domingo, 10 de agosto de 2014

Robert Browning - Fears and Scruples

Fears and Scruples - Robert Browning

Here's my case. Of old I used to love him,
  This same unseen friend, before I knew:
Dream there was none like him, none above him, -
  Wake to hope and trust my dream was true.

Loved I not his letters full of beauty?
  Not his actions famous far and wide?
Absent, he would know I vowed him duty;
  Present, he would find me at his side.

Pleasant fancy! for I had but letters,
  Only knew of actions by hearsay:
He himself was busied with my betters;
  What of that? My turn must come some day.

"Some day" proving - no day! Here's the puzzle.
  Passed and passed my turn is. Why complain?
He's so busied! If I could but muzzle
  People's foolish mouths that give me pain!

"Letters?" (hear them!) "You a judge of writing?
  Ask the experts! How they shake the head
O'er these characters, your friend's inditing -
  Call then forgery from A to Z!

"Actions? Where's you certain proof" (they bother)
  "He, of all you find so great and good,
He, he only, claims this, that, the other
  Action - claimed by men, a multitude?"

I can simply wish I might refute you,
  Wish my friend would, - by a word, a wink, -
Bid me stop that foolish mouth, - you brute you!
  He keeps absent, - why, I cannot think.

Never mind! Though foolishness may flout me,
  One thing's sure enough: 't is neither frost,
No, nor fire, shall freeze or burn from out me
  Thanks for truth - though falsehood, gained - though lost.

All my days, I'll go the softlier, sadlier,
  For that dream's sake! How forget the thrill
Through and through me as I thought "The gladlier
  Lives my friend because I love him still!"

Ah, but there's a menace some one utters!
  "What and if you friend at home play tricks?
Peep at hide-and-seek behind the shutters?
  Mean your eyes should pierce through solid bricks?

"What and if he, frowning, wake you, dreamy?
  Lay on you the blame that bricks - conceal?
Say 'At least I saw who did not see me,
  Does see now, and presently shall feel'?

"Why, that makes your friend a monster!" say you:
  "Had his house no window? At first nod,
Whould you not have hailed him?" Hush, I pray you!
  What if this friend happened to be - God?




Temores e Escrúpulos - Robert Browning

Eis o meu caso. Velho eu tive de amá-lo,
  O mesmo amigo oculto, de outrora, imortal:
Sonhava-o sem igual, ninguém a superá-lo, –
  Acordava crendo que meu sonho era real.

Não amei suas cartas cheias de beleza?
  Nem seus famosos atos, por mim, foram amados?
Ausente, saberia o dever que votei-lhe;
  Presente, poderia achar-me ao seu lado.

Prazerosa quimera! e eu só com seus escritos,
  Sabia de seus atos só o que me dizia:
Ele próprio se ocupava com meus pedidos;
  Qual deles? De ao meu lado vir algum dia.

“Algum dia” era nenhum! Esse é o dilema.
  E o tempo foi passando. Por que me opor?
Ele era ocupado! Se eu pudesse apenas
  Calar as tolas bocas que me causavam dor!

“Cartas?” (ouça) “Acaso julgas escrituras?
  Pergunte a especialistas, e eles irão ler
Sobre esses caracteres, e essas feituras –
  Chamá-los-iam forjados de A a Z!

“Ações? Onde é que estão as provas” (prosseguiam)
  “De tudo o que vês nele de grande e bom são
Ele, ele somente, que diz isso, que diriam
  Outros de seus atos – ditos pela multidão?”

Queria só poder dizer “eu vos refuto!”,
  Que meu amigo dissesse – uma palavra apenas –
Para calar as tolas bocas – vós, seus brutos!
 Porque não sei – mas ele ainda se ausenta.

Que importa! Embora essa tolice me provoque,
  Uma coisa é certa: nenhum gelo tremendo
Ou brasa queimará ou congelará o que
  É vero – a falsidade vencendo – ou perdendo.

Todos os meus dias irei, mais manso e triste,
  Em prol do sonho! Como pensar que é engano
O sentimento que trespassa, e penso “Existe
  Alegria em meu amigo pois ainda o amo!”

