiu bastante rápido (desculpa, não achei a data) e também fez bastante sucesso, apesar da, ou em decorrência da, ambientação tipicamente inglesa. É um romance bastante ousado para o seu tempo, e toca o dedo na ferida da situação feminina (ou, mais precisamente, as situações femininas) na Inglaterra vitoriana. Apesar do sucesso de vendas, a obra foi não foi exatamente bem recebida, tendo causado muita raiva no meio literário. Edward Fitzgerald (o tradutor dos Rubaiyat de Omar) chegou a comentar o seguinte quando soube da morte da escritora:
A morte da Sra Browning é quase um alívio para mim, tenho de dizer: sem mais Aurora Leighs, graças a Deus! Uma mulher de verdadeiro gênio, eu sei: mas qual o resultado de tudo isso? Ela e o Sexo dela serviriam muito mais na Cozinha e para as Crianças; e talvez aos Pobres: exceto em tais coisas como pequenos Romances, elas somente devotam a si mesmas ao que os Homens fazem muito melhor, deixando de lado aquilo que eles fazem mal ou de todo não fazem
Quando Robert Browning soube desse comentário Fitzgerald já havia morrido, o que deixou o poeta explodindo de raiva, literalmente, mortal. De qualquer modo, não é esse o assunto.

Parte do ultraje que alguns sentiram em relação do poema é explicado pela condição histórica da mulher. Aurora Leigh lida profundamente com a questão feminina, a estupidez do patriarcado e o abuso sofrido pelas mulheres. Como foi dito, a obra é um Romance, não um épico ou outro gênero do verso, porém é construída usando o verso. Foram outros romances, particularmente os de George Sand (que a escritora conheceu pessoalmente) que fazem parte do escopo das influências do livro, e foram o bastante para chocar a sociedade vitoriana de seu tempo. Parte do desfavor crítico que essa grande obra possui se dá decorrente de seu gênero: a leitura de poesia na sociedade moderna tem pouco espaço para poemas longos, e os romances em verso particularmente sofrem ainda mais esse desapreço (embora, venhamos lembrar o sucesso do incrível Autobiography of Red, de Anne Carson, que sonho que um dia me peçam para traduzir, já que por motivos legais não posso fazer por conta própria), já que sofrem a concorrência desleal com o romance em prosa.

O maior problema com o romance em verso está no próprio "verso": o "poema" funciona independente dele. Aurora Leigh é um grande romance, mas não é exatamente boa "poesia" em termos tradicionais de poesia, mas é quase sempre boa prosa. Comparando com Red Cotton Night Cap Country, o único romance em verso de seu marido, vemos que o "romance" de Browning ocasionalmente tem "bom verso", enquanto Aurora Leigh é, de modo bem coeso, boa prosa do início ao fim. As obras, claro, são muito diferentes: Red Cotton é muito mais moderno e experimental, mas nem sempre é bem sucedido como romance e mistura verso bom com horrendo, enquanto Aurora Leigh, embora estruturalmente mais convencional é bem sucedido como um bom romance, e é como romance que deve ser lido.

Agora, o fato de ser romance dificulta a seleção. Ele deve ser lido inteiro, ou suas partes inteiras. Dos três livros que cheguei a ler (o romance é escrito em 9 livros/partes) só encontrei uma passagem que dá para "separar". Na seguinte passagem, Aurora (a narradora) recebe a oferta de casamento de seu primo, Romney Leigh, que tenta a demover de prosseguir na carreira artística/intelectual. Para Romney, não é "coisa de mulher" escrever ou pensar, e que ela deveria fazer algo mais útil como casar e cuidar de uma casa e uma criança. Aurora fica revoltada e recusa abandonar sua atividade criativa, recusando assim o casamento. Após essa passagem, Romney faz uma chantagem, dizendo que por ele ser o herdeiro homem do tio ele ficará com todo o dinheiro e ela não terá nada. Posteriormente o tio morre, Romney oferece dinheiro a Aurora que recusa: ela se tornará uma pensadora, mulher e escritora independente.

Um resumo completo da obra vocês podem ler aqui. Além disso, tem um filme mudo de 1915, que não vi nem vou ver. Por fim, a tradução precisa de muita revisão ainda, mas como eu estou muito tempo sem publicar nada por aqui, vai assim. As pinturas que figuram o Post são todas referentes ao romance, e estão em domínio público.




Aurora Leigh [Fragment] - Elizabeth Barrett Browning
II. 77-115

The smile died out in his eyes
And dropped upon his lips, a cold dead weight,
For just a moment . . 'Here's a book, I found!
No name writ on it–poems, by the form;
Some Greek upon the margin,–lady's Greek,
Without the accents. Read it? Not a word.
I saw at once the thing had witchcraft in't,
Whereof the reading calls up dangerous spirits;
I rather bring it to the witch.'
                         'My book!
You found it.' . .
             'In the hollow by the stream,
That beach leans down into–of which you said,
The Oread in it has a Naiad's heart
And pines for waters.'
                   'Thank you.'
                             'Rather you,
My cousin! that I have seen you not too much
A witch, a poet, scholar, and the rest,
To be a woman also.'
                   With a glance
The smile rose in his eyes again, and touched
The ivy on my forehead, light as air.
I answered gravely, 'Poets needs must be
Or men or women–more's the pity.'
                               'Ah,
But men, and still less women, happily,
Scarce need be poets. Keep to the green wreath,
Since even dreaming of the stone and bronze
Brings headaches, pretty cousin, and defiles
The clean white morning dresses.'
                             'So you judge!
Because I love the beautiful, I must
Love pleasure chiefly, and be overcharged
For ease and whiteness! Well–you know the world.
And only miss your cousin; 'tis not much!–
But learn this: I would rather take my part
With God's Dead, who afford to walk in white
Yet spread His glory, than keep quiet here,
And gather up my feet from even a step,
For fear to soil my gown in so much dust.
I choose to walk at all risks.–Here, if heads
That hold a rhythmic thought, must ache perforce,
For my part, I choose headaches,–and to-day's
My birthday.'
            'Dear Aurora, choose instead
To cure such. You have balsams.'
                            'I perceive!–
The headache is too noble for my sex.
You think the heartache would sound decenter,
Since that's the woman's special, proper ache,
And altogether tolerable, except
To a woman.'

