quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

As traduções da Eneida de Virgílio, pt.II - Lima Leitão

O médico português Lima Leitão, entre 1818 e 1819, publicou, no Rio de Janeiro, uma boa amostragem das obras de Virgílio em 3 volumes, sendo o primeiro (de 1818) contendo As Bucólicas e as Geórgicas, e os outros dois volumes (de 1819) contendo os 12 cantos da Eneida. Foi, ao que eu saiba, a primeira vez que as Bucólicas e as Geórgicas foram publicadas em português, e a segunda ou terceira tradução da Eneida. Mesmo sendo uma edição publicada no Brasil e dedicado ao Brasil (com o gigantesco título de Monumento à Elevação da Colônia do Brazil a Reino e ao Estabelecimento do Tríplice Império Luso. As Obras de Públio Virgílio Maro Traduzidas em Verso Português, e Anotada Pelo Doutor Antônio José de Lima Leitão), trata-se de uma tradução portuguesa, feita por um médico e diplomata português que estivera no Brasil por esse período apenas de passagem. Esta tradução acabou tendo uma sorte ainda mais triste que a predecessora: não é lida, comentada, estudada e, ao que eu saiba, nunca sequer foi reeditada, e para os poucos que sabem de sua existência é uma mera curiosidade bibliográfica, por ser uma tradução que antecede a famosa versão de Odorico Mendes. Há muito o que se poderia aprender com essa versão se tivéssemos mais atenção a olhá-la.

Há muitas coisas marcantes na tradução de Lima Leitão, e a primeira delas é em relação à sua gênese: o próprio tradutor afirma que saíra em 1816, mas que não pudera rever pessoalmente a impressão e estaria cheia de erros (não consegui localizar essa publicação; talvez esteja permanentemente perdida) e faltaria a revisão que deixaria ela em seu estado final, que ainda não seria atingido com a publicação de 1819. Segundo Lima Leitão, seu primeiro pensamento como tradutor seria que "o tradutor poeta devia sacrificar a harmonia à concisão", mas que durante o período entre 1816 a 1818 em que trabalhou na sua versão da Eneida já pensava que as duas "deviam andar lado a lado", o que já dá para ter alguma ideia das diferenças entre as duas versões. Em geral, a tradução de Lima Leitão é bem mais concisa que a de João Franco Barrento, porém um pouco maior que a versão de Odorico Mendes. Normalmente Lima Leitão mantém o mesmo número de versos entre o texto latino e o português, e o decassílabo, porém quando necessário ele acrescenta alguns versos para evitar uma obscuridade excessiva que não esteja em harmonia com o texto original.

Para além da gênese dessa tradução, suas características intrínsecas levam o leitor imediatamente a se perguntar o porquê do descaso com essa edição. Uma reedição atualizada, profundamente corrigida e melhorada dessa tradução (à moda das sucessivas edições bíblicas sob o rótulo "Almeida") poderia se tornar uma das melhores edições disponíveis em língua portuguesa, se seus defeitos pudessem ser suplantados e suas qualidades (ímpares, ausentes em outras edições portuguesas) mantidas à risca. Em primeira instância vem o fato de que, aparentemente, essa é a única tradução de Virgílio que toma como base um texto crítico, ou ao menos é a única edição portuguesa em verso que anota as inúmeras variações (as variora) presentes no texto virgiliano, o que por si só é, ao meu ver, algo muito importante ao lidarmos com os textos clássicos, os quais muitos leitores sequer se dão conta dos inúmeros problemas textuais inerentes à obra e sua transmissão (e tradução). Mesmo não sendo exaustiva e profundamente crítica, esta tradução virgiliana apresenta "A Dedicatória da Eneida" e também é ela a única a apresentar o início alternativo da Eneida:
Ille ego, qui quondam gracili modulatus avena
Carmen et egressus silvis vicina coegi
Ut quamvis avido parerent arva colono,
Gratum opus agricolis: at nunc horrentia Martis.