Mas isso é uma ameaça aos desqualificados!
  “Acaso o teu amigo vai brincar contigo?
Pira-se-esconde atrás das portas dos sobrados?
  Teus olhos podem trespassar sólido abrigo?

“Acaso ele, zangado, te acordará, sonhando?
  Te põe a odiar tais coisas – ocultação?
Diz 'ao menos vejo quem não está me enxergando
  Irão me ver agora e em breve sentirão
'?

“Porque fazer de teu amigo um monstro!” falas:
  “Tal casa não tem qualquer janela? Aos teus
Acenos não pode responder?” pois te calas!
  E se esse amigo por acaso fosse – Deus?

Trad: Raphael Soares

sexta-feira, 11 de julho de 2014

3 Poemas (canções?) de e.e.cummings

Tenho de assumir que não sei se esse post é uma tradução ou uma misstranslation. Cummings (que assinava e.e.cummings) é um poeta extremamente complexo de se traduzir por inúmeras razões, tanto que, pelos mesmos motivos, muito desse poeta já foi traduzido e se encontra espalhado em livros, revistas, jornais, estudos, na internet e em todos os tipos de suportes imagináveis, mesmo o poeta não estando em domínio público. É provavelmente um dos mais importantes e populares poetas americanos modernos, e um dos mais traduzidos também. Cada um dos 3 poemas que traduzi trouxe dificuldades específicas, apesar de todos eles serem de uma face menos extrema do poeta: estão mais para uma ponte entre as formas do passado e as do futuro (uma quadra e dois sonetos, apesar de não serem exatamente as formas mais tradicionais de quadra ou soneto). Todos os poemas seguintes foram musicados por compositores importantes. Para pagar uma possível "destruição" que tenha causado aos poemas, junto deles apresento uma peça musical de um compositor:

1ª Little Tree de Eric Whitacre, compositor vencedor do Grammy de melhor disco de música coral e mundialmente famoso por alguns de seus projetos corais envolvendo vozes do mundo inteiro.

2ª who knows if the moon's a ballon de Dominick Argento, um compositor menos famoso, com que tive a experiência de trocar algum e-mail.

3ª Experiences 2 de John Cage, talvez um dos mais importantes compositores norte-americanos, ao lado de figuras como Bernstein, Glass, John Adams, Copland e outros menos conhecidos e não menos bons ou importantes, bem como os jovens compositores americanos.



From Tulips & Chimneys (1922 Manuscript) - e.e.cummings
PUELLA MEA
CHANSONS INNOCENTES
III

little tree
little silent Christmas tree
you are so little
you are more like a flower

who found you in the green forest
and were you very sorry to come away?
see    i will comfort you
because you smell so sweetly

i will kiss your cool bark
and hug you safe and tight
just as your mother would,
only don't be afraid

look    the spangles
that sleep all the year in a dark box
dreaming of being taken out and allowed to shine,
the balls the chains red and gold the fluffy threads,

put up your little arms
and i'll give them all to you to hold
every finger shall have its ring
and there won't be a single place dark or unhappy

then when you're quite dressed
you'll stand in the window for everyone to see
and how they'll stare!
oh but you'll be very proud

and my little sister and i will take hands
and looking up at our beautiful tree
we'll dance and sing
"Noel Noel"


De Tulips & Chimneys (1922 Manuscript) - e.e.cummings
PUELLA MEA
CHANSONS INNOCENTES
III

pequena árvore
pequenína arvore natalina
és tão pequena
estás mais para uma flor

quem te achou na floresta verde
e estavas tristinha quando veio?
vê    confortar-te-ei
pois cheiras docemente

beijarei tua fria casca
e te abraçarei bem forte
como sua mãe faria,
só não se assuste

olhe    as lantejoulas
que cochilam o ano inteiro em negra caixa
sonhando vir à luz e poder brilhar,
as bolas as ligações vermelhas e ouro os passos fofos

bote seus bracinhos
e darei tudo isso para segurares
cada dedo deve ter seu anel
e não haverá um único lugar escuro ou infeliz

e quando estiveres toda vestida
ficarás na janela para todos te verem
e como te fitarão!
oh como ficarás orgulhosa

e minha irmãzinha e eu daremos as mãos
e olharemos para nossa bela árvore
dançaremos e cantaremos
"Noel Noel"