Aurora Leigh [fragmento] - Elizabeth Barrett Browning
II. 77-115

Morreu o sorriso em seus olhos
E sobre os lábios peso morto e frio,
Por um momento .. "Aqui está um livro,
Encontrei! Poemas, pela forma. Sem
Nome e um Grego (de mulher) à margem
Sem os acentos. Lê! Sem mais palavras.
E logo percebi feitiçaria,
Leitura que invoca maus espíritos;
E preferi trazê-lo à bruxa."
            "É meu!
Você o achou" ..
        "No vácuo da corrente,
A praia inclina-se - do que disseste,
O coração da Náiade na Oréade
E pinheiros p'ras águas."
            "Obrigado"
"Prima, eu vejo que tens sido muito:
Bruxa, poeta, erudita e tudo
P'ra ser também mulher."
            Com um olhar
Voltou o seu semblante a sorrir,
Tocou-me a testa leve como o ar.
Grave respondi: "Poetas devem ser
(É triste) ou homens ou mulheres."
                "Ah,
Mas homens, e ainda menos as mulheres,
Felizmente não precisam ser poetas.
Pense na grinalda, sonhar com
Pedra e bronze só traz dor de cabeça,
Prima, e suja a alva veste da manhã."
"Então julgais! Porque amo o belo devo
Amar prazer, e sobrecarregada
Ser da brancura! Bem - sabeis o mundo.
Somente perde a prima: e não é muito! -
Nas saibas disso: é melhor ter parte
Na Morte de Deus, do que andar de branco
(Ainda em sua glória), que ficar quieta,
E reter os meus pés de dar um passo,
Por medo de empoeirar o meu vestido.
Escolho andar com todo o risco. - Aqui
Se dói pensar em rima, escolho as dores
De cabeça, prefiro, - e hoje é o meu
Aniversário"
    "Aurora, escolha logo
Curar-se. Tendes bálsamos."
            "Percebo! -
Tais dores são tão nobres p'ra o meu sexo.
Pensais que as enxaquecas desordenam,
Pois é o especial de uma mulher,
E até é tolerável, exceto para
Uma mulher."
Trad: Raphael Soares

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Landor outra vez, e ele detestava sonetos (5 traduções e outras tranqueiras)


Antes de tudo um alerta: se você não gosta de poesia vitoriana, fique longe deste bloguinho durante um tempo (3 meses, um ano... sei lá), pois é o que tem para as próximas postagens.

Na última postagem que fiz (no fim do ano passado, me desculpem por isso) traduzi e fiz alguns comentários sobre Walter Savage Landor, o poeta que falarei novamente hoje. Já falei sobre ele em duas ocasiões, aqui e aqui, e na postagem passada ficou faltando eu comentar uma série de coisas, e porque não fazer agora?

A primeira delas é que o poema que traduzi anteriormente, Mild is the Parting Year, não era um poema inédito em português. Embora eu não soubesse (desculpa novamente, preguiça de procurar), Matheus Mavericco em seu blog (que recomendo a todos... é muito interessante e ele é bem mais responsável que eu) também traduziu esse poema, de modo e temperamento beeeem distintos da minha tradução, assim como vários dos mais antológicos poemas de Landor e colige algumas traduções feitas por outros, de modo que é de longe o melhor panorama que temos do poeta em português (o que não é, nem de longe, muita coisa). A segunda é que eu acabei mentindo para o Matheus quando ele comentou sobre a minha postagem anterior, e só depois me dei conta de minha mentira: não conheci Landor via Browning, mas via Pound em seu ABC da Literatura, traduzida por José Paulo Paes e Augusto de Campos, que faz um belo comentário sobre o poeta. Claro que, em minha defesa, tenho de dizer que não levei tão à sério a qualidade do autor na época, embora tenha traduzido um poema (o último dessa postagem) dele na ocasião. Apenas depois, com Robert Browning que passei a considerá-lo seriamente como poeta e ler um pouco mais de sua obra, particularmente as Imaginary Conversations e os poemas de Last Fruit, que é também uma obra bem interessante, embora ridiculamente desigual.

Mas hoje não vou falar sobre as melhores obras de Landor: vou falar das piores. Acredito que em 2013-14 me empenhei em dois projetos: traduzir A Shropshire Lad de Housman e uma seleção decente de poemas de Landor. Abandonei porque cheguei à conclusão que nenhum dos dois livros seriam publicados no Brasil. No que toca Landor, não há espaço editorial para um livro com seus poemas, de modo que ele provavelmente viverá sendo publicado em antologias de poetas ingleses. Sad, but true.

Em relação ao estilo do poeta, temos o grande problema de sua classificação didática: ora é tido como romântico, ora vitoriano. No fundo, Landor não pode ser bem classificado nem como uma coisa nem outra. Viveu no período romântico, mas viveu o bastante para conhecer, interagir e ser admirado pelos membros da nova escola, assim como os admirou, mas sem sombra de dúvidas seus versos nunca foram vitorianos, embora os tenha influenciado. O Machado de Assis poeta vive uma situação similar (poucos lembram que nasceu no mesmo ano de Casimiro de Abreu, começou a publicar antes, e influenciou inclusive poetas que lhe são anteriores, como Varela, quando se ocupava da crítica literária, bem como fora 'padrinho' de figuras díspares como Castro Alves e Alberto de Oliveira): a fortuna crítica de ambos os poetas está eivada de erros na tentativa de simplificação e descrição de seu estilo, bem como suas reais influências sobre a poesia de seus respectivos países nunca fora estudada a fundo.

Para a presente postagem, trago uma espécie de antilogia: uma amostra díspar de seu estilo, com poemas voltados à poesia e aos poetas, com uma ligeira desculpa ao final. Começo então com uma tradução que não é minha: a tradução de Augusto de Campos para um poema de Landor, que aparece em Miscelaneous Poems de suas obras completas (embora eu traga o texto como aparece em ABC of Reading), e que foi o primeiro poema que li dele em português e o que vai dar abertura a minha discussão de hoje:



