quarta-feira, 29 de julho de 2020

Antilogia i-tradutória da poesia latina tardia [pt. 1] - Poetas Anônimos

Há um grande problema no estudo da literatura latina, um problema que é extremamente óbvio para qualquer um que pensa a seu respeito, mas por uma razão ou outra não pensamos. O latim foi sistematicamente usado como principal forma de expressão literária no ocidente desde os tempos clássicos até o renascimento, o que dá em torno de 1500 anos de literatura, mas quando falamos de "literatura latina" (particularmente poesia) quase sempre nos restringimos a um período de duzentos anos indo de Lucrécio a Marcial. O renascimento, a despeito de seu monumental esforço em resgatar e comentar os clássicos, é um dos principais culpados dessa negligência, por conta do desprezo geral que o período teve em relação à era medieval. Com isso surgiu uma ideia geral de decadência do "Latim de Ouro", para um inferior "Latim de Prata" e um deplorável e decadente "Latim Medieval", relegando o latim tardio a um irrelevante meio.

Antes de qualquer coisa, essa postagem não pretende criar uma revisão violenta de valor, alegando que o latim tardio (e seus autores) é, de algum modo, superior ao clássico, e não por concordar ou discordar com a periodização e o julgamento de valor recebido, mas unicamente porque o latim clássico tem Virgílio, o que faz qualquer disputa um caso perdido. Mas do mesmo modo que é necessário que nós estudemos não-Virgílios, pelas mais diversas razões, não é mais justificável, em nosso tempo, ignorar mais de mil anos de história literária baseado nos preconceitos de nossos avós intelectuais. Precisamos conhecer a literatura latina tardia, e precisamos conhecer a literatura latina medieval, seja para reforçar ou rejeitar os juízos recebidos. Não é possível avaliar propriamente algo que não conhecemos, e no presente momento conhecemos muito pouco.

Essa antilogia foi influenciada por dois livros que não poderiam ser mais díspares em seleção e método. O primeiro é o Medeias Latinas de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, que na minha opinião é o melhor livro de poesia latina publicado nos últimos anos (a despeito do latim horrendo e porcamente revisado da edição), que ao construir uma seleção baseada em tema deu espaço particular para a poesia da antiguidade tardia, o que me chamou atenção e me comoveu profundamente pela qualidade do que eu li, seja pelo talento do tradutor, seja pelo interessante valor agregado dos próprios textos escolhidos. O segundo foi o Poesia Tradução e Versão de Abgar Renault, que me ensinou duas coisas importantes para me encorajar a escrever e traduzir esses poetas, a de que mesmo uma tradução ruim é melhor do que tradução nenhuma, e que mesmo em poesia é possível que uma má tradução, que apaga muito da mágica positiva do poema, ainda traga um pouco do que é bom do poeta. Já informo que todas as traduções aqui que forem minhas provavelmente serão ruins, feitas um tanto às pressas e organizadas quase aleatoriamente por um amador sem amor ou talento, mas eu espero que a exposição ao menos sirva para criar um diálogo ou chamar atenção para o período. Se meu violento abuso e presunção na terra das musas ofenderem tanto o leitor, espero o encorajar a salvar a dignidade da língua latina oferecendo uma versão melhor, ou melhores poemas que os casualmente selecionados por mim.

Comecemos a jornada...


Manuscrito musical do Disticha, Sec. XIII
- Disticha Catonis (Sec. III-IV)
Se o objetivo for unicamente fazer as pessoas se interessarem pela poesia tardia, Disticha Catonis é um péssimo ponto de partida. A obra, atribuída tardiamente a um Dionísio Catão (porém o nome é um equívoco, por associação à Catão, o velho), não agrada mais nosso paladar moderno. A obra não é o que conhecemos hoje como poesia, sendo basicamente moral versificada, e embora as viradas dos séculos parecem reviver a preferência à leitura moralizante das obras, e embora nosso próprio século parece estar engajado em ler obras exclusivamente pelo "valor moral", ou pela "agenda" que o autor e obra trazem, "cancelando" tudo aquilo que for condenado, o nosso século não está muito apto a aceitar os valores morais de dos velhos latinos. A despeito de ser muito difícil hoje em dia de ver a Disticha como grande poesia ou mesmo grande moral, é muito importante lembrar que esse foi provavelmente o texto latino mais influente na educação medieval e mesmo na educação moderna. Todos leram os Dísticos, todos parafrasearam os Dísticos, e muitos autores genuinamente os consideravam grande poesia ou grande moral. De resto, vão umas versões:

Livro I. 21 (Trad: Ary de Mesquita)
Infantem nudum cum te natura crearit,
paupertatis onus patienter ferre memento.
Fazendo o homem nascer sem roupa, a natureza
Ensina a suportar o fardo da pobreza.
Livro II. 11 (Trad: Ary de Mesquita)
Aduersum notum noli contendere uerbis:
lis uerbis minimis interdum maxima crescit.

Evita discutir com pessoas amigas:
De tolas discussões, às vezes, surgem brigas.
Livro III. 3 (Trad: Ary de Mesquita)
Productus testis, saluo tamen ante pudore,
quantumcumque potes, celato crimen amici.

Obrigado a depor contra um amigo, evita
Mostrar-lhe a falta enquanto a honra to permita.
Livro III. 4 (Trad: Raphael Soares)
Sermones blandos blaesosque cauere memento:
simplicitas ueri forma est, laus ficta loquentis.

Cuidado com lisonja indiscriminada:
Louvores faz o falso, franqueza a verdade.
Livro IV. 5 (Trad: Raphael Soares)
Cum fueris locuples, corpus curare memento:
aeger diues habet nummos, se non habet ipsum.
Quando te enriquecer da saúde vá cuidar:
Ou adoecer, tendo vinténs para gastar.
Livro IV. 19 [?] (Trad: Ary de Mesquita)
Disce aliquid; nam cum subito Fortuna recessit,
ars remanet uitamque homnis non deserit umquam.
Deve ter profissão a própria gente rica:
Os bens se podem ir, mas a profissão fica.
Bônus Round:
Livro I. 17
Ne cures, si quis tacito sermone loquatur:
conscius ipse sibi de se putat omnia dici.
Chaucer (Trad: José Francisco Botelho)
Aproximou-se. Disse assim Catão:
Quem tem culpa a pesar no coração
Suspeita sempre da conversa alheia.
A diferença do original para a "tradução" Chauceriana se dá pela leitura medieval de "conscius ipse sibi" (consciente de si, que conhece bem a si) como pessoa culpada, com senso de culpa. Mas isso é assunto para outra ocasião.


Cópia do livro disponível para a leitura aqui.

- Epigrammata Bobiensia (~400 A.D.)
Essa coleção da antiguidade tem uma boa e longa história, do tipo WTF... Essa coleção de poemas foi produzida ainda na antiguidade, no início do século V (Naucellius, autor de alguns poemas da coleção, ainda estava vivo, e possivelmente Claudiano também), e o livro sobreviveu à idade média até que uma cópia dele (possivelmente do século VII), a única, foi encontrada em Bobbio em 1493. Até então, os editores só se interessaram por um poema atribuído a Sulpícia, e por alguma razão aleatória e inexplicável Avantius resolveu atribuir vários dos poemas Anônimos à pena de Ausônio, e depois disso o manuscrito se perdeu. Como o livro havia se perdido e não sabíamos exatamente quais os critérios para a atribuição dos poemas, esses poemas permaneceram sendo editados como se fossem de Ausônio até que no meio do século XX Augusto Campana encontrou uma cópia (aparentemente com algumas omissões) da coleção em meio aos manuscritos do Vaticano (Vat. Lat. 2836), e então a obra inteira pode ser lida, avaliada e as atribuições de autoria confirmadas ou questionadas.

A Epigrammata Bobiensia (que não é uma coleção de epigramas, e ironicamente sobrevive em um manuscrito do Vaticano, não de Bobbio) é uma miscelânia antiga, construída por poetas competentes, embora muito da coleção é tradução de poemas da Antologia Grega, alguns dos poemas (como o 6, o 36-37 ou 70) só podem ser latinos; além do mais, uma das traduções é muito interessante também, como veremos, por "traduzir" a primeira linha da Ilíada como "arma virumque". Aqui vão alguns poemas da Bobiensia, que certamente não são de Ausônio. Apenas mencionando que Bob. 53, em tradução do Gouveia, é referido por ele como Ausônio Ep. 129, baseado na edição bipontina (o poema certamente não é de Ausônio, mas circulou com os textos do poeta até a redescoberta do codex), porém estou apresentando uma versão mais correta, já que a edição Medeias Latinas apresenta non digna est no verso 7, que na verdade é um erro de digitação para nan digna da edição Bipontina, que o tradutor usa, enquanto eu imprimo o indigna (-a sensum 'valde digna' attribuentes, ThLL) dos manuscritos, que não me convence muito, mas pode justificar melhor a tradução.

Bob. 7 [Trad: Raphael Soares]
[In marmoreum signum]
E marmore hanc me carneam effinxit Scopas,
Baccham euhiantem. tange: digito cesserim.
de mármore formastes a mim tal carne, Escopas,
Bacante boquiaberta!. Toque e eu recuarei.
Bob. 47 [Trad: Raphael Soares] 
De matrimonio grammatici infausto
"Arma uirumque" docens atque "Arma uirumque" peritus
non duxi uxorem, sed magis arma domum.
namque dies totos totasque ex ordine noctes
litibus oppugnat meque meumque larem
atque ut perpetuis dotata <a> matre duellis
arma in me tollit nec datur ulla quies.
iamque repugnanti dedam me, ut denique uictus
iurger ob hoc solum, iurgia quod fugiam.
"As armas e os barões" ensino, "As armas..." douto,
As armas, não mulher, à casa trouxe.
Pois todo santo dia e toda santa noite
assalta a mim e ao lar com seus litígios
Porque a mãe por dote deu duelos eternos
armada contra mim sem dar descanso.
Desisto de lutar, enfim, só assim que venço,
Só essa queixa: a de fugir das queixas.
Bob. 53 [Trad: Gouveia Jr.]
In Medeae imaginem
Medeam uellet cum pingere Timomachi mens
uoluentem in natos crudum animo facinus,
immanem exhausit rerum in diuersa laborem,
fingeret adfectum matris ut ambiguum.
ira subest lachrymis, miseratio non caret ira:
alternum uideas ut sit in alterutro.
cunctantem satis est: indigna* est sanguine mater
natorum, tua non dextera, Timomache. 
Quando Timômaco u'a Medeia quis pintar,
com crueldade intentando o crime contra os filhos,
realizou grande esforço em coisas diferentes,
para representar o ambíguo amor materno.
Há compaixão na ira, há ira sob as lágrimas -
o que vires em um, assim seja no outro.
Está muito exitante: a tua mão não merece
ó Timômaco, u'a mãe com o sangue dos filhos.

Bônus Round:
Bob. 70
In Romulum
M mutaris et R sedes si, Basse, notarum
nominis, altae Urbis moenia qui statuit,
alternasque ueli
s apicum †a se† scribere uoces,
Morulus hac fuerit, qui nunc est Romulus, arte.
 Assim na edição de Speyer, do link postado. Esse poema eu apresento como uma provocação e convite à leitura, tradução, e imitação. O poema é de cara interessante por gênero e estrutura: o gênero é um tipo de poema conhecido como lusus in nomine (lit.: brincadeira partindo do nome), havendo mais outros exemplos na própria Epigrammata, como Bob. 41 e Bob. 61, ou integrado em poemas maiores, como em Carmen Pascale de Sedulius (Convenit Heliae! meritoque et nomine fulgens | Hac ope dignus erat: nam si sermonis Achivi | Una per accentum mutetur littera, sol est. I. 185-7), em que Elias (lat. Heliae) se torna o próprio sol (gr. Helios) com a mudança de uma letra em pronúncia Argiva. A forma é um caso curioso de dois estilos métricos inseridos no poema, sendo um dístico elegíaco seguido de um dístico em hexâmetros. Por conta do conteudo do poema, podemos estar certos de que não é tradução ou imitação latina, mas uma composição nova dentro do gênero e que necessariamente foi composta em latim (mesmo que o autor seja grego ou falante primário do grego, como Claudiano ou Ausônio, a composição é original latina) por alguém que dominava a língua grega, já que o jogo de palavras envolve a alternância das letras M e R do nome Romulus, para construir a palavra grega Morulus (μωρός; Morulus é latinização, como se fosse um cognomen). Speyer sugere a autoria de Anicius Probinus, mas não possui qualquer base sólida, e embora esse é, de todos os epigramas da coleção, o mais "Ausoniano" deles, quase certamente não é de Ausônio também, ou ao menos não há qualquer base para essa atribuição, contudo, sendo de um poeta romano que não veio da Gália esse seria o único exemplo de poema polimétrico conhecido que não foi escrito por autor gálico. Vamos tentar falar dos versos.

1-2 "M mutaris et R sedes si...notarum | nominis": Basicamente qual o início do jogo do poema. Aqui eu vou chamar atenção primeiro para a prosódia, e o fato de que embora "m" e "r" sejam apenas consonantes e com a pronúncia com vogais curtas, o fato de serem consideradas "semivogais" (em terminologia latina) faz com que a pronúncia sega "em" e "er" (ao invés de "me" ou "re", ou os portugueses "eme" e "erre") tornando as vogais longas por posição. A construção "mutaris sedes" é algo relativamente simples de entender no discurso. De resto, "notarum" tem o sentido de "das letras".

2 "altae Urbis moenia": Construção poética tradicional, dando ênfase épica ou solene. Ex: "moenia mundi" + adj (Lucretius, repetidas vezes); "altae moenia Romae" e "incluta...moenia Dardanidum" e outras (Virgílio); "Romulus aeternae nondum formauerat urbis | moenia" (Tibullus); "Karthaginis alta moenia?" (Valerius Maximus).