Trad: Raphael Soares



From & (1925) - e.e.cummings
N – VII

who knows if the moon’s
a baloon,coming out of a keen city
in the sky—filled with pretty people?
(and if you and i should

get into it,if they
should take me and take you into their baloon,
why then
we’d go up higher with all the pretty people

than houses and steeples and clouds:
go sailing
away and away sailing into a keen
city which nobody’s ever visited,where

always
              it’s
                      Spring)and everyone’s
in love and flowers pick themselves


De & (1925) - e.e.cummings
N – VII

quem sabe se da lua
um balão,de uma pontuda cidade
no céu–cheio de pessoas bonitas?
(e se eu e a ti devêssemos

ir ate ele,se eles
devem levar-me e levar-te em seu balão,
por quê
subiríamos com as pessoas bonitas mais alto

que casas e torres e núvens:
a navegar
longe e longe navegando em afiada
cidade jamais visitada, onde

sempre
            é
                Primavera) e todos
amam e flores se colhem

Trad: Raphael Soares



From Sonnets - Unreatilies - e.e.cummings
X

it is at moments after i have dreamed
of the rare entertainment of your eyes,
when(being fool to fancy)i have deemed

with your peculiar mouth my heart made wise;
at moments when the glassy darkness holds

the genuine apparition of your smile
(it was through tears always)and silence moulds
such strangeness as was mine a little while;

moments when my once more illustrious arms
are filled with fascination, when my breast
wears the intolerant brightness of your charms:

one pierced moment whiter than the rest

—turning from the tremendous lie of sleep
i watch the roses of the day grow deep.


De Sonnets - Unreatilies - e.e.cummings
X

são momentos após haver sonhado
da rara alegria de teus olhos,
quando(de sonhos tolo)hei julgado

de teu peculiar lábio sapiência colho;
momentos em que o vítreo breu retém

a aparição genuína do sorriso
(sempre através de lágrimas) faz o silên-
cio a estranheza de meu momento ínfimo;

momentos em que meus ilustres braços
vez mais de fascínio cheios, e o peito
co'a intolerante luz de seus encantos:

momento de um branco maior, desfeito,

–torna-se de um tremendo sono indolente
vejo as rosas crescerem profundamente.

Trad: Raphael Soares

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Salmo 109 da Vulgata de Jerônimo (110)

Aqui novamente, dessa vez traduzindo um salmo daquela que é a coleção de livros mais famosa da sociedade ocidental. O salmo é o Salmo 109 da Vulgata de Jerônimo (ou São Jerônimo), o tradutor latino da bíblia. Na maioria das bíblias modernas (católicas ou protestantes) o salmo aparece como sendo o de número 110.

Como foi anunciado, a tradução foi feita a partir do texto latino, e não da versão hebraica original (pois não entendo uma palavra em hebraico), e apesar de contar com um dicionário hebraico (e os famosíssimos números Strong), mesmo onde o texto latino distinguia-se do hebraico preferi a opção lexical-sintática do texto latino, talvez com uma exceção ou outra. Como todos devem saber, a divisão do livro em versículos é bem posterior, no entanto, nessa tradução, os versículos são sempre uma estrofe cada. Os versos tem 8 sílabas sem o acento obrigatório na 4ª, com uma única exceção, um meio-verso. A tradução é poética, e não doutrinária, apesar da busca por respeitar o texto-fonte, o que me levou a algumas opções específicas como a tradução de virtutis por saber. Por fim, ouçam a peça Dixit Domunus do Händel ou do Vivaldi enquanto leem esse salmo.