CLXXXIX - Walter Savage Landor

Pode uma jovem ter tamanho acinte,
Em harmonias ter tanto requinte,
A ponto de indagar quando pretendo
Escrever um soneto? Oh, que portento!
Um soneto? Jamais. A rima obseca [sic]
Os italianos, sua prosa seca;
E amontoei já mais de três vintenas
Com sorte, morte, cuor, amor apenas.
Mas por que nós devemos, sem embargo
De haver de tudo um pouco, doce e amargo,
Dize-me, em sã consciência, por que cargas,
Nós que lançamos largas redes na água,
Devemos retalhá-las e antepor
Ao amplo oceano um débil coador?
Ora, se me pedires outra vez
Uma coisa tão fútil e soez,
Juro que pagarás caro esse vezo.
Para mostrar-te todo o meu desprezo,
Primeiro escreverei teu nome em cima,
Depois farei a tinta, rima a rima,
Um monte de sonetos, cada qual
Chamando-te de estrela, lua ou sol,
Até que no sem sal de tal remédio
Todos os menestréis morram de tédio.
Trad: Augusto de Campos
~~~~~~~~~~~~~~~~
Does it become a girl so wise,
So exquisite in harmonies,
To ask me when I do intend
To write a sonnet? What? my friend!
A sonnet? Never. Rhyme o'erflows
Italian, which hath scarcely prose;
And I have larded full three-score
With sorte, morte, cuor, amor.
But why should we, altho' we have
Enough for all things, gay or grave,
Say, on your conscience, why should we
Who draw deep seans along the sea,
Cut them in pieces to beset
The shallows with a cabbage-net?
Now if you ever ask again
A thing so troublesome and vain,
By all you charms! before the morn,
To show my anger and my scorn,
First I will write your name a-top
Them from this very ink shall drop
A score of sonnets; every one
Shall cal you star, or moon, or sun,
Till, swallowing such warm-water verse,
Even sonnet-sippers sicken worse.



A tradução, como pode ser observada, não é exatamente literal a partir da metade do poema, mas consegue, no geral, captar a fluidez no estilo e conservar intacto o humor e a sátira de Landor. O poema, nesse caso é bem claro e é capaz de nos mostrar uma coisa sobre Landor: ele DETESTA sonetos (ainda mais em inglês: "Even sonnet-sippers sicken worse"). Em Mild is the Parting Year e na seleção do Matheus (clique aqui... sério, vá lá ler o blog dele e depois volte... eu aguardo) vemos um Landor de fina lírica, cheia de simplicidade e uma fala direta, embora não sem uma símile ou metáfora genial para abrilhantar o poema (como a relação tempo-vida em Mild is the Parting Year). Mas talvez alguns se perguntem o que Pound teria visto em Landor, e a resposta não se acha em sua lírica, mas em sua sátira. Simples, direta e sem se preocupar com temas "poéticos", Landor também adora xingar seus contemporâneos, como podemos ver nesse outro poema, que também mostra seu ódio contra sonetos:



 Sem título - Walter Savage Landor

O som de flautas preenche a estrada,
O som de flautas faz com que o calor invada
  Mais quente que graus dez;
Dê-nos sonetos, amável Mathias,
Dê-nos sonetos, secos, como se poderias
  Fazer melhor, e esfriaremos de vez.
Trad: Raphael Soares
~~~~~~~~~~~~~~~~
The piper's music fills the street,
The piper's music makes the heat
  Hotter by ten degrees ;
Hand us a sonnet, dear Mathias,
Hand us a sonnet, cool and dry as
  Your very best, and we, shall freeze.'



Esse poema Landor nunca publicou. Está em uma de suas cartas para Rose Paynter, de dezembro de 1838. Ela fala sobre poeta Thomas James Matthias, poeta irrelevante que publicou o livro acima, em tom de zombaria logo após descobrir que o autor de The Pursuits of Literature passara a escrever sonetos. Para além da provocação clara das capacidades do poeta citado, chama atenção os primeiros versos, que são clara imitação de debilidade poética (talvez do próprio citado, ou uma interpretação tortuosa delas... vejo alguma semelhança em versos como "plays I could frame, like Ireland, by the score / Could sing of gardens, yet well pleas'd to see" ou "Lords of the lyre, and fathers of the song,", mas não sou um exato conhecedor da poesia de Matthias) e não se parece em nada o estilo sóbrio de Landor. Talvez algumas leitores não consigam associar esse texto imediatamente a Pound (que talvez não tenha lido esse poema, mas tinha um pouco do "temperamento" de Landor), e por isso eu vou refrescar a memória desses eventuais leitores:



Canção à maneira de Housman - Ezra Pound

O dor, dor,
Pessoas nascem e morrem,
E nós morreremos, logo em breve,
Então vamos agir, como se estivéssemos
Já mortos.

O passarinho pousa no espinheiro
Mas morrerá também, bem altaneiro.
Alguns moços são enforcados, outros alvejados.
Doloroso é o humano agrado.
Dor! Dor, etcetera....

Londres é uma dolorosa praça,
Shrophsire é mais prazerosa.
Lá sorrimos um pequeno espaço
Sobre da natura a mórbida graça.
Oh, dor, dor, dor, etcetera.
Trad: Raphael Soares
~~~~~~~~~~~~~~~~
O woe, woe,
People are born and die,
We also shall be dead pretty soon
Therefore let us act as if we were
dead already.

The bird sits on the hawthorn tree
But he dies also, presently.
Some lads get hung, and some get shot.
Woeful is this human lot.

Woe! woe, etcetera ....

London is a woeful place,
Shropshire is much pleasanter.
Then let us smile a little space
Upon fond nature's morbid grace.

Oh, Woe, woe, woe, etcetera ...


Pois é... Pound também era assim... Embora estejamos falando de um Pound inicial, esse tipo de piada pronta, disfarce estilístico e sátira direta vai estar presente também de modo bem claro nos Cantos. Desnecessário dizer que Pound está sendo bastante injusto com Housman que, embora pareça vazio, é, de longe, um poeta superior.

Mas voltemos a Landor. O poema sobre Matthias e o poema que Augusto de Campos traduziu não são os únicos em que Landor mostra seu ódio aos sonetos. Não! ele faz questão de fazer isso muitas vezes, e para simplificar eu trago aqui um de meus favoritos, que encontro numa velha edição de poemas e cartas inéditas:



O Sonetista - Walter Savage Landor

Soneto é fácil de fazer-se em tom toscano,
E poetas constroem-os como vão andando.
Um jovem professor u'a certa vez chamado
A fazê-lo só respondeu, bem irritado:
"Não guiarei-me ao soneto enquanto eu viver,
Não tenho amante alguma, eu tenho uma mulher.
E se algo acontecer, então a minha Musa
Me salvará do apuro e não haverá recusa.
Fantasia e ternura, eu tenho o suficiente
Para essa ocasião - ela: dificilmente."
Trad: Raphael Soares
~~~~~~~~~~~~~~~~
Sonnet is easy in the Tuscan tongue,
And poets drop it as they walk along.
A young professor was invited once
To try his hand, and this was the response
' I never turn'd a sonnet in my life,
I had no mistress, and I have a wife.
If anything should happen, then the Muse
To help me at a pinch might not refuse.
Fancy and tenderness, I have enough
For that occasion — but she is so tough.'



