quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Antilogia i-tradutória da poesia latina tardia [pt. 2] - Poetas "Pagãos", pt.1

Primeira parte aqui.

Decimius Magnus Ausonius (310 - 395)

Se há um autor que deve ser individualmente analisado antes de qualquer julgamento de valor sobre a poesia tardia, esse autor é Décimo Magno Ausônio. Entre a morte de Juvenal e a obra de Ausônio há um grande vazio do nosso conhecimento, havendo poucos autores conhecidos e poucas obras sobreviventes (Pervigilium Veneris é provavelmente a mais importante delas, se é que podemos realmente datar ela como pré-Ausoniana). A reputação de Ausônio contudo tem de lidar com o duro (e factualmente incorreto) julgamento de Gibbon de que "[a] fama poética de Ausônio condena o gosto de sua era", de modo que reabilitar a literatura da época envolve primeiramente reabilitar Ausônio. Contudo, deve ser bem lembrado que a fama do poeta na época se dava principalmente pela sua atuação como professor e gramático, seguido de amplo respeito pela sua atuação política (aparentemente ele não foi um grande político de fato, e como co-governador na Gália o filho dele deve ter feito a maior parte do trabalho), e havia na época poetas mais famosos, o que ele próprio reconhece em sua correspondência. A verdadeira fama poética de Ausônio veio no Renascimento Carolíngeo, com um segundo Boom no Renascimento Humanista, e ninguém jamais condenaria o gosto da época. Dentre os humanistas, Petrarca, Bocácio, Erasmo e todos os outros tinham a poesia ausoniana em alta estima; em Portugal Achiles Estaço possuía um manuscrito de Cesares (Valicelliana ms.D 54) além de mencionar outros poemas de Ausônio em seus comentários (ex: menção ao poema Oratio na página 14 de seu comentário sobre Horácio) e Camões imitou um poema que ele devia encontrar dentro das obras de Ausônio (De Rosis Nascentibus, 15-16; comparar com Lusíadas, IX 61 2-4... A obra entrou nas edições de Ausônio em 1511 e era a atribuição mais comum no XVI) e possivelmente teve influência de Bissula, dos Idílios e talvez de Cupido Cruciatus em alguns de seus poemas (Camões, contudo, parece tomar a descrição das musas de outra fonte clássica); além do mais, Ausônio é o grande modelo literário para os epigramas e epitáfios portugueses do XVI, muito mais que Marcial. Chaucer provavelmente usa Ausônio como autoridade para a função das musas Cleo e Calíope, já que não conhecia grego (comentário mais detalhado aqui). Na Alemanha e França a fama literária de Ausônio nunca desapareceu completamente.

Mas por conta dos ataques ao valor do poeta, ataques esses que eu pessoalmente cheguei a repetir de modo pouco crítico, acho que devo falar um pouco das principais críticas que a ele são feitas antes mesmo de falar da vida e obra, já que tudo o que é dito contra Ausônio é, de algum modo, repetido ou modificado ao tratar da literatura latina tardia. As quatro principais queixas contra o Ausônio são as seguintes: 1) se removermos a dicção e versificação de Ausônio não sobra nada; 2) o poeta não tinha nada o que dizer (frequentemente em oposição); 3) o estilo dele é decadente e já não mais clássico; 4) os melhores momentos dele são nada mais que ecos da literatura anterior.
 
1) A primeira crítica é a mais comum, e também é a mais fácil de refutar. É o tipo de crítica que parece dizer alguma coisa, mas no fundo não diz nada. Se tirarmos a dicção e versificação (entendendo seja do ponto de vista mais estrito como mais amplo) de QUALQUER poeta, o que é que sobra? Talvez em alguns casos sobre uma filosofia ou crítica social pertinente ou história relevante, mas a poesia de qualquer poeta desaparece se dela removermos a dicção e versificação. Coleridge, um brilhante poeta e crítico, disse exatamente a mesma coisa de Virgílio, e se isso pode ser aplicado ao maior dos poetas latinos, o pode ser para qualquer um.

2) A segunda crítica é ligeiramente mais útil para compreender o poeta e a posição dele na poesia latina, mas dificilmente é algo que vai determinar o valor por si só. A primeira coisa é que ela não é completamente verdade, e a respeito disso a carta para o São Paulino de Nola, o Protrepticus ad Nepotem, sua pro fissão de fé em Ephemeris (embora pode não ter sido planejado nesse caso) e muitos poemas de Parentalia são poemas que definitivamente mostram inteligência ao falar de algo relevante para a ocasião e para o poeta. Contudo, em muitos dos poemas de Ausônio, incluindo seu famosíssimo Mosella, não há um "tema" de discussão, mas o tema é circunstancial e Ausônio usa seu talento na composição, não no desenvolvimento de uma ideia ou argumento. De fato, comparado com as críticas sociais dos satiristas Pérsio e Juvenal, dos epigramas de Marcial, da composição da ideia nacional de Virgílio ou da filosofia e retórica de Lucrécio e Lucano, Ausônio parece não ter muito sobre o que falar. Mas ter o que falar não é o bastante para ser poeta, como vimos no Disticha Catonis, que nem é mais lido como poesia hoje em dia, e se a ausência de uma "tese" ou "temática relevante" predica a má qualidade de um poeta, muito da melhor poesia moderna tem de ser jogada na lata de lixo também, incluindo grande parte da literatura neoclássica e quase toda a poesia simbolista. Se não me engano, Manuel Bandeira disse de Mallarmé que a maior de suas qualidades era que quase todos os seus poemas eram "de circunstância", e o mesmo pode ser dito seguramente de Ausônio, e é nisso que provavelmente jaz o apelo que o autor pode ter nos nossos dias.

3) A terceira crítica é completamente estúpida e sem sentido, mas exatamente essa estupidez que pode nos ajudar a compreender o nosso erro em lidar tanto com a poesia de Ausônio como com a poesia tardia em geral. Se assumimos que "poesia latina" é a "linguagem clássica de Virgílio", qualquer coisa que não é Virgílio vai ser sem refinamento (como Ênio e Lucrécio) ou decadente (como Estácio ou Ausônio) em comparação (e, paradoxalmente, tudo o que soar virgiliano será imitação barata ou fraude); contudo, se alterarmos o padrão, apenas como experiência, e dizermos, por exemplo, que a "poesia latina" é o "estilo de Estácio", a coisa vai repentinamente mudar de figura: o uso de linhas espondaicas em hexâmetros em palavras não gregas de Juvenal e Horácio (Ars 467), e os hiatos na Eneida (e em Catulo, se Catulo tiver, de fato, hiatos) vão parecer bárbaros, e a sintaxe de quase todos os poetas vai parecer muito pouco variada. Podemos fazer essa experiência em qualquer língua: se "poesia inglesa" é o "estilo de Dryden", Shakespeare e Spencer vão parecer bárbaros, e os românticos completamente afetados; se a "poesia brasileira" é o "estilo de Bilac", Varella e Gonçalves Dias vão parecer preguiçosos (o que não são), Alberto de Oliveira simplório, Augusto dos Anjos obscuro e Jorge de Lima simplesmente errado. Não é só injusto comparar um autor e época no padrão inalcançável de outro, mas não faz o menor sentido e não tem o menor valor crítico. Se toda a literatura representar uma decadência em relação ao padrão inalcançável de outrem, o fazer literário em si não tem sentido. Além do mais, o próprio latim "clássico" de Cícero e Virgílio foi condenado como já decadente por Fronto, em comparação com o "mais puro" latim pré-clássico.

4) A última crítica parece ser feita por pessoas que não conhecem a literatura latina ou não sabem como a própria literatura funciona, mas curiosamente é feita por latinistas e críticos literários competentes. Se esse padrão é levado a sério, Virgílio, Dante, Camões, Shakespeare, Tennyson e Machado estão todos no mesmo barco, já que o melhor de suas obras ecoa as obras de seus antepassados. O que é relevante é como o autor em si desenvolve esses temas e técnicas em sua obra como um todo e em seus poemas isoladamente. O julgamento deve ser específico, nunca geral.
 
Considerando a ignorância geral a respeito de quem foi o poeta e suas obras, é importante falar um pouco sobre ele e sobre sua obra, o que eu definitivamente não quero fazer nem tenho qualquer competência. Ausônio nasceu na Gália, de família cristã provavelmente falante de grego (ao menos a família da mãe era tradicionalmente da região desde os tempos do império gaulês, a estirpe do pai, contudo, é um mistério... a educação de Ausônio foi em grego, assim como a do filho dele, e o neto, Paulino de Pella, aprendeu latim já quase adulto), e bem jovem se tornou famoso pela sua inteligência como gramático e passou a lecionar em Bordeux por volta de 330-334 (ao menos 30 anos antes de ser convocado a Trier, na metade de 360... a data 334 é a mais provável), o que é uma idade excepcionalmente baixa para lecionar em universidades. Contudo, um pouco antes da carreira de Ausônio decolar, uma grande amargura provavelmente se sucedeu, já que Juliano famosamente baniu todos os cristãos de lecionarem em escolas e universidades por todo o império, e havia um confronto entre as facções cristã e pagã em Bordeaux. No meio de 360 (após 364, mas antes de 368, quando Ausônio acompanhou Graciano nas campanhas germânicas) Ausônio foi convocado para ser tutor do futuro imperador Graciano, e assumiu diversos cargos políticos desde então. Aqui, vale a pena apontar que a grande maioria da obra Ausoniana é posterior a esse período, e de fato não temos nenhuma obra indisputavelmente genuína que deve ter sido escrito antes de 345, embora sem dúvidas ele escreveu muitos poemas desde o início de sua carreira de grammaticus e mesmo antes. Algumas obras disputáveis, contudo, podem ser de período anterior, mas é difícil de acreditar na maioria dessas atribuições, seja porque elas são muito estúpidas mesmo para um poeta jovem, mas que conhecia bem o grego (como Periochae Homeri), ou são simplesmente muito boas para um poeta amador cujo ápice de escrita se deve a um período bem posterior (De Rosis Nascentibus, que como imitação virgiliana deve ser necessariamente de um período anterior).
 
Quanto ao cristianismo de Ausônio, algo mais precisa ser dito por conta de confusões que ainda permanecem a respeito do mesmo. Em matéria de estudo da literatura, Ausônio certamente não é um "poeta cristão" (como são, por exemplo, Prudêncio, Paulino, Venâncio, etc...), mas apenas no sentido de que a maior parte de sua obra é profana. Com tudo, é um erro crasso seguir Gibbons ao dizer que ele era "declaradamente pagão", o que definitivamente não é verdade, nem seguir Chisholm (para a Enciclopédia Britânica) em dizer que ele foi convertido ao cristianismo tardiamente e não era um grande entusiasta. Como já foi dito, Ausônio foi confessadamente Critão, e, de fato, professou sua fé em mais de uma ocasião dentro de sua poesia (Ephemeris 3 [Oratio], Versus Paschales), possui linguagem marcadamente cristã (gentes com sentido de "gentil", sanctius...reverentia... ambas em textos seculares), diversas vezes apresenta valores marcadamente cristãos, particularmente nos epitáfios. Não temos nenhuma evidência de que Ausônio sequer foi pagão em qualquer momento de sua vida, e muitas evidências do contrário, dentre as quais eu cito apenas duas. 1) a conversão ao cristianismo era matéria de orgulho entre autores antigos, de modo que os convertidos faziam questão de descrever sua conversão, e aqueles que sempre foram cristãos (como Paulino de Nola ou Paulino de Pela) costumam descrever suas experiências em termos de conversão também... Ausônio, que como dizia Symmachus, era incapaz de mentir mesmo em verso, nunca usa esse tipo de linguagem nem figurativamente, assumindo o pensamento e prática cristãs como algo "garantido"; 2) a família de Ausônio certamente apresenta comportamentos e valores que só podem ser explicados em contexto cristão, como a opção da tia de Ausônio (que o criou... ver Parentalia VI, que traduzo aqui) pelo celibato, e a conquista de status por parte da mulher através do celibato é algo que só pode existir dentro do contexto da antiguidade cristã, já que até mesmo a excessão romana (as Virgens Vestais), que assumem uma função mandatória para a sociedade, e por isso mesmo são tidas como "aberração" (Cf. Mary Beard e Peter Brown), ao ponto de que um dos ataques feitos à cristandade era exatamente a presença e aceitação dessas mulheres virgens, e a maior frequência (segundo os opositores) de mulheres celibatárias que casadas entre os cristãos (Cf. Santo Agostinho, Contra Faustum), de modo que numa sociedade e família cristã se esperava que Hilária casasse para garantir o seu status e o do marido e não ficasse "pra titia" cuidando do filho dos outros, o que é razoável e louvável num contexto cristão do IV século.

Em matéria de obra, uma coisa completamente externa mas que chama atenção é o fato de que Ausônio era quase certamente falante nativo de grego (a despeito do comentário do próprio de que os estudos dele de grego [i.e.: homérico] não avançaram de modo desejado, grego era a sua língua familiar, a língua de sua educação e da educação de seus familiares...), e isso é curiosamente persistente entre os melhores autores da antiguidade tardia: Amiano e Claudiano eram gregos, Luxório vivia num lugar de fala grega (e provavelmente o latim era puramente literário), e Paulino de Pela relata em seu poema-biografia o quão difícil foi aprender latim.
 
De resto, acho que muitas vezes os poemas falam por si só. Uma lista de obras interessantes do poeta talvez não seja muito relevante, visto que pouco se traduziu dele. Devo mencionar que o Gouvêa Júnior traduziu o Cento Nuptialis, que pode ser lido aqui, e que Daniel da Silva Moreira traduziu alguns epigramas aqui. O volume mais recente do Augusto de Campos aparentemente contém versões de Ausônio, mas não sei quais textos, mas de qualquer modo não espero muito do Augusto quando o assunto é latim. O Matheus de Souza está traduzindo todo o Parentalia, todos os domingos, no seu blog pessoal, e pode ser acessado pelo marcador Ausônio (aqui). O Matheus também foi bem generoso em contribuir com a tradução de um dos meus epigramas favoritos, que eu vou apresentar aqui na versão dele e na versão do João Ângelo.