3 "alternasque uelis apicum †a se† scribere uoces". O manuscrito apresenta "velit", que é facilmente corrigido para "velis". "uox" significa novamente as letras, a pronúncia, escrita. O texto da tradição permanece extremamente complicado, por conta de que "a si" não chega a trazer exatamente um sentido, e, de fato, as vozes escreverem "a si" parece muito mais indicar a forma "correta", ou sendo tautológico ao se referir à forma alternada. Zicàri propôs "apicum has excribere", que é paleologicamente provável e em teoria tem um bom sentido, contudo, embora a alegação do comentarista de que "excribere" como composto pode significar algo como "inverter" (referindo-se a has, "tais letras em específico") é algo que faz sentido e há paralelos, mas todos esses paralelos sempre fazem referências ao fato de copiar diretamente um texto, produzir uma cópia. A solução mais simples me parece ser a de Courtney "apicum rescribere", que tem o sentido atestado que parece correto. Deixo, claro, para o leitor decidir. Minha intuição, provavelmente falsa é que ao invés de †a se† devêssemos ler "nam" (porque, porque está scribere), e "scribere" com o sentido de "registrar", oficializar, fazemos com que Morulus, o idiota, se torne Romulus, o rei e imperador de Roma; contudo devo estar lendo Anne Carson demais.



Anthologia Latina, Riese. Cópia aqui.
- Anthologia Latina
A única coleção conhecida da antiguidade que chegou ao nosso tempo foi a Epigrammata Bobiensia, e, portanto, não existe uma "Antologia Latina" no mesmo sentido que existe uma "Antologia Grega". Contudo, várias antologias, florilégios e coleções foram feitas durante o período medieval, com diversas finalidades (quase nunca puramente artísticas), e por conta da parca sobrevivência dos textos clássicos, quando os críticos modernos começaram a organizar os textos latinos (como Veterum Poetarum Catalecta do Scaliger, até a Anthologia de Burmann) o objetivo não foi o de preservar o que de melhor existia em matéria de poesia latina para a posteridade, mas coligir tudo o que fosse possível de encontrar para preservar, mesmo que não fosse de grande valor literário. A consequência disso é óbvia, e faz com que, em termos gerais, a Anthologia Latina não seja nem de longe comparável em valor que a contraparte grega, e de certo modo não podemos nem mesmo chamá-la de antologia. Alexander Riese publicou a primeira recensão e organização crítica dos textos, e até o presente momento é ainda a única (não vamos falar da tentativa de Shackleton Bailey... Podemos fingir que ela simplesmente nunca aconteceu, para não manchar a imagem do grande crítico). Porque não podemos falar de uma Anthologia Latina, eu decidi então falar de um único poema, Anônimo, da mesma.

O poema que vou traduzir é o 130 (Riese, III. 171 de Burman), que está presente num dos mais antigos códices que temos (Codex Salmasianus, ou Codex Parisinus Lat. 10318), é um poema que antecede o 5º século (se crê que a coleção de poemas do Codex seja cópia de uma coleção composta na África por volta de 534), devendo ter sido escrito entre os tempos de Hosídio Gueta e Luxorius, sendo portanto do período tratado. O poema é bem interessante quando você desconsidera a misoginia, típica dos latinos, e trata de uma prostituta de nome Caballina, que não apenas tem nome equino como comporta-se como tal. Do ponto de vista linguístico, é um dos primeiros casos de bestialização violenta da linguagem, pois "iunctas" do último verso só pode se referir a um animal (e foi a mesma razão para Bailey tentar remover a palavra, substituindo por "pugnas"), e, de fato, se omitirmos o título do poema é possível lê-lo sem se dar conta de que o mesmo trata-se de uma mulher, já que fremebat intransitivo é geralmente usado para animais (e, de fato, Virgílio usa para cavalos, frementem equum nas Geórgicas). Por conta disso, o poema tem, de acordo com o meu conhecimento, sido tratado como que "demasiadamente obscuro", o que, a meu ver, não é preciso, já que a obscuridade é mais aparente que real. Segue o texto e versão. Só mencionando que "Parium nitens colorem" (que traduzi como "Alva cor de Paros") se refere ao mármore de Paros, famoso pela brancura e semi-transparência.

Anth. Lat. 130 R (Trad: Raphael Soares)
De Caballina meretrice
Caballina furens amanda nulli
Excussis modo calcibus fremebat;
Quae quamuis facie micet rubenti
Et uibret Parium nitens colorem,
Hirsutis tamen est petenda mullis,
Qui possint pariles citare iunctas.
A puta Cavalina
Cavalina loucaça e não amada,
como ela relinchava e dava coices;
Mesmo a vibrar rubor da sua face,
E vibrando sua alva cor de Paros,
Porém é duro o ataque de uma mula
Que pode se jungir nesse andamento.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Raja Ali Haji - Gurindam Dua Belas XI

Raja Ali Haji foi um poeta e historiador malaio-indonésio de etnia Bugis. De etnia e linguagem minoritária na Malásia peninsular, Raja Ali Haji construiu sua carreira em Riau sobre a administração do Sultanato Riau-Lingga. Durante esse período histórico, com a liberdade de investigação e produção intelectual no arquipélago de Riau, que se pode dizer que a construção da forma clássica e literária da língua malaia e indonésia teve início (para quem não sabe, a despeito de serem oficialmente reconhecidas como línguas nacionais diferentes, malaio e indonésio são, de fato, a mesma língua), de modo que o presente autor é uma importante figura para o desenvolvimento de ambas as línguas e culturas, sendo considerado um herói nacional da Indonésia.

Raja Ali Haji escreveu um número de obras extremamente importantes, dentre as quais as principais são Tuhfat al-Nafis (isso é árabe, mas comumente traduzido como O Dom Precioso), um importante livro sobre a história malaia após os "Anais" (Sejarah Melayu), e o Kitab Pengetahuan Bahasa, uma espécie de gramática e dicionário da língua Malaia, que ficou incompleto. Dentre as obras menores temos poesias como os 12 Gurindam e alguns Syair (possivelmente espúrios), além de cartas e outros fragmentos. A obra dele nos foi transmitida através de manuscritos em escrita Jawi, o que gera seus próprios problemas de transmissão e edição quando passamos para a escrita Rumi (i.e. o alfabeto romano, atualmente usado tanto na Malásia como na Indonésia).

O gurindam é uma das formas tradicionais da poesia malaia, como o pantum ou o syair. A origem do gurindam deve-se provavelmente à escrita poética árabe e sua relação com o Alcorão, e a ausência de metro provavelmente provém do fato de que a prosódia entre essas línguas é muito distinta. O gurindam é composto de uma sucessão de dísticos (em Jawi usualmente escritos em uma só linha) rimados, e embora o poema inteiro tem uma unidade de caráter (a respeito de qual lição a ser ensinada), os dísticos isolados são sempre completos e autossuficientes em sentido, podendo ser citados isoladamente como aforismo ou peça de sabedoria. O paralelo mais similar que temos na poesia ocidental são as Sententiae de Publilius Syrus ou a Disticha Catonis se resolvermos organizar esses textos por tema, como alguns manuscritos o fazem. O "equilíbrio" do verso é semântico, sendo que o segundo verso do dístico é o mais importante e o primeiro sua condição, em modelo "questão-resposta" ou "causa-consequência" ou "problema-solução". O primeiro verso, o syarat (lit. condição, termos) apresenta a condição necessária para a lição ou cláusula principal da jawab (lit. resposta). A medida do poema tende a ser o equilíbrio semântico, e a melodia é adquirida exclusivamente por intermédio das rimas marcando esse equilíbrio.

O texto que estou traduzindo é o que aparece na Wikisource da Indonésia (aqui). Como mencionei antes, o texto chegou até nós por intermédio de cópias manuscritas distintas e escrito em Jawi, não Rumi. Duas palavras aqui me parecem erradas: dimulai (início, começo, iniciar) deve ser provavelmente algo como dimalui (essa mudança linguística é processo comum, e aparece em outras línguas austronésicas), mas o sentido aqui me parece correto (seria dimulai atualização "ortográfica" que distorceu o som?). Há, contudo, outras opções a considerar: 1) tomando paralelo com outras línguas entender dimalui como ditakuti (i.e. temer, temido); 2) corrigir dimulai para dilalui (i.e. impassável, ao menos em bali). Nenhuma das alternativas me parece tão boa semanticamente, então eu vou simplesmente manter o texto como está por causa da minha completa incompetência linguística ou filológica. A outra palavra é mais problemática hajat não só não rima (isso é, se não houve mudança fonológica entre o t e o h) como não me parece muito clara ou equilibrada semanticamente, se é que eu entendi direito. De qualquer modo, deixo marcado esses dois problemas com obeli no original, só para facilitar caso alguém mais competente que eu possa refletir sobre essas questões.



Raja Ali Haji - Gurindam Dua Belas - Gurindam XI

Ini gurindam pasal yang kesebelas:

Hendaklah berjasa,
kepada yang sebangsa.
Hendaklah jadi kepala,
buang perangai yang cela.
Hendaklah memegang amanat,
buanglah khianat.
Hendak marah,
dahulukan hajat†.
Hendak dimulai†,
jangan melalui.
Hendak ramai,
murahkan perangai.


(quem quiser me comprar esse livro, estou aceitando)


Raja Ali Haji - Doze Gurindam - No. 11

Eis aqui o décimo primeiro Gurindam:

Deves seus deveres cumprir
Para o irmão que mora aqui.
Deves para ser um cabeça
Livrar-se de conduta adversa.
Deves para ganhar confiança
Livrar-se de traição sem tardança.
Antes da irritação
Priorize a celebração.
Antes de começar
Não vá se apressar.
Antes de se acercar do povo
Temperamento tenha generoso.

Trad: Raphael Soares

domingo, 21 de junho de 2020

FUNDAMENTALISMO VS FILOLOGIA NA POÉTICA DE ARISTÓTELES [Palavras Importam]

Nada representa melhor uma leitura fundamentalista como um extremista religioso falando sobre a homossexualidade. Isso é condenado e repulsivo “porque está na bíblia”. Não importa o debate, não importa o contexto, e não adianta qualquer tentativa de discutir o ponto que logo virá a lição “leia a Bíblia, Levítico dezoito vinte e três 'Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é', está lá e é a palavra de Deus”. O fundamentalista religioso, contudo, nunca irá dizer que Levítico 11 “está na Bíblia”, ou Levítico 19:19, porque o fundamentalista adora bacon, camarão e roupas da moda. No fundo no fundo, o fundamentalista não quer compreender o texto sagrado ou obedecer as leis de seu Deus, ele apenas não gosta de Gays e quer jogar autoridade para justificar seu ódio e calar quem pensa diferente.

Leituras fundamentalistas não são exclusividade de textos sagrados, mas estão espalhadas por todo o ramo das humanidades. Recentemente, ao fazer uma crítica em relação à (in)precisão histórica violenta em um texto literário, seu autor, visivelmente ofendido por minha rudeza, delicadamente me disse para comer capim e ler Aristóteles, porque, dixit dominus, o mesmo "em A Arte Poética, capítulo 9" (assumo que seja a numeração de Heinsius, o que é engraçado por mais de uma razão), autorizou todo o tipo de violência histórica na obra poética. Não costumo recusar convites à leitura, mesmo que seja Aristóteles, e mesmo que seja, outra vez, a mesma passagem da Arte Poética que já discuti ao menos duas outras vezes nos últimos 12 meses, já que por mais que eu ache que conheço essa passagem inteiramente, e li diversas interpretações da mesma, eu sempre posso cometer um grave e estúpido oversight, e tenho algum talento para isso, já que é o homem é completamente impotente diante de sua própria estupidez; quanto ao capim, tenho de admitir que não agrada ao meu paladar, a despeito de ser um notório jumento, espero que chá seja o bastante.

Antes de seguir com a discrepância entre a leitura fundamentalista e a filológica (não tratarei, por razões claras das “filosóficas”), há algo interessante sobre o método. O método fundamentalista é simples: jogar a autoridade da “palavra” para calar a oposição, não importando nem mesmo o que ela quer dizer. Não se pode discutir, não se pode debater, porque nosso senhor o grande X disse isso e porque ele disse isso é verdade. Por razões óbvias isso é mandatório nos templos, porque se Deus não tem autoridade sobre a “verdade” não há sentido em buscar por ele. Contudo, nas humanidades as academias tem uma parcela de culpa, pois mesmo se, ao menos em teoria, elas não incentivam essas práticas e recomendam o debate, as práticas acadêmicas tendem a, pouco a pouco, mecanizar a autoridade pela autoridade, palavra pela palavra. A verdade e o conhecimento são construídas por meio de palavras, assim como a mentira e a ignorância; precisamos de palavras para construir os sensível, e precisamos das mesmas para propagar o nonsense. Ao invés do debate e reflexão, aos poucos se instauram as palavras vazias e a autoridade. Isso não é a prática geral das academias, ou daqueles formados por ela (ao menos quero acreditar nisso com base na minha experiência), porém pequenas práticas tendem a incentivar ou mesmo premiar a aceitação da autoridade ou do vazio de sentido, mesmo que nas pequenas coisas.

Que Aristóteles possa ser usado como autoridade suprema e irrefutável para “provar” um ponto é algo absurdo, porém nada novo. O que me surpreende bastante é o quê exatamente Aristóteles está sendo usado para provar. Já por 1600 Heinsius (o mesmo responsável pela numeração supracitada) usou a mesma passagem para condenar todo o drama medieval cristão ESPECIFICAMENTE porque eles usavam a história real (ou, ao menos Heinsius e os autores medievais acreditavam ser essas histórias reais) mas a tratavam como mito (e também pela natureza das mesmas, como veremos), e ele provavelmente ficaria chocado ao ver que estão usando essa passagem para afirmar que Aristóteles aprovava nela a violação da verdade histórica à favor da arte. De fato, entre o século XV e XVIII a leitura da Poética era largamente ahistórica, e os autores do período, em comum com fundamentalistas modernos, se importavam unicamente com a “verdade” de Aristóteles, i.e. o que a literatura vernacular do período deveria ser, e a influência das diversas leituras aristotélicas do período é sumarizada por Wilhelm Dilthey, de modo que apenas repasso para quem interessar (“Die Einbildungskraft des Dichters. Bausteine für eine Poetik”, há uma tradução nas obras Seletas em Inglês, vol. V), embora compreender o contexto geral da crítica da época me parece mais relevante do que de uma obra específica, para o leitor comum.