109 - Vulgata (110)
David psalmus dixit Dominus Domino meo sede a dextris meis donec ponam inimicos tuos scabillum pedum tuorum
virgam virtutis tuae emittet Dominus ex Sion dominare in medio inimicorum tuorum
tecum principium in die virtutis tuae in splendoribus sanctorum ex utero ante luciferum genui te
iuravit Dominus et non paenitebit eum tu es sacerdos in aeternum secundum ordinem Melchisedech
Dominus a dextris tuis confregit in die irae suae reges
iudicabit in nationibus implebit cadavera conquassabit capita in terra multorum
de torrente in via bibet propterea exaltabit caput



Salmo 109 - Da Vulgata de Jerônimo
[De Davi]
Disse o senhor ao meu senhor:
Te assenta à minha mão direita
Até que os teu inimigos ponha
Como escabelo aos teus pés.

O cetro do saber que é teu
Enviará o Senhor de Sião
Para ti dominar em meio
Aos teus maiores inimigos.

Pois a partir de ti, no dia
De tua sabedoria, em luz
De santidade desde o útero
À estrela da manhã te fiz.

Jurou o teu Senhor e não
Se arrependerá jamais:
És sacerdote eternamente
Segundo a ordem de Melchisedech.

Está o senhor a tua direita
A quebrar reis no Dia da Ira.

Julgará todas as nações,
De cadáveres preencherá
E quebrará muitas cabeças
Por toda a terra.

E da torrente no caminho
Beberá, a cabeça erguendo.

Trad: Raphael Soares

terça-feira, 10 de junho de 2014

Issa e Robert Bly - Tradutor e traduzido

Não há muito o que falar... Faz mais de um ano que esse blog está abandonado. Vou tentar cumprir a promessa de fazer ao menos uma postagem por mês  Normalmente não sou bom em cumprir promessas feitas a mim mesmo, mas vá lá...

O que posso dizer de Issa? Issa é... é... diferente. Não diferente como todos os escritores orientais - que habitualmente costumamos buscar inúmeras significação para que possamos valorizá-los, mas que muitas vezes são apenas invenções provocadas pelo choque da ignorância: sim, somos ignorantes quando nos referimos à poética oriental (e alguns dos estudiosos orientais já perceberam isso), enquanto fazemos de tudo para fingir que conhecemos seus valores mais que o próprio povo que a produziu. - enfim, Issa não é assim. Já li várias vezes traduções (em português e inglês) da poesia Japonesa e Chinesa, por desconhecer ambas as línguas, e nenhum poeta me impressionou tanto como Issa, e parece ser esse poeta o que mais impressiona os ocidentais como um todo por ter aquilo que nós habitualmente mais prezamos na poesia de um "clássico": a universalidade; e talvez seja ainda mais "universal" que qualquer um dos nossos, por não ser universal no sentido de "centro-europeu". Issa é perfeitamente inteligível a nós, faz sua poesia (tipicamente japonesa) e nos dá prazer em ler. Não digo com isso que Issa é maior que Buson ou Bashô, mas Issa não é impenetrável como os outros dois mestres nipônicos: apesar de sua diferença, Issa nos é também semelhante. Em relação à literatura chinesa o caso é um pouco mais complicado: a literatura chinesa nos é muito mais legível por causa de seu processo de tradução, que muitas vezes cria textos de gosto ocidental "clássico" (Lira Chinesa de Machado de Assis, Cancioneiro Chinês de Feijó... etc...) ou "moderníssimo" (versões dos concretos, de Pound, etc), mas isso é algo a se comentar em outra ocasião.

Enfim, dos vários poetas japoneses que li Issa é o meu favorito, e o que mais busquei ler em outras línguas além do português. Não conheço a língua japonesa, então tive de escolher um intermediário inglês para a minha tradução. A opção mais óbvia seria a versão eletrônica e gratuita de dez mil poemas de Issa traduzidos por David Lanoue (Aqui: http://www.haikuguy.com/issa/), ou outra versão eletrônica, já que Issa é realmente muito popular, mas preferi uma outra versão: a de Robert Bly. Por que escolher a tradução de Bly? Provavelmente pelo fato de que por meio dele li e gostei muito de Tomas Tranströmer. Sim, não possui nada a ver com Issa! Outra coisa que me pesou na escolha foi o fato de que Bly fez uma seleção pequena de textos, de modo que eu pudesse traduzir todos. Também escolhi um poema de Bly para traduzir também, de modo a homenagear o tradutor e traduzido. As poesias de Issa foram retiradas do livro Winged Energy of Delight, The Selected Translations by Robert Bly, e o poema Call and Answer foi retirado do site oficial do autor (aqui: http://www.robertbly.com/r_p_callandanswer.html). Para ler os poemas de Issa em japonês, podem conferir (eu acho) esse site: http://www.janis.or.jp/users/kyodoshi/issaku.htm.