Por fim, algo precisa ser dito quanto ao texto e numeração. Numeração de texto e verso, na maioria dos autores clássicos, é na maioria das vezes padronizado mesmo quando não faz o menor sentido (por exemplo, Catulo não tem poemas de número 18-20, de modo que em linhas gerais a numeração posterior não faz o menor sentido, mas permanece para evitar confusões), tudo isso para facilitar referência. Ausônio, contudo, é um daqueles raros poetas de corpus volumoso que não possui um sistema padronizado de numeração, de modo que ela é segue diferentes critérios e virtualmente todas as edições relevantes apresentam numeração diferente de uma para outra (excessão: Evelyn-White segue a mesma numeração de Peiper). O resultado disso é que dizer algo como "Epigrama 23" ou "Epigrama 90" não tem sentido por si só, sem fazer referência a edição em questão (o que, aqui no Brasil, ninguém faz), e pode ser ridiculamente difícil achar o texto em edições diferentes. Para a minha tradução eu vou usar a numeração que aparece na edição mais recente da obra, por Roger Green; a edição possui uma concordância (como todas as edições de Ausônio deveriam ter), mas eu vou apresentar os textos que possuem diferença em numeração do seguinte modo:
Epigr. 8G (Epit. 30S; Epit. 31Pe; Epit. 31Pr)
O que eu quero dizer com isso é que o poema seria o Epigrammata 8 na edição de Green, o Epitaphia 30 na edição de Schenkl (para o MGH, numeração idêntica à de Pastorino para as coleções, mas a organização geral das duas edições é distinta), Epitaphia 31 na edição de Peiper (Teubner... idêntica organização de Evelyn-White para a Loeb), e Epitaphia 31 na edição de Prete (organização parecida, mas não igual, à de Peiper nos epigramas e epitáfios, mas distinto nas cartas). Isso é uma bosta, mas é o melhor que posso fazer para garantir que os poemas sejam referenciados corretamente e qualquer um possa achar em sua própria edição ou versão favorita. Para os poemas que a numeração não varia (ou varia apenas se os prefácios são numerados), eu simplesmente seguirei Green. Para o poema que o Matheus e o Ângelo traduzem, eu vou seguir o texto que eles o Matheus usou (Evelyn-White... O Ângelo lê "ut" de T na primeira linha, porém não tenho ideia de onde ele tirou o número 50), mas vou manter o mesmo modelo de numeração (ou seja, o texto é da Loeb mas a numeração segue como Green, Schenkl, Peiper e Prete...). A ortografia é minha, que é a ortografia que acho mais fácil para transcrever. Em professores, a despeito de eu ler egregiam no texto (o manuscrito, aceito por Green e Pastorino) eu deixo a qualificação ambígua, aceitando ao menos tacitamente a opção egregia de Heinsius (como lido por Schenkl, Peiper) ou egregio de Holford-Strevens (que Green propõe mas não aceita no texto) como possibilidades implícitas. Não que importe com uma tradução dessa qualidade.

Parentalia VI [Trad: Raphael Soares]
Aemilia Hilaria matertera [uirgo deuota]
Tuque gradu generis matertera, sed uice matris
affectu nati commemoranda pio,
Aemilia, in cunis Hilari cognomen adepta
quod laeta et pueri comis ad effigiem;
reddebas uerum nom dissimulanter ephebum,
more uirum medicis artibus experiens.
Feminei sexus odium tibi semper, et inde
creuit deuotae uirginitatis amor,
quae tibi septenos nouies est culta per annos;
quique aeui finis, ipse pudicitiae.
Haec, quia uti mater monitis et amore fouebas,
supremis reddo filius exsequiis.
E tu, que é tia em grau, porém és vice-mãe
Em afeto o filho deve celebrar,
Emília, cujo nome Hilaro lhe é apenso
Porque no berço qual menino é alegre;
Sem dissimulação vera feição de um jovem,
Qual homem experiente em artes médicas.
Teu sexo feminino odiaste sempre, e assim
Veio o amor da devota virgindade,
Que mantiveste por nove sétimas de anos;
E o fim da vida é o fim da castidade.
Aqui, quem como mãe mantém amor, lições,
O filho a retornar ritual extremo.

 

Professores XVIII [Trad: Raphael Soares]
Marcello Marcelli filio grammatico Narbonensi
Nec te Marcello genitum, Marcelle, silebo,
aspera quem genetrix urbe, domo pepulit,
sed fortuna potens cito reddidit omnia et auxit;
amissam primum Narbo dedit patriam.
Nobilis hic hospes Clarentius indole motus
egregiam natam coniugio attribuir;
mox schola et auditor multus praetextaque pubes
grammatici nomen diuitiasque dedit.
Sed numquam iugem cursum fortuna secundat,
praesertim praui nancta uirum ingenii.
Verum oneranda mihi non sunt, memoranda recepi
fata; sat est dictum cuncta perisse simul,
non tamen et nomen, quo te non fraudo, receptum
inter grammaticos praetenuis meriti.


Nem esqueço a ti, Marcelo, herdeiro de Marcelo,
Áspera mãe forçou-te a outras plagas,
Tudo e mais a fortuna então te restaurou;
Assim, primeiro em Narbo, achaste pátria.
Aqui Clarêncio, nobre, a ti concedeu sua
Filha p'ra desposar, egrégia índole;
A seguir tuas lições atraíram mil jovens
Pela fama e carreira do gramático.
Mas a fortuna, embora longa, não prossegue,
Principalmente em depravada índole.
Não é o meu dever dar peso, mas lembrar
Do fado; basta lembrar: perdeu tudo
Só não renome, não te roubo, recebido
Qual gramático de mísero mérito.

 

Epigr. 20G (Epigr. 18S; Epigr. 40Pe; Epigr. 40Pr)
[AD VXOREM]
Vxor, uiuamus quod uiximus, et teneamus
nomina, quae primo sumpsimus in thalamo:
nec ferat ulla dies, ut commutemur in aeuo;
quin tibi sim iuuenis tuque puella mihi.
Nestore sim quamuis prouectior aemulaque annis
uincas Cumanam tu quoque Deiphoben;
nos ignoremus, quid sit matura senectus.
Scire aeui meritum, non numerare decet.
Trad: Matheus de Souza
Vivamos, minha
esposa, tudo o que vivemos,
guardando ainda o nome de casados.
Que eu seja o teu rapaz e tu a minha garota
sem que um dia a velhice nos ocorra.
Mais velho que Nestor eu seja e muito embora
emules a Sibila pela idade,
desconheçamos o que seja a senectude,
sabendo os dons do tempo sem contá-lo.

Trad: João Ângelo de Oliva Neto
Mulher, vivamos qual vivemos e tenhamos
os nomes que à primeira noite usamos.
Não haja um dia só, bem que mudemos sempre,
Que não me digas "jovem" e eu, "menina".
Mais velho embora que Nestor, rival que venças
em anos a Deífobe de Cumas,
a velhice madura ignoremos: o mérito
convém saber do tempo, não a soma.

 
Um epigama Jurídico comentado:
Epigr. 99
[Trad: Raphael Soares]

Iuris consulto, cui uiuit adultera coniux,
Papia lex placuit, Iulia displicuit.
Quaeritis, unde haec sit distantia? semiuir ipse
Scantiniam metuens non metuit Titiam.


Advogado que tem esposa adúltera,
lei Pápia aceita, a Júlia lei deplora.
Qual é a diferença? o imoral
Scantínia teme mas não teme a Titia.
Essa é uma pérola do humor jurídico da antiguidade, e um poema que sempre vale a pena apresentar para classes de latim e cultura romana. O conceito é bem simples, do advogado que é imoral e hipócrita: 4 leis são mencionadas, e o advogado se beneficia (lhe agrada) pessoalmente de duas delas, enquanto duas outras leis ele viola. O contexto das leis em si precisa ser mencionado. O advogado se beneficia pessoalmente da lei Pápia (Lex Papia Poppaea), que promove (basicamente força) o casamento, e se beneficia do status de casado por causa dela; contudo, lhe desagrada a lei Júlia, já que a sua esposa é adúltera e ele sabe disso (vive com esposa adúltera)... Para quem não sabe, ser corno manso em Roma era crime grave (Digesta 4, 4, 37). Porque ele aceita uma lei mas rejeita outra, sendo ele um advogado? Porque além de advogado ele é semiuir (a palavra é bem complicada em muitas situações... aqui, contudo, ela tem um sentido claro, que é o de pederasta... de fato, é o sentido usado por todos os apologistas cristãos do período, mas o sentido não é exatamente parte do vocabulário cristão... Cf. explicação de Servio Danielis para a palavra em Aen. IV 215: ab ipsis enim ferunt coepisse stupra puerorum), especificamente um pederasta. Por ser pederasta ele teme a lei Scantínia (ou Escantinia), que criminalizava o stuprum contra ingenui (o sexo com menores homens), porém ele se aproveita da lei Titia, que permitia que magistrados designassem tutores para jovens (o que, presumivelmente, o advogado em questão usa de algum modo para satisfazer seus desejos).

Por fim, recomendo que alguém tome ciência do poeta e traduza para nós Bissula, Mosela e Cupido Cruciatus... Eu não farei, decerto...


Sem fotos, bustos ou pinturas do autor.
Claudius Claudianus (c. 370 - 404 prob.)

Se é quase obrigatório começar a falar da antiguidade tardia com Ausônio, o passo seguinte é necessariamente falar de Claudiano. Claudiano, diferentemente de Ausônio, foi um poeta profissional, circulando a corte do imperador Honório após a morte de Teodósio. Enquanto Ausônio foi tomado como poeta nacional da França e nunca esquecido lá (Hugo, por exemplo, sabia versos dele de cor, e também escreveu Le Rhin, em prosa, mas de caráter similar ao Mosela) a reputação dele sofreu muita oscilação nos outros lugares; Claudiano, sendo lembrado como "o último pagão de Roma", "o último grande poeta latino" tendeu a ser visto em geral com simpatia, embora eu duvido muito que ele tenha tido quantidade significativa de leitores em qualquer época. Hoje em dia a crítica literária favorece o estudo de Claudiano, tendo em vista que a obra dele é em sua quase totalidade política, o que resultou em um grande número de dissertações de doutorado sobre obras específica.

Pouco sabemos da vida de Claudiano. O poeta era grego de Alexandria, numa época em que a intelectualidade da parte oriental do império era raramente bilíngue. Ele provavelmente escreveu sempre em grego, e de fato 7 epigramas dele da fase inicial sobrevivem em grego na Anthologia Palatina (I 19, 20; V 86; IX 139, 140, 753, 754), e um fragmento (Gigantomachia) sobrevive em tradição manuscrita isolada. Contudo, em 394 ele parte para a parte ocidental do império, e no ano seguinte escreve o poema mais antigo que chegou até nós: "Panegyricus fictus Olybrio et Probino consulibus", um elogio aos seus jovens patronos. Após o período ele escreveu diversos Panegíricos para seu mais poderosos patronos, Stilicho e Honorius, dois poemas para as núpcias de Honorius, invectivas contra inimigos dos mesmos, narrativa político-histórica e ensaiou a composição de dois épicos (De raptu Proserpinae e Gigantomachia); de resto, alguns poemas menores e de circunstância sobreviveram. A morte dele se presume pela ausência de qualquer texto ou alusão aos feitos de patronos após 404.

Se Claudiano era realmente pagão ou cristão é algo de debate e provavelmente não pode ser definida para além da incerteza, ao menos com base nas informações que temos. Dois poemas cristãos são atribuídos a Claudiano: Laus Christi e Miracula Christi, mas o primeiro também é atribuído a Merobaudes em melhores bases, e o segundo foi atribuído tardiamente sem bases manuscritas. Mesmo considerando que os poemas fossem de Claudiano, não há nada nos mesmos que não possa ser feito com base em conhecimento superficial das histórias e crenças cristãs, e naquele período não as conhecer era praticamente impossível: Miracula Christi, em particular me parece simplesmente muito apressado (cada dístico um milagre, e de fato o presente dos reis magos no segundo distico não é um... há um possível mal entendimento também no 7º). O que ainda se pode dizer é que autores antigos como Agostinho e Orósio afirmavam que Claudiano sempre fora pagão e nunca se converteu; Scourfield escreve que "como um poeta em uma corte fortemente cristã, é improvável que ele tenha sido pagão", contudo outros estudiosos têm notado que a época em que ele se mudou para o ocidente é extremamente suspeita. Em 393 Teodósio eliminou toda a legalidade dos ritos pagãos, e em 394 massiva perseguição e destruição ocorreu na parte oriental do império (é incerto se o imperador promoveu tais perseguições pessoalmente, mas é certo que ele permitiu que elas ocorressem), então é bastante razoável que o poeta esteja seguindo a tendência da intelectualidade pagã do período e escapando à perseguição.

Como eu já mencionei aqui e na postagem sobre Amiano, é algo bem notável que os melhores autores latinos do período eram falantes de grego. Com tudo, o que é fascinante em Claudiano é o quão "latina" é a sua dicção. Amiano deve ter usado muito latim no período do exército, e Ausônio teve educação bilíngue, ao mesmo tempo que ambos os autores escrevem com muita excentricidade de dicção, sintaxe ou semântica baseado no grego; Ausônio, em paticular, aprecia a escrita macarrônica. Claudiano, contudo, é possivelmente o mais "latino" de todos os autores latinos, ou, ao menos de todos os autores da antiguidade tardia latina. Pelo fato de que ele era grego, muita gente, inclusive eu, tem procurado marcas de grecismo e excentricidades na dicção do poeta, e as poucas que alguns tem identificado parecem ser todas falsas. Aqui eu vou dar os exemplos que eu conheço:

Panegyricus Dictus Olybrio et Probino Consulibus:
122. "in hastam"
Segundo Dewar in hastam tem sentido modal, e por isso seria grecismo. Contudo, Hall e Charlet pensam que in hastam tenha sentido final, portanto é latim natural. De qualquer modo, mesmo esse grecismo é poético desde o período augustano.
De Consulato Stilich. Lib I:
29. Sed pacem foedat vitiis; hic publica felix,
Burman, Heinsius, Dietrich consideram que publica é grecismo (hic ad quod publica). Hic publica com sentido de hic in publica já aparece em Plínio contudo, e publica aqui é por antimetria lugares/ambientes públicos, não exatament "em público".

