quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Comentário sobre Fears and Scruples, de Robert Browning

Robert Browning foi um poeta inglês particularmente interessante. Aliás, pertence a um período bastante curioso da literatura inglesa (e somente dela) que é denominada tradicionalmente pelo nome genérico de "período vitoriano", devido ter existido durante o reinado da rainha Vitória, entre 1840 e 1880, e que ocorreu logo após a literatura feita pelos grandes românticos da primeira (Blake, Wodsworth e Coleridge) e da segunda (Shelley, Byron e Keats) geração. O romantismo inglês praticamente se encerra na década de 20, praticamente com a morte de Byron (em 1824). Os românticos que sobrevivem (a exceção apenas de Landor) não puderam escrever mais grandes obras de relevância, e a geração que se seguiu foi bastante prolífica, a seu modo. O mais curioso é que, na prática, pouca coisa tem em comum os principais nomes desse período: Tennyson, Elizabeth Browning, Robert Browning, Dante Gabriel Rossetti, Christina Rossetti, Algernon Charles Swinburne, Matthew Arnold, as Irmãs Brönte e George Meredith, além de curiosidades como Fitzgerald, Edward Lear, Lewis Carrol e principalmente G. M. Hopkins, bem como um sem número de escritores menores, aqui representado apenas pelo soneteiro Blunt. De poesia, o que temos desses autores traduzidos no Brasil? Um sem número de pequenos poemas esparsos em livros, jornais e na internet. Em livro exclusivamente o único que ainda possui alguma sorte é Hopkins, com algumas antologias traduzidas por Augusto de Campos, Aíla Gomes, Luís Bueno bem como poesias esparsas mais facilmente encontráveis. De Browning temos um único livro: O Flautista de Manto Malhado de Hamelin, em tradução de Alípio Correia de França Neto (sorte que tem também Swinburne com um livro de um poema só: Dolores). De resto temos o poema Mocidade e Arte (1948, por Bezerra de Freitas), O Amor entre as Ruínas, um fragmento de Sordello, Minha Última Duquesa (1950, 1995 e 1996 respectivamente, por Décio Pignatari), Lembranças longe da pátria, Encontro à noite (1988, por José Lino Grünewald), Childe Rolland à Torre Negra Chegou (de 2000 por Fabiano Moraes), O Patriota (por Cunha e Silva Filho), O Amante de Porfíria (2012, por Adriano Escandolara), o Flautista de Hamelin (2012, por Valdir Dalla Mata) e O Amor Entre Ruinas (2014, por Matheus Mavericco). Em Portugal há mais algumas traduções: A. Herculano de Carvalho, João Almeida Flor e, possivelmente, Fernando Pessoa.

O poema Fears and Scruples chamou-me a atenção a partir da leitura do ensaio Kafka e seus precursores de Jorge Luís Borges. Vale a pena transcrever o trecho na íntegra:

A quarta das prefigurações [de Kafka] foi a que encontrei no poema "Fears and Scruples", de Browning, publicado em 1876. Um homem tem, ou julga ter, um amigo famoso. Nunca o viu e o fato é que ele não pode, até agora, ajudá-lo, mas dele contam gestos muito nobres, e cartas autênticas circulam com seu nome. Há, porém, quem ponha em dúvida os gestos, e os grafólogos afirmam o caráter apócrifo das cartas. O homem, no último verso, pergunta: "E se esse amigo fosse Deus?".

É no mínimo uma leitura curiosa a de Borges, vendo Browning pela contramão, ou seja, a partir de um possível (porém muitíssimo improvável) sucessor: Kafka. Como praticamente todas as leituras do escritor, é simplista, arbitrária e profundamente imprecisa. Ignora boa parte das características e possíveis significações do poema, particularmente no que se refere à religiosidade e "crítica religiosa" (no que se refere à "nova crítica", miticismo e busca pela historicidade documental das escrituras sagradas, com muitos expoentes na Inglaterra da década de 70-80), e reduzindo o poema a uma narrativa do absurdo avant la lettre, o que não é de modo algum. Ainda assim, não deixa de ser uma interessantíssima leitura, que nos mostra as possibilidades das mais arbitrária de se ler um escritor mais próximo de nós, e uma solução antiacademicista para se encontrar prazer numa leitura, com base em suas relações mais improváveis: ler Browning a partir de Kafka, que muito provavelmente não leram um ao outro.