Não é a primeira vez que eu vejo essa leitura, de que a “falsidade” histórica é justificada pela “verossimilhança” (ocasionalmente com alguns desenvolvimentos mais exorbitantes como “tempo mítico”), na passagem, e já vi até dois críticos aparentemente inteligentes chegarem à mesma conclusão. Fui novamente buscar bibliografia, ler mais comentários que ainda não tinha lido. Não é surpresa confirmar, novamente, que nenhum filólogo competente que estudou a “Poética” sequer leu esse texto desse modo, e olha que há filólogos desonestos e inventores de “modismos”, especificamente porque essa leitura é impossível em mais de um aspecto, e assumir que essa leitura é razoável implica em dizer que o próprio texto está errado. O que eu ainda não consegui descobrir é de onde essa leitura surgiu, e quando ficou popular entre críticos e polemistas leigos. O máximo que sei é que ela ainda não existia no período vitoriano inglês, e na França Denis Diderot apresenta a leitura da época do texto e não cometia esse erro, e não consigo achar esse aborto interpretativo nem mesmo nos humanistas e outros escritores do período “acientífico” (embora eles estavam mais lendo Aristóteles para “confirmar” Horácio, o que também não é uma boa ideia), e mesmo Pietro Vettori (Victorius), autor do mais importante comentário do período humanístico, mas que insiste em dizer que Aristóteles afirma que a poesia necessariamente precisa ser em verso, ainda não é capaz de ler desse modo. Devo assumir então que ela é uma leitura moderna, mas não posso dizer quão moderna. Essa leitura depende de uma tríade de ignorância, talvez deliberada como convém ao fundamentalista, que em geral causa todo tipo de erro, mas aqui em especial parece ser deliberada e em larga escala.

  1. a ignorância do contexto externo: o crítico fundamentalista ignora ou deliberadamente não quer saber sobre a história do texto. O crítico pode até saber que o texto é um dos textos “não publicados” do autor, mas não sabe ou não quer saber o que isso significa para a interpretação do texto. O crítico não sabe ou não quer saber como a obra chegou até nós, e em que condições; o crítico não quer ouvir dizer que “a 'Poética' sofreu em sua transmissão mais qualquer outra obra autêntica de Aristóteles” (“the Poetics has suffered in its transmission more than any other authentic work of Aristotle”, na Editio Maior mais recente, a única), porque se as bases da Escritura caem a base de sua Verdade cai; ele não quer saber que a situação do texto já era famosamente ruim no primeiro século A.C., como atestam Plutarco e Strabo, e se souber no máximo vai considerar o testemunho dos antigos como exagerado, porque todos os antigos podem mentir, exceto suas Escrituras. Mais importante, o crítico fundamentalista não sabe, ou não quer saber, sobre que obras o autor originalmente falava, quais estéticas estavam em voga, as mudanças, o que havia e não havia no período, ou quais valores em específico o autor condena e o porquê, já que o crítico fundamentalista não se importa com o que Aristóteles dizia e como julgava os seus contemporâneos, mais como a palavra do Senhor é eterna e como a profecia d'Ele explica Pound e Eliot. O filólogo, contudo, não pode fazer o mesmo, porque tentar compreender o contexto no maior grau que for humanamente possível é a pedra fundamental de seu trabalho. Como não é do fundamentalista, ele usa seus poderes na segunda ignorância.
  2. a ignorância do contexto interno: nem sempre basta ignorar apenas o contexto e a transmissão do texto, às vezes se faz necessário ignorar exatamente o que o texto diz e suas palavras, ou ao menos as partes do texto que desagradam ou não corroboram a tese. Essa é, contudo, a mais defensável das ignorâncias. Todos os homens são propensos a isso, e a natureza do debate, que não permite trazer tudo ao mesmo tempo pode distorcer e deliberadamente esconder partes significativas do texto que fariam uma leitura incorreta cair por terra. De fato, mesmo gigantes (como Carpeaux, Housman ou Frye) podem estar face a face ou citar a prova necessária para derrubar parte de suas teses e ainda insistirem em não ver ou fingirem que significa outra coisa, e se os maiores homens podem cometer os mais óbvios e vergonhosos dos erros, não é justo exigir que os pequenos nunca incorram em um grave equívoco de omissão. Contudo, o crítico fundamentalista possui método, e não basta apenas casualmente omitir tudo aquilo que causa dificuldades ao argumento, ele precisa omitir tudo. É por isso que esse crítico ama o aforismo e a citação curta, já que esvaziado de seu contexto interno uma passagem isolada pode significar o que ele bem entender, e é essa a razão porque o crítico fundamentalista cita unicamente a passagem “1451a” a partir da linha 36 e nunca vira a página. Do mesmo modo que o fundamentalista religioso é capaz de dizer que Isaías 45:1 profetiza o “Messias” Cristo (mesmo sendo nominalmente explícito que o “Messias” foi Ciro da Pérsia), o crítico fundamentalista pode dizer que Aristóteles falava na passagem da liberdade com que o poeta pode tratar os fatos históricos, mesmo quando Aristóteles diz com todas as letras em 1451b 29-32 que ele não estava falando disso. O fundamentalista não quer saber em que contexto a frase foi dita, porque no fundo ele não quer entender a passagem, mas a instrumentalizar.
  3. a ignorância do  não-dito: o resultado lógico das ignorâncias anteriores, pois se o crítico não sabe em que contexto o texto foi produzido e transmitido, a que contexto se referia, e o que o que vem antes e depois propriamente dito, o texto fica incompleto e o seu sentido não fica claro. Se o texto é incompleto e o sentido não é claro, o leitor deve construir o sentido e ler nas entrelinhas. Ninguém ama mais ler nas entrelinhas que o crítico fundamentalista, que ama tanto o método que destrói as linhas a favor das entrelinhas. Se o sentido não é completo ele tem de ser inventado, e se ele tem de inventar ele o fará naturalmente para confirmar e defender as suas ideias, não para compreender a do autor. O filólogo venderia a alma por mais contexto e mais linhas, o fundamentalista não quer mais contexto e mais linhas porque quer inventar a sua interpretação.

A exposição do método fundamentalista, para a presente discussão, se deve porque esses são especificamente os tipos de ignorância, que nas medidas da minha capacidade, pretendo evitar. Para a presente discussão, o foco será especificamente “o que” o autor diz a respeito da diferença entre a arte [poesia] e a história, e por que as palavras importam, e espero apontar algumas questões gerais pertinentes à tradução dessas palavras e construções importantes, e porque traduções descuidadas de prosa podem auxiliar ao engano mesmo que não sejam objetivamente incorretas. Aqui eu vou apontar tudo o que estarei usando para a leitura, para que quem quiser possa me seguir. Isso não é uma bibliografia exaustiva, mas apenas algo que todo o leitor pode acompanhar, embora eu possa trazer algo de fora.´

Minhas referências ao texto da Poética seguem unicamente a numeração de Bekker como ela aparece na Editio Maior de Leonardo Tarán, e não faço referências a número de capítulo ou versículo seja usando a mais comum de Heinsius ou qualquer outra divisão humanística. Talvez o ideal fosse usar as duas, mas considerando que todas as edições, traduções e comentários respeitáveis do texto mencionam a numeração de Bekker é a forma mais padrão de citar os textos, e, de fato, tem sido a única usada por comentários e teses diversas sobre os autores do período. Eu vou seguir lendo o texto de H. S. Butcher (link da quarta edição, idêntica à terceira), apresentando uma interpretação vernácula para quem não puder o inglês e partir comentando daí; a escolha do texto de Butcher foi não apenas porque está em domínio público e todos podem seguir comigo, mas porque comparada com paráfrases como a de Bywalter ou a da edição da Loeb, que acrescentam muitas partes explicativas ao próprio texto, ou as portuguesas que conheço (que, me parecem, apresentam problemas particulares), essa me parece mais “funcionalmente” colada ao original em construção, de modo que dentre as traduções livremente disponíveis é a que melhor serve aos propósitos de um comentário assim.

Para comentários textuais e a história do texto e transmissão de Aristóteles, o interessado deve ler “Aristotle Poetics: Editio Maior of the Greek Text with Historical Introductions and Philological Commentaries” de Leonardo Tarán, e quando houver alguma menção aos problemas textuais a recomendação é partir para lá. Eu aqui vou fazer referências repetidas ao comentário de Bywalter, "Aristotle, on the Art of Poetry. A Revised Text, with Critical Introduction, Translation and Notes" (“the best so far” para Tarán, “the most important” para Nagy), e garanto para quem duvidar que vou, exceto quando notado, lidar apenas com o que é mais unânime entre comentadores, seja antigos como Vincenzo Maggi (Madius) e Pietro Vettori (Victorius), seja modernos como Else (que é idiossincrático sob qualquer aspecto) ou Whalley. Por conta disso, vou me limitar na discussão específica da história e da poética, e me abster de peregrinar pelas discussões mais cabeludas e ambíguas, como por exemplo da percepção do filósofo a respeito da comédia (estaria Aristóteles sugerindo que a “comédia nova” [ou mais propriamente uma intermediária] é superior à de Aristófanes, como me parece? ou pior, a nova comédia evoluiu para um ponto que a tragédia nunca chegou, na época do autor, o que é razoável?), ou de quão “historicamente reais” seriam os eventos dos mitos, ou de qual é a relação sintático-semântica do nome e universal (é por causa da universalidade que a poesia põe nomes próprios aos personagens ou é universal a despeito de colocar nomes próprios, ou subsequentemente a ela coloca nomes nos personagens, ou qualquer outra coisa assim), e é a razão da minha omissão é o de não me perder num buraco negro cíclico das discussões interpretativas de várias das especificidades da obra, o que não é tarefa para um homem são. Se um leitor achar, dentro de uma das partes que omiti, há algo importante para a discussão que eu, em minha estupidez, ignorei, o leitor ao menos poderá trazer à mesa da próxima vez que for discutir e ler a poética, e pode se deleitar em rir de como eu fui um asno e deixei passar esse fato importante. Pois vamos ao Aristóteles, e francamente espero que o chá seja mais palatável.


1451a 36 - 1451b 7

Aliás, é evidente, por causa do que se disse, que não é a função do poeta relatar o que aconteceu, mas o que deve acontecer - o que é possível de acordo com a lei da probabilidade ou necessidade. A diferença entre o poeta e historiador não é entre escrever verso e prosa. A obra de Heródoto pode ser posta em verso, e ainda seria um tipo de história com metro tanto quanto sem. A verdadeira diferença é que um relata aquilo que aconteceu, o outro o que deve acontecer. Poesia, por isso e uma coisa mais filosófica e elevada que história: pois poesia tende a exprimir o universal, história o particular.
Um dos aspectos deprimentes da nossa comodidade em ler um texto desse com divisões de capítulos e tópicos e paráfrase interpretativa é que ele nos força a ter de explicar o óbvio. Como a "divisão" não existe realmente, a leitura deixa absolutamente claro que tudo o que é dito nesse "parágrafo" e daqui em diante não é uma teoria estética isolada, mas consequência do que foi dito antes. A formulação inicial não é uma daquelas casuais formulações de mudança de assunto por associação (ex.: já que falamos em tomar uma cerveja, onde fica o banheiro?), mas uma clara determinação de continuidade e qual assunto é subordinado a qual: "por causa disso que falamos antes que a poesia [...]", ou seja, toda a questão da função da poesia, o "possível" (como termo técnico) é consequência da formulação da unidade da narrativa, que predica a discussão. A arte é uma "unidade" (não há tempo, nem tenho competência, e nem existe uma resposta absoluta para isso), e tudo o que for dito é resultado dessa unidade, não uma formulação isolada. Isso só pode ser compreendido em relação à unidade da narrativa, porque é seu resultado lógico (φανερός, ou seja, "está na cara" para quem acabou de me ouvir).

O problema do óbvio é que, por ser óbvio, ninguém fala disso, e é muito fácil de se ignorar, ou, em linguagem vulgar, "passar batido". Else sabia disso, e lembrando que todo mundo sabia disso também, achou que as pessoas deveriam não só atestar o óbvio como discutir as implicações do fato, o que, os críticos em geral simplesmente não fazem. Os comentários mais recentes sabem disso, já que fica claro pela própria interpretação, mas, novamente, eles não mencionam ou desenvolvem as implicações do fato. E, novamente, por ser óbvio, "passar batido" pode ser grave e simplesmente não ser percebido, já que eu conheço ao menos um classicista importante (me parece ser o único, mas podem haver mais) que esqueceu esse fato, e isso afetou a sua leitura da obra: o próprio tradutor Samuel Butcher (Aristotle's theory of poetry and fine art, Capítulo III, p.163 et seq.), que considera uma passagem autônoma em que Aristóteles constitui a sua tese de verdade poética que determina a natureza da poesia em si, e não como resultado da unidade poética. O erro de continuidade e separação não justifica o nonsense da "falsificação da história defendida por Big. Ari.", já que a interpretação da passagem ainda é adequada em Butcher, que altera sua importância e o quê é consequência de quê apenas. Porque o tradutor sabe o que significa "provável" e o que "deve" acontecer.

Há uma questão tradutória profundamente relevante aqui: alguns tradutores falam em coisa que "pode" acontecer, outros em coisa que "deve" acontecer, e essa discrepância persiste ao menos em inglês, português e francês. Isso não deveria ser problema porque Aristóteles também explica o que significa "pode/deve acontecer", ou seja, o que é verdadeiro, a consequência natural baseada no que a ação deve gerar como resultado, de acordo com o que é mais necessário ou mais provável. "pode/deve" no seguinte sentido: "se eu, Raphael Soares, me atirar do sexto andar do meu prédio diretamente sobre o cercado do térreo eu posso/devo morrer". As duas construções estão corretas, e têm o mesmo sentido. De fato, é possível que eu sobreviva, e embora é bem difícil de calcular as probabilidades, e "a História" registra de fato ao menos um caso de alguém que cai em queda similar (Avery Shawler, de abismo na mesma altura e caindo sobre uma bicicleta de massa similar ao cercado do térreo), embora não seja um caso de alguém que se atira. A arte não tem a função de relatar o que aconteceu, o indivíduo Avery Shawler que caiu num abismo de 18 metros em cima de sua bicicleta e sobreviveu, mas tem a função (dever?) de relatar o que "pode/deve" acontecer: se eu me jogo do sexto andar eu morro (e, obviamente, antes disso que evento me fez tomar essa ação, já que isso decorre da unidade da narrativa). Que alguém pode ler, em uma tradução brasileira, "o que pode acontecer" e interpretar como "todas as possibilidades, todo o reino do possível, tudo o que pode acontecer" é compreensível, o que não é compreensível é que alguém entenda "o mais provável e o necessário" como confirmando essa primeira leitura; que um tradutor português como Ana Maria Valente ou um brasileiro como "seja lá quem fez a coleção Os Pensadores" traduza como "princípio da verossimilhança" me parece simplesmente perverso. Que ἔοικα pode significar "parecido" ou "similar" é uma coisa, mas εἰκός só pode significar "provável". Aqui não é dizer algo que pareça verdade, mas de que é mais provável ser verdadeiro, e o sentido aqui não é nem discutido. Quando se diz "aquilo que pode acontecer de acordo com o princípio da verossimilhança" se diz algo bem distinto. Independente de uma eventual tradução como essa, em que a palavra do autor não importa, o sentido ainda deve ser tomado globalmente, e o fato de que dois portugueses resolvem inserir um "verossímil" anacronisticamente aqui, isso ainda não autoriza a interpretação moderna de verossimilhança ou de todas as probabilidades, porque, como veremos, o autor deixa completamente claro em 1451b 29-32 que há eventos que realmente aconteceram (eventos históricos) e que não são "verossímeis", ou seja, que não devem ser objetos da poesia (além do mais, os cânones da História Clássica não obriga que o historiador diga exatamente o que aconteceu, mas aquilo que parece ser razoavelmente aceitável como verdade... contudo, o leitor fundamentalista tem um ponto aqui: talvez seja assumir demais que alguém que fale sobre algo, i.e. Aristóteles sobre a história, necessariamente fez o dever de casa e sabe do que está falando... filólogos em geral não seguem essa linha, mas eu admito que o fundamentalista tem um ponto aqui); se o leitor não consegue dar um sentido para esse problema, ou não perceber que ele existe, ele não pode acusar a tradução e dizer que foi enganado por um "princípio da verossimilhança" que grassou entre traduções de língua portuguesa. O autor então fala, "claramente" que [por causa disso, novamente, sucessão de ideias] a literatura é universal enquanto a história particular. Como temos as nossas próprias ideias do que é universal, simplesmente paramos a leitura e citação aqui, e não temos paciência para ouvir o que Aristóteles tem a nos dizer a respeito disso. Porém antes do próximo "parágrafo" gostaria de apontar mais um fato e apresentar duas questões de leitura paralela que ao menos devem ser consideradas.