De Consulato Stilich. Lib II:
389. Depulsa terris iterum regnare dedisti.
Lemaire diz que dedisti é grecismo, e tem o sentido de fecisti. Eu não sei nem mesmo se pode-se dizer que do com sentido de facio é grecismo, mas isso é irrelevante aqui de qualquer modo. Em linguagem militar, do pode significar conceder (permissão, segurança, prêmio), devolver ou restaurar, todos sentidos mais adequados que criar ou produzir.

Panegyricus dictus Honorio sextum consuli
361. dissimulata diu tristes in amore repulsas
Eu não entendo o bastante de grego para saber exatamente porque dissimulata tristes repulsas seria graecismo eleganti (Gesner). Contudo, Birt deve estar certo em interpretar dissimulata com o sentido de neglecta (usado por Ausônio e por Claudiano em outra passagem), e construir repulsas como acusativo de queror.

Por fim, traduzo duas passagens curtas, com base no texto estabelecido por John Barrie Hall. Claudiano é um pouco mais difícil de traduzir, porque a melhor poesia dele é significamente grande em tamanho, por isso eu vou traduzir o trecho mais curto da Fescennina e um poema da Carmina minora, que me parece interessante pelo contexto de divulgação de poemas na época. Até onde sei, há apenas uma tradução de Claudiano para o português europeu, do De Raptu Proserpinae, e em prosa.

Fescennina Dicta Honorio Augusto et Mariae [Trad: Raphael Soares]
III (13)
Solitas galea fulgere comas,
Stilicho, molli necte corona.
Cessent litui saeuumque procul
Martem felix taeda releget.
Tractus ab aula rursus in aulam
redeat sanguis. Patris officiis
iunge potenti pignora dextra.
Gener Augusti pridem fueras,
nunc rursus eris socer Augusti.
quae iam rabies liuoris erit?
uel quis dabitur color inuidiae?
Stilicho socer est, pater est Stilicho.


Sobre o cabelo brilha o elmo em luz,
Stilicho, e brando pões o louro à testa.
Cessem trompetes, e que o sevo Marte
Seja afastado pela tocha fértil.
Que se una a real com a real
Estirpe. O ofício que é do pai
Junge os amantes com potente destra.
Genro de Augusto outrora o foste tu,
E em retorno agora és sogro Augusto.
Que espaço há p'ra raivas da inveja?
Ou o que é que justifica a cor da inveja?
Stilicho é sogro, e pai é Stilicho.

Carmina Minora [Trad: Raphael Soares]
19 - Epistula ad Gennadium ex Proconsule
Italiae commune decus, Rubiconis amoeni
incola, Romani fama secunda fori,
Graiorum popules et nostro cognite Nilo
(utraque gens fasces horret amatque tuos),
carmina ieiunas poscis solantia fauces?
testor amicitiam nulla fuisse domi.
Nam mihi mox nidum pinnis confisa relinquunt
et lare contempto non reditura uolant.

Da itália gente orgulho, e em Rubicão ameno
habita, e em fama lácia o segundo,
Famoso à gente grega e alcança até o Nilo
(Que amaram e odiaram teu ofício),
Me pedes versos para alentar tua garganta?
Tenho nenhum, te digo como amigo.
Quando confiam nas suas asas os meus versos
Fogem de case e nunca mais se voltam.



[Avianus] (~400)

Nada sabemos sobre quem escreveu as fábulas geralmente conhecidas pelo nome autoral "Avianus". As 42 fábulas em dístico elegíaco foram certamente escritas por uma só pessoa, para um Teodósio (presumivelmente Macrobius Ambrosius Theodosius, o que coloca a construção da coleção por volta do ano 400). Se ele é o poeta que Teodósio menciona posteriormente, seu nome era Avienus. Os manuscritos não concordam em nome (Avianus, Avianius, Avienus... o nome Flávio é invenção posterior baseado em má identificação), e aparentemente o autor foi confundido com o outro poeta, Avienius (conhecido no período medieval como Avieno), o que abre a possibilidade para o fato de que o poeta tinha qualquer nome.

As fábulas de "Aviano" gozaram popularidade imensa no período medieval, o resultado é que a tradição textual do poeta é muito contaminada e interpolada (há enormes séries de finais distintos entre os manuscritos) e muitos manuscritos apresentam scholia, comentários e glosas. Robert Gregory Risse editou um desses comentários, e eu recomendo que todo mundo leia porque ele é hilário... Aquele tipo de comentário e leitura que é tão ruim, mas tão ruim, que chega a ser até bom e divertido... Eu iria apresentar uma tradução minha para a Fábula 2, contudo ainda há muitos outros escritores de maior interesse e mérito que precisam ser comentados, e se eu dedicar tanto tempo assim para cada um a série nunca acaba. Também preciso revisar minhas escolhas textuais: no verso 10 eu li excidit com Baehrens, que é a expressão correta e adequada, mas depois de ver como alguns classicistas (que são poetas muito melhores que "Aviano") lidam com substituições por sinônimos e cometem algumas falhas e absurdos de expressão, referência ou fato bem piores que occidit, me parece hoje que a pior forma é legítima, se tratando de uma versão indireta por um versificador que demonstra pouca riqueza de vocabulário.

"Aviano" recebeu uma tradução integral, disponível livremente na internet: a versão de Jorge Manuel Tribuzi Correia de Melo, que preparou uma versão e notas para a sua dissertação (aqui).



Bônus: Publilius Optantianus Porfirius (336+)

Por fim, apresento alguns poemas de Optantianus (que antecede Ausônio) e que não requerem tradução. Optantianus era um político romano, e poeta diletante, que após ser banido em algum momento da carreira escreveu elogios e bajulações para Constantino e foi permitido retomar postos políticos. O que é particularmente notável desse poeta é como a má qualidade e diletantismo podia se passar por poesia que presta, numa época de baixo nível cultural... Como muitas pessoas sabem, a história tende a se repetir, porque aparentemente o ser humano não aprende de verdade com ela. O "texto" é retirado da Patrologia Latina.






quarta-feira, 29 de julho de 2020

Antilogia i-tradutória da poesia latina tardia [pt. 1] - Poetas Anônimos

Há um grande problema no estudo da literatura latina, um problema que é extremamente óbvio para qualquer um que pensa a seu respeito, mas por uma razão ou outra não pensamos. O latim foi sistematicamente usado como principal forma de expressão literária no ocidente desde os tempos clássicos até o renascimento, o que dá em torno de 1500 anos de literatura, mas quando falamos de "literatura latina" (particularmente poesia) quase sempre nos restringimos a um período de duzentos anos indo de Lucrécio a Marcial. O renascimento, a despeito de seu monumental esforço em resgatar e comentar os clássicos, é um dos principais culpados dessa negligência, por conta do desprezo geral que o período teve em relação à era medieval. Com isso surgiu uma ideia geral de decadência do "Latim de Ouro", para um inferior "Latim de Prata" e um deplorável e decadente "Latim Medieval", relegando o latim tardio a um irrelevante meio.

Antes de qualquer coisa, essa postagem não pretende criar uma revisão violenta de valor, alegando que o latim tardio (e seus autores) é, de algum modo, superior ao clássico, e não por concordar ou discordar com a periodização e o julgamento de valor recebido, mas unicamente porque o latim clássico tem Virgílio, o que faz qualquer disputa um caso perdido. Mas do mesmo modo que é necessário que nós estudemos não-Virgílios, pelas mais diversas razões, não é mais justificável, em nosso tempo, ignorar mais de mil anos de história literária baseado nos preconceitos de nossos avós intelectuais. Precisamos conhecer a literatura latina tardia, e precisamos conhecer a literatura latina medieval, seja para reforçar ou rejeitar os juízos recebidos. Não é possível avaliar propriamente algo que não conhecemos, e no presente momento conhecemos muito pouco.

Essa antilogia foi influenciada por dois livros que não poderiam ser mais díspares em seleção e método. O primeiro é o Medeias Latinas de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, que na minha opinião é o melhor livro de poesia latina publicado nos últimos anos (a despeito do latim horrendo e porcamente revisado da edição), que ao construir uma seleção baseada em tema deu espaço particular para a poesia da antiguidade tardia, o que me chamou atenção e me comoveu profundamente pela qualidade do que eu li, seja pelo talento do tradutor, seja pelo interessante valor agregado dos próprios textos escolhidos. O segundo foi o Poesia Tradução e Versão de Abgar Renault, que me ensinou duas coisas importantes para me encorajar a escrever e traduzir esses poetas, a de que mesmo uma tradução ruim é melhor do que tradução nenhuma, e que mesmo em poesia é possível que uma má tradução, que apaga muito da mágica positiva do poema, ainda traga um pouco do que é bom do poeta. Já informo que todas as traduções aqui que forem minhas provavelmente serão ruins, feitas um tanto às pressas e organizadas quase aleatoriamente por um amador sem amor ou talento, mas eu espero que a exposição ao menos sirva para criar um diálogo ou chamar atenção para o período. Se meu violento abuso e presunção na terra das musas ofenderem tanto o leitor, espero o encorajar a salvar a dignidade da língua latina oferecendo uma versão melhor, ou melhores poemas que os casualmente selecionados por mim.

Comecemos a jornada...


Manuscrito musical do Disticha, Sec. XIII
- Disticha Catonis (Sec. III-IV)
Se o objetivo for unicamente fazer as pessoas se interessarem pela poesia tardia, Disticha Catonis é um péssimo ponto de partida. A obra, atribuída tardiamente a um Dionísio Catão (porém o nome é um equívoco, por associação à Catão, o velho), não agrada mais nosso paladar moderno. A obra não é o que conhecemos hoje como poesia, sendo basicamente moral versificada, e embora as viradas dos séculos parecem reviver a preferência à leitura moralizante das obras, e embora nosso próprio século parece estar engajado em ler obras exclusivamente pelo "valor moral", ou pela "agenda" que o autor e obra trazem, "cancelando" tudo aquilo que for condenado, o nosso século não está muito apto a aceitar os valores morais de dos velhos latinos. A despeito de ser muito difícil hoje em dia de ver a Disticha como grande poesia ou mesmo grande moral, é muito importante lembrar que esse foi provavelmente o texto latino mais influente na educação medieval e mesmo na educação moderna. Todos leram os Dísticos, todos parafrasearam os Dísticos, e muitos autores genuinamente os consideravam grande poesia ou grande moral. De resto, vão umas versões:

Livro I. 21 (Trad: Ary de Mesquita)
Infantem nudum cum te natura crearit,
paupertatis onus patienter ferre memento.
Fazendo o homem nascer sem roupa, a natureza
Ensina a suportar o fardo da pobreza.
Livro II. 11 (Trad: Ary de Mesquita)
Aduersum notum noli contendere uerbis:
lis uerbis minimis interdum maxima crescit.

Evita discutir com pessoas amigas:
De tolas discussões, às vezes, surgem brigas.
Livro III. 3 (Trad: Ary de Mesquita)
Productus testis, saluo tamen ante pudore,
quantumcumque potes, celato crimen amici.

Obrigado a depor contra um amigo, evita
Mostrar-lhe a falta enquanto a honra to permita.
Livro III. 4 (Trad: Raphael Soares)
Sermones blandos blaesosque cauere memento:
simplicitas ueri forma est, laus ficta loquentis.

Cuidado com lisonja indiscriminada:
Louvores faz o falso, franqueza a verdade.
Livro IV. 5 (Trad: Raphael Soares)
Cum fueris locuples, corpus curare memento:
aeger diues habet nummos, se non habet ipsum.
Quando te enriquecer da saúde vá cuidar:
Ou adoecer, tendo vinténs para gastar.
Livro IV. 19 [?] (Trad: Ary de Mesquita)
Disce aliquid; nam cum subito Fortuna recessit,
ars remanet uitamque homnis non deserit umquam.
Deve ter profissão a própria gente rica:
Os bens se podem ir, mas a profissão fica.
Bônus Round:
Livro I. 17
Ne cures, si quis tacito sermone loquatur:
conscius ipse sibi de se putat omnia dici.
Chaucer (Trad: José Francisco Botelho)
Aproximou-se. Disse assim Catão:
Quem tem culpa a pesar no coração
Suspeita sempre da conversa alheia.
A diferença do original para a "tradução" Chauceriana se dá pela leitura medieval de "conscius ipse sibi" (consciente de si, que conhece bem a si) como pessoa culpada, com senso de culpa. Mas isso é assunto para outra ocasião.


Cópia do livro disponível para a leitura aqui.

- Epigrammata Bobiensia (~400 A.D.)
Essa coleção da antiguidade tem uma boa e longa história, do tipo WTF... Essa coleção de poemas foi produzida ainda na antiguidade, no início do século V (Naucellius, autor de alguns poemas da coleção, ainda estava vivo, e possivelmente Claudiano também), e o livro sobreviveu à idade média até que uma cópia dele (possivelmente do século VII), a única, foi encontrada em Bobbio em 1493. Até então, os editores só se interessaram por um poema atribuído a Sulpícia, e por alguma razão aleatória e inexplicável Avantius resolveu atribuir vários dos poemas Anônimos à pena de Ausônio, e depois disso o manuscrito se perdeu. Como o livro havia se perdido e não sabíamos exatamente quais os critérios para a atribuição dos poemas, esses poemas permaneceram sendo editados como se fossem de Ausônio até que no meio do século XX Augusto Campana encontrou uma cópia (aparentemente com algumas omissões) da coleção em meio aos manuscritos do Vaticano (Vat. Lat. 2836), e então a obra inteira pode ser lida, avaliada e as atribuições de autoria confirmadas ou questionadas.