Eu juro que esse poema é engraçado se a piada é entendida de primeira. Ou eu estou acostumado a rir de piadas bobas, sei lá.

Mas apesar de todo o ódio, toda raiva contra o soneto, Landor escreveu sonetos. Aliás, um dos seus poemas mais famosos é um soneto, embora um em versos brancos (Keats já os escrevera em inglês meio século antes), que é o poema que Landor escreveu para homenagear Robert Browning:



Para Robert Browning - Walter Savage Landor
Há prazer no cantar, não ouvirás nenhum
Para além do cantor, e há também o prazer
Na louvação, e tu, que louvas fica imóvel,
Só e vê a quem louvas longe, muito acima.
Shakespeare nosso poeta não é, mas do mundo,
Por isso, nele não há voz! e é breve a ti,
Browning! pois desde Chaucer vivo e vigoroso,
Ninguém andou por nossas ruas co'este passo
Tão ativo, ou olhar tão arguto, ou língua
Com discurso tão vário. E em clima tão mais brando
Nos dê mais clara pluma, e mais robusta asa:
Brincaste co'as Alpinas brisas, e então
Levou-os por Sorrento e Amalfi, onde a Sereia
Está a esperar por ti, cantando uma canção.
Trad: Raphael Soares
~~~~~~~~~~~~~~~~
There is delight in singing, thou none hear
Beside the singer; and there is delight
In praising, thou the praiser sit alone
And see the praised far off him, far above.
Shakspeare is not our poet, but the world’s,
Therefore on him no speech! and brief for thee,
Browning! Since Chaucer was alive and hale,
No man hath walkt along our roads with step
So active, so inquiring eye, or tongue
So varied in discourse. But warmer climes
Give brighter plumage, stronger wing: the breeze
Of Alpine highths thou playest with, borne on
Beyond Sorrento and Amalfi, where
The Siren waits thee, singing song for song.



Como já foi dito, a vida de Landor foi longa. Viveu entre 1775-1864, de modo que é apenas 3 anos mais novo que Coleridge e pôde viver até a glória dos grandes vitorianos Tennyson (foi laureado em 1850, In Memorian é de 1849, Enoch Arden e outros é de 1862, e os Idílios publicados em vários anos) e Browning (Men and Women é de 1855, Dramatis Personae é de 1864, o ano da morte de Landor). Influenciou e conviveu ativamente com todas as personalidades importantes de sua época, embora, como semi-romântico que era, sempre foi tido como excêntrico. Certa vez convidou Tennyson para um banquete em sua casa com um poema:




Sem título - Walter Savage Landor
Te imploro, Tennyson, se for do agrado,
Compartilhe minha perna de veado.
Também tenho u'a garrafa de clarete,
Melhor tomado quando há bem mais gente.
Eu sei que é uma garrafinha apenas,
Tenho no fundo adega bem pequena.
Tão certo quanto faço meus versinhos
De um Rudesheimer tenho um pouquinho.
Venha; de todo o homem, mal ou bom,
Qual é mais bem vindo que Alfred Tennyson?
Trad: Raphael Soares
~~~~~~~~~~~~~~~~
I entreat you, Alfred Tennyson,
Come and share my haunch of venison.
I have too a bin of claret,
Good, but better when you share it.
Tho' 'tis only a small bin,
There's a stock of it within.
And as sure as I'm a rhymer,
Half a butt of Rudesheimer.
Come; among the sons of men is one
Welcomer than Alfred Tennyson?



Admito que é uma tradução bem porca essa... Também não consigo captar o humor bizonho das rimas em esdrúxulas com o nome Tennyson (venison, e mais patentemente em men is one, que anuncia as rimas browningianas como went trickle/ventricle, por exemplo) que tentei reproduzir com uma intencional forçação aguda (Tennysón). O mais engraçado é que, dizem os biógrafos de Landor, Tennyson fora à casa do poeta junto de Oscar Wilde e outras figuras, e Landor não parava de falar de literatura, até que em um momento (quando saíra para buscar um livro) um dos convidados caiu e quebrou uma perna. O próprio Tennyson relata o que acontecera depois: Landor retorna com um livro de Catulo e passa a comentar sobre determinado poema como se nada houvesse acontecido, o que choca a todos.

Enfim, foi uma postagem longa e cheio de inutilidades e poemetos semi-obscuros. Despeço-me, para que a viagem não fique de todo perdida para o leitor, com uma tradução minha do poema mais famoso de Landor (vocês já leram o Blog do Mavericco, né? Pois é, há outras traduções do mesmo poema lá), Rose Aylmer (na verdade, o poema não tem título... mas sabe como são esses antologistas, né?). Diferente de muita gente, não acho nem de longe um dos melhores versos do Poeta... aliás, nem gosto tanto do poema, mas ninguém jamais vai tirar seu status antológico.