Que traduz por:
Eu, que outr'hora cantei na avena humilde,
E, as florestas deixando, fiz sujeitas
Do ávido agrícola as vizinhas lavras,
Gratos presentes aos frugais colonos;
Do ríspido Mavorte hórridas hoje
Que põe ao início do poema principalmente por achar os versos "dignos de Virgílio", sem esquecer de lembrar a discussão textual a respeito da passagem, se obra virgiliana ou adição de um gramático tardio. Não apenas isso, as notas recorrentemente chamam atenção às variações textuais da Eneida, como de pontuação (nota 7, pg.17 do volume 2), relações textuais com outros textos da antiguidade (nota 1, pg. 21 do volume 2), bem como comparações entre as traduções, variora (embora poucos anotados) e as notas comuns explicando elementos da mitologia entre outros. Uma profunda revisão, correção e atualização, bem como uma ampliação das notas poderia gerar uma belíssima edição da Eneida.



Nos detendo mais às qualidades do texto em si, percebemos alguns de seus mais graves defeitos, defeitos (e/ou qualidades, dependendo do ponto de vista) que foram quase todos repetidos pelo próximo tradutor da Eneida: Odorico Mendes, de modo que é ainda mais difícil de entender o porquê da tradução de Lima Leitão ficar tão marginal em relação à de Odorico Mendes. Por um lado, é verdade que ela é poeticamente inferior se comparada com a versão de Barrento, Odorico ou de Carlos Alberto Nunes, mas a diferença não chega a ser tão gritante em toda a obra, e se a de Lima Leitão é desigual, também o é a de Odorico Mendes. As mesmas qualidades (e defeitos, de acordo com quem é o crítico) que se tem apontado nas versões de Odorico se encontram na de Lima Leitão, a saber: obscuridade decorrente da concisão do hexâmetro virgiliano em decassílabos (embora a de Lima Leitão seja um pouco menos concisa que a de Odorico), o abuso de latinismos (à moda de Camões, diga-se de passagem), a abundância de neologismos, extrema derivação (substantivos em verbo e vice-versa). Há, é claro, bastantes escolhas que parecem infelizes, em ambas as versões, mas em alguns momentos a tradução de Lima Leitão consegue aquele rompante de verdadeira poesia:
"Morramos, atiremo-nos às armas:
Só acha salvação quem é vencido
Se ousa, sem a esperar, morrer matando."
- Canto 2

No entanto Eneias vê n'um vale oculto
Selva apartada, arbustos sonorosos,
E o Letes, que pacíficos os banha.
Na serena estação tantas abelhas
Poisam nos prados por diversas flores,
E adejam circundando os brancos lírios;
C'o zumbido murmura o campo inteiro -
Canto 6
 mas em alguns momentos consegue ser bem sem graça:
"Escuta; serei breve. Eu, não te iludas,
Nunca a furto esperei abandonar-te,
Nem pretextei no amor visos de núpcias;
A tal fim me não trouxe aqui meu fado."
- Canto 3
e outras vezes soa bem como algo que Odorico Mendes faria:
"Pérfido, tu de Vênus não és filho,
Nem Dárdano é o autor da prole tua:
Gerou-te em dura penha o hórrido Cáucaso,
Mamaste o leite das Hyrcanas tigres [...]
Ai, tartáreo furor cala em meu peito!
Ora Apolo gríneo, e Lício orac'lo,
Ora o núncio dos Céus, que o mandou Jove
Pelas auras veloz é o duro império.
Digno empenho dos Árbitros do Globo!"
- Canto 3
 E por fim, posto a mesma passagem que postei no comentário à versão de João Franco Barrento (comentário e texto latino da passagem aqui), que é uma das minhas passagens favoritas da obra, já nos últimos momentos, quando a deusa Juno se dá por vencida.
Com vulto humilde assim responde a Deusa :
„ Apenas conheci de Jove as ordens
„ Constrangida deixei, e Turno, e a terra.
„ Se eu inda as ignorasse, entre estas nuvens
„ Não me viras sofrer ultrajes tantos:
„ Mas de flamas cercada entre as coortes
„ Havia eu sufocar Ilion em guerras.
„ Sim, eu confesso, persuado Juturna
„ De ao miserando irmão correr co'a espada;
„ Louvei sua alta audácia em dar-lhe a vida:
„ Não lhe induzi que usasse ou de arco, ou flechas:
„ Juro-o do Styx pela onda inexorável,
„ Juramento, que os Numes não quebrantam.
„ Eu já cedo, e enfastiada à guerra fujo.
„ Graça te rogo não sujeita ao fado,
„ A bem do Lácio, aos teus a bem da glória:
„ Feliz consórcio embora as pazes firme,
„ O pacto, e lei adune os povos ambos;
„ Mas não ordenes que do Lácio os filhos
„ Mudem de traje, ou língua sonorosa,
„ Ou tomem o atro nome de Troianos.
„ Seja no Lácio eterna a glória de Alba;
„ Com a Ausônia virtude a excelsa Roma
„ Faça admirar os Céus, dê leis ao Mundo:
„ Acabe Ilion, até seu nome acabe.
 Na versão de João Franco Barrento essa passagem não ganhou muito com o "embelezamento" típico da versão, e soa bem mais solene que talvez queira dizer o texto latino. A versão de Lima Leitão é bem mais direta, e nos mostra a resignação e o seu último pedido a Jove. É uma bela passagem, chocante, marcante, que numa versão mais concisa e harmônica consegue ser bem recuperada em sua força, por Lima Leitão. A passagem é ligeiramente maior que o texto latino original, mas não tão maior quanto a de João Barrento (que ultrapassa o dobro de versos). A versão de Odorico Mendes possui a mesma quantidade de versos do texto virgiliano, mantendo o decassílabo e perdendo bastante dos detalhes do diálogo, porém ganhando peso e força, fazendo uma Juno ainda mais agressiva do que é em sua batalha agora em resignação, principalmente na coda final, em que lança um severo: "herde Roma/O itálico valor, propague e brilhe:/Tróia acabou, também seu nome acabe.". Mas a versão de Odorico Mendes é conversa para o próximo episódio.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