Como foi dito, tudo o que aparece a partir da primeira linha diz respeito à unidade poética, e o que deve/pode acontecer não apenas está sujeito às leis da probabilidade ou necessidade, mas também às "leis" da unidade Artística. Na mesma página, algumas linhas antes, o próprio Aristóteles dá exemplos, de outras coisas que ocorreram a Odisseu (na esfera do mito), mas que não aparecem na sua obra por causa das leis da unidade (há, isso é mais engraçado do que parece). O segundo ponto é que, embora eu seja moderno e concorde em abstrato com a afirmação de que a poesia não está necessariamente no "verso", aqui é muito importante compreender o que seria "pôr Hesíodo em verso não é poesia", e isso é muito relevante porque muito da poesia que não existia na época de Aristóteles é exatamente pôr obras de prosa em verso e ainda assim ser poesia, assim são as obras de Arato (que nasceu pouco depois de Aristóteles morrer), assim é Manílio, assim é grande parte da poesia tardo-antiga cristã das poetizações do Evangelho e das "Vita" dos santos; é, portanto, razoável ver como e porque esse texto foi usado pelos Humanistas e aqueles que os sucederam para condenar a narrativa poética em verso, mas para o crítico fundamentalista, que quer aplicar a verdade aristotélica para o fim dos tempos, uma dificuldade deve ser reconhecida e não pode ser ignorada: se Aristóteles está certo aqui em que uma "versificação" de uma "História" ainda é história versificada e não poesia, Aristóteles diz com todas as letras que Carmen paschale de Sedúlio e De vita Martini de Venâncio Fortunato, e se o fundamentalista pode se dizer no direito de que Aristóteles está certo ainda assim, eu certamente troco o filósofo grego pelos poetas latinos, pois ele não tem o direito de dizer que De vita não é poesia.

Por fim, vou apontar uma provocação curiosa do Else, que acrescenta ao que foi dito, e pode muito bem ser no que Aristóteles pensou. Para Else, Aristóteles está aqui alertando especificamente autores contemporâneos que tem tentado o modo da história, e ele realmente fala drasticamente mal dos autores "episódicos" e daqueles que escrevem Heracleidas e Thebaidas que enumeram e coligem narrativas, que é o modo da história. Novamente, isso não é agradável para os fundamentalistas, mas considerando as críticas severas anteriores que Aristóteles faz a essas narrativas é bem possível que ele tenha tido autores desse tipo em mente (embora, ao meu ver, a tese de Else se enfraquece e não se fortalece com a "historicidade", não no sentido do fundamentalista, do mito), e ele esteja aqui alertando para que poetas não sigam o mesmo caminho da "história" (não do fato, como veremos, mas dos deveres da história, e ignorando os deveres da poesia). Tudo isso, como vemos, tem o cerne na questão da unidade, mas agora a questão da "universalidade", que é a minha "favorita".


1451b 8-11
Por universal eu digo como uma pessoa, de determinado caráter/personalidade, irá falar ou agir em uma ocasião, de acordo com a lei da probabilidade ou necessidade; e é esta universalidade [a que a poesia visa nos nomes que coloca para os personagens]. O particular é - por exemplo - o que Alcibíades fez ou sofreu.
Para todo leitor atencioso um alerta deve ser acionado toda vez que uma passagem é sempre mencionada e sempre "cortada" exatamente na fração de segundo em que o autor vai dar um exemplo concreto. Todas as vezes que alguém resolve citar a passagem de Aristótles, quem faz a citação convenientemente elimina o exemplo concreto. O texto do fundamentalista sempre termina com "a literatura é universal e a história particular", e nunca após o autor dizer exatamente o que ele quer dizer, com exemplos, o que consiste a o universal e o particular. O leitor atencioso deveria se perguntar porque não terminam a citação após o exemplo, e antes de o autor fazer o parêntese sobre a comédia.

Antes de mais nada, eu não vou comentar, como disse, a respeito da relação entre a universalidade e o nome dos personagens. Há uma discussão infinita a esse respeito mesmo supondo que o texto grego esteja correto, e a discussão vai mais longa se não estiver. Por hora, a única coisa que se pode oferecer é que a universalidade tem relação com os nomes dos personagens mas isso não é claro como ou mesmo se é uma positiva (embora ninguém tenha me perguntado, a mim parece que Aristóteles diz que os nomes da comédia mais contemporânea, mais abstratos e gerais, são mais apropriados para o universal, e por isso "já é aparente na comédia", enquanto na comédia antiga a tendência pela retenção de nomes familiares e referenciais é a razão porque não é aparente na tragédia... aqui, me parece, o filósofo defende a completa separação até mesmo no nível referencial da história... contudo, não é uma leitura unânime, e é textualmente complicada e sua confirmação depende de um conhecimento de grego que eu não tenho e sob o qual dependo dos outros). O que eu devo mencionar é que aqui há uma clara repetição, que tem função, e que ao menos uma versão brasileira não respeita, e essa repetição é importante porque referencia novamente para o "universal" da poesia que fala o que "pode/deve" acontecer: "κατὰ τὸ εἰκὸς ἢ τὸ ἀναγκαῖον" (lei da probabilidade ou necessidade). Ele está repetindo e desenvolvendo o que disse, dentro do contexto da unidade: o dever da poesia (decorrente da necessidade da unidade) é falar daquilo que "deve/pode", ou seja, como um personagem X, de tendência Y age ou se comporta em situação Z [gerando resultado W] dentro da "lei da probabilidade ou necessidade". Um homem arrogante, achando que pode fazer feitos que o humano não pode fazer age em direção a esse feito que não consegue e resulta em sua queda, por exemplo, é algo que "pode/deve" ocorrer, com base nesse personagem, de tal caráter, que age de tal modo e o resultado é a consequência esperada por tal ação. Isso é o que a poesia, segundo Aristóteles, deve dizer, é seu dever e onde reside sua glória e superioridade. Isso é o universal para o autor. O particular, como o mesmo diz "é o que Alcibíades disse e fez".

É fácil entender porque o crítico moderno omite a citação. A literatura pós-romântica é notoriamente "individual", ou seja, baseada nesses acidentes do destino, do excepcional, do limite da probabilidade e do blatantemente absurdo, e desenvolvemos nossas próprias ideias de universal e local, então é desinteressante um Aristóteles que defende que o "universal" é o que é comum à normalidade do homem, que para nós é o ordinário e o desinteressante. Porém Aristóteles era um filósofo grego, do IV século A. C., não um cético pós-romântico. Dentro do contexto histórico e literário em que ele se inseria tanto as descrições como prescrições fazem sentido, e parecem combater tendências específicas também. A linha, contudo, não pode nem mesmo com truques Jedi da mente assumir outro sentido, então é cortada. Nem mesmo as leis da "verossimilhança" alteram o que está escrito porque o exemplo é muito claro, e remete diretamente à unidade. Contudo, Aristóteles não termina com o exemplo do universal, mas do individual.

Aqui eu vou ter de, lastimavelmente, abrir uma exceção à leitura do consenso. Não porque não há consenso, mas por que falta leitura. Também não é porque a linguagem é obscura, mas porque é direta mas nós, modernos, não entendemos o que deveria ser óbvio para o público original, então temos de tentar recriar isso, e há diversos problemas. O texto aqui não pode ser mais claro: "O particular é - por exemplo - o que Alcibíades fez ou sofreu", e não há outro jeito de entender ou construir isso com um sentido ligeiramente distinto, já que o que é dito é: o individual/particular significa (um exemplo do que é iconicamente particular) a "história" de Alcibíades, o que ele fez e o que aconteceu com ele. Quanto ao fato de que há pouca leitura, eu devo dizer que dentre os críticos há três grupos: os que simplesmente não comentam a passagem (mesmo Bywalter, “the best so far”), o que são a grande maioria, aqueles que glosam Alcibíades como político Ateniense (o que pode ser um serviço ou grande desserviço), e os raríssimos que tentam explicar a razão de Alcibíades ser mencionado aqui, e quase todas as interpretações são distintas, embora não necessariamente opostas ou concordantes. Portanto, o que vem a seguir, diferentemente do resto da leitura, não é o consenso dos filólogos e comentaristas, e aqui eu terei de me envolver na polêmica e apresentar uma leitura que me parece correta; mais que isso, ao menos da forma como apresento eu não a vi sendo apresentada em nenhum lugar, embora não clamo inventar ela: de fato é basicamente a mesma leitura da poética que outros filólogos chegaram, particularmente por causa da próxima passagem, mais explícita, e eu simplesmente acredito que o exemplo do "que Alcibíades fez ou sofreu" exatamente por isso mesmo... Depois disso apresento a leitura de Else que complementa a minha.

Novamente, considerando o contexto de produção e contexto interno da passagem o que o escritor quer dizer deve ser muito claro. De um lado a representação dos fatos (como veremos depois, mesmo dos que não são possíveis), do outro uma verdade mais elevada, o que "deve ocorrer de acordo com a lei da probabilidade e necessidade". Se o universal é o abstrato comum a todos os humanos e a verdade mais provável dentro da sequência de ação e consequência, o individual é o caso mais excepcional, irracional e "não possível" que "realmente aconteceu". Se "que deve/pode acontecer" é eu me jogar do sexto andar e "devo/posso" morrer e o histórico é Shawler (universal x individual), então um homem vão, envolvido na política, deve/pode cair e compreender seus erros, e isso é o universal, enquanto o individual é Alcibíades.

Isso parece divagar, mas não é. Alcibíades é Alcibíades, e isso, surpreendentemente é o bastante, e aqui, para mim, está a chave e, aquilo que o fundamentalista detesta. Sejamos francos e diretos, Alcibíades é o maior clusterfuck absurdo da antiguidade, e consideramos que tivemos lendas sobre Calígula isso parece até brincadeira, mas não é. O grande problema a respeito da História de Alcibíades (i.e.: o que ele disse e fez) é que ela não faz o menor sentido, e honestamente se você não sabe do que se trata eu recomendo muito que dê uma parada e vá descobrir, porque vale a pena. Ele foi um político extremamente arrogante, ambicioso, ocasionalmente estúpido (mas com uma aura que fazia todo mundo ficar idiota junto dele, o que surpreendia até mesmo os gregos... mas sabemos que provavelmente era porque ele devia ser "gato" demais para os padrões da época), que atentava contra os próprios interesses e nada dentro da história dele faz o menor sentido, e ainda assim ele foi uma das figuras que mais alterou o sentido da Grécia no Período em que viveu. A despeito de todos os seus feitos horríveis ou absurdos, ele nunca sofreu consequência alguma pelos seus atos (ok, exceto aquela vez que ele dormiu com a Rainha de Esparta, mas isso foi um caso raro), e ao mesmo tempo foi, ironicamente, punido de modo severo por atos que ele não fez (foi condenado à morte por uma conspiração contra seu próprio interesse, de que ele quase certamente não participou, e foi exilado por um ataque que outrem ordenou... aqui é difícil saber qual versão dos "atos" Aristóteles conhecia, mas mesmo se Alcibíades cometeu tais atos o próprio ato é irracional o bastante para não fazer sentido). Ele é a epítome do individual ou não universal porque é único. Ninguém é como Alcibíades, ninguém tem algo em comum com ele, a história dele não faz nenhum sentido, mas o que ele disse, fez e o que aconteceu com ele é domínio da história, o caso "extremo" do domínio que é só histórico e não é digno da poesia. A poesia apresenta a verdade, o que deve e é mais provável de acontecer em tal circunstância, e que é comum aos homens. À história cabe Alcibíades.

Eis o porque ninguém termina a "verdade" do Senhor Ari. mencionando seus exemplos. Nenhum autor moderno, em sã consciência, defenderia que o natural e consequente é o DEVER da literatura enquanto a mesma não deve falar desses casos estúpidos, absurdos e idiossincráticos, pois os mesmos são o "particular". Mas é exatamente isso o que está dito. O quão específico você interpreta a correlação "feitos de Alcibíades" = "particular" está em cheque, mas como a primeira parte é inequívoca e a segunda é especificamente o domínio da história, é esse o sentido mais óbvio. Além do mais, novamente, Aristóteles foi um escritor grego, não um pós-romântico inglês ou simbolista francês, e muitas de suas ideias, mesmo que parcialmente distorcidas ainda eram vistas de forma clara pelos escritores antigos... Um exemplo injusto mas que acho instrutivo é a polêmica de Machado com Eça, e que fique claro, o contexto é completamente diferente, mas como uma noção de unidade da parte de um e de outro são diferentes, e como isso diferentemente se executa na prática: Machado criticou Eça especificamente porque em "O Primo Basílio" toda a trama (para o crítico) decorreu de um acidente, a descoberta da carta pela criada, e sem o acidente (sem carta), não tinha trama... Critico o Machado pela mesma razão que critico Aristóteles, mas o como ele resolveu desenvolver essa unidade de caráter em sua própria obra é que é o surpreendente, já que em Memórias Póstumas há uma carta (ou seja, o acidente), mas ela não perturba a trama (ou seja, o que se espera dos personagens). Independente do resultado, a ideia não é comunicativa para nós, e o mesmo pode se dizer dos princípios estéticos renascentistas, e ainda mais dos gregos. Quando vemos os textos gregos (que conhecemos) a que Aristótles tinha acesso, suplementado pelos que ele conhecia e que não conhecemos, essa posição (mesmo que não concordemos com ela) é sensível. O fundamentalista não quer o sensível ou o que o filósofo pensou, quer uma autoridade para suas ideias, e não é por menos que a passagem é omitida.