Rose Aylmer - Walter Savage Landor
Ah, que vale essa tal régia raça,
    Ah, forma do próprio Deus!
Mas quanta virtude, quanta graça!
    Rose Aylmer, tudo isso é teu.
Rose Aylmer, estes olhos despertos
    Podem chorar, não os verá,
Noites de memórias e ais, decerto,
    Irei a ti consagrar.
Trad: Raphael Soares
~~~~~~~~~~~~~~~~
Ah what avails the sceptred race,
    Ah what the form divine!
What every virtue, every grace!
    Rose Aylmer, all were thine.
Rose Aylmer, whom these wakeful eyes
    May weep, but never see,
A night of memories and of sighs
    I consecrate to thee.



quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Walter Savage Landor - Mild is the Parting Year

Ressuscitando o blog, já muitas vezes abandonado, para essa postagem de ano novo. Para falar a verdade, era para ter sido publicada no ano passado (2014), em que planejei publicar duas traduções de poemas de natal, e tanto lá quanto aqui meus planos originais não foram exatamente cumpridos. Queria publicar o poema de Christina Rossetti e o fragmento de Wordsworth (que é um fragmento conhecidíssimo de um poema que, em absoluto, ninguém lê). Para o ano, queria ter traduzido os poemas Mild is the Parting Year, de Landor e The Darkling Thrush, de Thomas Hardy. Depois que perdi o prazo, havia prometido a mim mesmo trazer os 2 juntos do poema da Dickinson de número 296 (na numeração de Johnson, que inicia com "One Year Ago"), que segundo a Unesp ainda é inédito em português. Desnecessário dizer que me esqueci da promessa, e para não perder ao menos o clima trago uma tradução do poema do Landor somente, com alguns comentários sobre o texto.

O poema de Landor não é tão irônico ou profundo como o de Hardy (e é difícil comparar com o da Dickinson que é um que, em absoluto, não sei julgar). Walter Savage Landor é, normalmente, conhecido como escritor vitoriano, amigo dos principais poetas do período, mas o fato é que Landor foi um romântico que viveu demais (nasceu apenas 3 anos de Coleridge, e muitos anos antes de Keats). Como é uma tendência da crítica romântica, devido o fato de seus maiores poetas ou terem morrido jovens (como Keats, Shelley, Biron) ou terem quase completamente parado de escrever bons poemas na velhice (como Wordsworth), tem-se a impressão de que muitos poetas menores que viveram muito tenham simplesmente se esgotado (Odorico Mendes faz um comentário até a respeito de ser a poesia coisa de Jovens e que se desgasta na velhice, mas o fato é que isso é exceção e não regra), o que ao menos no caso do Landor não pode ser verdade.

A poesia de Landor não chega a ser vitoriana em nenhum momento, seja lá quais princípios estéticos que unem e separam poetas tão díspares e gêmeos como Blunt, Tennyson, os Brownings e os Rossettis. Landor foi romântico, particularmente do tipo satírico do Byron tardio (este, herdeiro de Pope), em que se encaixam seus melhores poemas. Devido seu talento de jornalismo e ensaística, a veia satírica se sobressaía à lírica, e sua melhor e mais desigual obra, as Imaginary Conversations (que viria a influenciar um vitoriano como Browning, e não o contrário) estão neste clima de sátira, drama, jornalismo e ensaio. Odiava sonetos de todo coração, e escreveu muitos poemas atacando-os, bem como atacando a sociedade e os artistas como um todo, mas sempre num espírito romântico.

No entanto, de fato, o espírito romântico envelhece e não parece envelhecer muito bem (diferentemente dos vitorianos, que em geral tem suas obras tardias ou mediais superiores às primeiras, excetuando-se, ao meu ver, Swinburne). Porém com Landor, um romantismo velho e cansado não significa um mal romantismo. Caso similar acontece com Auden, que possui seu segundo estilo (o Auden americano, em oposição ao inglês) claramente mais "envelhecido" que o primeiro, mas não necessariamente pior nem melhor (embora existam partidários contra o primeiro, o segundo e ambos). As sátiras na obra tardia de Landor se tornam menos agressivas, porém mais sutis. A melancolia em seus últimos poemas vão se tornando mais realistas (e, por isso mesmo, mais surreais): se na juventude o poeta se via como o velho melancólico se arrependendo das coisas que não fez (ou que todos fazem, mas o jovem vê como sacrílego), na velhice é o velho tentando não se arrepender daquilo que fez ou não, e é esse o espírito deste poema de ano novo.

O poema Mild is the Parting Year foi publicado no livro Gebir, Count Julian, em 1931, porém a datação dos poemas é algo complicada e puramente especulativa. O próprio Count Julian, segundo o autor, fora escrito aos 20 anos do poeta (1795, aprox.), teve um manuscrito perdido e algumas adições ao fim do livro feitas próximo da data de publicação (mas sem dúvidas outras no próprio texto). Há claramente no livro alguns poemas anteriores à primeira versão de Count Julian (1793 deve ser o mais antigo), e muitos bem próximos da data de publicação. Rose Aylmer ainda é um poema de juventude, escrito aos 25 em 1800, enquanto Mild is the Parting Year (que é o último poema da série dedicada a Ianthe) é difícil de datar. Landor escreveu poemas a Ianthe (Jane Swift, mas idealizada e romantizada) pelo menos entre 1803 a 1829, pouco antes da publicação de Count Julian, em que publicou 31 poemas sob o título Ianthe. Minha opinião é ser esse livro sobre os fins de ano de 1829, e portanto da fase mais tardia do escritor (lembrando que, normalmente pensamos no romantismo acabando em 1824, com a morte de Byron), não apenas por ser o último poema do livro, mas pelo seu próprio estilo.

O poema é vazado em linguagem simples, e a melancolia não é tratada em termos apoteóticos. A ideia é simples: o ano está indo, com isso a vida passa e não tem volta. 3 versos do poema (1,3 e 4 da primeira estrofe) contam tudo o que o poema contém de objetivo, mas o resto do poema é de uma sutil beleza e imagística paradoxal. O orvalho que está caindo (enquanto o ano ainda não foi, mas está partindo) tem um aroma doce, mas o dia partindo não tem aroma (bálsamo significa remédio e perfume aqui: o dia que se vai é sem remédio, mas também sem perfume em oposição ao orvalho que cai antes do ano se ir).

O aguardar do poeta na segunda estrofe é sintaticamente ambíguo. O poeta aguarda que chegar ao fim? O dia (e por tabela, o ano) ou a vida, já que ambas foram tratadas no parágrafo anterior? Há a associação do fim da vida, e o poeta está pronto para ir, aguarda o fim e namora o terror e escuridão que dela advém. Por fim, temos a cereja do bolo do poema. O que me faz ver Landor como um romântico desgastado, mas grande. Uma fina ironia e paradoxo no seu último grito, o lamentar não ter lamentado. O lamento, que poderia tudo acalmar não cairá mais nem no peito (nem no corpo, fisicamente, durante a vida) e nem na tumba. É o único lamento do poeta: a falta do lamento.