Ignorar o aspecto religioso do poema é ignorar talvez sua parte mais interessante. O poema refere-se claramente a isso em várias passagens: o amigo oculto (unseen), as cartas (letters), as escrituras (writings), os atos (actions) e a coda do último verso, associando diretamente o amigo a Deus. Há ainda uma referência menos clara (principalmente em língua portuguesa, pelos motivos que explicarei): "All my days, I'll go the softlier," é uma citação de Isaías, que em língua portuguesa passa por alguns problemas, pois não possuímos uma bíblia com a mesma função social quase que "oficial" como as versões KJB Authorized version, exceto se tratando de pequenos grupos religiosos, como os Testemunhas de Jeová, por exemplo. Por um lado, temos em português a Bíblia de João Ferreira de Almeida, que é a mais antiga versão completa direto dos originais, no entanto, as sucessivas revisões da bíblia trouxeram uma discrepância entre o uso do adjetivo na seguinte passagem: mansamente, calmamente e humildemente, essa última sendo a mais comum nas bíblias mais novas. Por outro lado, a maioria da população brasileira é (ou ao menos não negou ser) católica, e nas bíblias católicas a forma é bastante diferente, pois esse é o texto base da Nova Vulgata ("lembra-te de que lenho andado na tua presença com fidelidade e de coração inteiro", por exemplo, na Bíblia de Jerusalém; as bíblias mais antigas não contém o adjetivo, pois são baseadas na Vulgata de Jerônimo). Optei pela forma "manso" porque é a forma que aparece na edição de Almeida de 1870, de maior circulação no período, mesmo que apenas a Almeida Corrigida Fiel da Sociedade Bíblica Trinitariana mantenha a forma "mansamente".

Há no poema uma quadra que considero absolutamente fantástica:

"Letters?" (hear them!) "You a judge of writing?
  Ask the experts! How they shake the head
O'er these characters, your friend's inditing -
  Call then forgery from A to Z!
que verti como:

“Cartas?” (ouça) “Acaso julgas escrituras?
  Pergunte a especialistas, e eles irão ler
Sobre esses caracteres, e essas feituras –
  Chamá-los-iam forjados de A a Z!

A crítica tende a apontar como uma resposta à "Nova Crítica", como a de Baur e Renan, que negavam a veracidade das escrituras como valor histórico absoluto. Mas acho curioso os exegetas de Browning ignorarem a situação da crítica textual da bíblia (partindo das variantes da edição do Novo Testamento Grego de Mill e dos pesquisadores posteriores que vieram a sacrificar suas vidas à crítica textual do Novo Testamento) e do pensamento ateísta na Inglaterra, em especial de Charles Bradlaugh, o mais famoso ateu-político da ilha no período, e seu discípulo ainda mais famoso e radical J. M. Robertson, pai da teoria do Mito de Jesus. Pensando nos pesquisadores ingleses da época faz mais sentido a questão de perguntar aos doutos especialistas a veracidade das cartas, das escrituras. Mais importante é o paragrafo seguinte em que se questiona: "He, of all you find so great and good,/He, he only, claims this, that, the other/Action - claimed by men, a multitude?". Argumento usado anos depois por Robertson para negar a historicidade de Jesus: quem mais disse sobre ele que não seus discípulos, considerando que para a maioria dos defensores dessas teorias as citações de Tácito nos Anais e de Josefo nas Antiguidades são forjadas (e a carta de Plínio é ambígua), e nenhuma delas fala de quaisquer prodígios do filho de Deus. Considero esses dois parágrafos um centro interessantíssimo do poema, já que o talento lírico de Browning se mostra ainda mais forte quando põe palavras nas bocas daqueles em que não acredita.

De resto, o poema usa duas split-rhymes (love him/above him e refute you/brute you), sendo que mantive do mesmo modo a primeira e devido a natureza da construção não pude manter na segunda (até poderia, mas "tu é bruto, tu" soaria paraense em demasia, e "embrutecer-vos" muito longe do estilo original), mas mantive exatamente as mesmas vogais de todo o segmento (vos refuto/vós seus brutos). Porém, não resisti em colocar "Peep at hide-and-seek" como "Pira-se-esconde", embora não faça a mínima ideia se essa brincadeira (pique esconde, esconde esconde entre outros nomes) se chama assim em outra parte do Brasil. Conhecendo o poeta sinto que essa opção é perdoável. De resto, com uma ou outra opção que fui obrigado a tomar (ou fiz porque quis mesmo), o texto traduzido segue muito próximo o som e as palavras do texto em inglês, e aceito sugestões para a melhoria. Já recebi uma, inclusive.

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