Else, contudo, apresenta uma complicação extra, que é que, segundo ele o personagem Alcibíades era usado frequentemente na comédia (referências dentro da obra), e, pior ainda, as pessoas começavam a não só achar que a figura dele era "Razoável" como "simpatizavam" com essa figura absurda (polêmicas em relação ao coringa do Phoenix e sua possível perversão moral são mera coincidência), e mesmo um filólogo Alemão, Bruns, afirma (em um assunto não relacionado) que a figura de Alcibíades parecia se tornar parcialmente-reabilitada. O ponto, e novamente, é a unanimidade, é que o particular é algo que Alcibíades representa particularmente "individual", e esse individual não só não é a obrigação da literatura, como a literatura não deve falar desse individual. É por isso que a obra foi tão popular para condenar a literatura pia, botânica, ou histórica medieval, mas é óbvio também que ela, se condena as mesmas, não autoriza a individual e libertina estética pós romântica.

Críticos podem compreender isso, e entender o contexto e o texto, mas nenhum literato moderno vai defender algo como "a literatura só pode falar dos tipos prováveis", e que esses indivíduos bizarros e aleatórios são algo que a história deve comentar, e algo que cabe a ela apenas... Para mim, nenhum homem grego merece mais ficção do que Alcibíades (e muitos modernos concordam comigo a despeito de Aristóteles, não por que sou melhor que o autor grego, mas porque somos todos modernos), o fundamentalista (que, ironicamente, também concorda e usa Aristóteles para justificar um assassinato histórico ou uma excentricidade individual) finge que Aristóteles não disse isso e volta para a página anterior.

Ainda há, obviamente, um elefante na sala. Do modo como isso tem se apresentado, e como o próprio Aristóteles diz, de um lado temos a história real, que é dever da história, e do outro a invenção baseada na tradição ou mito que fala das coisas que "devem/podem" acontecer baseada nas leis já tratadas. A pergunta que fica é, mas e no caso da obra poética que TAMBÉM trata de fatos históricos? Aristóteles supõe que isso não é possível? Ou está dizendo que tudo é possível porque não é real? O autor, percebe muito bem que o que ele disse 'implica' que "não é possível" a literatura histórica ou ela seria má literatura (como ele fala antes ou depois) ou "história em verso" como ele profetiza se tentarem, contudo, sabendo dessas implicações, e sabendo que existiam grandes obras trágicas "históricas" (Captura de Mileto por Phrynicus ou As Pérsias de Ésquilo... seria interessante conhecer a opinião específica), Aristóteles tem de falar desse caso como um elemento separado, e é isso que leva toda aquela baboseira de achar que a primeira parte justificava qualquer assassinato histórico... Leremos:


1451b 29-32
E mesmo se acontecer de [o poeta] tomar um assunto histórico, ele não é menos poeta; pois não há razão que diga que alguns eventos que realmente ocorreram não devam se conformar à lei do provável e possível, e na virtude dessa qualidade[/função/valor] que ele é o poeta ou criador deles [dos eventos].
 Aqui há um pecado de tradução que ocorre, aparentemente, também no Ingles, mas que no português e francês ocorre mais, e é nesse ponto que vem o título de que palavras importam. Independente de como você traduzir uma passagem ou outra, alguém pode te criticar ou não por isso, as palavras que escolhes são significativas. As duas passagens marcadas usam a mesma palavra, γενόμενα/γενομένων em diferentes funções, de modo que eu não vou nem discutir qual é a tradução correta (eventos históricos, fatos que realmente ocorreram, situações reais, coisas que aconteceram; etc.), mas a leitura deve ser coerente. Aqui há uma tentativa de poeticidade que predica uma tradução mais elegante, e elegante é menos repetição (a tradição inglesa, ao menos, exige uma cláusula de legibilidade, que tem suas vantagens e desvantagens), mas o fato é que não há atenção o bastante para a tradução de prosa, e acho que um ponto a se começar é especificamente em relação a repetições e não repetições. É bem frequente que expressões repetidas sejam substituídas (para evitar repetição) quando a repetição é significativa; por outro lado, não é raro usar o mesmo termo quando um original usa dois ou mais. Em alguns casos isso é linguístico e inescapável (termos de parentesco, por exemplo), mas em outros é deliberado. Eu entendo que alguém não queira repetir a mesma construção diversas vezes num texto, mas como em 1451b 8-11 o DEVER da história é relatar "aquilo que aconteceu", o poeta pode adotar o "acontecido/o fato que aconteceu" sem deixar de ser poeta, na medida em que "aquilo que aconteceu" (a mesma construção) não é necessariamente oposta à "verdade" poética.

Eu vou abrir uma exceção aqui, porque eu não acho que eu consigo explicar isso melhor que um aristotelista conservador do XIX. Acho que é o melhor modo de explicar isso, e se a pessoa ainda assim não entender eu tento o que posso, mas não sei se consigo melhor:

Até esse ponto, um poema tem sido assumido sempre ser um mito [mithos] uma história ficcional (veja 5. 1449b 9), ou inventada pelo próprio poeta (b12, b21) ou adaptada da lenda. Aristóteles, contudo, agora lembra que pode existir tal coisa como drama histórico, um em que incidentes são tirados da história real (genomena). Tais incidentes, ele explica, são assuntos legítimos para a poesia, se eles podem se exibir como prováveis e naturais, assim como acontecimentos reais.
A primeira coisa a se notar dessa passagem, que fecha todo o argumento é que, em um aspecto o fundamentalista está correto em que o "valor" do poeta não está no "fato" histórico, mas na "realidade" e "universalidade", mas todo o resto, inclusive na definição dos termos ele está errado. Segundo Aristóteles, o poeta pode usar "o que realmente aconteceu/a realidade histórica/ o fato histórico", mas os termos são os mesmos da obrigação histórica; na ficção ele só precisa falar do "universal" e do que "deve acontecer", mas quando ele usa "o que realmente ocorreu" ele tem o ônus histórico, e ele só pode usar na medida que alguns fatos históricos (i.e.: verdadeiros, ou "que realmente ocorreram") não são "possíveis"... É aquele aforismo paradoxal que o impossível pode acontecer, e o impossível acontece o tempo todo e é objeto da história. Para Aristóteles, o que importa é o "possível" (em termo técnico), e por isso o impossível fica de fora. Essa passagem, novamente, concorda, de que alguns eventos históricos são passíveis de boas obras (e Aristóteles tem bons exemplos, mas temo que só prova que o que "é verdade" para Aristóteles é racismo para a sociedade moderna), e que algumas não são "possíveis", como a de Alcibíades, e é matéria para a história. Ninguém hoje em dia concorda com esses preceitos, mas dentro dos conceitos da unidade isso é uma estética consistente e sabemos a dificuldade sobre as quais o autor teve de trabalhar. O fato é que, aqui, o poeta que usa a história deve ser tão correto com os fatos, como também deve ser criador. É uma situação complicada, que não prevê o anacronismo deliberado e intencionado (mal-intencionado, diriam alguns) de Virgílio, ou a reformulação de prosa em verso, ou o centão, ou a poesia romântica, ou o individualismo moderno. Aristóteles não justifica o teu nonsense e absurdo, então aos bons poetas o que resta é levantar com os próprios pés e construir sua obra, época, público e críticos...

domingo, 10 de maio de 2020

Catullus CXV

Catullus - CXV.

Mentula habet uester triginta iugera prati,
quadraginta arui; cetera sunt uaria.
cur non diuitiis Croesum superare potis sit,
uno qui in saltu tot bona possideat,
prata, arua, ingentes siluas latasque paludes
usque ad Hyperboreos et mare ad Oceanum?
omnia magna haec sunt tamen ipsest maximus †ultor,
non homo, sed uere mentula magna minax.




Catulo - CXV.

Vosso Caralho trinta campos tem de área fértil,
quarenta cultivados; o resto é ábsono.
Pois não superaria de Croesos os bens?
que não reténs incríveis bens numa herdade?
terras, campos, enormes bosques e amplos pauis
que alcançam o Oceano e os Hiperbóreos?
tudo isso é incrível; mas, †decerto, ele é o maior,
não homem, mas um grande e vil caralho.
Trad: Raphael Soares

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Ammianus Marcellinus - Fragmento de Rerum Gestarum

Ser um historiador na antiguidade não é tarefa fácil. O trabalho era difícil, e a posteridade tende a ser estremamente injusta com tais autores. Para muitos, ser imortal significa ser citado por algum autor que sobreviveu à modernidade, ou ser meramente considerado "fonte primária" quando nos falta algo melhor. Dentre os gregos, Tulcídides é tido como o pai da História entre os gregos, e entre os romanos a figura gigantesca de Tito Lívio (que foi gigante demais para o próprio bem, e para o nosso) e a imortalidade perene de Tácito, talvez o melhor escritor de prosa latina desde Cícero, todos os outros historiadores parecem uma sombra fraca. Suetônio, o mais famosos historiador romano, foi descrito por Cony nos termos "como escritor, pertence ao imenso escalão que forma o grosso de qualquer literatura" e cuja sobrevivência ele descreve como "enquanto houver cultura ocidental [-] Suetônio terá sua sobrevivência histórica e literária garantida, não tanto pelos próprios méritos, mas pelo volume de informações que nos legou sobre alguns dos homens mais importantes de uma era realmente importante"; Cony, não sendo um classicista, está sendo bem generoso aqui.

Ammianus é um caso diferente. Primeiro que, escrevendo no IV século, ninguém espera muito de tais escritores, e talvez por essa mesma razão eles nos surpreendem. Do mesmo jeito que Ausônio, que em meio a muita vulgaridade consegue ser incrível (como em Mosella) mesmo quando não tem ideia do porquê (cf. cartas para Paulino de Nola), Amiano deve garantir sua imortalidade pelo seus escritos mais que pelas próprias informações nele contidas, e, diferentemente de Ausônio, não significa que suas informações sejam irrelevantes tampouco. Como professou Ernst Stein, "Amiano é o maior gênio literário que o mundo produziu entre Tácito e Dante", e a despeito do exagero hiperbólico (há muitos grandes autores e obras entre o período; de pronto citaria Venâncio Fortunato na poesia e Gregório Magno e Agostinho na prosa) deve ser bem considerado, particularmente pela situação linguística particular do autor.

Amiano não era um falante nativo do latim, e isso é mais curioso do que aparenta a primeira vista. Numa época em que os escritores latinos faziam questão de escrever em grego, Amiano, que era grego, preferiu escrever em latim, uma língua que sequer dominava, aparentemente porque queria ser o "historiador romano depois de Tácito". Por servir no exército, o autor devia ser fluente no latim vulgar falado no exército na região do mediterrâneo, que era uma língua completamente diferente não apenas da escrita latina, como não usada pelo próprio exército para a comunicação (os documentos existentes do período são escritos em grego). O resultado foi uma artificialidade deliberada, apenas muito ligeiramente "contaminada" (não uso o termo no sentido negativo) pelo grego nativo e o vulgar falado que compôs o estilo do poeta. Mesmo um zero à esquerda de uma sequência de zeros no latim, que sou eu, consegue perceber o quão deliberado e elegante é o latim do poeta, e eu tentei manter esse ritmo e artificialidade poética na minha tradução. A conclusão é que eu falhei miseravelmente, e desisti de tentar traduzir a prosa latina também...

*
Mas se falho no estilo, ainda temos o texto. Amiano fala aqui de uma praga que assolou os já terríveis males de uma campanha militar. Não foi o primeiro caso em que o Marcellinus comentou sobre uma grande praga, já que a Praga de Antonino é parte de sua história, porém esta se perdeu e só é recontada por comentaristas posteriores. O que me interessou nessa notícia, é que, a despeito de uma época de ampla superstição e disputas entre crenças e ideologias, o autor demonstra uma excepcional sobriedade de julgamento. Muito do que ele nos fala sobre a doença e sobre doenças em geral pode parecer datada, errada ou ridiculamente expeculativa, mas ele soube, na medida de suas capacidades, com base em todas as fontes e comentários que tinha a sua disposição (que nem sequer eram muitos), construir o melhor panorama e a representação mais "correta" das causas que era possível para um homem da sua época. Ele tomou as palavras dos "especialistas" do período ao invés das "opiniões" e "superstições", e aplicou a elas um senso comum que, para qualquer estudioso da antiguidade, parece notável. Hoje em dia, com todo o desenvolvimento científico e facilidade de informação, julgar entre o senso e o nonsense deveria ser tarefa fácil, porém o tempo nos mostrou que, por mais que zombemos da "ignorância" dos antigos, eles operavam muito melhor com o que eles tinham do que nós com o que temos.