Por fim, a forma Haiku japonesa é feita em versos de 5/7/5 sílabas, contando todas as sílabas, e não somente até a tônica, como se faz em francês e português, bem como podem ser dispostos em três linhas ou linha única. Para essa tradução procurei manter o registro simples (mas não simplório) que aparenta ser característico da poesia japonesa e o metro, mas adequando ao verso português. Como é comum na nossa poética (desde a poética grega e latina), alguns versos contém uma sílaba a mais (geralmente após a tônica) que não é contado, enquanto outros possuem 5 ou 7 versos contados até sua sílaba átona final; apesar da versão de Bly ser em três linhas, optei por traduzir em linha única separando os versos por barra. Enfim, chega de papo e leiam os poemas.




Insects, why cry?
We all go
that way.

Insetos por quê | choram? Nós seguiremos | todos essa estrada.


Now listen, you watermelons—
if any thieves come—
turn into frogs!

Melancias, ouçam - | se vier quaisquer ladrões | torne-os sapos!



Leaping for the river, the frog
said, “Excuse
me for going first!”

Pulando no rio | disse o sapo: "desculpe-me | por ir primeiro!"


The night is so long,
Yes, the night is so long;
Buddha is great!

A noite é tão longa, | sim, a noite é tão... tão longa; | Buda é demais!



Morning glories, yes—
but in the faces of men
there are flaws.

Glórias da manhã - | mas em face ao ser humano | elas não são nada.


Lanky frog, hold
your ground! Issa
is coming!

Sapo magricela, |  fique onde está! Eu, Issa | estou chegando!


This line of black ants—
Maybe it goes all the way back
to that white cloud!

Tal linha de saúvas - | talvez todas se voltem | para a nuvem branca.



The old dog bends his head listening . . .
I guess the singing
of the earthworms gets to him.

O velho cão ouve atento... | Talvez lhe chegue aos ouvidos | o canto das minhocas.



Cricket, be
careful! I’m rolling
over!

Grilo, é bom tomar | cuidado! Rolando eu vou | te esmagar!

English translations by Robert Bly
Traduções em português: Raphael Soares



Call and Answer - Robert Bly

Tell me why it is we don’t lift our voices these days
And cry over what is happening. Have you noticed
The plans are made for Iraq and the ice cap is melting?

I say to myself: “Go on, cry. What’s the sense
Of being an adult and having no voice? Cry out!
See who will answer! This is Call and Answer!”

We will have to call especially loud to reach
Our angels, who are hard of hearing; they are hiding
In the jugs of silence filled during our wars.

Have we agreed to so many wars that we can’t
Escape from silence? If we don’t lift our voices, we allow
Others (who are ourselves) to rob the house.

How come we’ve listened to the great criers—Neruda,
Akhmatova, Thoreau, Frederick Douglass—and now
We’re silent as sparrows in the little bushes?

Some masters say our life lasts only seven days.
Where are we in the week? Is it Thursday yet?
Hurry, cry now! Soon Sunday night will come.




Clamor e Resposta - Robert Bly

Diga-me porque não levantamos nossas vozes hoje
E choramos pelo que está acontecendo. Não soubeste
Dos planos feitos para o Iraque e o degelo nos polos?

Disse a mim mesmo: "Vai, chora. Qual o sentido
De se tornar adulto e não ter voz alguma? Clama!
E veja qual será a resposta! Este é o Clamor e Resposta!"


Nós teremos de clamar especialmente alto para alcançar
Nossos anjos, que estão meio surdos; eles se escondem
Nos jarros cheios de silêncio durante nossas guerras.