Mild is the Parting Year - Walter Savage Landor

Mild is the parting year, and sweet
         The odour of the falling spray;
Life passes on more rudely fleet,
         And balmless is its closing day.

I wait its close, I court its gloom,
         But mourn that never must there fall
Or on my breast or on my tomb
         The tear that would have soothed it all.

Leve é o Ano que se Vai - Walter Savage Landor

Leve é o ano que se vai, e é doce
         O odor do orvalho que agora cai;
Em correria rude a vida foi-se,
         E sem bálsamo é o dia que se vai.

Aguardo o fim, namoro sua penumbra,
         É triste que não vai cair jamais
Seja em meu peito ou seja em minha tumba
         O que acalmaria tudo: os ais.
Trad: Raphael Soares

domingo, 12 de abril de 2015

As traduções da Eneida de Virgílio, pt.III - Odorico Medes

Estou de volta depois de mais um mês sem postar nada. Como os poucos que me leem já devem ter percebido,  sou péssimo em matéria de cumprir minhas palavras em relação ao blog, mas o que fazer? Ninguém me obriga! Retomo agora os comentários sobre as traduções da Eneida de Virgílio em português, agora com a tradução do maranhense Manuel Odorico Mendes. As duas primeiras traduções eram portuguesas (desconsiderando a tradução de Da Costa e Silva e de outro que nunca lembro, que não pude ler ainda), e as duas seguintes por brasileiros nascidos no Maranhão, a Atenas Brasileira.

Manuel Odorico Mendes nasceu em São Luís (Luiz, na época) em 1799 e morreu em 1864 em Londres. Foi um dos primeiros escritores românticos do Brasil, e sobreviveu a vários, embora não tenha vivido tanto. Fora louvado por grande parte dos escritores de sua época, entre eles Sílvio Romero e Machado de Assis, como poeta particularmente pelo poema Hino à Tarde, super popular no século XIX. Como tradutor, nossos dias tem atribuído falsamente  a ideia de que não era apreciado, por conta das críticas que Silvio Romero fez de suas traduções de Virgílio e Homero, e da mania que temos de acreditar, hoje, que Haroldo de Campos "descobriu o Brasil", trazendo "à luz" (a expressão corrente é essa mesmo) poetas revolucionários que ninguém (a modalização corrente é essa mesmo) apreciava, como o tradutor Odorico Mendes e os poetas Sousândrade e Pedro Kilkery (eu juro que ouço muito isso... mesmo...). Não vou me ater a quanto ao caso Sousândrade (mais grave, ao qual os irmãos Campos deram muitíssimas contribuições para o caráter Mainstream do poeta, embora também sejam responsáveis pelo fato de que não se lê nem se edita mais nada que não seja O Guesa), mas especificamente ao caso Odorico: a 1ª edição da Eneida vendeu pornograficamente bem, e o autor a viu reeditada inúmeras vezes em vida (e isso no século XIX); a tradução de Odorico sempre foi a mais popular em português, desde sua primeira edição, e inúmeros escritores apontam, ininterruptamente, o valor que os críticos da época davam a obra. Eis a declaração de Machado de Assis, em 1964/65:

Odorico  Mendes  é  uma  das  figuras  mais imponentes  de  nossa  literatura.  Tinha  o  culto  da  antiguidade,  de  que  era,  aos  olhos  modernos, um intérprete perfeito. Naturalizara Virgílio na língua de Camões; tratava de  fazer o mesmo ao divino Homero. (Grifo meu)

E a de Silveira Bueno, 90 anos depois:

Neste ponto, houve-se o tradutor maranhense com a mesma habilidade com que se houveram os italianos, os franceses: não só traduziu, mas, especialmente, colaborou, num grande esforço de adaptação vocabular. Como já havia feito Camões, passou diretamente do grego para o português palavras e palavras, sem a menor adequação fonética. Outras vezes, compôs, com elementos gregos, vocábulos que correspondessem ao termo intraduzível por não encontrar correspondente nos dicionários da língua portuguesa. Nunca o fez, porém, irrefletidamente: procurou sempre apoiar-se nos clássicos do nosso idioma e quando estes falharam, nos tradutores que o haviam precedido, principalmente, no italiano Ippolito Pindemonte. (No prefácio para a Odisséia, de 1954)

Enfim, se há muitas observações negativas (e o há também em Campos), é pelo fato de que nenhuma tradução escapa a isso.




Enfim, falei tanto e não cheguei a Obra. Como o de costume, e creio que para a maioria das pessoas que já tiveram a vontade de ler a Eneida, muito provavelmente leram primeiro pela edição de Odorico Mendes, tanto por ela ser a mais popular, como por existir em edições variabilíssimas, para todos os bolsos. Não foi diferente para mim: o primeiro contato que eu tive com a Eneida de Virgílio foi na tradução de Odorico Mendes, na insimpática edição da Jackson que contava com a curiosíssima versão das Geórgicas, em tradução de Antônio Feliciano de Castilho (um dia falo mais dele por aqui... ou não... não prometo nada). Li-o a pouco mais de 4 anos atrás (tinha 18, até então), e logo depois tive a oportunidade de ver, em Belém, Dido e Enéias, de Purcell. Mesmo lendo a obra até o fim e apreciado muito o livro como todo, achava muito curioso como Eneias tornaria-se o modelo de herói, sendo um herói tão interessante quanto uma inflamação no apêndice (a célebre anedota de Yeats conheceria muito tempo depois, então apresentava-o com uma mais ou menos parecida com essa), e achava ainda mais curioso Purcell ter escolhido os romance de Dido e Enéias para sua ópera.

Não digo com tudo isso que a Eneida é desinteressante ou que a tradução de Odorico Mendes é ruim, o que de maneira alguma o é, mas que, na ocasião da leitura, esperava uma série de coisas que não vi na obra virgiliana, principalmente com respeito ao herói Eneias. Com o tempo e as subsequentes leituras da Eneida em várias traduções (e recente releitura de todas), vi que Eneias continua um belo chute nas bolas, mas se existe uma tradução em que a figura do herói fica ainda mais fraca e desinteressante, essa é a tradução de Odorico Mendes. Particularmente no que tange as maiores qualidades da tradução de Odorico, a saber sua concisão, energia vocabular, alternâncias sintáticas e léxico inaudito - características que são hora vistas como "monstruosidades escritas em português macarrônico" ora como "provas de bom senso e mérito poético", ora como "inovações grandiosas à poética nacional" ora como "sempre de acordo com a tradição dos clássicos"; não dá para entender os críticos, de qualquer modo - tais qualidades não conseguem ser qualidades em todas as ocasiões. Explico: a concisão mendeana (não sei se a concisão em si) não ajuda nas passagens das cenas de Dido e Eneias (e também não combinam com a imaginada grandiloquência e suposta precisão das ordens de Jove, mas isso é outra coisa). Dido, na tradução de Odorico Mendes chega a ser superior à personagem de Eneias (e o parece ser na própria peça, ao menos os comentaristas modernos tendem a essa opinião... a visão moderna dos antigos tem dessas coisas), mas apenas nos seus momentos mais vigorosos de ódio, enquanto é morna, em matéria de linguagem, nas cenas de amor (isso comparado principalmente às outras traduções, e apenas em matéria de qualidade do texto em português, e não em "fidelidade em si", o qual muito provavelmente a tradução de Odorico ganha apenas da de Franco Barrento). Consigo extrair dois momentos super brilhantes da tradução de Odorico, referente à personagem Dido:
Nem mãe deusa, nem Dárdano hás por tronco;
Gerou-te o Cáucaso em penhascos duros,
Traidor! mamaste nas hircanas tigres.
Que dissímulo? a que desdém me guardo?
Deu-me ao pranto uma lágrima, um suspiro?
Da amante se doeu? dignou-se a olhar-me?
Que afronta é mais pungente?... Ah que até Juno
Nem Satúrnio isto vê com retos olhos.
Fé segura não há. Náufrago e pobre
O recolhi, demente o pus no trono,
Do estrago as naus remi, da morte os sócios.
[...] Com negro facho ao longe hei-de acercar-te;
E, quando a morte fria aos órgãos solva
O almo alento, ser-te-ei contínua sombra,
Terás o pago, hei-de, perverso, ouvi-lo,
A nova há-de baixar-me ao centro escuro.
 E também a clássica cena do suicídio:
[...] Em cróceas penas,
Cambiando cores mil do Sol oposto,
Róscida a núncia vem parar sobre ela:
"O tributo a Plutão mandada levo;
Do corpo eu to desligo." Disse, e o corta:
Foi-se o calor e evaporou-se a vida.
E com ambas as cenas dá para se imaginar o como a concisão afeta a linguagem da personagem, bem como são muito características da linguagem mendeana na tradução.


Como falar muito sempre cansa, não vale a pena comentar muito sobre como Odorico Constrói cada cena, e em quais o seu sucesso é maior e qual o menor em comparação com outros tradutores (talvez fale mais dos aspectos militares ao falar da tradução de Carlos Alberto Nunes; digo talvez porque sempre escrevo no improviso e num chute neste blog, por isso não garanto que me lembre ou que ache interessante na hora em que estiver escrevendo). Nem há tanto mais o que falar da versão de Odorico, pois todos a leem (tá legal, Virgílio não está muito em alta esses tempos) e muito já foi dito dessa tradução, que de longe também é a mais estudada, embora eu particularmente tenha minhas implicâncias com algumas considerações meio "lugares-comuns" a respeito dela (citando uma: Odorico Mendes é O precursor da "tradução criativa" no Brasil). De longe, o maior mérito de Odorico é construir uma tradução profundamente poética em alguns momentos, que nos traz grande prazer pelo confronto com o livro (lê-lo é uma pequena batalha, mas saborosa) e a incrível coincidência de que todas as suas qualidades citadas (ou defeitos, para alguns) causam um efeito incrível e poderoso nas passagens da deusa Juno, o que pode explicar o sucesso da tradução mesmo em épocas que poderia-se esperar o desprezo. Até hoje, a passagem que mais gosto, em todos esses anos e em todas as 4 traduções da Eneida a que tive acesso, é a passagem que postei para comparação em todas as versões comentadas, e na qual a de Odorico Mendes sai-se incrivelmente superior às demais. São as últimas palavras da deusa Juno no livro. Deliciem-se, como eu sempre me deliciei com essa passagem, que me congela a espinha:
E submissa contesta a irmã Satúrnia:
“Teu querer conhecendo, eu constrangida
Abandonei, senhor, a Turno e o mundo;
Senão, curtindo ultrajes, não me viras
Neste ar sozinha, mas na ação, de flamas
Cingida, em prélios consumindo os Frígios.
Sim, a ajudar o irmão suadi Juturna;
Louvei que por salvá-lo ousasse tudo,
Mas não que de arco e setas contendesse:
Da implacável Estige à fonte apelo,
Jura tremenda aos superiores numes.
Desisto alfim; batalhas já me enojam.
Favor obsecro não sujeito aos fados,
Pede-o Itália e dos teus a majestade:
Casamentos embora a paz componham,
E leis o pacto asselem; não permitas
Que os Latinos indígenas, perdido
O antigo nome, Teucros se apelidem,
Nem mudem língua e trajo. Eterno viva
O Lácio, os reis Albanos; herde Roma
O itálico valor, propague e brilhe:
Tróia acabou, também seu nome acabe."
Uma passagem grandiosa, digna de uma epopeia clássica (embora, ao que me parece, o texto latino [que pode ser achado no comentário à tradução de Barrento] é menos incisivo e a fala de Juno soa mais submissa, mas não sou um grande latinista, e isso nem me importa). Nesses versos recaem toda a grandiosidade de Juno, e é o sumo das qualidades de Odorico Mendes tradutor. Ainda tenho a esperança de que a Eneida venha ser mais lida, bem como novas traduções saiam e as clássicas sejam reeditadas, mas a edição de Odorico ainda é, e deve ser, uma daquelas versões que sempre podemos ler e encontrar. Não esperem o comentário da última tradução, comprem imediatamente uma Eneida, em verso, claro. Na próxima teremos a última postagem, sobre a tradução de Carlos Alberto Nunes.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

William Stevenson or John Still [atrib.] - Jolly Good Ale And Old

Encerrando o mês das cervejas sem muitas publicações: os excessos do carnaval não me permitiram dedicar muito tempo ao blog, e o inicio das atividades do mestrado devem manter-me um pouco afastado. De qualquer modo, compenso com mais um poema sobre esse néctar dos deuses que é a cerveja, que povoou toda a literatura do ocidente e do oriente, dos persas e sumérios até os dias de hoje. "Jolly Good Ale and Old" é considerado uma das melhores e mais populares canções sobre cerveja da literatura inglesa, e um dos fragmentos teatrais pré-elizabetanos mais famosos.