A Epigrammata Bobiensia (que não é uma coleção de epigramas, e ironicamente sobrevive em um manuscrito do Vaticano, não de Bobbio) é uma miscelânia antiga, construída por poetas competentes, embora muito da coleção é tradução de poemas da Antologia Grega, alguns dos poemas (como o 6, o 36-37 ou 70) só podem ser latinos; além do mais, uma das traduções é muito interessante também, como veremos, por "traduzir" a primeira linha da Ilíada como "arma virumque". Aqui vão alguns poemas da Bobiensia, que certamente não são de Ausônio. Apenas mencionando que Bob. 53, em tradução do Gouveia, é referido por ele como Ausônio Ep. 129, baseado na edição bipontina (o poema certamente não é de Ausônio, mas circulou com os textos do poeta até a redescoberta do codex), porém estou apresentando uma versão mais correta, já que a edição Medeias Latinas apresenta non digna est no verso 7, que na verdade é um erro de digitação para nan digna da edição Bipontina, que o tradutor usa, enquanto eu imprimo o indigna (-a sensum 'valde digna' attribuentes, ThLL) do manuscrito, que não me convence muito, mas pode justificar melhor a tradução.

Bob. 7 [Trad: Raphael Soares]
[In marmoreum signum]
E marmore hanc me carneam effinxit Scopas,
Baccham euhiantem. tange: digito cesserim.
de mármore formastes a mim tal carne, Escopas,
Bacante boquiaberta!. Toque e eu recuarei.
Bob. 47 [Trad: Raphael Soares] 
De matrimonio grammatici infausto
"Arma uirumque" docens atque "Arma uirumque" peritus
non duxi uxorem, sed magis arma domum.
namque dies totos totasque ex ordine noctes
litibus oppugnat meque meumque larem
atque ut perpetuis dotata <a> matre duellis
arma in me tollit nec datur ulla quies.
iamque repugnanti dedam me, ut denique uictus
iurger ob hoc solum, iurgia quod fugiam.
"As armas e os barões" ensino, "As armas..." douto,
As armas, não mulher, à casa trouxe.
Pois todo santo dia e toda santa noite
assalta a mim e ao lar com seus litígios
Porque a mãe por dote deu duelos eternos
armada contra mim sem dar descanso.
Desisto de lutar, enfim, só assim que venço,
Só essa queixa: a de fugir das queixas.
Bob. 53 [Trad: Gouveia Jr.]
In Medeae imaginem
Medeam uellet cum pingere Timomachi mens
uoluentem in natos crudum animo facinus,
immanem exhausit rerum in diuersa laborem,
fingeret adfectum matris ut ambiguum.
ira subest lachrymis, miseratio non caret ira:
alternum uideas ut sit in alterutro.
cunctantem satis est: indigna* est sanguine mater
natorum, tua non dextera, Timomache. 
Quando Timômaco u'a Medeia quis pintar,
com crueldade intentando o crime contra os filhos,
realizou grande esforço em coisas diferentes,
para representar o ambíguo amor materno.
Há compaixão na ira, há ira sob as lágrimas -
o que vires em um, assim seja no outro.
Está muito exitante: a tua mão não merece
ó Timômaco, u'a mãe com o sangue dos filhos.

Bônus Round:
Bob. 70
In Romulum
M mutaris et R sedes si, Basse, notarum
nominis, altae Urbis moenia qui statuit,
alternasque ueli
s apicum †a se† scribere uoces,
Morulus hac fuerit, qui nunc est Romulus, arte.
 Assim na edição de Speyer, do link postado. Esse poema eu apresento como uma provocação e convite à leitura, tradução, e imitação. O poema é de cara interessante por gênero e estrutura: o gênero é um tipo de poema conhecido como lusus in nomine (lit.: brincadeira partindo do nome), havendo mais outros exemplos na própria Epigrammata, como Bob. 41 e Bob. 61, ou integrado em poemas maiores, como em Carmen Pascale de Sedulius (Convenit Heliae! meritoque et nomine fulgens | Hac ope dignus erat: nam si sermonis Achivi | Una per accentum mutetur littera, sol est. I. 185-7), em que Elias (lat. Heliae) se torna o próprio sol (gr. Helios) com a mudança de uma letra em pronúncia Argiva. A forma é um caso curioso de dois estilos métricos inseridos no poema, sendo um dístico elegíaco seguido de um dístico em hexâmetros. Por conta do conteudo do poema, podemos estar certos de que não é tradução ou imitação latina, mas uma composição nova dentro do gênero e que necessariamente foi composta em latim (mesmo que o autor seja grego ou falante primário do grego, como Claudiano ou Ausônio, a composição é original latina) por alguém que dominava a língua grega, já que o jogo de palavras envolve a alternância das letras M e R do nome Romulus, para construir a palavra grega Morulus (μωρός; Morulus é latinização, como se fosse um cognomen). Speyer sugere a autoria de Anicius Probinus, mas não possui qualquer base sólida, e embora esse é, de todos os epigramas da coleção, o mais "Ausoniano" deles, quase certamente não é de Ausônio também, ou ao menos não há qualquer base para essa atribuição, contudo, sendo de um poeta romano que não veio da Gália esse seria o único exemplo de poema polimétrico conhecido que não foi escrito por autor gálico. Vamos tentar falar dos versos.

1-2 "M mutaris et R sedes si...notarum | nominis": Basicamente qual o início do jogo do poema. Aqui eu vou chamar atenção primeiro para a prosódia, e o fato de que embora "m" e "r" sejam apenas consonantes e com a pronúncia com vogais curtas, o fato de serem consideradas "semivogais" (em terminologia latina) faz com que a pronúncia sega "em" e "er" (ao invés de "me" ou "re", ou os portugueses "eme" e "erre") tornando as vogais longas por posição. A construção "mutaris sedes" é algo relativamente simples de entender no discurso. De resto, "notarum" tem o sentido de "das letras".

2 "altae Urbis moenia": Construção poética tradicional, dando ênfase épica ou solene. Ex: "moenia mundi" + adj (Lucretius, repetidas vezes); "altae moenia Romae" e "incluta...moenia Dardanidum" e outras (Virgílio); "Romulus aeternae nondum formauerat urbis | moenia" (Tibullus); "Karthaginis alta moenia?" (Valerius Maximus).

3 "alternasque uelis apicum †a se† scribere uoces". O manuscrito apresenta "velit", que é facilmente corrigido para "velis". "uox" significa novamente as letras, a pronúncia, escrita. O texto da tradição permanece extremamente complicado, por conta de que "a si" não chega a trazer exatamente um sentido, e, de fato, as vozes escreverem "a si" parece muito mais indicar a forma "correta", ou sendo tautológico ao se referir à forma alternada. Zicàri propôs "apicum has excribere", que é paleologicamente provável e em teoria tem um bom sentido, contudo, embora a alegação do comentarista de que "excribere" como composto pode significar algo como "inverter" (referindo-se a has, "tais letras em específico") é algo que faz sentido e há paralelos, mas todos esses paralelos sempre fazem referências ao fato de copiar diretamente um texto, produzir uma cópia. A solução mais simples me parece ser a de Courtney "apicum rescribere", que tem o sentido atestado que parece correto. Deixo, claro, para o leitor decidir. Minha intuição, provavelmente falsa é que ao invés de †a se† devêssemos ler "nam" (porque, porque está scribere), e "scribere" com o sentido de "registrar", oficializar, fazemos com que Morulus, o idiota, se torne Romulus, o rei e imperador de Roma; contudo devo estar lendo Anne Carson demais.



Anthologia Latina, Riese. Cópia aqui.
- Anthologia Latina
A única coleção conhecida da antiguidade que chegou ao nosso tempo foi a Epigrammata Bobiensia, e, portanto, não existe uma "Antologia Latina" no mesmo sentido que existe uma "Antologia Grega". Contudo, várias antologias, florilégios e coleções foram feitas durante o período medieval, com diversas finalidades (quase nunca puramente artísticas), e por conta da parca sobrevivência dos textos clássicos, quando os críticos modernos começaram a organizar os textos latinos (como Veterum Poetarum Catalecta do Scaliger, até a Anthologia de Burmann) o objetivo não foi o de preservar o que de melhor existia em matéria de poesia latina para a posteridade, mas coligir tudo o que fosse possível de encontrar para preservar, mesmo que não fosse de grande valor literário. A consequência disso é óbvia, e faz com que, em termos gerais, a Anthologia Latina não seja nem de longe comparável em valor que a contraparte grega, e de certo modo não podemos nem mesmo chamá-la de antologia. Alexander Riese publicou a primeira recensão e organização crítica dos textos, e até o presente momento é ainda a única (não vamos falar da tentativa de Shackleton Bailey... Podemos fingir que ela simplesmente nunca aconteceu, para não manchar a imagem do grande crítico). Porque não podemos falar de uma Anthologia Latina, eu decidi então falar de um único poema, Anônimo, da mesma.

O poema que vou traduzir é o 130 (Riese, III. 171 de Burman), que está presente num dos mais antigos códices que temos (Codex Salmasianus, ou Codex Parisinus Lat. 10318), é um poema que antecede o 5º século (se crê que a coleção de poemas do Codex seja cópia de uma coleção composta na África por volta de 534), devendo ter sido escrito entre os tempos de Hosídio Gueta e Luxorius, sendo portanto do período tratado. O poema é bem interessante quando você desconsidera a misoginia, típica dos latinos, e trata de uma prostituta de nome Caballina, que não apenas tem nome equino como comporta-se como tal. Do ponto de vista linguístico, é um dos primeiros casos de bestialização violenta da linguagem, pois "iunctas" do último verso só pode se referir a um animal (e foi a mesma razão para Bailey tentar remover a palavra, substituindo por "pugnas"), e, de fato, se omitirmos o título do poema é possível lê-lo sem se dar conta de que o mesmo trata-se de uma mulher, já que fremebat intransitivo é geralmente usado para animais (e, de fato, Virgílio usa para cavalos, frementem equum nas Geórgicas). Por conta disso, o poema tem, de acordo com o meu conhecimento, sido tratado como que "demasiadamente obscuro", o que, a meu ver, não é preciso, já que a obscuridade é mais aparente que real. Segue o texto e versão. Só mencionando que "Parium nitens colorem" (que traduzi como "Alva cor de Paros") se refere ao mármore de Paros, famoso pela brancura e semi-transparência.

Anth. Lat. 130 R (Trad: Raphael Soares)
De Caballina meretrice
Caballina furens amanda nulli
Excussis modo calcibus fremebat;
Quae quamuis facie micet rubenti
Et uibret Parium nitens colorem,
Hirsutis tamen est petenda mullis,
Qui possint pariles citare iunctas.
A puta Cavalina
Cavalina loucaça e não amada,
como ela relinchava e dava coices;
Mesmo a vibrar rubor da sua face,
E vibrando sua alva cor de Paros,
Porém é duro o ataque de uma mula
Que pode se jungir nesse andamento.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Raja Ali Haji - Gurindam Dua Belas XI

Raja Ali Haji foi um poeta e historiador malaio-indonésio de etnia Bugis. De etnia e linguagem minoritária na Malásia peninsular, Raja Ali Haji construiu sua carreira em Riau sobre a administração do Sultanato Riau-Lingga. Durante esse período histórico, com a liberdade de investigação e produção intelectual no arquipélago de Riau, que se pode dizer que a construção da forma clássica e literária da língua malaia e indonésia teve início (para quem não sabe, a despeito de serem oficialmente reconhecidas como línguas nacionais diferentes, malaio e indonésio são, de fato, a mesma língua), de modo que o presente autor é uma importante figura para o desenvolvimento de ambas as línguas e culturas, sendo considerado um herói nacional da Indonésia.

Raja Ali Haji escreveu um número de obras extremamente importantes, dentre as quais as principais são Tuhfat al-Nafis (isso é árabe, mas comumente traduzido como O Dom Precioso), um importante livro sobre a história malaia após os "Anais" (Sejarah Melayu), e o Kitab Pengetahuan Bahasa, uma espécie de gramática e dicionário da língua Malaia, que ficou incompleto. Dentre as obras menores temos poesias como os 12 Gurindam e alguns Syair (possivelmente espúrios), além de cartas e outros fragmentos. A obra dele nos foi transmitida através de manuscritos em escrita Jawi, o que gera seus próprios problemas de transmissão e edição quando passamos para a escrita Rumi (i.e. o alfabeto romano, atualmente usado tanto na Malásia como na Indonésia).

O gurindam é uma das formas tradicionais da poesia malaia, como o pantum ou o syair. A origem do gurindam deve-se provavelmente à escrita poética árabe e sua relação com o Alcorão, e a ausência de metro provavelmente provém do fato de que a prosódia entre essas línguas é muito distinta. O gurindam é composto de uma sucessão de dísticos (em Jawi usualmente escritos em uma só linha) rimados, e embora o poema inteiro tem uma unidade de caráter (a respeito de qual lição a ser ensinada), os dísticos isolados são sempre completos e autossuficientes em sentido, podendo ser citados isoladamente como aforismo ou peça de sabedoria. O paralelo mais similar que temos na poesia ocidental são as Sententiae de Publilius Syrus ou a Disticha Catonis se resolvermos organizar esses textos por tema, como alguns manuscritos o fazem. O "equilíbrio" do verso é semântico, sendo que o segundo verso do dístico é o mais importante e o primeiro sua condição, em modelo "questão-resposta" ou "causa-consequência" ou "problema-solução". O primeiro verso, o syarat (lit. condição, termos) apresenta a condição necessária para a lição ou cláusula principal da jawab (lit. resposta). A medida do poema tende a ser o equilíbrio semântico, e a melodia é adquirida exclusivamente por intermédio das rimas marcando esse equilíbrio.

O texto que estou traduzindo é o que aparece na Wikisource da Indonésia (aqui). Como mencionei antes, o texto chegou até nós por intermédio de cópias manuscritas distintas e escrito em Jawi, não Rumi. Duas palavras aqui me parecem erradas: dimulai (início, começo, iniciar) deve ser provavelmente algo como dimalui (essa mudança linguística é processo comum, e aparece em outras línguas austronésicas), mas o sentido aqui me parece correto (seria dimulai atualização "ortográfica" que distorceu o som?). Há, contudo, outras opções a considerar: 1) tomando paralelo com outras línguas entender dimalui como ditakuti (i.e. temer, temido); 2) corrigir dimulai para dilalui (i.e. impassável, ao menos em bali). Nenhuma das alternativas me parece tão boa semanticamente, então eu vou simplesmente manter o texto como está por causa da minha completa incompetência linguística ou filológica. A outra palavra é mais problemática hajat não só não rima (isso é, se não houve mudança fonológica entre o t e o h) como não me parece muito clara ou equilibrada semanticamente, se é que eu entendi direito. De qualquer modo, deixo marcado esses dois problemas com obeli no original, só para facilitar caso alguém mais competente que eu possa refletir sobre essas questões.