Concordamos que foram tantas guerras que não podemos
Escapar do silêncio? Se não erguermos as vozes deixaremos
Outros (que somos nós mesmos) roubarem a casa.

Como escutamos os grandes arautos — Neruda,

Akhmatova, Thoreau, Frederick Douglass — e agora
Estamos silentes como passarinhos nos arbustos?

Alguns mestres dizem que nossa vida só dura sete dias.
Em que dia da semana estamos? Ainda é quinta?
Rápido, grite agora! Em breve vem a noite de domingo.

Tradução: Raphael Soares

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Epitáfio de Walter Landor em uma torrente de traduções

Encontrei em um blog (http://medianeiro.blogspot.com.br/2007/01/epitfios-landor_18.html) uma proposta interessante do grande tradutor Nelson Archer. Várias pessoas desafiadas a traduzir o epitáfio de Landor. O próprio blog postou 6 versões, mas o público somou mais 3 a elas (4 com a minha). Somando a de Pessoa, e uma ou outra publicada por aí na internet e impresso, deve haver ao menos umas 15 traduções desse poeminha em português, ou mais.

Vale a pena conferir o blog.

Como esse blog está meio paradão a algum tempo, vai aqui essa tradução:


Epitaph - Walter Savage Landor

I strove with none, for none was worth my strife.
Nature I loved and, next to Nature, Art:
I warm'd both hands before the fire of life;
It sinks, and I am ready to depart.

Epitáfio - Walter Savage Landor

Não pelejei por nada, e nada a exigiu.
A Natureza amei, e a arte então a seguiu:
As mãos eu aqueci no fogo desta vida;
Agora esvai-se, pronto estou para a partida.

Trad: Raphael Soares

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Totentanz - Goethe

Postando mais uma tradução do grande Goethe. Agora uma balada intitulada Totentanz (dança da morte, mais conhecido em português como dança macabra).

Der Totentanz - Goethe

Der Türmer, der schaut zu Mitten der Nacht
Hinab auf die Gräber in Lage;
Der Mond, der hat alles ins Helle gebracht,
Der Kirchhof, er liegt wie am Tage.
Da regt sich ein Grab und ein anderes dann:
Sie kommen hervor, ein Weib da, ein Mann
In weißen und schleppenden Hemden.

Das reckt nun, es will sich ergötzen sogleich,
Die Knöchel zur Runde, zum Kranze,
So arm und so jung und so alt und so reich;
Doch hindern die Schleppen am Tanze:
Und weil hier die Scham nun nicht weiter gebeut,
So schütteln sich alle, da liegen zerstreut
Die Hemdelein über den Hügeln.

Nun hebt sich der Schenkel, nun wackelt das Bein,
Gebärden da gibt es vertrackte;
dann klippert's und klappert's mitunter hinein,
als schlüg' man die Hölzlein zum Takte.
Das kommt nun dem Türmer so lächerlich vor;
da raunt ihm der Schalk, der Versucher, ins Ohr:
Geh! hole dir einen der Laken!

Getan, wie gedacht! und er flüchtet sich schnell
nun hinter geheiligte Türen.
Der Mond und noch immer er scheinet so hell
zum Tanz, den sie schauderlich führen.
Doch endlich verlieret sich dieser und der,
schleicht eins nach dem andern gekleidet einher,
und husch! ist es unter dem Rasen.

Nur Einer, der trippelt und stolpert zuletzt
und tappet und grapst nach den Grüften;
doch hat kein Geselle so schwer ihn verletzt;
er wittert das Tuch in den Lüften.
Er rüttelt die Turmtür, sie schlägt ihn zurück,
geziert und gesegnet, dem Türmer zum Glück,
sie blinkt von metallenen Kreuzen.

Das Hemd muß er haben, da rastet er nicht,
da gilt auch kein langes Besinnen,
den gotischen Zierrat ergreift nun der Wicht
und klettert von Zinne zu Zinnen.
Nun ist's um den Armen, den Türmer, getan,
es ruckt sich von Schnörkel zu Schnörkel hinan,
langbeinigen Spinnen vergleichbar.