As traduções da Eneida de Virgílio, pt.I - João Franco Barrento

As traduções de Eneida em português são várias. Em verso, ao que eu saiba, são 5: a primeira, de João Franco Barrento, em oitava rima camoniana; a de Lima Leitão, em decassílabos heróicos;a terceira feita por um estudioso que não lembro o nome e concluída pelo poeta português José Maria da Costa e Silva, que lastimavelmente não pude conferir; a de Odorico Mendes, a primeira feita por um brasileiro, também em decassílabos, com a curiosidade de possuir menos versos que o original virgiliano; e por fim a de Carlos Alberto Nunes, curiosamente em hexâmetros dactílicos extremamente regulares. Há ainda várias traduções em prosa, e uma clássica adaptação em prosa por João de Barros, e uma tradução por João Felix Pereira que não sei se é em prosa ou verso. Três dos tradutores da Eneida (da Costa e Silva, Odorico Mendes e Carlos Alberto Nunes) também traduziram a Ilíada e a Odisséia, mas como não lá muito conhecimento de grego não tenho competência para falar muito delas, e deixo tal tarefa para uma alma gentil e que não tenha uma visão muito fechada de tradução e Homero.

Em primeiro lugar, as cinco traduções que foram feitas da Eneida provam o quanto os falantes de língua portuguesa não se importam com o passado tradutório em sua língua. Em língua inglesa as traduções clássicas de Chapman, Golding, Dryden, Pope e muitos outros (lembrando a Eneida de Gavin Douglas, tão elogiada por Pound) são sempre lidas, comentadas ou ao menos estudadas, enquanto por aqui, a exceção da já clássica versão de Odorico Mendes, não se edita nem se estuda qualquer outra tradução do livro, e a tradução de João Franco Barrento, intitulada Eneida Portuguesa, é uma prova de que essa ignorância pode nos trazer muitas perdas.

Meu contato com a Eneida se deu a partir da leitura da tradução de Odorico Mendes, por uma antiga edição da Jackson, sem as notas do tradutor, que provavelmente enriqueceriam muita a minha primeira leitura. Só recentemente tive contato com a versão de João Franco Barrento, que parece ser a primeira integral em verso realizada em português. A primeira parte, contendo os seis primeiros cantos, foi impressa em 1664, e não sei quando foi impressa a segunda (minha edição é de 1763, e não creio que seja a editio princeps), que contém os últimos seis cantos. A principal curiosidade dessa versão é a espécie de influência inversa dos Lusíadas de Camões nela. Como todos sabem, a Eneida de Virgílio é um dos modelos mais basilares para a composição dos Lusíadas, e na versão do João Franco Barrento temos uma inversão disso: é Os Lusíadas que, aqui, tem uma influência decisiva para a composição dessa versão da Eneida.