Ammianus Marcellinus - Rerum Gestarum XIX. 4

1. Sed in ciuitate, ubi sparsorum per uias cadauerum multitudo humandi officia superaret, pestilentia tot malis accessit, uerminantium corporum lue tabifica, uaporatis aestibus uarioque plebis languore nutrita. quae genera morborum unde oriri solent breuiter explicabo.
2. Nimietatem frigoris aut caloris, uel umoris aut siccitatis, pestilentias gignere philosophi et illustres medici tradiderunt. unde accolentes loca palustria uel umecta, tusses et oculares casus et similia perferunt, contra confines caloribus, tempore febrium aresc[unt frequ]entis¹. sed quanto ignis materies ceteris est efficacior, tanto ad perimendum celerior siccitas.
3. hinc cum decennali bello Graecia desudaret, ne peregrinus poenas dissociati regalis matrimonii lucraretur, huius modi grassante pernicie, telis apollinis periere conplures (qui sol aestimatur).
4. atque ut Thucydides exponit, clades illa quae in Peloponnesiaci belli principiis, Athenienses acerbo genere morbi uexauit, ab usque feruenti Aethiopiae plaga laulatum proserpens, Atticam occupauit.
5. aliis placet, auras (ut solent) aquasque uitiatas faetore cadauerum, uel similibus, salubritatis uiolare maximam partem, uel certe aeris permutationem subitam aegritudines parere leuiores.
6. adfirmant etiam aliqui, terrarum halitu densiore crassatum aera, emittendis corporis spiraminibus resistentem, necare non nullos, qua causa animalia praeter homines cetera iugiter prona, Homero auctore, et experimentis deinceps multis, cum talis incesserit labes, ante nouimus interire.
7. et prima species luis pandemos appelatur, quae efficit in aridioribus locis agentes, caloribus crebis interpellari, secunda epidemos, quae tempore ingruens, acies hebetat luminum, et concitat periculosos umores, tertia loemodes, quae itidem temporaria est, sed uolucri uelocitate letabilis.
8. Hac exitiali peste quassatis, paucis intemperantia aestuum consumptis, quos multitudo augebat, tandem nocte quae diem consecuta est decimun, exiguis imbribus disiecto concreto spiritu et crassato, sospitas retenta est corporum firma.



Amiano Marcelino - Rerum Gestarum XIX. 4

1. Mas na cidade, em que (esparsas pelas ruas) a quantidade de cadáveres era demais para se permitir enterro, uma praga aos males se acrescentou, infecção decadente dos corpos verminosos, o calor vaporoso e os variáveis langores que população nutria. Qual a gênese da doença em emergência brevemente explico.
2. Excesso de frio ou então calor, ou umidade, ou secura, pragas produzem, disseram médicos e filósofos ilustres. A partir daí aqueles que se avizinham a pântanos ou umidade sofrem de tosses e problemas nos olhos, e similares, enquanto aqueles nas proximidades de climas quentes desidratam pela constante¹ febre. Mas tanto quanto a matéria ígnea é mais eficaz que os outros elementos, o calor é mais rápido para matar.
3. Assim, quando a Grécia suava em guerra decenária, para que aquele estrangeiro não fugisse à pena por se aproveitar do matrimônio régio, praga assim grassou, e muitos pereceram pelos dardos de Apolo (reconhecido como o sol).
4. Assim como Tulcídides mostrou, desastre assim, que no princípio da guerra do Peloponeso vexou os atenienses com extremada doença, que se espalhou das ferventes plagas da Etiópia até ocupar as Áticas.
5. Outros creem que o ar (como é comum) e as águas, quando poluídas pelo fedor dos corpos ou coisa similar, sua integridade é violada em grande parte, ou ao menos tal mudança súbita provoca leves aflições.
6. Afirmam também alguns, quando pelo denso hálito da terra o ar se faz pesado, emitem exalações que devem ser repelidas pelo corpo, que não são sem risco de morte, que constantemente tende aos animais (antes dos homens), garante Homero, e de acordo com a experiência de muitos outros que o sucederam, matar primeiro por olhar para o chão.
7. E o primeiro tipo é chamado pandemus, que faz com que aqueles que vivem em lugares áridos serem impelidos por constantes febres; o segundo epidemus, que invade na estação apropriada, enfraquecendo a visão e deixando fluir perigosas águas; terceira loemodes, que também vem com o tempo, mas letal com velocidade alada.
8. Enfraquecidos por essa peste mortal, uns poucos consumidos pelo calor intemperado, que ampliado pela enorme multidão, finalmente, na noite que sucedeu a décima manhã, os duro e denso ar foi destruído pela exígua chuva, a saúde firme do corpo é recuperada.

Trad: Raphael Soares



Notas
1 - O texto parece incompleto pelo ritmo e estilo do autor, e os manuscritos apresentam arescunt [G] e arescentes [V], com marca de lacuna. Novák lê arescent assim como V pressupondo uma lacuna, enquanto Heraeus propõe aresc[unt frequ]entes, que sigo porque parece explicar melhor as duas variações, assumindo que arescunt é uma lição independente, de M, e não conjectura de Gelenius. Se as duas lições forem independentes, eu confio no julgamento de Heraeus, que provou sua brilhante intuição em Marcial X 14 (ou 13) 1 "cathedrata litos" (para cathedratalios, cathedeas alius, cotathedratos). A lição de G parece boa em matéria de sentido (embora qualquer um declamando alto sente falta de 'algo'), mas mesmo ela fazendo sentido uma lição só pode ser aceita se explicar a que não faz. O texto de V é insuficiente, porém arescunt parece muito mais correção ou erro de arescentes que o oposto (ao menos em minúscula; se o s viesse da próxima palavra ambas as mudanças seriam igualmente prováveis, mas não é o caso). Heraeus explica a conjectura pela construção seguinte "caloribus crebis interpellari" (impelidos por constantes febres), que deixa claro o sentido de frequentes aqui, e mostra sua adequação em relação à medicina da época. Contudo ele não explica a variante, então o faço aqui. Se o texto original lia-se "arescunt frequentes", como acredito que era, um copista copiou arescentes em seu texto e outro fez uma correção marginal somente da primeira palavra, o que é muito comum, anotando unt como correção ao topo ou nas margens; o texto de M deveria ser arescentes como V, porém Gelenius tomou apenas a variante que tinha o sentido mais autossuficiente (a correção unt), de modo que as duas lições são legítimas; nada disso é muito estranho, e se adequa a hábitos muito comuns dos copistas, e constrói melhor estilo, ritmo e se adequa ao sentido que o próprio autor dava para o fenômeno.

Pandemus, epidemus e loemodes são tentadores de se traduzir etimologicamente, enquanto outros tem proposto "endêmico" para pandemus. Não acho que nenhuma delas é apropriada. Os três casos são casos de epidemia (i.e.: doenças infecciosas). Pandemus seria o que chamaríamos de epidemias locais, provocadas principalmente pelo ambiente, de modo que o termo endêmico é correto especificamente para zoonoses, porém eles sabiam e chamavam desse modo porque entendiam que era uma doença que "se originava" em um local mas podia passar de pessoa para pessoa (e os cadáveres contavam como "local", porque também exalavam o "fogo"), de modo que é uma epidemia local que pode se alastrar de pessoa para pessoa, por isso o "pan". Epidemus é doença de estação; não havia uma teoria de germes na época, e as causas reais eram desconhecidas, mas eles sabiam que elas apareciam ou aumentavam de acordo com a estação, como é o caso de Dengue e Malária. Loemodes são as doenças altamente infecciosas e fatais, que eram considerádas "de estação" mas não no sentido regular, mas no sentido histórico, no sentido de que de tempos em tempos, sempre uma grande epidemia surge e é ágil e fatal, como foi a Grande Influenza ou a Grande Epidemia de Cólera, como foi as pragas de Antonino e de Justiniano, como foi a Peste Negra e o Sudor Angelicus, como provavelmente será a Covid-19. Nenhum dos três termos tem correlação exata com o modo que chamamos doenças hoje.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

A Aplicação do Pensamento na Crítica Textual - A. E. Housman

Após o fim das minhas publicações clássicas, resolvi publicar um texto que é considerado fundamental até os dias de hoje, sobre o que é ser um crítico textual de textos clássicos. Embora a cultura portuguesa, e, por extensão, a brasileira, tenha um estudo filológico e de crítica textual sobre textos lusófonos (embora bem mais desenvolvidos em Portugal), os nossos estudos clássicos são altamente defectivos no âmbito textual. Muitas das nossas melhores versões dos clássicos ignoram as questões textuais, e quando não as ignoram, as fazem sem método. Os poucos classicistas nacionais que já dedicaram algumas páginas sobre tais questões realmente não tem o texto como preocupação. Não acho que um texto como esse vai fazer alguma diferença na mentalidade nacional, mas considerando que eu estou preparando uma "Obra" de Housman, contendo a "Poesia" (maior completude possível), "Prosa" (Seleção) e uma edição de estudo baseada no "Aparato Crítico do Culex", e acho que a seleção de prosa nunca vai encontrar casa publicadora de qualquer modo, apresento essa "primeira versão" da palestra de Housman intitulada "A Aplicação do Pensamento na Crítica Textual" (uma versão pode ser lida gratuitamente aqui. Minha edição é o do Classical Papers e da Prosa Seleta). A minha próxima postagem será uma anotação e explicação e exemplificação de alguns dos pontos tratados pelo autor. Vejo vocês lá.



A APLICAÇÃO DO PENSAMENTO NA CRÍTICA TEXTUAL
A seguinte leitura foi feita para o encontro da Classical Association em Cambridge, no dia 4 de agosto de 1921.

Ao começar a falar sobre a aplicação do pensamento na crítica textual eu não pretendo definir o termo pensamento, porque espero que o sentido que eu dou à palavra emergirá do que eu disser. Mas é necessário definir de cara o que é crítica textual, porque muitas pessoas, e mesmo algumas que professam ensinar isso para outras, não sabem o que é. Se veem livros que se chamam introduções à crítica textual que não contem nada do assunto do início ao fim; que são só sobre paleografia, manuscritos e colações, e não têm maior relação com crítica textual se fossem sobre sobre morfologia e sintaxe. Paleografia é uma das coisas com que o crítico textual precisa se familiarizar, mas gramática é outra, e é igualmente indispensável; e nenhuma quantidade de gramática ou de paleografia ensinará a um homem um fiapo de crítica textual.

Crítica textual é uma ciência, e, desde que abrange recensão e emenda, é também uma arte. É a ciência de descobrir o erro nos textos e a arte de os remover. Essa é a definição, ou seja, o que o nome denota. Mas eu também devo dizer algo sobre o que e o que não conota, que atributos implica e não implica; porque aqui também falsas impressões se propagam.

Primeiro, então, é que não é um mistério sagrado. É puramente uma questão de razão e senso comum. Exercitamos crítica textual sempre que reparamos e corrigimos uma impressão errada. Um homem que possui senso comum e o uso da razão não deve esperar aprender de tratados ou palestras sobre a crítica textual nada que ele não descobriria por conta própria, com tempo livre e diligência. Que palestras e tratados podem fazer por ele é poupar tempo e esforço ao apresentar imediatamente considerações que, de qualquer modo, ocorreriam a ele cedo ou tarde. E, sempre que ele lê sobre crítica textual em livros, ou ouve em leituras, deve testar pela razão e senso comum, e rejeitar tudo o que entra em conflito com qualquer uma delas como mero hocus-pocus.

Segundo, crítica textual não é um ramo da matemática, nem, de fato, uma ciência exata de todo. Ela lida com um assunto que não é rígido e constante, como linhas e números, mas fluido e variável; a saber, as fragilidades e aberrações da mente humana, e de seus insubordinados servos, seus dedos. Por conta disso não é suscetível a regras estritas. Seria muito mais fácil se assim fosse; e eis o porque que pessoas tentam fingir que o é, ou ao menos se comportarem como se assim fosse. Claro que vocês podem ter regras estritas se quiserem, mas então terão regras falsas, e elas os levarão ao erro; porque a simplicidade delas se mostrará então inaplicável aos problemas que não são simples, mas complicados pelo drama da personalidade. Um crítico textual engajado em seu ofício não é como Newton investigando o movimento dos planetas: ele é muito mais como um cão caçando pulgas. Se um cão caçar pulgas baseado em princípios matemáticos, embasando suas pesquisas em estatísticas de área e população, ele nunca irá pegar uma pulga, exceto por acidente. Elas precisam ser tratadas como indivíduos; e cada problema que apresenta-se para o crítico textual deve ser considerado como possivelmente único.

Crítica textual, portanto, não é nem mistério nem matemática: ela não pode ser aprendida seja como catecismo ou como tabela de multiplicação. Esta ciência e arte exige mais do aprendiz que uma mente simplesmente receptiva; e o fato é que ela não pode ser ensinadas: criticus nascitur, non fit. Se um cão quer caçar pulgas com sucesso ele deve ser rápido e sensível. Não faz bem para um rinoceronte caçar pulgas: ele não sabe onde elas estão, e sequer poderia pegá-las se soubesse. As vezes se diz que a crítica textual é a coroa e ápice de todo o saber. Isso não é evidentemente ou necessariamente verdade; mas é verdade que as qualidades que fazem um crítico, sejam elas transcendentes ou não, são raras, e um bom crítico é coisa muito menos comum do que, por exemplo, um bom gramático. Eu tenho em mente um artigo de um estudioso famoso sobre certo escritor latino, e metade do estudo trata da gramática e a outra metade de crítica. A parte gramatical é excelente; mostra ampla leitura e observação precisa, e contribuiu com coisas que eram tanto novas como de valor. Na parte textual o autor não parecia melhor que uma criança malcriada interrompendo a conversa dos adultos. Se era possível cometer um erro na questão tratada ele errava. Se os argumentos de um oponente eram contidos em algum livro que ele não tinha a disposição, não tentava encontrar o livro, mas adivinhar os argumentos; e ele sempre falhava. Se tinha acesso ao livro e leu os argumentos, não os compreendia; e representava seus oponentes como se falassem o oposto do que falaram. Se outro estudioso já havia removido uma corrupção ao alterar o texto ligeiramente, ele propunha removê-la alterando o texto violentamente. Assim, é possível ser um homem inteligente e admirável em outros departamentos, e ainda assim não ter em si sequer a sombra de um crítico.

Mas a a aplicação do pensamento na crítica textual é uma ação que deve estar dentro das possibilidades de qualquer um que pode aplicar o pensamento em qualquer coisa. Não é, como o talento para a crítica textual, um dom da natureza, mas um hábito; e, como outros hábitos, pode ser formado. Desse modo, quando formado, embora não substitua um talento ausente, pode modificar e minimizar os efeitos ruins de tal ausência. Porque um homem não é um crítico nato, e, portanto, ele não precisa agir como um tolo nato; mas quando se engaja em crítica textual, isso acontece frequentemente. Para tudo há razão, e há razões para isso; e agora vou mostra a principal das razões. O fato de que o pensamento não é suficientemente aplicado, e devo demonstrar em breve com exemplos; mas no momento considerarei as causas que disso resultam.