Der Türmer erbleicht, der Türmer erbebt,
Gern gäb' er ihn wieder, den Laken.
Da häckelt jetzt hat er am längsten gelebt
Den Zipfel ein eiserner Zacken.
Schon trübet der Mond sich verschwindenden Scheins,
Die Glocke, sie donnert ein mächtiges Eins,
Und unten zerschellt das Gerippe.




A Dança Macabra - Goethe

O guarda que olha, no meio da noite,
Lá para baixo, para as covas frias;
A lua, com sua luz, qual um açoite,
Tudo ilumina como dia.
As covas, uma a uma, a se mover,
Sai um homem após uma mulher
Em longas e brancas camisas.

Esticam-se todos duma vez só, os
Ossos formam a roda, em festança;
O pobre, o velho, o rico, e até os novos;
Todos são o mesmo na dança.
E agora, por não ter nenhum pudor
Se agitam todos, e começam a por
As camisas sobre a colina.

Agora ergue a coxa e a perna levanta,
São mui difíceis estes passos;
Um coro de cliques e claques canta,
E um marca com um pau os compassos.
Tudo parece, ao guarda, engraçado,
E à orelha diz o tentador desgraçado:
Vá! vá para lá vestindo um trapo.

Dito e feito, foge ele como um vento
Para trás da sacrossanta porta.
A lua ainda ilumina o relento,
E a dança assustadora mostra.
No final, quando tudo está acabado
Se arrastam, voltam a ficar trajados,
E vupt! e voltam para a grama.

Resta apenas um, trôpego, no fim,
Está a tatear as tumbas;
Não tem companheiro ferido assim,
E no ar fareja a roupa imunda.
Sacode a porta da torre e é empurrado,
O guarda alegre fica, abençoado,
Brilham as cruzes de metal.

De sua camisa ele precisa agora,
Sem nenhum longo pensamento,
Da gótica ornamentação se apossa
E ameias sobe num momento.
Agora o pobre guarda está acabado,
Cada floreio escala, aparentado
Uma aranha de patas longas.

O guarda empalidece, o guarda treme,
Queria devolver-lhe os panos.
Muitos anos de vida ele já teve
A ponta de um férreo cano.
E então a lua some com seu brilho,
Golpeia em trovejante golpe o sino
E estraçalha o esqueleto.

Trad: Raphael Soares

domingo, 2 de dezembro de 2012

The Lamb - Blake

Mais um poema do William Blake. Para quem acompanhou o blog e viu o poema The Tyger. Pode-se dizer que um poema é o "par" do outro, assim como em muitas outras obras de Canções da Inocência e Canções da Experiência.

The Lamb - William Blake

   Little lamb, who made thee?
   Does thou know who made thee,
Gave thee life, and bid thee feed
By the stream and o’er the mead;
Gave thee clothing of delight,
Softest clothing, woolly, bright;
Gave thee such a tender voice,
Making all the vales rejoice?
   Little lamb, who made thee?
   Does thou know who made thee?

   Little lamb, I’ll tell thee;
   Little lamb, I’ll tell thee:
He is callèd by thy name,
For He calls Himself a Lamb.
He is meek, and He is mild,
He became a little child.
I a child, and thou a lamb,
We are callèd by His name.
   Little lamb, God bless thee!
   Little lamb, God bless thee!




O Cordeiro – William Blake

  Cordeiro, quem te fez?
  Sabes tu quem te fez?
Deu-te vida & alimento
Na nascente no relento;
Vestiu-te em gozos, louçã,
De finas vestes de lã;
Deu-te tenra voz também,
Para alegrar vales & além?
  Cordeiro, quem te fez?
  Sabes tu quem te fez?

  Cordeiro, te direi;
  Cordeiro, te direi:
O teu nome tem inteiro,
Pois Ele chama-se cordeiro.
Ele é meigo, & sem tardança
Veio aqui como criança.
Sou criança, & tu cordeiro,
Chamados por Seu nome inteiro.
  Cordeiro, Deus te guarde!
  Cordeiro, Deus te guarde!


Trad: Raphael Soares