O poema traduzido faz parte de uma antiga comédia inglesa chamada "Gammer Gurton's Needle", que é considerada a segunda mais antiga comédia escrita no idioma inglês (a primeira seria Ralph Roister Doister, ao menos segundo a Wikipédia, já que meus dois livros de literatura inglesa sequer falam de qualquer uma das duas peças). É a canção que abre o segundo ato da peça, que foi publicada anonimamente e só muito mais tarde foi atribuída a "Mr S. Mr of Art" do Christ's College, Cambridge. Durante bastante tempo o escritor John Still foi identificado como autor por ser o único mestre em artes com nome iniciado em "S", mas algum tempo depois encontrou-se o nome de William Stevenson, que também tornou-se sacerdote, e era reputado como autor de peças, embora não haja nada que o ligue nominalmente a "Gamer Gurton's Needle". É portanto Stevenson e Still as mais sólidas atribuições de autoria desse poema, já que o terceiro candidato, Dr John Bridges, dificilmente poderia ser descrito como "Mr S", bem como adquiriu seu mestrado em outra instituição. De qualquer modo, prefiro a atribuição dupla a atribuir o texto como sendo de Anônimo (esse carinha que fez obras magníficas em várias línguas e tem uma longevidade fascinante... deviam fazer uma antologia poética de suas obras), que já tem muitas obras espúrias dadas em seu nome. De qualquer modo, não temos a menor certeza das atribuições de obras da antiguidade e ainda continuamos atribuindo a seus autores tradicionais, então não vejo porque não atribuir o texto ou a Stevenson ou a Still. De qualquer modo, vamos ao texto.

(a peça inteira, em inglês antigo pode ser encontrada aqui: https://play.google.com/store/books/details?id=3IRKAAAAYAAJ&rdid=book-3IRKAAAAYAAJ&rdot=1 a versão que me utilizo possui a grafia atualizada, e é de antologia)



Jolly Good Ale and Old - Willian Stevenson ou John Still

      Back and side go bare, go bare;
      Both foot and hand go cold;
      But, belly, God send thee good ale enough,
      Whether it be new or old.

I CANNOT eat but little meat,
  My stomach is not good;
But sure I think that I can drink
  With him that wears a hood.
Though I go bare, take ye no care,
  I nothing am a-cold;
I stuff my skin so full within
  Of jolly good ale and old.
      Back and side go bare, go bare;
      Both foot and hand go cold;
      But, belly, God send thee good ale enough,
      Whether it be new or old.

I love no roast but a nut-brown toast,
  And a crab laid in the fire;
A little bread shall do me stead;
  Much bread I not desire.
No frost nor snow, no wind, I trow,
  Can hurt me if I wold;
I am so wrapp’d and thoroughly lapp’d
  Of jolly good ale and old.
      Back and side go bare, go bare, &c.

And Tib, my wife, that as her life
  Loveth well good ale to seek,
Full oft drinks she till ye may see
  The tears run down her cheek:
Then doth she trowl to me the bowl
  Even as a maltworm should,
And saith, ‘Sweetheart, I took my part
  Of this jolly good ale and old.’
      Back and side go bare, go bare, &c.

Now let them drink till they nod and wink,
  Even as good fellows should do;
They shall not miss to have the bliss
  Good ale doth bring men to;
And all poor souls that have scour’d bowls
  Or have them lustily troll’d,
God save the lives of them and their wives,
  Whether they be young or old.
      Back and side go bare, go bare;
      Both foot and hand go cold;
      But, belly, God send thee good ale enough,
      Whether it be new or old.


Boa e Velha Cerveja - William Stevenson ou John Still

      Vamos, vamos, desregrados;
      Gelados os pés e as mãos;
      Não importa, se Deus mandar cerveja,
      Nova ou velha, tomamos!

Não posso comer u'a carne sequer
  Meu estômago vai mal;
Mas estou a crer que posso beber
  Com ele, de capuz tal.
E vou desregrado, nenhum cuidado
  Não estou gelado, veja!
Preencherei, insisto, a mi'a pele co'isto:
  A boa e velha cerveja.
      Vamos, vamos, desregrados;
      Gelados os pés e as mãos;
      Não importa, se Deus mandar cerveja,
      Nova ou velha, tomamos!

Não quero assado, mas torrada,
  E um siri no fogão;
Algum pão servir então;
  Não quero tanto pão.
Sem gelo, vento ou neve, penso,
  Ferirei-me? Que seja!
Me envolve a mente, e completamente,
  A boa e velha cerveja.
      Vamos, vamos, desregrados.

E Tib, minha esposa querida,
  Cervejas tem procurado,
Faz, por vezes, drinques, pois vejas
  Lágrimas no rosto amado:
Quando ela passa e serve uma taça
  Como um porre deseja,
E diz, destarte: - Amor, peguei minha parte
  Dessa boa e velha cerveja. -
      Vamos, vamos, desregrados.

Pois deixe-os tomar, 'té cumprimentar,
  Como os manos devem fazer;
E será verdade, a felicidade
  Que a cerveja vem trazer;
E as taças as almas, buscando com calma
  Ou as têm sob controle,
Deus salve suas vidas, também suas queridas,
  Se jovens ou senhores.
      Vamos, vamos, desregrados;
      Gelados os pés e as mãos;
      Não importa, se Deus mandar cerveja,
      Nova ou velha, tomamos!

Trad: Raphael Soares

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Joyce Kilmer - Trees e uma paródia: Beers.

Hoje passo aqui bem rápido. O carnaval acabou me impedindo de publicar dia 10, e ainda tive os preparativos da viagem. Hoje, especial para o carnaval posto um poema famosíssimo de Joyce Kilmer, que ao lado de The Raven de Poe e The Road not Taken de Robert Frost, é um dos poemas mais famosos escrito por um norte americano. E uma paródia clássica e anônima dele, que fala sobre a Cerveja.


Trees - Joyce Kilmer

I think that I shall never see
A poem lovely as a tree.
A tree whose hungry mouth is prest
Against the earth's sweet flowing breast;
A tree that looks at God all day,
And lifts her leafy arms to pray;
A tree that may in Summer wear
A nest of robins in her hair;
Upon whose bosom snow has lain;
Who intimately lives with rain.
Poems are made by fools like me,
But only God can make a tree.



Beers, a spoof of Joyce Kilmer’s Trees - Anon

I think that I shall never hear
A poem lovely as a beer.
A brew that’s best straight from a tap
With golden hue and snowy cap;
The liquid bread I drink all day,
Until my memory melts away;
A beer that’s made with summer malt
Too little hops its only fault;
Upon whose brow the yeast has lain;
In water clear as falling rain.
Poems are made by fools I fear,
But only wort can make a beer.


Árvores - Joyce Kilmer

Eu penso que não há quem veja
Verso que qual árvore graceja.
Árvore que põe sua faminta
Boca a beber a terra infinda;
Árvore, a Deus todo dia,
Levanta as mãos e louvaria;
Árvore que no árido estio
Um ninho de melros construiu;
Sobre seu seio a neve jaz;
Vivendo co'a chuva que cai.
Tolos fazem versos, mas veja
Que só Deus uma árvore enseja.

Trad: Raphael Soares


Cervejas, uma paródia de Árvores de Joyce Kilmer’s

Eu penso que não há quem veja
Um verso amável qual cerveja.
Breja direto da torneira,
De áureo tom, também nívea beira;
Pão líquido de todo dia,
Até que a mente se esvazia;
Cerveja com malte do estio,
Pouco lúpulo, oh desvio!;
Sobre ela o fermento jaz;
Com água qual da chuva que cai.
Tolos fazem versos, mas veja
Que só o mosto faz cerveja.

Trad: Raphael Soares