Logo nos primeiros versos da Eneida de João Barrento percebemos o quão similar ao texto de Camões, independente das similaridades naturais entre as duas ("Arma virumque cano, [...] Italiam fato profugus Lavinisque venit/litora" lembra muito "As armas e os barões assinalados,/ que da ocidental praia Lusitana"). Compare o início desta Eneida

As armas, e o varão canto piedoso,
Que primeiro de Troia desterrado
A Italia trouxe o Fado poderoso,
Às praias de Lavino veio armado:
Aquelle, que no golfo tempestuoso,
Nas terras foi muito contrastado,
Da violência dos Deuses, e excessiva
[?]brada ira de Juno vingativa.

Com o início dos Lusíadas:

As armas, e os barões assinalados,
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram, ainda além da Taprobana,
Em perigos, e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana.
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram.

 A primeira semelhança (um pouco óbvia até) é formal: os dois são decassílabos em oitava rima, desde Camões sendo modelar ao gênero épico. Os paralelismos sintáticos são bem visíveis, ainda mais quando se lê um verso junto do outro e quando se compara com o texto latino de Virgílio ou se compara com uma das outras traduções:

Arma virumque cano, Troiae qui primus ab oris
Italiam fato profugus Laviniaque venit
litora - multum ille et terris iactatus et alto
vi superum, saevae memorem Iunonis ob iram, (Texto da Loeb Classical Library, sem muito aparato crítico :( )
Também rapidamente damos conta do preço que se paga por uma tradução da Eneida em oitava rima: a tradução é bem maior que o texto original de Virgílio, o que implica no fato de que bastante coisa foi acrescentada em todo o poema, algumas bastante felizes, outras nem tanto. Há entre os críticos e teóricos de tradução moderna uma preferência (ditada pelos cânones poéticos próprios da modernidade mais que da lógica crítica) pela concisão e menor quantidade de informação: é preferível que uma tradução omita vários versos ou elementos importantes, mas acrescentar palavras ao autor original, hoje, é uma grave heresia. Mudar a forma dos versos brancos latinos para a oitava rima camoniana poderiam ser uma blasfêmia hoje, mas não eram na época, e não deixou de compor uma das mais curiosas e interessantes obras traduzidas, ao lado de algumas do classissismo português.




Há na Eneida uma passagem que é, particularmente, a minha favorita: os versos 807-828 do último canto. Em latim:

sic dea submisso contra Saturnia voltu:
"Ista quidem quia nota mihi tua magne, voluntas,
Iuppiter, et turnum et terras invita reliqui:
nec tu me aeria solam nunc sede videres
digna indigna pati, sed flammis cincta sub ipsam
starem aciem traheremque inimica in proelia Teucros.
Iuturnam misero (faetor) succurrere fratri
suasi et pro vita maiora audere probavi,
non ut tela tamen, non ut contenderet arcum;
adiuro Stygii caput implacabile fontis,
una superstitio superis quae reddita divis.
et nunc cedo equidem pugnasque exosa relinquo.
illud te, nulla fati quod lege tenetur,
pro Latio obtestor, pro maiestate tuorum:
cum iam conubiis pacem felicibus, esto,
component, cum iam leges et foedera iungent,
ne vetus indigenas nomem nutare Latinos
neu Troas fiere iubeas Teucrosque vocari
aut vocem mutare viros aute vertere vestem,
sit Latinum, sint Albani per saecula reges,
sit Romana potens Itala virtute propago;
occidit, occideritque sinas cum nomine Troia." (Texto da Loeb Classical Library, outra vez)
 Nesse momento, Juno (a melhor das personagens da Ilíada, mais que Eneias, Dido ou qualquer outro) dá sua última palavra em relação aos conflitos na Itália, mesmo sendo um discurso de "derrota" (sua ira se aplaca e desiste de ajudar seus protegidos, sob ordem de Jove e apelo de Vênus) continua sendo impressionante e imponente, digno de Juno. Essa passagem será usada para comparar as diversas versões da Eneida, e tenho de afirmar que ela não ajuda muito a versão de João Franco Barrento: essa versão tem o grande mérito de dar dignidade e poesia para as passagens mais fracas da Eneida, mas costuma ser meio "rasa" nos momentos mais altos como este. Comento melhor de acordo com as novas traduções que forem aparecendo aqui.