Primeiramente é que não é somente a aptidão natural para o estudo que é rara, mas também é o interesse genuíno nele. Muitas pessoas, e muitos estudiosos entre elas, acham um tanto árido e tedioso. Agora, se um assunto nos aborrece, é nosso direito não querer nos dar ao trabalho de pensar sobre ele; mas se assim fizermos, seria melhor continuar e evitar nos darmos ao trabalho de escrever sobre também. E isso foi o que os estudiosos ingleses frequentemente faziam na metade do século XIX, quando ninguém na Inglaterra queria ouvir falar sobre crítica textual. Isso não é uma condição ideal das coisas, mas teve sua compensação. Quanto menos se fala sobre um assunto que não se entende, menos se fala estupidez sobre o mesmo; e quanto a isso, a opinião pública permitia aos editores ficarem calados se assim escolhessem. Mas a opinião pública agora se deu conta que crítica textual, embora repulsiva, é, não obstante, indispensável, e editores acham que alguma pretensão de lidar com o assunto é obrigatória; e em tais circunstâncias eles não aplicam o pensamento, mas palavras, na crítica textual. Eles obtém regras de rotina sem compreender as realidades das quais essas regras são meros emblemas, e as recitam em ocasiões inapropriadas ao invés de pensar seriamente em cada problema que surge.

Segundo, é que apenas uma minoria dentre aqueles que engajam em tal estudo são sinceramente inclinados em descobrir a verdade. Nós todos sabemos que a descoberta da verdade é raramente o objetivo principal de escritores políticos; e o mundo crê, com ou sem justiça, que nem sempre é o único objetivo de teólogos: mas a quantidade de desonestidade subconsciente que permeia a crítica textual de clássicos greco-latinos é pouco suspeita, exceto por aqueles que tiveram a ocasião de analisar. Pessoas iniciam no campo trazendo com elas predisposições e preferências; elas não desejam olhar todos os fatos de frente, nem extrair a conclusão mais provável, exceto quando é também a conclusão mais agradável. A maioria dos homens é um tanto estúpida, e muitos daqueles que não são estúpidos são, consequentemente, um tanto vãos; e dificilmente é possível escapar da busca pela verdade sem cair vítima ou de sua estupidez ou de sua vaidade. Estupidez então os prenderá em opiniões recebidas, e vão ficar na lama; ou vaidade os porá a caçar novidades, e terão descobertas ilusórias. Somam-se a essas armadilhas e impedimentos as várias formas de partidarismo: sectarismo, que te algema em tua própria escola, professores e associados, e patriotismo que te algema em teu próprio país. Patriotismo teve um grande nome como uma virtude, e em assuntos cívicos, no atual estágio da história do mundo, é possível que ainda faça mais bem que mal; mas na esfera do intelecto é praga não mitigada. Eu não sei qual compõe a pior figura: um estudioso alemão encorajando os seus a acreditar que 'wir Deutsche' nada têm a aprender de estrangeiros, ou um inglês demonstrando a unidade de Homero zombando os 'Teutonic professors', que sua audiência supõe ter olhos arregalados por trás de largos óculos, e bigodes irregulares saturados com muita cerveja, consequentemente sendo incapazes de formar julgamentos literários.

Terceiro, as causas internas de erro e tolice são raramente sujeitas à oposição ou correção de fora. O leitor médio dificilmente sabe algo de crítica textual, e portanto não pode exercer um controle vigilante sobre o escritor: o cabeça-oca é livre para divagar e o impostor para mentir. E, o que é pior, o leitor frequentemente compartilha os preconceitos do escritor, e está mais que satisfeito com as conclusões dele para examinar, sejam suas premissas, seja sua razão. Fiquem em pé num barril nas ruas de Bagdá, e gritem alto, 'Dois mais dois são quatro, e gengibre arde na boca, por isso mesmo Maomé é o profeta de Deus', e sua lógica provavelmente não será criticada; ou, se alguém por acaso criticá-la, poderão facilmente silenciar esse alguém chamando-o de cachorro cristão.

Quarto, as coisas sobre as quais o crítico textual fala não são coisas que apresentam a si própria de modo tão claro e agudo na mente; e é fácil dizer e imaginar que se pensa, o que realmente não se pensa, e mesmo que, caso realmente se pense, que descobre impensável. Por isso são cometidos erros que não se cometeriam se o assunto em questão fosse qualquer objeto corpóreo, tendo qualidades perceptíveis aos sentidos. Os sentidos humanos têm uma história mais longa que o intelecto humano, e têm sido levados mais próximos da perfeição: eles são mais agudos e mais difíceis de enganar. A diferença entre um sincelo e um atiçador em brasa é, em verdade, muito menor que a diferença entre verdade e falsidade, ou sentido e nonsense; ainda é notado de modo muito mais imediato e universal, porque o corpo é mais sensitivo que a mente. Portanto, acho que um bom modo de expor a falsidade de uma afirmação, ou o absurdo de um argumento, em crítica textual é o de transpor em termos sensíveis, e ver como eles se parecem. Se os nomes que usamos são nomes de coisas que podem ser manuseadas ou provadas, diferindo entre si sendo quentes ou frias, doces ou azedas, então nos damos conta do que estamos dizendo e tomamos cuidado com o que falamos. Mas os termos da crítica textual são deploravelmente intelectuais; e provavelmente em nenhuma outra área homens contam tantas mentiras, na vã esperança de que estejam dizendo a verdade, ou falam tanto nonsense na vaga crença de que estejam fazendo sentido.

Isso é particularmente lamentável, e particularmente repreensível, porque não há ciência em que seja mais necessário tomar precauções contra erro que surgem de causas internas. Aqueles que seguem as ciências físicas aproveitam a grande vantagem de poder constantemente trazer suas opiniões ao teste do fato, e verificar ou falsificar suas teorias pelo experimento. Quando um químico misturou enxofre, salitre e carvão, em certas proporções, e deseja confirmar se a mistura é explosiva, precisa apenas acender um fósforo. Quando um médico fez a composição de uma droga nova e deseja descobrir para quais doenças, se para alguma, ela serve, precisa apenas dar para todos os seus pacientes e notar quais morrem e quais se curam. Nossas conclusões em relação à verdade ou falsidade da leitura de um MS. nunca podem ser confirmadas ou corrigidas por um teste igualmente decisivo; pois o único teste igualmente decisivo seria a produção do autógrafo do autor. A mera descoberta de MSS. melhores ou mais velhos que os anteriormente conhecidos não é igualmente decisivo; e mesmo essa verificação inadequada não deve ser esperada com muita frequência ou em larga escala. É, portanto, uma questão de prudência e decência comuns que não devemos negligenciar nenhuma garantia dentro de nosso alcance; que devemos ser perspicazes por conta própria; que devemos escrutinar minuciosamente nossos próprios procedimentos, e analisar rigorosamente nossas fontes de ação. O quanto esses requisitos elementares são satisfeitos aprenderemos agora por exemplos.

Logo de cara, para ver que irrelevância pura, que tolice quase incrível, encontra seu caminho na imprensa, tome este caso. Se tem suposto por muitos séculos que o nome de Plauto era M. Accius Plautus, quando Ritschl, em 1845, apontou que no palimpsesto Ambrosiano, descoberto em Maio de 1815, escrito no quarto ou quinto século, e, portanto, o mais velho dos MSS. de Plauto, o nome aparecia no genitivo como T. Macci Plauti, então ele realmente se chamava Titus Maccius (ou Maccus) Plautus. Um estudioso Italiano, um Vallauri, contestou a tal inovação baseado no fato de que em todas as edições impressas dos séculos XVI-XIX o nome era M. Accius. Ele foi para Milão ver o palimpsesto, e lá, decerto, encontrou T. Macci escrito de modo bem legível. Mas observou que muitas outras páginas do MS. eram quase ilegíveis, e que o livro inteiro estava muito desgastado e esfarrapado; daí disse que não podia suficientemente imaginar ninguém dando qualquer peso para um MS. que estivesse em tais condições. Há alguma outra ciência, algo chamando a si mesmo de ciência, em que tais intelectos invadem e conduzem tais operações em público? Mas talvez vocês pensem que o Sr. Vallauri é um fenômeno único. Não: se vocês se engajarem em crítica textual devem encontrar um segundo Sr. Vallauri a qualquer momento. Os MSS. de Catulo, nenhum deles anterior ao século XIV, apresentam em 64.23 o verso:
heroes saluete, deum genus! o bona mater!
A scholia Veronense de Virgílio, um palimpsesto do século V ou VI, em Aen. v80, 'salue sancte parens', tem a nota: 'Catullus: saluete, deum gens, o bona matrum | progenies, saluete iter[um]'—dando gens no lugar de genus, matrum no lugar de mater, e adicionando meio verso ausente nos MSS. de Catulo; e estudiosos têm, naturalmente, preferido uma autoridade muito mais antiga. Mas se encontra um editor para contestar: 'o peso da scholia Veronense, imperfeita e cheia de lacuna como é, não deve ser posta contra nossos MSS'. Aqui é o Sr. Vallauri novamente: porque o palimpsesto tinha grandes buracos aqui e ali e porque muito dele pereceu, o que resta, embora de escrita tão antiga quanto o século VI, tem menos autoridade que MSS. escritos no XIV. Se, contudo, qualquer um tiver posse desses MSS. do século XIV, destruir páginas deles e criar buracos nas páginas que não destruir, a autoridade dessas partes que sobreviverem irão, presumivelmente, deteriorar, e devem mesmo afundar tanto quanto a do palimpsesto.

Novamente. Existem dois MSS. de um certo autor, que chamaremos A e B. Desses dois se reconhece que A é o mais correto porém o menos sincero, e que B é o mais corrupto porém menos interpolado. Se deseja saber qual MS., se algum, é melhor que o outro, ou se ambos são iguais. Um estudioso tenta determinar tal questão pela coleção e comparação dos exemplos. Mas outro pensa que conhece um caminho mais curto que esse; e que consiste em dizer 'o MS. mais sincero deve ser, para qualquer crítico que entende de seu ofício, o melhor MS.'.

Cito isto como um espécime das coisas que pessoas devem dizer se não pensam no significado daquilo que dizem, e especialmente como um exemplo do perigo de se lidar em generalizações. O melhor meio de tratar tais inanidades pretensiosas é transferi-las da esfera da crítica textual, onde a diferença entre verdade e falsidade, ou entre o sentido e nonsense, é pouco considerada, e raramente sequer percebida, para uma esfera em que homens são obrigados a usar termos concretos e sensíveis, o que os força, mesmo que relutantemente, a pensar.

Eu questiono esse estudioso, tal crítico que sabe seu ofício, e que diz que o MS. mais sincero dos dois é e deve ser o melhor—pergunto que me diga quem pesa mais, um homem alto ou um gordo. Ele não pode responder; ninguém pode; todo mundo vê num instante que a questão é absurda. Alto e gordo são adjetivos que transportam mesmo o crítico textual do mundo da farsa para o da realidade, um mundo habitado por pessoas comparativamente profundas, como açougueiros e doceiras, que dependem de seus cérebros para ter o pão de cada dia. Aqui ele deve entender que para tais questões gerais qualquer resposta deve ser falsa; que julgamento só pode ser pronunciado em espécimes individuais; que tudo depende do grau de altura e do grau de gordura. Pode ser que uma polegada de circunferência adicione mais peso que uma polegada de altura, ou vice versa; mas que altitude é incomparavelmente mais pesada que obesidade, ou obesidade que altitude, e que uma polegada de um afeta a balança mais que uma jarda de outro, nunca foi mantido. O modo de descobrir se este homem alto pesa mais ou menos que aquele homem gordo é os pesando; e o modo de descobrir se este MS. corrupto é melhor ou pior que aquele interpolado é reunindo e comparando as leituras dos mesmos; não saltar prontamente numa generalização falsa e ridícula de que o MS. mais sincero é e deve ser melhor.

Quando se chama um MS. sincero, instantaneamente se engaja favoravelmente a simpatia moral do sem cérebro: simpatia moral é uma linha em que eles são bem fortes. Eu não pretendo excluir moralidade da crítica textual; eu desejo, de fato, que algumas qualidades morais fossem mais comuns em crítica textual do que são; mas não vamos beneficiar nossas emoções morais contra a razão. Pode ser que um escriba que interpola, que cria mudanças deliberadamente, é culpado de perversidade, enquanto um escriba que muda acidentalmente, porque está com sono, não sabe ler ou está bêbado, não tem tal culpa; mas isso é questão que será determinada por uma autoridade competente no Dia do Juízo, e não nos diz respeito. Não nos diz respeito o destino eterno do escriba, mas a utilidade temporal do MS.; e um MS. é útil ou o oposto disso em proporção à quantidade de verdade que revela ou oculta, não importa quais possam ser as causas da revelação ou ocultação. É um erro supor que mudanças deliberadas são sempre ou necessariamente mais destrutivas que mudanças acidentais; e mesmo se fossem, a questão principal, como eu já disse, é de grau. Um MS. em que 1% das palavras foram viciosamente e intencionalmente alteradas e 99% está certo não é um MS. tão ruim quanto um em que 1% está correto e 99% foi alterado virtuosamente e sem intenção; e se vocês perguntarem a um crítico questão vaga como qual dos dois MSS., o 'mais sincero' ou o 'mais correto', é melhor, ele responderá, 'Se eu vou responder tal questão, mostre-me primeiro os dois MSS.; por tudo o que sei até o momento, dos termos da questão, qualquer um pode ser melhor que o outro, ou ambos podem ser iguais'. Mas isso é o que os intrusos incompetentes em crítica nunca podem admitir. Eles precisam ter um MS. melhor, existindo ou não; porque eles nunca podem avançar sem um. Se a Fortuna permitir que dois MSS. sejam iguais, o editor terá de escolher entre suas leituras por considerações de mérito intrínseco, e para fazer isso ele teria de adquirir inteligência, imparcialidade, e desejo de tomar as dores, e todo tipo de coisas que ele não tem ou não deseja; e ele tem certeza que Deus, que tempera o vento para o cordeiro tosquiado, nunca poderia colocar sobre os ombros dele um fardo assim.

Esta é a falta de pensamento na esfera da recensão: segue agora para a esfera da emenda. Aqui há um tipo tolo de conjectura que parece ser mais comum nas Ilhas Britânicas que em qualquer outro lugar, embora também seja praticada no exterior, e nos últimos anos especialmente em Munique. A prática é, se já te convenceste que um texto é corrupto, altere uma letra ou duas e veja o que acontece. Se o que acontecer é algo que a mais branda boa fé pode se equivocar como tendo sentido e gramática, chama isso de emenda; e depois chama tal jogo estúpido de método paleográfico.