Raja Ali Haji - Gurindam Dua Belas - Gurindam XI

Ini gurindam pasal yang kesebelas:

Hendaklah berjasa,
kepada yang sebangsa.
Hendaklah jadi kepala,
buang perangai yang cela.
Hendaklah memegang amanat,
buanglah khianat.
Hendak marah,
dahulukan hajat†.
Hendak dimulai†,
jangan melalui.
Hendak ramai,
murahkan perangai.


(quem quiser me comprar esse livro, estou aceitando)


Raja Ali Haji - Doze Gurindam - No. 11

Eis aqui o décimo primeiro Gurindam:

Deves seus deveres cumprir
Para o irmão que mora aqui.
Deves para ser um cabeça
Livrar-se de conduta adversa.
Deves para ganhar confiança
Livrar-se de traição sem tardança.
Antes da irritação
Priorize a celebração.
Antes de começar
Não vá se apressar.
Antes de se acercar do povo
Temperamento tenha generoso.

Trad: Raphael Soares

domingo, 21 de junho de 2020

FUNDAMENTALISMO VS FILOLOGIA NA POÉTICA DE ARISTÓTELES [Palavras Importam]

Nada representa melhor uma leitura fundamentalista como um extremista religioso falando sobre a homossexualidade. Isso é condenado e repulsivo “porque está na bíblia”. Não importa o debate, não importa o contexto, e não adianta qualquer tentativa de discutir o ponto que logo virá a lição “leia a Bíblia, Levítico dezoito vinte e três 'Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é', está lá e é a palavra de Deus”. O fundamentalista religioso, contudo, nunca irá dizer que Levítico 11 “está na Bíblia”, ou Levítico 19:19, porque o fundamentalista adora bacon, camarão e roupas da moda. No fundo no fundo, o fundamentalista não quer compreender o texto sagrado ou obedecer as leis de seu Deus, ele apenas não gosta de Gays e quer jogar autoridade para justificar seu ódio e calar quem pensa diferente.

Leituras fundamentalistas não são exclusividade de textos sagrados, mas estão espalhadas por todo o ramo das humanidades. Recentemente, ao fazer uma crítica em relação à (in)precisão histórica violenta em um texto literário, seu autor, visivelmente ofendido por minha rudeza, delicadamente me disse para comer capim e ler Aristóteles, porque, dixit dominus, o mesmo "em A Arte Poética, capítulo 9" (assumo que seja a numeração de Heinsius, o que é engraçado por mais de uma razão), autorizou todo o tipo de violência histórica na obra poética. Não costumo recusar convites à leitura, mesmo que seja Aristóteles, e mesmo que seja, outra vez, a mesma passagem da Arte Poética que já discuti ao menos duas outras vezes nos últimos 12 meses, já que por mais que eu ache que conheço essa passagem inteiramente, e li diversas interpretações da mesma, eu sempre posso cometer um grave e estúpido oversight, e tenho algum talento para isso, já que é o homem é completamente impotente diante de sua própria estupidez; quanto ao capim, tenho de admitir que não agrada ao meu paladar, a despeito de ser um notório jumento, espero que chá seja o bastante.

Antes de seguir com a discrepância entre a leitura fundamentalista e a filológica (não tratarei, por razões claras das “filosóficas”), há algo interessante sobre o método. O método fundamentalista é simples: jogar a autoridade da “palavra” para calar a oposição, não importando nem mesmo o que ela quer dizer. Não se pode discutir, não se pode debater, porque nosso senhor o grande X disse isso e porque ele disse isso é verdade. Por razões óbvias isso é mandatório nos templos, porque se Deus não tem autoridade sobre a “verdade” não há sentido em buscar por ele. Contudo, nas humanidades as academias tem uma parcela de culpa, pois mesmo se, ao menos em teoria, elas não incentivam essas práticas e recomendam o debate, as práticas acadêmicas tendem a, pouco a pouco, mecanizar a autoridade pela autoridade, palavra pela palavra. A verdade e o conhecimento são construídas por meio de palavras, assim como a mentira e a ignorância; precisamos de palavras para construir os sensível, e precisamos das mesmas para propagar o nonsense. Ao invés do debate e reflexão, aos poucos se instauram as palavras vazias e a autoridade. Isso não é a prática geral das academias, ou daqueles formados por ela (ao menos quero acreditar nisso com base na minha experiência), porém pequenas práticas tendem a incentivar ou mesmo premiar a aceitação da autoridade ou do vazio de sentido, mesmo que nas pequenas coisas.

Que Aristóteles possa ser usado como autoridade suprema e irrefutável para “provar” um ponto é algo absurdo, porém nada novo. O que me surpreende bastante é o quê exatamente Aristóteles está sendo usado para provar. Já por 1600 Heinsius (o mesmo responsável pela numeração supracitada) usou a mesma passagem para condenar todo o drama medieval cristão ESPECIFICAMENTE porque eles usavam a história real (ou, ao menos Heinsius e os autores medievais acreditavam ser essas histórias reais) mas a tratavam como mito (e também pela natureza das mesmas, como veremos), e ele provavelmente ficaria chocado ao ver que estão usando essa passagem para afirmar que Aristóteles aprovava nela a violação da verdade histórica à favor da arte. De fato, entre o século XV e XVIII a leitura da Poética era largamente ahistórica, e os autores do período, em comum com fundamentalistas modernos, se importavam unicamente com a “verdade” de Aristóteles, i.e. o que a literatura vernacular do período deveria ser, e a influência das diversas leituras aristotélicas do período é sumarizada por Wilhelm Dilthey, de modo que apenas repasso para quem interessar (“Die Einbildungskraft des Dichters. Bausteine für eine Poetik”, há uma tradução nas obras Seletas em Inglês, vol. V), embora compreender o contexto geral da crítica da época me parece mais relevante do que de uma obra específica, para o leitor comum.

Não é a primeira vez que eu vejo essa leitura, de que a “falsidade” histórica é justificada pela “verossimilhança” (ocasionalmente com alguns desenvolvimentos mais exorbitantes como “tempo mítico”), na passagem, e já vi até dois críticos aparentemente inteligentes chegarem à mesma conclusão. Fui novamente buscar bibliografia, ler mais comentários que ainda não tinha lido. Não é surpresa confirmar, novamente, que nenhum filólogo competente que estudou a “Poética” sequer leu esse texto desse modo, e olha que há filólogos desonestos e inventores de “modismos”, especificamente porque essa leitura é impossível em mais de um aspecto, e assumir que essa leitura é razoável implica em dizer que o próprio texto está errado. O que eu ainda não consegui descobrir é de onde essa leitura surgiu, e quando ficou popular entre críticos e polemistas leigos. O máximo que sei é que ela ainda não existia no período vitoriano inglês, e na França Denis Diderot apresenta a leitura da época do texto e não cometia esse erro, e não consigo achar esse aborto interpretativo nem mesmo nos humanistas e outros escritores do período “acientífico” (embora eles estavam mais lendo Aristóteles para “confirmar” Horácio, o que também não é uma boa ideia), e mesmo Pietro Vettori (Victorius), autor do mais importante comentário do período humanístico, mas que insiste em dizer que Aristóteles afirma que a poesia necessariamente precisa ser em verso, ainda não é capaz de ler desse modo. Devo assumir então que ela é uma leitura moderna, mas não posso dizer quão moderna. Essa leitura depende de uma tríade de ignorância, talvez deliberada como convém ao fundamentalista, que em geral causa todo tipo de erro, mas aqui em especial parece ser deliberada e em larga escala.

  1. a ignorância do contexto externo: o crítico fundamentalista ignora ou deliberadamente não quer saber sobre a história do texto. O crítico pode até saber que o texto é um dos textos “não publicados” do autor, mas não sabe ou não quer saber o que isso significa para a interpretação do texto. O crítico não sabe ou não quer saber como a obra chegou até nós, e em que condições; o crítico não quer ouvir dizer que “a 'Poética' sofreu em sua transmissão mais qualquer outra obra autêntica de Aristóteles” (“the Poetics has suffered in its transmission more than any other authentic work of Aristotle”, na Editio Maior mais recente, a única), porque se as bases da Escritura caem a base de sua Verdade cai; ele não quer saber que a situação do texto já era famosamente ruim no primeiro século A.C., como atestam Plutarco e Strabo, e se souber no máximo vai considerar o testemunho dos antigos como exagerado, porque todos os antigos podem mentir, exceto suas Escrituras. Mais importante, o crítico fundamentalista não sabe, ou não quer saber, sobre que obras o autor originalmente falava, quais estéticas estavam em voga, as mudanças, o que havia e não havia no período, ou quais valores em específico o autor condena e o porquê, já que o crítico fundamentalista não se importa com o que Aristóteles dizia e como julgava os seus contemporâneos, mais como a palavra do Senhor é eterna e como a profecia d'Ele explica Pound e Eliot. O filólogo, contudo, não pode fazer o mesmo, porque tentar compreender o contexto no maior grau que for humanamente possível é a pedra fundamental de seu trabalho. Como não é do fundamentalista, ele usa seus poderes na segunda ignorância.
  2. a ignorância do contexto interno: nem sempre basta ignorar apenas o contexto e a transmissão do texto, às vezes se faz necessário ignorar exatamente o que o texto diz e suas palavras, ou ao menos as partes do texto que desagradam ou não corroboram a tese. Essa é, contudo, a mais defensável das ignorâncias. Todos os homens são propensos a isso, e a natureza do debate, que não permite trazer tudo ao mesmo tempo pode distorcer e deliberadamente esconder partes significativas do texto que fariam uma leitura incorreta cair por terra. De fato, mesmo gigantes (como Carpeaux, Housman ou Frye) podem estar face a face ou citar a prova necessária para derrubar parte de suas teses e ainda insistirem em não ver ou fingirem que significa outra coisa, e se os maiores homens podem cometer os mais óbvios e vergonhosos dos erros, não é justo exigir que os pequenos nunca incorram em um grave equívoco de omissão. Contudo, o crítico fundamentalista possui método, e não basta apenas casualmente omitir tudo aquilo que causa dificuldades ao argumento, ele precisa omitir tudo. É por isso que esse crítico ama o aforismo e a citação curta, já que esvaziado de seu contexto interno uma passagem isolada pode significar o que ele bem entender, e é essa a razão porque o crítico fundamentalista cita unicamente a passagem “1451a” a partir da linha 36 e nunca vira a página. Do mesmo modo que o fundamentalista religioso é capaz de dizer que Isaías 45:1 profetiza o “Messias” Cristo (mesmo sendo nominalmente explícito que o “Messias” foi Ciro da Pérsia), o crítico fundamentalista pode dizer que Aristóteles falava na passagem da liberdade com que o poeta pode tratar os fatos históricos, mesmo quando Aristóteles diz com todas as letras em 1451b 29-32 que ele não estava falando disso. O fundamentalista não quer saber em que contexto a frase foi dita, porque no fundo ele não quer entender a passagem, mas a instrumentalizar.
  3. a ignorância do  não-dito: o resultado lógico das ignorâncias anteriores, pois se o crítico não sabe em que contexto o texto foi produzido e transmitido, a que contexto se referia, e o que o que vem antes e depois propriamente dito, o texto fica incompleto e o seu sentido não fica claro. Se o texto é incompleto e o sentido não é claro, o leitor deve construir o sentido e ler nas entrelinhas. Ninguém ama mais ler nas entrelinhas que o crítico fundamentalista, que ama tanto o método que destrói as linhas a favor das entrelinhas. Se o sentido não é completo ele tem de ser inventado, e se ele tem de inventar ele o fará naturalmente para confirmar e defender as suas ideias, não para compreender a do autor. O filólogo venderia a alma por mais contexto e mais linhas, o fundamentalista não quer mais contexto e mais linhas porque quer inventar a sua interpretação.

A exposição do método fundamentalista, para a presente discussão, se deve porque esses são especificamente os tipos de ignorância, que nas medidas da minha capacidade, pretendo evitar. Para a presente discussão, o foco será especificamente “o que” o autor diz a respeito da diferença entre a arte [poesia] e a história, e por que as palavras importam, e espero apontar algumas questões gerais pertinentes à tradução dessas palavras e construções importantes, e porque traduções descuidadas de prosa podem auxiliar ao engano mesmo que não sejam objetivamente incorretas. Aqui eu vou apontar tudo o que estarei usando para a leitura, para que quem quiser possa me seguir. Isso não é uma bibliografia exaustiva, mas apenas algo que todo o leitor pode acompanhar, embora eu possa trazer algo de fora.´

Minhas referências ao texto da Poética seguem unicamente a numeração de Bekker como ela aparece na Editio Maior de Leonardo Tarán, e não faço referências a número de capítulo ou versículo seja usando a mais comum de Heinsius ou qualquer outra divisão humanística. Talvez o ideal fosse usar as duas, mas considerando que todas as edições, traduções e comentários respeitáveis do texto mencionam a numeração de Bekker é a forma mais padrão de citar os textos, e, de fato, tem sido a única usada por comentários e teses diversas sobre os autores do período. Eu vou seguir lendo o texto de H. S. Butcher (link da quarta edição, idêntica à terceira), apresentando uma interpretação vernácula para quem não puder o inglês e partir comentando daí; a escolha do texto de Butcher foi não apenas porque está em domínio público e todos podem seguir comigo, mas porque comparada com paráfrases como a de Bywalter ou a da edição da Loeb, que acrescentam muitas partes explicativas ao próprio texto, ou as portuguesas que conheço (que, me parecem, apresentam problemas particulares), essa me parece mais “funcionalmente” colada ao original em construção, de modo que dentre as traduções livremente disponíveis é a que melhor serve aos propósitos de um comentário assim.