[…] e a divina
Juno, assim respondendo, o rosto inclina!
191
Ó Júpiter, depois que conhecida
Foi de mim tua grande, e alta vontade,
De todo as terras, bem que constrangida,
E a Turno deixei logo na verdade:
Nem tu me ora verias na subida
Região aérea em tanta soledade,
Cousas dignas, e indignas padecendo,
Mas põe entre as esquadras discorrendo.
192
De coruscantes flamas rodeada
A inimigas batalhas moveria
A Teucra gente, para que assolada
Pudesse toda ser por esta via.
Confesso que de mim aconselhada,
Que socorresse o irmão, que perecia,
Juturna foi, e lhe hei também louvado
De inda mais por sua vida haver tentado.
193
Mas não a aconselhei que o dardo duro,
Nem a frecha ligeira, ou arco usasse:
Pela implacável fonte assim to juro,
Donde o rio do negro Estige nasce.
Juramento mui valido, e seguro,
Que não sei que algum Deus violar ousasse:
E te obedeço agora, renuncio
As contendas, de que hei já grão fastio.
194
Um só favor agora, que sujeito
Não é à lei do Fado, te demando
Em prol de Itália, e prol do gão respeito,
Que aos teus é devido: este é que, quando
Tenha, assim seja, a paz de todo efeito
Por algum casamento venerando,
E os pactos já, e as leis se estipularem,
E em perpétua concórdia se ajuntarem,
195
Não mandes que os Latinos aqui nados
O antigo nome deixem, que é grã míngua,
Por Troianos, e Teucros ser chamados,
Nem permitas mudarem traje, ou língua.
Seja Lácio, e seus Reis por dilatados
Séculos, por mostrar que em cada míngua,
Albanos, e mais célebre o Romano
Linhagem co'o valor Italiano.
196
Acabou Tróia, acabe, se és fervido,
Com seu nome a memória juntamente.
[…]
 No próximo episódio vou comentar a tradução de Lima Leitão, neste mesmo canal, no horário que achar melhor.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Wordsworth - Fragment from The River Duddon e Bruno de Menezes - Reis Magos / Dois poemas de natal

Feliz Natal para todos. Em comemoração a esse dia especial, posto um poema de Wordsworth traduzido. Na verdade, este fragmento do poema é mais famoso que o próprio poema inteiro, e já é de um período em que a qualidade poética do autor já estava bastante gasta. Por fim, posto também um belíssimo poema de natal do poeta paraense Bruno de Menezes, um dos fundadores do modernismo na região Norte, mas cujo poema apresentado antecede o ano de 1922. A minha primeira impressão foi a de postar o "Soneto de Natal" de Machado de Assis ou Vinícius de Moraes, mas são poemas tão afamados que já devem ter sido lidos por todos. Então resolvi escolher poemas de natal de Jorge de Lima, Pinagé ou Bruno de Menezes, menos famosos, e escolhi esse, que remete ao natalício de Jesus.
De resto, feliz natal para todos, e que venham muitos livros de presente.

THE RIVER DUDDON - WORDSWORTH (Fragment, 1820)

THE Minstrels played their Christmas tune
To-night beneath my cottage-eaves;
While, smitten by a lofty moon,
The encircling laurels, thick with leaves,
Gave back a rich and dazzling sheen,
That overpowered their natural green.

Through hill and valley every breeze
Had sunk to rest with folded wings:
Keen was the air, but could not freeze,
Nor check, the music of the strings;
So stout and hardy were the band
That scraped the chords with strenuous hand;

And who but listened?--till was paid
Respect to every Inmate's claim:
The greeting given, the music played,
In honour of each household name,
Duly pronounced with lusty call,
And "merry Christmas" wished to all!


O Rio Duddon (fragmento) - Wordsworth

Tons de Natal tocaram os menestréis
Esta noite, bem cá nos meus beirais;
Tocado pela altiva lua, a pés,
Grossas folhas, o louro circundais,
Um brilho deslumbrante devolver de
Volta, que dominou seu próprio verde.

Por vales e colinas, cada brisa
Com asas retraídas descansou:
Ávido era o ar, mas não congelaria,
E a música das cordas não checou;
Forte e hábil era a banda que então
Tocou os acordes com extenuante mão.