O método paleográfico sempre foi o deleite dos novatos e o escárnio dos críticos. Haupt, por exemplo, costumava alertar seus pupilos contra confundir tal coisa com emenda. 'O primeiro requisito de uma boa emenda', disse, 'é que deve iniciar do pensamento; e somente depois que outras considerações, como as de metro, ou possibilidades, como a troca de letras, devem ser consideradas'. E novamente: 'Se o sentido exigir, estou preparado para escrever Constinopolitanus onde os MSS. tem a interjeição monossilábica o'. E novamente: 'Partindo da exigência que se deve começar sempre pelo pensamento, aqui resulta, como é auto-evidente, o aspecto negativo do caso, que não se deve, no início, considerar que mudança de letras deve possivelmente ter criado a corrupção da passagem com que se está lidando'. E adiante, em sua oração sobre Lachmann como crítico: 'Algumas pessoas, se percebem que algo em um texto antigo precisa de correção, imediatamente se lançam na arte da paleografia, investigam as formas das letras e as formas de abreviação, e tentam um ardil depois do outra, como se fosse um jogo, até que acertam algo que eles pensam poder substituir a corrupção; como se a verdade fosse realmente descoberta por lances dessa estirpe, ou como se emenda pudesse surgir de algo que não uma consideração cuidadosa do pensamento'.

Mas mesmo quando paleografia é mantida em seu lugar próprio, como serva, e não se permitir que ganhe ares de senhora, ela pode se sobrecarregar. Existe aqui uma preferência por conjecturas que pedem o auxílio da paleografia, e que assumem, como causa do erro, a mudança acidental de letras ou palavras similares, embora sabe-se que existem outras causas de erro. Uma é apresentada, por exemplo, com a seguinte máxima:
Interpolação é, geralmente falando, uma fonte de alteração comparativamente incomum, e nós devemos, portanto, ser relutantes em assumi-la em um determinado caso.
Todo caso é um determinado caso; então o que a máxima realmente quer dizer é que devemos sempre ser relutantes em assumir interpolação como fonte de alteração. Mas é certo, e admitido pelo escritor quando ele usa a frase 'comparativamente incomum', que interpolação ocorre; então ele está nos dizendo que devemos ser relutantes em assumir interpolação mesmo quando essa suposição é verdadeira. E a razão porque devemos nos comportar de modo ridículo assim é porque interpolação é, geralmente falando, uma fonte de alteração comparativamente incomum.

Agora detectar um non sequitur, a menos que leve a uma conclusão indesejável, está além do poder do leitor comum e está além do poder do escritor médio atribuir ideias para suas próprias palavras quando tais palavras são termos de crítica textual. Eu irei, portanto, substituir os termos, termos para os quais ideias devem ser atribuídas; e eu convido consideração de tal máxima e seu raciocínio:
Tiro é, geralmente falando, uma causa de morte comparativamente incomum, e nós devemos, portanto, ser relutantes em assumi-la em um determinado caso.
Devemos? Devemos ser relutantes em assumir morte por tiro se o determinado caso for morte no campo de batalha? e devemos ser relutantes pela razão alegada, de que tiro é, geralmente falando, uma causa de morte comparativamente incomum? Devemos então assumir a causa de morte mais comum, e declarar uma morte no campo de batalha por tuberculose? O que se pensaria de um advogado que apreciasse esse modo de proceder? Bem, provavelmente se pensaria que ele era um crítico textual retirado de seu lar.

Porque interpolação é comparativamente incomum? Pela mesma razão que tiros são: porque a oportunidade para sua ocorrência é comparativamente incomum. Interpolação é provocada por dificuldades reais ou supostas, e não se voluntaria frequentemente onde é tudo navegação simples; enquanto alteração acidental pode ocorrer em qualquer lugar. Cada letra de cada palavra está exposta a ela, e esta é a única razão porque mudança acidental é mais comum. Em um dado caso em que ambas as suposições são possíveis, a suposição de interpolação é igualmente provável, ou ainda mais provável; porque ação motivada é mais provável que ação sem motivo. A verdade, portanto, é que em tal caso devemos ser relutantes em assumir acidente e devemos então assumir interpolação; e o fato de que tais casos são comparativamente incomuns não é razão para se comportar irracionalmente onde eles ocorrem.

Existe uma província especial da crítica textual, uma grande e importante província, que lida com o estabelecimento das regras de gramática e metro. Tais regras são, em parte, tradicionais, dadas a nós pelos gramáticos antigos; mas em parte são formadas pela nossa própria indução do que achamos nos MSS. de autores Gregos e Latinos; e mesmo as regras tradicionais devem, claro, ser testadas por comparação com os testemunhos dos MSS.. Mas cada regra, seja ela tradicional ou construída por indução, é algumas vezes quebradas pelos MSS.; pode ser por alguns, pode ser por muitos; pode ser raridade, pode ser frequente; e críticos devem dizer então que os MSS. estão errados, e devem corrigi-los de acordo com a regra. Esse estado das coisas é aparentemente, ou mesmo evidentemente, paradoxal. Os MSS. são os materiais sobre os quais baseamos nossas regras, e então, quando nós temos nossas regras, nos voltamos contra o MSS. e dizemos que a regra, baseada neles, os incrimina por erro. Estamos assim trabalhando em círculo, o que é um fato que não se pode negar; mas, como Lachmann diz, a tarefa do crítico é exatamente essa, andar sobre o círculo com habilidade e cautela; e é isso, precisamente, que eleva o trabalho do crítico acima do mero labor mecânico. A dificuldade é aquela que jaz na natureza do caso, e isso é inevitável: e o único modo de o superar é sendo um crítico.

O paradoxo é mais formidável em aparência que em realidade, e há muitas analogias na vida diária. Em um julgamento ou processo, o veredito do júri é principalmente baseado na evidência das testemunhas; mas isso não impede o júri de decidir por si, de que uma ou mais testemunhas são culpadas de perjúrio, ou que a evidência delas deva ser desrespeitada. É bem possível induzir do testemunho geral do MSS. uma regra suficientemente correta para convencer da falsidade de seu testemunho excepcional, ou de probabilidade suficiente para gerar dúvidas. Mas tal testemunho excepcional deve ser considerado em cada caso. Deve ser reconhecido que há duas hipóteses entre as quais temos de decidir: a questão de se as exceções vêm do autor, e assim quebram a regra, ou se vêm do escriba, e devem ser corrigidas: e para decidir isso temos de abrir os olhos para qualquer peculiaridade que devem as caracterizar.

Uma das formas em que a falta de pensamento assumiu na crítica textual é a tendência, agora predominante, especialmente entre alguns estudiosos do continente, de tentar quebrar regras aceitas da gramática ou metro pela mera coleção e enumeração de exceções apresentadas pelos MSS.; Agora isso nunca pode quebrar uma regra: o mero número de exceções não é nada; o que importa é o peso delas, e isso só pode ser determinado por classificação e escrutínio. Se eu tivesse anotado cada exemplo que eu encontrei, eu deveria ter agora uma grande coleção de MSS. latinos em que o substantivo orbis, que nossas gramáticas e dicionários declaram ser masculinos, tem um adjetivo feminino ligado a ele. Mas eu não irei, por causa disso, propor a revisão da regra de sintaxe, pois o estudo mostraria que tais exemplos, embora numerosos, não tem força. Muitos deles são lugares em que o sentido e contexto mostram que orbis, em qualquer caso ou número que seja, é meramente uma corrupção do caso e número correspondente de urbs; e nos casos restantes é natural supor que o escriba tenha sido influenciado e confundido pela grande semelhança de uma palavra pela outra. Ou novamente, leiam Madvig, Adu. Crit., vol. I, liv. i, cap. iv, em que ele filtra as evidências para a opinião de que o aoristo infinitivo Grego pode ser usado após verbos de dizer e pensar no sentido do futuro do infinitivo ou do aoristo infinitivo com ἄν. A lista de exemplos em MSS. é, de fato, bem longa; mas no momento em que se começa a classificá-las e examiná-las então o choque é menos quanto ao número que quanto a restrição de seu escopo. Quase todas elas são coisas como δέξασθαι usada por δέξεσθαι, em que a diferença entre as duas formas é de apenas uma letra; um número menor é de formas como ποιῆσαι por ποιήσειν, em que a diferença, embora maior, é ainda mínima; outros exemplos são ἥκιστα ἀναγκασθῆναι por ἥκιστ' ἂν ἀναγκασθῆναι, onde, novamente, a diferença é quase nenhuma. Agora, se os MSS. estão certos nos casos citados, e os autores Gregos usaram tal construção, como se explica tal limitação extraordinária no uso? Não há nenhuma diferença sintática entre o primeiro e segundo aoristo: porque então eles usam o 1º aoristo tão frequentemente para o futuro e o 2º tão pouco? Porque eles dizem δέξασθαι ao invés de δέξεσθαι dezenas de vezes e λαβεῖν ao invés de λήψεσθαι nenhuma? Apenas perguntar a questão basta para revelar a realidade do caso. O fato bruto de que os aoristos usados assim nos MSS. são aoristos de forma similar ao futuro, enquanto aoristos de forma dissimilar não são usados desse jeito, prova que o fenômeno tem sua causa nos olhos do copista e não na mente do autor, que não é uma variação no uso gramatical, mas um erro de transcrição. O número de exemplos não é nada; tudo depende de seu caráter; um único exemplo de λαβεῖν com sentido de futuro teria muito mais peso que uma centena de δέξασθαι.

Em particular, escribas alterarão formas menos familiares para uma mais familiar, se não virem nada que os impeça. Se o metro permitir, ou se eles não souberem que o metro proíbe, alterarão ἐλεινός para ἐλεεινός, οἰστός para ὀϊστός, nil para nihil, deprendo para deprehendo. Desde que o metro os incrimina de infidelidade em alguns lugares, eles perdem o direito à nossa confiança em qualquer lugar; se escolhemos acreditar neles, somos crédulos, e se construirmos nossas estruturas em nossas crenças não somos críticos. Mesmo se o metro não os incrimina, a razão às vezes o faz. Tomem a afirmação, repetidamente feita em gramáticas e edições, de que os Latinos algumas vezes usavam o mais-que-perfeito no lugar do imperfeito e do perfeito. Eles, de fato, usaram para o imperfeito; eles também usaram para o aoristo passado ou pretérito; mas para o perfeito eles não usaram; e isto se prova pelos próprios exemplos de uso como perfeito que se encontram em MSS.. Todos os exemplos conhecidos são da 3ª pessoa do plural. Por quê? Nós temos de escolher entre as duas hipóteses seguintes:
(a) que os Latinos usavam o mais-que-perfeito com o sentido de perfeito, mas apenas na 3ª pessoa do plural.
(b) que eles não usaram o mais-que-perfeito como perfeito, e que os exemplos são corruptos.
Se alguém adotou a primeira, ele terá de explicar que propriedade sintática, convidando o autor a usar o mais-que-perfeito como perfeito, a 3ª pessoa do plural possuía que as outras duas pessoas do plural e as três do singular não possuíam: e eu gostaria de ver alguém explicando isso.

Se adotamos a segunda, devemos mostrar que qualidade externa, convidando o escriba a escrever o mais-que-perfeito no lugar do perfeito, a 3ª pessoa do plural, e só ela, possui: e isso é bem fácil. A 3ª pessoa do plural é a única pessoa em que o perfeito e o mais-que-perfeito diferem meramente em uma letra. Além do mais, em verso, a terminação perfeita -erunt, sendo comparativamente pouco familiar para os escribas, é alterada por eles para a forma familiar mais próxima com a mesma escanção, às vezes -erint, às vezes -erant: em Heroides de Ovídio há quatro lugares em que o melhor MS. nos dá praebuerunt, steterunt, exciderunt, expulerunt, e os outros MSS. dão -erant ou -erint ou ambos. Do mesmo modo, quando o MSS. bem mais inferior de Propércio apresenta o mais-que-perfeito no lugar do perfeito em quatro lugares, fuerant uma vez, steterant uma vez, exciderant duas vezes, Escalíngero corrige para fuerunt, steterunt, exciderunt. Em seguida, um editor de sua era esclarecida toma a pena e escreve o seguinte: 'É bem errôneo remover os mais-que-perfeitos onde se pode agir sem grande custo da sagacidade conjectural (steterunt por steterant e outros), e não se incomodar com o fenômeno nos outros lugares'. Eu pergunto, como é possível se incomodar com o fenômeno nos outros lugares? Não existem outros lugares. Não há lugar em que os MSS. deem steteram no sentido do perfeito steti, nem steteras no sentido do perfeito stetisti. Sempre que se dão exemplos do mais-que-perfeito que não pode ser removido pela mudança de uma letra—como em pararat em i 8 36 ou fueram em i 12 11—são exemplos em que têm o sentido de imperfeito ou do pretérito, mas nunca do perfeito. E a inferência é clara: os Latinos não usaram o mais-que-perfeito com sentido de perfeito.

Escalíngero sabia disso no século dezesseis: o Sr. Rothstein, no dezenove e vinte, não sabe; ele gosta de um tipo de verborragia que o previne de sabê-lo, e pensa que está na frente de Escalíngero. Se supõe que exista progresso na ciência da crítica textual, e o mais frívolo fingidor aprendeu a falar superciliosamente sobre 'os velhos tempos acientíficos'. Os velhos tempos acientíficos são eternos; eles estão aqui e agora; são perenemente renovados pelo ouvido que recebe formulas, a língua que as propaga, e a mente que é, durante o processo, vazia de reflexão e estufada de autocomplacência. Progresso houve, mas onde? Em intelectos superiores: a turba não compartilha delas. Um homem como Escalíngero, vivendo em nosso tempo, seria um crítico melhor que Escalíngero foi; mas nós não devemos ser críticos melhores que ele pelo simples fato de vivermos em nosso próprio tempo. Crítica textual, como muitas outras ciências, é um afazer aristocrático, não comunicável a todos os homens, nem para a maioria deles. Não ser um crítico textual não é de se reprovar em nenhum homem, a menos que ele finja ser o que não é. Ser um crítico textual exige aptidão para o pensamento e o desejo de pensar; e embora exija outras coisas, tais coisas são suplementos e não podem ser substitutos. Conhecimento é bom, método é bom, mas uma coisa é necessária acima das outras; é ter uma cabeça, não uma abóbora, sobre os ombros, e cérebro, não pudim, na cabeça.

Trad: Raphael Soares