Para comentários textuais e a história do texto e transmissão de Aristóteles, o interessado deve ler “Aristotle Poetics: Editio Maior of the Greek Text with Historical Introductions and Philological Commentaries” de Leonardo Tarán, e quando houver alguma menção aos problemas textuais a recomendação é partir para lá. Eu aqui vou fazer referências repetidas ao comentário de Bywalter, "Aristotle, on the Art of Poetry. A Revised Text, with Critical Introduction, Translation and Notes" (“the best so far” para Tarán, “the most important” para Nagy), e garanto para quem duvidar que vou, exceto quando notado, lidar apenas com o que é mais unânime entre comentadores, seja antigos como Vincenzo Maggi (Madius) e Pietro Vettori (Victorius), seja modernos como Else (que é idiossincrático sob qualquer aspecto) ou Whalley. Por conta disso, vou me limitar na discussão específica da história e da poética, e me abster de peregrinar pelas discussões mais cabeludas e ambíguas, como por exemplo da percepção do filósofo a respeito da comédia (estaria Aristóteles sugerindo que a “comédia nova” [ou mais propriamente uma intermediária] é superior à de Aristófanes, como me parece? ou pior, a nova comédia evoluiu para um ponto que a tragédia nunca chegou, na época do autor, o que é razoável?), ou de quão “historicamente reais” seriam os eventos dos mitos, ou de qual é a relação sintático-semântica do nome e universal (é por causa da universalidade que a poesia põe nomes próprios aos personagens ou é universal a despeito de colocar nomes próprios, ou subsequentemente a ela coloca nomes nos personagens, ou qualquer outra coisa assim), e é a razão da minha omissão é o de não me perder num buraco negro cíclico das discussões interpretativas de várias das especificidades da obra, o que não é tarefa para um homem são. Se um leitor achar, dentro de uma das partes que omiti, há algo importante para a discussão que eu, em minha estupidez, ignorei, o leitor ao menos poderá trazer à mesa da próxima vez que for discutir e ler a poética, e pode se deleitar em rir de como eu fui um asno e deixei passar esse fato importante. Pois vamos ao Aristóteles, e francamente espero que o chá seja mais palatável.


1451a 36 - 1451b 7

Aliás, é evidente, por causa do que se disse, que não é a função do poeta relatar o que aconteceu, mas o que deve acontecer - o que é possível de acordo com a lei da probabilidade ou necessidade. A diferença entre o poeta e historiador não é entre escrever verso e prosa. A obra de Heródoto pode ser posta em verso, e ainda seria um tipo de história com metro tanto quanto sem. A verdadeira diferença é que um relata aquilo que aconteceu, o outro o que deve acontecer. Poesia, por isso e uma coisa mais filosófica e elevada que história: pois poesia tende a exprimir o universal, história o particular.
Um dos aspectos deprimentes da nossa comodidade em ler um texto desse com divisões de capítulos e tópicos e paráfrase interpretativa é que ele nos força a ter de explicar o óbvio. Como a "divisão" não existe realmente, a leitura deixa absolutamente claro que tudo o que é dito nesse "parágrafo" e daqui em diante não é uma teoria estética isolada, mas consequência do que foi dito antes. A formulação inicial não é uma daquelas casuais formulações de mudança de assunto por associação (ex.: já que falamos em tomar uma cerveja, onde fica o banheiro?), mas uma clara determinação de continuidade e qual assunto é subordinado a qual: "por causa disso que falamos antes que a poesia [...]", ou seja, toda a questão da função da poesia, o "possível" (como termo técnico) é consequência da formulação da unidade da narrativa, que predica a discussão. A arte é uma "unidade" (não há tempo, nem tenho competência, e nem existe uma resposta absoluta para isso), e tudo o que for dito é resultado dessa unidade, não uma formulação isolada. Isso só pode ser compreendido em relação à unidade da narrativa, porque é seu resultado lógico (φανερός, ou seja, "está na cara" para quem acabou de me ouvir).

O problema do óbvio é que, por ser óbvio, ninguém fala disso, e é muito fácil de se ignorar, ou, em linguagem vulgar, "passar batido". Else sabia disso, e lembrando que todo mundo sabia disso também, achou que as pessoas deveriam não só atestar o óbvio como discutir as implicações do fato, o que, os críticos em geral simplesmente não fazem. Os comentários mais recentes sabem disso, já que fica claro pela própria interpretação, mas, novamente, eles não mencionam ou desenvolvem as implicações do fato. E, novamente, por ser óbvio, "passar batido" pode ser grave e simplesmente não ser percebido, já que eu conheço ao menos um classicista importante (me parece ser o único, mas podem haver mais) que esqueceu esse fato, e isso afetou a sua leitura da obra: o próprio tradutor Samuel Butcher (Aristotle's theory of poetry and fine art, Capítulo III, p.163 et seq.), que considera uma passagem autônoma em que Aristóteles constitui a sua tese de verdade poética que determina a natureza da poesia em si, e não como resultado da unidade poética. O erro de continuidade e separação não justifica o nonsense da "falsificação da história defendida por Big. Ari.", já que a interpretação da passagem ainda é adequada em Butcher, que altera sua importância e o quê é consequência de quê apenas. Porque o tradutor sabe o que significa "provável" e o que "deve" acontecer.

Há uma questão tradutória profundamente relevante aqui: alguns tradutores falam em coisa que "pode" acontecer, outros em coisa que "deve" acontecer, e essa discrepância persiste ao menos em inglês, português e francês. Isso não deveria ser problema porque Aristóteles também explica o que significa "pode/deve acontecer", ou seja, o que é verdadeiro, a consequência natural baseada no que a ação deve gerar como resultado, de acordo com o que é mais necessário ou mais provável. "pode/deve" no seguinte sentido: "se eu, Raphael Soares, me atirar do sexto andar do meu prédio diretamente sobre o cercado do térreo eu posso/devo morrer". As duas construções estão corretas, e têm o mesmo sentido. De fato, é possível que eu sobreviva, e embora é bem difícil de calcular as probabilidades, e "a História" registra de fato ao menos um caso de alguém que cai em queda similar (Avery Shawler, de abismo na mesma altura e caindo sobre uma bicicleta de massa similar ao cercado do térreo), embora não seja um caso de alguém que se atira. A arte não tem a função de relatar o que aconteceu, o indivíduo Avery Shawler que caiu num abismo de 18 metros em cima de sua bicicleta e sobreviveu, mas tem a função (dever?) de relatar o que "pode/deve" acontecer: se eu me jogo do sexto andar eu morro (e, obviamente, antes disso que evento me fez tomar essa ação, já que isso decorre da unidade da narrativa). Que alguém pode ler, em uma tradução brasileira, "o que pode acontecer" e interpretar como "todas as possibilidades, todo o reino do possível, tudo o que pode acontecer" é compreensível, o que não é compreensível é que alguém entenda "o mais provável e o necessário" como confirmando essa primeira leitura; que um tradutor português como Ana Maria Valente ou um brasileiro como "seja lá quem fez a coleção Os Pensadores" traduza como "princípio da verossimilhança" me parece simplesmente perverso. Que ἔοικα pode significar "parecido" ou "similar" é uma coisa, mas εἰκός só pode significar "provável". Aqui não é dizer algo que pareça verdade, mas de que é mais provável ser verdadeiro, e o sentido aqui não é nem discutido. Quando se diz "aquilo que pode acontecer de acordo com o princípio da verossimilhança" se diz algo bem distinto. Independente de uma eventual tradução como essa, em que a palavra do autor não importa, o sentido ainda deve ser tomado globalmente, e o fato de que dois portugueses resolvem inserir um "verossímil" anacronisticamente aqui, isso ainda não autoriza a interpretação moderna de verossimilhança ou de todas as probabilidades, porque, como veremos, o autor deixa completamente claro em 1451b 29-32 que há eventos que realmente aconteceram (eventos históricos) e que não são "verossímeis", ou seja, que não devem ser objetos da poesia (além do mais, os cânones da História Clássica não obriga que o historiador diga exatamente o que aconteceu, mas aquilo que parece ser razoavelmente aceitável como verdade... contudo, o leitor fundamentalista tem um ponto aqui: talvez seja assumir demais que alguém que fale sobre algo, i.e. Aristóteles sobre a história, necessariamente fez o dever de casa e sabe do que está falando... filólogos em geral não seguem essa linha, mas eu admito que o fundamentalista tem um ponto aqui); se o leitor não consegue dar um sentido para esse problema, ou não perceber que ele existe, ele não pode acusar a tradução e dizer que foi enganado por um "princípio da verossimilhança" que grassou entre traduções de língua portuguesa. O autor então fala, "claramente" que [por causa disso, novamente, sucessão de ideias] a literatura é universal enquanto a história particular. Como temos as nossas próprias ideias do que é universal, simplesmente paramos a leitura e citação aqui, e não temos paciência para ouvir o que Aristóteles tem a nos dizer a respeito disso. Porém antes do próximo "parágrafo" gostaria de apontar mais um fato e apresentar duas questões de leitura paralela que ao menos devem ser consideradas.

Como foi dito, tudo o que aparece a partir da primeira linha diz respeito à unidade poética, e o que deve/pode acontecer não apenas está sujeito às leis da probabilidade ou necessidade, mas também às "leis" da unidade Artística. Na mesma página, algumas linhas antes, o próprio Aristóteles dá exemplos, de outras coisas que ocorreram a Odisseu (na esfera do mito), mas que não aparecem na sua obra por causa das leis da unidade (há, isso é mais engraçado do que parece). O segundo ponto é que, embora eu seja moderno e concorde em abstrato com a afirmação de que a poesia não está necessariamente no "verso", aqui é muito importante compreender o que seria "pôr Hesíodo em verso não é poesia", e isso é muito relevante porque muito da poesia que não existia na época de Aristóteles é exatamente pôr obras de prosa em verso e ainda assim ser poesia, assim são as obras de Arato (que nasceu pouco depois de Aristóteles morrer), assim é Manílio, assim é grande parte da poesia tardo-antiga cristã das poetizações do Evangelho e das "Vita" dos santos; é, portanto, razoável ver como e porque esse texto foi usado pelos Humanistas e aqueles que os sucederam para condenar a narrativa poética em verso, mas para o crítico fundamentalista, que quer aplicar a verdade aristotélica para o fim dos tempos, uma dificuldade deve ser reconhecida e não pode ser ignorada: se Aristóteles está certo aqui em que uma "versificação" de uma "História" ainda é história versificada e não poesia, Aristóteles diz com todas as letras que Carmen paschale de Sedúlio e De vita Martini de Venâncio Fortunato, e se o fundamentalista pode se dizer no direito de que Aristóteles está certo ainda assim, eu certamente troco o filósofo grego pelos poetas latinos, pois ele não tem o direito de dizer que De vita não é poesia.

Por fim, vou apontar uma provocação curiosa do Else, que acrescenta ao que foi dito, e pode muito bem ser no que Aristóteles pensou. Para Else, Aristóteles está aqui alertando especificamente autores contemporâneos que tem tentado o modo da história, e ele realmente fala drasticamente mal dos autores "episódicos" e daqueles que escrevem Heracleidas e Thebaidas que enumeram e coligem narrativas, que é o modo da história. Novamente, isso não é agradável para os fundamentalistas, mas considerando as críticas severas anteriores que Aristóteles faz a essas narrativas é bem possível que ele tenha tido autores desse tipo em mente (embora, ao meu ver, a tese de Else se enfraquece e não se fortalece com a "historicidade", não no sentido do fundamentalista, do mito), e ele esteja aqui alertando para que poetas não sigam o mesmo caminho da "história" (não do fato, como veremos, mas dos deveres da história, e ignorando os deveres da poesia). Tudo isso, como vemos, tem o cerne na questão da unidade, mas agora a questão da "universalidade", que é a minha "favorita".


1451b 8-11
Por universal eu digo como uma pessoa, de determinado caráter/personalidade, irá falar ou agir em uma ocasião, de acordo com a lei da probabilidade ou necessidade; e é esta universalidade [a que a poesia visa nos nomes que coloca para os personagens]. O particular é - por exemplo - o que Alcibíades fez ou sofreu.
Para todo leitor atencioso um alerta deve ser acionado toda vez que uma passagem é sempre mencionada e sempre "cortada" exatamente na fração de segundo em que o autor vai dar um exemplo concreto. Todas as vezes que alguém resolve citar a passagem de Aristótles, quem faz a citação convenientemente elimina o exemplo concreto. O texto do fundamentalista sempre termina com "a literatura é universal e a história particular", e nunca após o autor dizer exatamente o que ele quer dizer, com exemplos, o que consiste a o universal e o particular. O leitor atencioso deveria se perguntar porque não terminam a citação após o exemplo, e antes de o autor fazer o parêntese sobre a comédia.

Antes de mais nada, eu não vou comentar, como disse, a respeito da relação entre a universalidade e o nome dos personagens. Há uma discussão infinita a esse respeito mesmo supondo que o texto grego esteja correto, e a discussão vai mais longa se não estiver. Por hora, a única coisa que se pode oferecer é que a universalidade tem relação com os nomes dos personagens mas isso não é claro como ou mesmo se é uma positiva (embora ninguém tenha me perguntado, a mim parece que Aristóteles diz que os nomes da comédia mais contemporânea, mais abstratos e gerais, são mais apropriados para o universal, e por isso "já é aparente na comédia", enquanto na comédia antiga a tendência pela retenção de nomes familiares e referenciais é a razão porque não é aparente na tragédia... aqui, me parece, o filósofo defende a completa separação até mesmo no nível referencial da história... contudo, não é uma leitura unânime, e é textualmente complicada e sua confirmação depende de um conhecimento de grego que eu não tenho e sob o qual dependo dos outros). O que eu devo mencionar é que aqui há uma clara repetição, que tem função, e que ao menos uma versão brasileira não respeita, e essa repetição é importante porque referencia novamente para o "universal" da poesia que fala o que "pode/deve" acontecer: "κατὰ τὸ εἰκὸς ἢ τὸ ἀναγκαῖον" (lei da probabilidade ou necessidade). Ele está repetindo e desenvolvendo o que disse, dentro do contexto da unidade: o dever da poesia (decorrente da necessidade da unidade) é falar daquilo que "deve/pode", ou seja, como um personagem X, de tendência Y age ou se comporta em situação Z [gerando resultado W] dentro da "lei da probabilidade ou necessidade". Um homem arrogante, achando que pode fazer feitos que o humano não pode fazer age em direção a esse feito que não consegue e resulta em sua queda, por exemplo, é algo que "pode/deve" ocorrer, com base nesse personagem, de tal caráter, que age de tal modo e o resultado é a consequência esperada por tal ação. Isso é o que a poesia, segundo Aristóteles, deve dizer, é seu dever e onde reside sua glória e superioridade. Isso é o universal para o autor. O particular, como o mesmo diz "é o que Alcibíades disse e fez".

É fácil entender porque o crítico moderno omite a citação. A literatura pós-romântica é notoriamente "individual", ou seja, baseada nesses acidentes do destino, do excepcional, do limite da probabilidade e do blatantemente absurdo, e desenvolvemos nossas próprias ideias de universal e local, então é desinteressante um Aristóteles que defende que o "universal" é o que é comum à normalidade do homem, que para nós é o ordinário e o desinteressante. Porém Aristóteles era um filósofo grego, do IV século A. C., não um cético pós-romântico. Dentro do contexto histórico e literário em que ele se inseria tanto as descrições como prescrições fazem sentido, e parecem combater tendências específicas também. A linha, contudo, não pode nem mesmo com truques Jedi da mente assumir outro sentido, então é cortada. Nem mesmo as leis da "verossimilhança" alteram o que está escrito porque o exemplo é muito claro, e remete diretamente à unidade. Contudo, Aristóteles não termina com o exemplo do universal, mas do individual.

Aqui eu vou ter de, lastimavelmente, abrir uma exceção à leitura do consenso. Não porque não há consenso, mas por que falta leitura. Também não é porque a linguagem é obscura, mas porque é direta mas nós, modernos, não entendemos o que deveria ser óbvio para o público original, então temos de tentar recriar isso, e há diversos problemas. O texto aqui não pode ser mais claro: "O particular é - por exemplo - o que Alcibíades fez ou sofreu", e não há outro jeito de entender ou construir isso com um sentido ligeiramente distinto, já que o que é dito é: o individual/particular significa (um exemplo do que é iconicamente particular) a "história" de Alcibíades, o que ele fez e o que aconteceu com ele. Quanto ao fato de que há pouca leitura, eu devo dizer que dentre os críticos há três grupos: os que simplesmente não comentam a passagem (mesmo Bywalter, “the best so far”), o que são a grande maioria, aqueles que glosam Alcibíades como político Ateniense (o que pode ser um serviço ou grande desserviço), e os raríssimos que tentam explicar a razão de Alcibíades ser mencionado aqui, e quase todas as interpretações são distintas, embora não necessariamente opostas ou concordantes. Portanto, o que vem a seguir, diferentemente do resto da leitura, não é o consenso dos filólogos e comentaristas, e aqui eu terei de me envolver na polêmica e apresentar uma leitura que me parece correta; mais que isso, ao menos da forma como apresento eu não a vi sendo apresentada em nenhum lugar, embora não clamo inventar ela: de fato é basicamente a mesma leitura da poética que outros filólogos chegaram, particularmente por causa da próxima passagem, mais explícita, e eu simplesmente acredito que o exemplo do "que Alcibíades fez ou sofreu" exatamente por isso mesmo... Depois disso apresento a leitura de Else que complementa a minha.

Novamente, considerando o contexto de produção e contexto interno da passagem o que o escritor quer dizer deve ser muito claro. De um lado a representação dos fatos (como veremos depois, mesmo dos que não são possíveis), do outro uma verdade mais elevada, o que "deve ocorrer de acordo com a lei da probabilidade e necessidade". Se o universal é o abstrato comum a todos os humanos e a verdade mais provável dentro da sequência de ação e consequência, o individual é o caso mais excepcional, irracional e "não possível" que "realmente aconteceu". Se "que deve/pode acontecer" é eu me jogar do sexto andar e "devo/posso" morrer e o histórico é Shawler (universal x individual), então um homem vão, envolvido na política, deve/pode cair e compreender seus erros, e isso é o universal, enquanto o individual é Alcibíades.

Isso parece divagar, mas não é. Alcibíades é Alcibíades, e isso, surpreendentemente é o bastante, e aqui, para mim, está a chave e, aquilo que o fundamentalista detesta. Sejamos francos e diretos, Alcibíades é o maior clusterfuck absurdo da antiguidade, e consideramos que tivemos lendas sobre Calígula isso parece até brincadeira, mas não é. O grande problema a respeito da História de Alcibíades (i.e.: o que ele disse e fez) é que ela não faz o menor sentido, e honestamente se você não sabe do que se trata eu recomendo muito que dê uma parada e vá descobrir, porque vale a pena. Ele foi um político extremamente arrogante, ambicioso, ocasionalmente estúpido (mas com uma aura que fazia todo mundo ficar idiota junto dele, o que surpreendia até mesmo os gregos... mas sabemos que provavelmente era porque ele devia ser "gato" demais para os padrões da época), que atentava contra os próprios interesses e nada dentro da história dele faz o menor sentido, e ainda assim ele foi uma das figuras que mais alterou o sentido da Grécia no Período em que viveu. A despeito de todos os seus feitos horríveis ou absurdos, ele nunca sofreu consequência alguma pelos seus atos (ok, exceto aquela vez que ele dormiu com a Rainha de Esparta, mas isso foi um caso raro), e ao mesmo tempo foi, ironicamente, punido de modo severo por atos que ele não fez (foi condenado à morte por uma conspiração contra seu próprio interesse, de que ele quase certamente não participou, e foi exilado por um ataque que outrem ordenou... aqui é difícil saber qual versão dos "atos" Aristóteles conhecia, mas mesmo se Alcibíades cometeu tais atos o próprio ato é irracional o bastante para não fazer sentido). Ele é a epítome do individual ou não universal porque é único. Ninguém é como Alcibíades, ninguém tem algo em comum com ele, a história dele não faz nenhum sentido, mas o que ele disse, fez e o que aconteceu com ele é domínio da história, o caso "extremo" do domínio que é só histórico e não é digno da poesia. A poesia apresenta a verdade, o que deve e é mais provável de acontecer em tal circunstância, e que é comum aos homens. À história cabe Alcibíades.

Eis o porque ninguém termina a "verdade" do Senhor Ari. mencionando seus exemplos. Nenhum autor moderno, em sã consciência, defenderia que o natural e consequente é o DEVER da literatura enquanto a mesma não deve falar desses casos estúpidos, absurdos e idiossincráticos, pois os mesmos são o "particular". Mas é exatamente isso o que está dito. O quão específico você interpreta a correlação "feitos de Alcibíades" = "particular" está em cheque, mas como a primeira parte é inequívoca e a segunda é especificamente o domínio da história, é esse o sentido mais óbvio. Além do mais, novamente, Aristóteles foi um escritor grego, não um pós-romântico inglês ou simbolista francês, e muitas de suas ideias, mesmo que parcialmente distorcidas ainda eram vistas de forma clara pelos escritores antigos... Um exemplo injusto mas que acho instrutivo é a polêmica de Machado com Eça, e que fique claro, o contexto é completamente diferente, mas como uma noção de unidade da parte de um e de outro são diferentes, e como isso diferentemente se executa na prática: Machado criticou Eça especificamente porque em "O Primo Basílio" toda a trama (para o crítico) decorreu de um acidente, a descoberta da carta pela criada, e sem o acidente (sem carta), não tinha trama... Critico o Machado pela mesma razão que critico Aristóteles, mas o como ele resolveu desenvolver essa unidade de caráter em sua própria obra é que é o surpreendente, já que em Memórias Póstumas há uma carta (ou seja, o acidente), mas ela não perturba a trama (ou seja, o que se espera dos personagens). Independente do resultado, a ideia não é comunicativa para nós, e o mesmo pode se dizer dos princípios estéticos renascentistas, e ainda mais dos gregos. Quando vemos os textos gregos (que conhecemos) a que Aristótles tinha acesso, suplementado pelos que ele conhecia e que não conhecemos, essa posição (mesmo que não concordemos com ela) é sensível. O fundamentalista não quer o sensível ou o que o filósofo pensou, quer uma autoridade para suas ideias, e não é por menos que a passagem é omitida.

Else, contudo, apresenta uma complicação extra, que é que, segundo ele o personagem Alcibíades era usado frequentemente na comédia (referências dentro da obra), e, pior ainda, as pessoas começavam a não só achar que a figura dele era "Razoável" como "simpatizavam" com essa figura absurda (polêmicas em relação ao coringa do Phoenix e sua possível perversão moral são mera coincidência), e mesmo um filólogo Alemão, Bruns, afirma (em um assunto não relacionado) que a figura de Alcibíades parecia se tornar parcialmente-reabilitada. O ponto, e novamente, é a unanimidade, é que o particular é algo que Alcibíades representa particularmente "individual", e esse individual não só não é a obrigação da literatura, como a literatura não deve falar desse individual. É por isso que a obra foi tão popular para condenar a literatura pia, botânica, ou histórica medieval, mas é óbvio também que ela, se condena as mesmas, não autoriza a individual e libertina estética pós romântica.

Críticos podem compreender isso, e entender o contexto e o texto, mas nenhum literato moderno vai defender algo como "a literatura só pode falar dos tipos prováveis", e que esses indivíduos bizarros e aleatórios são algo que a história deve comentar, e algo que cabe a ela apenas... Para mim, nenhum homem grego merece mais ficção do que Alcibíades (e muitos modernos concordam comigo a despeito de Aristóteles, não por que sou melhor que o autor grego, mas porque somos todos modernos), o fundamentalista (que, ironicamente, também concorda e usa Aristóteles para justificar um assassinato histórico ou uma excentricidade individual) finge que Aristóteles não disse isso e volta para a página anterior.

Ainda há, obviamente, um elefante na sala. Do modo como isso tem se apresentado, e como o próprio Aristóteles diz, de um lado temos a história real, que é dever da história, e do outro a invenção baseada na tradição ou mito que fala das coisas que "devem/podem" acontecer baseada nas leis já tratadas. A pergunta que fica é, mas e no caso da obra poética que TAMBÉM trata de fatos históricos? Aristóteles supõe que isso não é possível? Ou está dizendo que tudo é possível porque não é real? O autor, percebe muito bem que o que ele disse 'implica' que "não é possível" a literatura histórica ou ela seria má literatura (como ele fala antes ou depois) ou "história em verso" como ele profetiza se tentarem, contudo, sabendo dessas implicações, e sabendo que existiam grandes obras trágicas "históricas" (Captura de Mileto por Phrynicus ou As Pérsias de Ésquilo... seria interessante conhecer a opinião específica), Aristóteles tem de falar desse caso como um elemento separado, e é isso que leva toda aquela baboseira de achar que a primeira parte justificava qualquer assassinato histórico... Leremos:


1451b 29-32
E mesmo se acontecer de [o poeta] tomar um assunto histórico, ele não é menos poeta; pois não há razão que diga que alguns eventos que realmente ocorreram não devam se conformar à lei do provável e possível, e na virtude dessa qualidade[/função/valor] que ele é o poeta ou criador deles [dos eventos].
 Aqui há um pecado de tradução que ocorre, aparentemente, também no Ingles, mas que no português e francês ocorre mais, e é nesse ponto que vem o título de que palavras importam. Independente de como você traduzir uma passagem ou outra, alguém pode te criticar ou não por isso, as palavras que escolhes são significativas. As duas passagens marcadas usam a mesma palavra, γενόμενα/γενομένων em diferentes funções, de modo que eu não vou nem discutir qual é a tradução correta (eventos históricos, fatos que realmente ocorreram, situações reais, coisas que aconteceram; etc.), mas a leitura deve ser coerente. Aqui há uma tentativa de poeticidade que predica uma tradução mais elegante, e elegante é menos repetição (a tradição inglesa, ao menos, exige uma cláusula de legibilidade, que tem suas vantagens e desvantagens), mas o fato é que não há atenção o bastante para a tradução de prosa, e acho que um ponto a se começar é especificamente em relação a repetições e não repetições. É bem frequente que expressões repetidas sejam substituídas (para evitar repetição) quando a repetição é significativa; por outro lado, não é raro usar o mesmo termo quando um original usa dois ou mais. Em alguns casos isso é linguístico e inescapável (termos de parentesco, por exemplo), mas em outros é deliberado. Eu entendo que alguém não queira repetir a mesma construção diversas vezes num texto, mas como em 1451b 8-11 o DEVER da história é relatar "aquilo que aconteceu", o poeta pode adotar o "acontecido/o fato que aconteceu" sem deixar de ser poeta, na medida em que "aquilo que aconteceu" (a mesma construção) não é necessariamente oposta à "verdade" poética.

Eu vou abrir uma exceção aqui, porque eu não acho que eu consigo explicar isso melhor que um aristotelista conservador do XIX. Acho que é o melhor modo de explicar isso, e se a pessoa ainda assim não entender eu tento o que posso, mas não sei se consigo melhor:

Até esse ponto, um poema tem sido assumido sempre ser um mito [mithos] uma história ficcional (veja 5. 1449b 9), ou inventada pelo próprio poeta (b12, b21) ou adaptada da lenda. Aristóteles, contudo, agora lembra que pode existir tal coisa como drama histórico, um em que incidentes são tirados da história real (genomena). Tais incidentes, ele explica, são assuntos legítimos para a poesia, se eles podem se exibir como prováveis e naturais, assim como acontecimentos reais.
A primeira coisa a se notar dessa passagem, que fecha todo o argumento é que, em um aspecto o fundamentalista está correto em que o "valor" do poeta não está no "fato" histórico, mas na "realidade" e "universalidade", mas todo o resto, inclusive na definição dos termos ele está errado. Segundo Aristóteles, o poeta pode usar "o que realmente aconteceu/a realidade histórica/ o fato histórico", mas os termos são os mesmos da obrigação histórica; na ficção ele só precisa falar do "universal" e do que "deve acontecer", mas quando ele usa "o que realmente ocorreu" ele tem o ônus histórico, e ele só pode usar na medida que alguns fatos históricos (i.e.: verdadeiros, ou "que realmente ocorreram") não são "possíveis"... É aquele aforismo paradoxal que o impossível pode acontecer, e o impossível acontece o tempo todo e é objeto da história. Para Aristóteles, o que importa é o "possível" (em termo técnico), e por isso o impossível fica de fora. Essa passagem, novamente, concorda, de que alguns eventos históricos são passíveis de boas obras (e Aristóteles tem bons exemplos, mas temo que só prova que o que "é verdade" para Aristóteles é racismo para a sociedade moderna), e que algumas não são "possíveis", como a de Alcibíades, e é matéria para a história. Ninguém hoje em dia concorda com esses preceitos, mas dentro dos conceitos da unidade isso é uma estética consistente e sabemos a dificuldade sobre as quais o autor teve de trabalhar. O fato é que, aqui, o poeta que usa a história deve ser tão correto com os fatos, como também deve ser criador. É uma situação complicada, que não prevê o anacronismo deliberado e intencionado (mal-intencionado, diriam alguns) de Virgílio, ou a reformulação de prosa em verso, ou o centão, ou a poesia romântica, ou o individualismo moderno. Aristóteles não justifica o teu nonsense e absurdo, então aos bons poetas o que resta é levantar com os próprios pés e construir sua obra, época, público e críticos...

domingo, 10 de maio de 2020

Catullus CXV

Catullus - CXV.

Mentula habet uester triginta iugera prati,
quadraginta arui; cetera sunt uaria.
cur non diuitiis Croesum superare potis sit,
uno qui in saltu tot bona possideat,
prata, arua, ingentes siluas latasque paludes
usque ad Hyperboreos et mare ad Oceanum?
omnia magna haec sunt tamen ipsest maximus †ultor,
non homo, sed uere mentula magna minax.




Catulo - CXV.

Vosso Caralho trinta campos tem de área fértil,
quarenta cultivados; o resto é ábsono.
Pois não superaria de Croesos os bens?
que não reténs incríveis bens numa herdade?
terras, campos, enormes bosques e amplos pauis
que alcançam o Oceano e os Hiperbóreos?
tudo isso é incrível; mas, †decerto, ele é o maior,
não homem, mas um grande e vil caralho.
Trad: Raphael Soares

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Ammianus Marcellinus - Fragmento de Rerum Gestarum

Ser um historiador na antiguidade não é tarefa fácil. O trabalho era difícil, e a posteridade tende a ser estremamente injusta com tais autores. Para muitos, ser imortal significa ser citado por algum autor que sobreviveu à modernidade, ou ser meramente considerado "fonte primária" quando nos falta algo melhor. Dentre os gregos, Tulcídides é tido como o pai da História entre os gregos, e entre os romanos a figura gigantesca de Tito Lívio (que foi gigante demais para o próprio bem, e para o nosso) e a imortalidade perene de Tácito, talvez o melhor escritor de prosa latina desde Cícero, todos os outros historiadores parecem uma sombra fraca. Suetônio, o mais famosos historiador romano, foi descrito por Cony nos termos "como escritor, pertence ao imenso escalão que forma o grosso de qualquer literatura" e cuja sobrevivência ele descreve como "enquanto houver cultura ocidental [-] Suetônio terá sua sobrevivência histórica e literária garantida, não tanto pelos próprios méritos, mas pelo volume de informações que nos legou sobre alguns dos homens mais importantes de uma era realmente importante"; Cony, não sendo um classicista, está sendo bem generoso aqui.

Ammianus é um caso diferente. Primeiro que, escrevendo no IV século, ninguém espera muito de tais escritores, e talvez por essa mesma razão eles nos surpreendem. Do mesmo jeito que Ausônio, que em meio a muita vulgaridade consegue ser incrível (como em Mosella) mesmo quando não tem ideia do porquê (cf. cartas para Paulino de Nola), Amiano deve garantir sua imortalidade pelo seus escritos mais que pelas próprias informações nele contidas, e, diferentemente de Ausônio, não significa que suas informações sejam irrelevantes tampouco. Como professou Ernst Stein, "Amiano é o maior gênio literário que o mundo produziu entre Tácito e Dante", e a despeito do exagero hiperbólico (há muitos grandes autores e obras entre o período; de pronto citaria Venâncio Fortunato na poesia e Gregório Magno e Agostinho na prosa) deve ser bem considerado, particularmente pela situação linguística particular do autor.

Amiano não era um falante nativo do latim, e isso é mais curioso do que aparenta a primeira vista. Numa época em que os escritores latinos faziam questão de escrever em grego, Amiano, que era grego, preferiu escrever em latim, uma língua que sequer dominava, aparentemente porque queria ser o "historiador romano depois de Tácito". Por servir no exército, o autor devia ser fluente no latim vulgar falado no exército na região do mediterrâneo, que era uma língua completamente diferente não apenas da escrita latina, como não usada pelo próprio exército para a comunicação (os documentos existentes do período são escritos em grego). O resultado foi uma artificialidade deliberada, apenas muito ligeiramente "contaminada" (não uso o termo no sentido negativo) pelo grego nativo e o vulgar falado que compôs o estilo do poeta. Mesmo um zero à esquerda de uma sequência de zeros no latim, que sou eu, consegue perceber o quão deliberado e elegante é o latim do poeta, e eu tentei manter esse ritmo e artificialidade poética na minha tradução. A conclusão é que eu falhei miseravelmente, e desisti de tentar traduzir a prosa latina também...

*
Mas se falho no estilo, ainda temos o texto. Amiano fala aqui de uma praga que assolou os já terríveis males de uma campanha militar. Não foi o primeiro caso em que o Marcellinus comentou sobre uma grande praga, já que a Praga de Antonino é parte de sua história, porém esta se perdeu e só é recontada por comentaristas posteriores. O que me interessou nessa notícia, é que, a despeito de uma época de ampla superstição e disputas entre crenças e ideologias, o autor demonstra uma excepcional sobriedade de julgamento. Muito do que ele nos fala sobre a doença e sobre doenças em geral pode parecer datada, errada ou ridiculamente expeculativa, mas ele soube, na medida de suas capacidades, com base em todas as fontes e comentários que tinha a sua disposição (que nem sequer eram muitos), construir o melhor panorama e a representação mais "correta" das causas que era possível para um homem da sua época. Ele tomou as palavras dos "especialistas" do período ao invés das "opiniões" e "superstições", e aplicou a elas um senso comum que, para qualquer estudioso da antiguidade, parece notável. Hoje em dia, com todo o desenvolvimento científico e facilidade de informação, julgar entre o senso e o nonsense deveria ser tarefa fácil, porém o tempo nos mostrou que, por mais que zombemos da "ignorância" dos antigos, eles operavam muito melhor com o que eles tinham do que nós com o que temos.



Ammianus Marcellinus - Rerum Gestarum XIX. 4

1. Sed in ciuitate, ubi sparsorum per uias cadauerum multitudo humandi officia superaret, pestilentia tot malis accessit, uerminantium corporum lue tabifica, uaporatis aestibus uarioque plebis languore nutrita. quae genera morborum unde oriri solent breuiter explicabo.
2. Nimietatem frigoris aut caloris, uel umoris aut siccitatis, pestilentias gignere philosophi et illustres medici tradiderunt. unde accolentes loca palustria uel umecta, tusses et oculares casus et similia perferunt, contra confines caloribus, tempore febrium aresc[unt frequ]entis¹. sed quanto ignis materies ceteris est efficacior, tanto ad perimendum celerior siccitas.
3. hinc cum decennali bello Graecia desudaret, ne peregrinus poenas dissociati regalis matrimonii lucraretur, huius modi grassante pernicie, telis apollinis periere conplures (qui sol aestimatur).
4. atque ut Thucydides exponit, clades illa quae in Peloponnesiaci belli principiis, Athenienses acerbo genere morbi uexauit, ab usque feruenti Aethiopiae plaga laulatum proserpens, Atticam occupauit.
5. aliis placet, auras (ut solent) aquasque uitiatas faetore cadauerum, uel similibus, salubritatis uiolare maximam partem, uel certe aeris permutationem subitam aegritudines parere leuiores.
6. adfirmant etiam aliqui, terrarum halitu densiore crassatum aera, emittendis corporis spiraminibus resistentem, necare non nullos, qua causa animalia praeter homines cetera iugiter prona, Homero auctore, et experimentis deinceps multis, cum talis incesserit labes, ante nouimus interire.
7. et prima species luis pandemos appelatur, quae efficit in aridioribus locis agentes, caloribus crebis interpellari, secunda epidemos, quae tempore ingruens, acies hebetat luminum, et concitat periculosos umores, tertia loemodes, quae itidem temporaria est, sed uolucri uelocitate letabilis.
8. Hac exitiali peste quassatis, paucis intemperantia aestuum consumptis, quos multitudo augebat, tandem nocte quae diem consecuta est decimun, exiguis imbribus disiecto concreto spiritu et crassato, sospitas retenta est corporum firma.



Amiano Marcelino - Rerum Gestarum XIX. 4

1. Mas na cidade, em que (esparsas pelas ruas) a quantidade de cadáveres era demais para se permitir enterro, uma praga aos males se acrescentou, infecção decadente dos corpos verminosos, o calor vaporoso e os variáveis langores que população nutria. Qual a gênese da doença em emergência brevemente explico.
2. Excesso de frio ou então calor, ou umidade, ou secura, pragas produzem, disseram médicos e filósofos ilustres. A partir daí aqueles que se avizinham a pântanos ou umidade sofrem de tosses e problemas nos olhos, e similares, enquanto aqueles nas proximidades de climas quentes desidratam pela constante¹ febre. Mas tanto quanto a matéria ígnea é mais eficaz que os outros elementos, o calor é mais rápido para matar.
3. Assim, quando a Grécia suava em guerra decenária, para que aquele estrangeiro não fugisse à pena por se aproveitar do matrimônio régio, praga assim grassou, e muitos pereceram pelos dardos de Apolo (reconhecido como o sol).
4. Assim como Tulcídides mostrou, desastre assim, que no princípio da guerra do Peloponeso vexou os atenienses com extremada doença, que se espalhou das ferventes plagas da Etiópia até ocupar as Áticas.
5. Outros creem que o ar (como é comum) e as águas, quando poluídas pelo fedor dos corpos ou coisa similar, sua integridade é violada em grande parte, ou ao menos tal mudança súbita provoca leves aflições.
6. Afirmam também alguns, quando pelo denso hálito da terra o ar se faz pesado, emitem exalações que devem ser repelidas pelo corpo, que não são sem risco de morte, que constantemente tende aos animais (antes dos homens), garante Homero, e de acordo com a experiência de muitos outros que o sucederam, matar primeiro por olhar para o chão.
7. E o primeiro tipo é chamado pandemus, que faz com que aqueles que vivem em lugares áridos serem impelidos por constantes febres; o segundo epidemus, que invade na estação apropriada, enfraquecendo a visão e deixando fluir perigosas águas; terceira loemodes, que também vem com o tempo, mas letal com velocidade alada.
8. Enfraquecidos por essa peste mortal, uns poucos consumidos pelo calor intemperado, que ampliado pela enorme multidão, finalmente, na noite que sucedeu a décima manhã, os duro e denso ar foi destruído pela exígua chuva, a saúde firme do corpo é recuperada.

Trad: Raphael Soares



Notas
1 - O texto parece incompleto pelo ritmo e estilo do autor, e os manuscritos apresentam arescunt [G] e arescentes [V], com marca de lacuna. Novák lê arescent assim como V pressupondo uma lacuna, enquanto Heraeus propõe aresc[unt frequ]entes, que sigo porque parece explicar melhor as duas variações, assumindo que arescunt é uma lição independente, de M, e não conjectura de Gelenius. Se as duas lições forem independentes, eu confio no julgamento de Heraeus, que provou sua brilhante intuição em Marcial X 14 (ou 13) 1 "cathedrata litos" (para cathedratalios, cathedeas alius, cotathedratos). A lição de G parece boa em matéria de sentido (embora qualquer um declamando alto sente falta de 'algo'), mas mesmo ela fazendo sentido uma lição só pode ser aceita se explicar a que não faz. O texto de V é insuficiente, porém arescunt parece muito mais correção ou erro de arescentes que o oposto (ao menos em minúscula; se o s viesse da próxima palavra ambas as mudanças seriam igualmente prováveis, mas não é o caso). Heraeus explica a conjectura pela construção seguinte "caloribus crebis interpellari" (impelidos por constantes febres), que deixa claro o sentido de frequentes aqui, e mostra sua adequação em relação à medicina da época. Contudo ele não explica a variante, então o faço aqui. Se o texto original lia-se "arescunt frequentes", como acredito que era, um copista copiou arescentes em seu texto e outro fez uma correção marginal somente da primeira palavra, o que é muito comum, anotando unt como correção ao topo ou nas margens; o texto de M deveria ser arescentes como V, porém Gelenius tomou apenas a variante que tinha o sentido mais autossuficiente (a correção unt), de modo que as duas lições são legítimas; nada disso é muito estranho, e se adequa a hábitos muito comuns dos copistas, e constrói melhor estilo, ritmo e se adequa ao sentido que o próprio autor dava para o fenômeno.

Pandemus, epidemus e loemodes são tentadores de se traduzir etimologicamente, enquanto outros tem proposto "endêmico" para pandemus. Não acho que nenhuma delas é apropriada. Os três casos são casos de epidemia (i.e.: doenças infecciosas). Pandemus seria o que chamaríamos de epidemias locais, provocadas principalmente pelo ambiente, de modo que o termo endêmico é correto especificamente para zoonoses, porém eles sabiam e chamavam desse modo porque entendiam que era uma doença que "se originava" em um local mas podia passar de pessoa para pessoa (e os cadáveres contavam como "local", porque também exalavam o "fogo"), de modo que é uma epidemia local que pode se alastrar de pessoa para pessoa, por isso o "pan". Epidemus é doença de estação; não havia uma teoria de germes na época, e as causas reais eram desconhecidas, mas eles sabiam que elas apareciam ou aumentavam de acordo com a estação, como é o caso de Dengue e Malária. Loemodes são as doenças altamente infecciosas e fatais, que eram considerádas "de estação" mas não no sentido regular, mas no sentido histórico, no sentido de que de tempos em tempos, sempre uma grande epidemia surge e é ágil e fatal, como foi a Grande Influenza ou a Grande Epidemia de Cólera, como foi as pragas de Antonino e de Justiniano, como foi a Peste Negra e o Sudor Angelicus, como provavelmente será a Covid-19. Nenhum dos três termos tem correlação exata com o modo que chamamos doenças hoje.