E quem foi que escutou? - até ser pago
Respeito ao clamor de cada interno,
A música tocada, o aplauso dado
Em honra de cada um irmão fraterno,
Bem pronunciada em apelo sensual,
Desejando a todos: “Feliz Natal”.

Trad: Raphael Soares


Reis Magos - Bruno de Menezes

Quando sonho em três almas... três destinos
Voltados para a luz redencional.
Reis Magos transformados em beduínos,
Seguindo um astro sobrenatural.

E por lendárias noites, o areal
Viu as sombras dos régios peregrinos,
Olhos fitos na Estrela do Natal,
Conduzindo os três símbolos divinos.

“Ouro, porque é Rei”, - disse o primeiro.
“Incenso, porque é Deus”, - disse o segundo.
“Mirra, porque é Amor”, - disse o terceiro.

Baixara à terra o luminoso guia...
Jesus teve no olhar a Luz do mundo,
E a Dor brilhou nos olhos de Maria.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Charles Bukowski - Beer

Aqui faz parte da série A Cerveja é o Melhor Remédio, da qual faz parte as [Linhas Sobre Cerveja] do Poe e uma série de poemas sobre cerveja da literatura mundial que um dia compilarei nessas páginas de Blog. O poema que se segue é de Charles Bukowski do livro Love is a mad dog from hell (Que costumo traduzir por O Amor é um Cão Louco dos Infernos), contendo a poesia do autor entre os anos de 1974 a 1977. Bukowski tem uma rara sorte de ser conhecido no Brasil tanto pela sua prosa quanto pela poesia, mas assim como Oscar Wilde sua biografia pessoal e o topos de sua arte costumam ser mais relevantes para os leitores comuns e aficionados por literatura que suas obras em si. Em breve mais Bukowski e mais cerveja, talvez eu dedique um mês para a cerveja ou a bebida em geral (Carnaval está chegando, não é mesmo?).

Beer - Charles Bukowski

I don’t know how many bottles of beer
I have consumed while waiting for things
to get better
I don’t know how much wine and whisky
and beer
mostly beer
I have consumed after
splits with women—
waiting for the phone to ring
waiting for the sound of footsteps,
and the phone to ring
waiting for the sounds of footsteps,
and the phone never rings
until much later
and the footsteps never arrive
until much later
when my stomach is coming up
out of my mouth
they arrive as fresh as spring flowers:
“what the hell have you done to yourself?
it will be 3 days before you can fuck me!”

the female is durable
she lives seven and one half years longer
than the male, and she drinks very little beer
because she knows it’s bad for the figure.

while we are going mad
they are out
dancing and laughing
with horny cowboys.

well, there’s beer
sacks and sacks of empty beer bottles
and when you pick one up
the bottle fall through the wet bottom
of the paper sack
rolling
clanking
spilling gray wet ash
and stale beer,
or the sacks fall over at 4 a.m.
in the morning
making the only sound in your life.

beer
rivers and seas of beer
the radio singing love songs
as the phone remains silent
and the walls stand
straight up and down
and beer is all there is.



Cerveja - Charles Bukowski

Eu não sei quantas garrafas de cerveja
bebia enquanto aguardava as coisas
ficarem melhor
Eu não sei quanto vinho e whisky
e quantas cervejas
principalmente cerveja
bebia após
me trocar com mulheres—
aguardando o telefone tocar
aguardando o som dos passos,
e o telefone tocar
aguardando o som dos passos,
e o telefone nunca toca
até bem depois
e os passos nunca chegam ao destino
até bem depois
quando meu estômago pula para
fora da minha boca
elas chegam frescas como as flores da primavera:
“que porra fizeste contigo mesmo?
faltam 3 dias antes que possas me fuder!”

a fêmea é durável
ela vive sete anos e meio mais
que homens, e bebe menos cerveja
porque ela sabe que faz mal às aparências.

Enquanto ficamos doidos
elas estão fora
dançando e rindo
com cowboys tarados.

bem, aqui há cerveja
sacos e sacos de garrafas vazias de cerveja
e quando sacas uma
a garrafa cai pelo fundo molhado
do saco de papel
rolando
tilintando
derramando cinzas úmidas
e cerveja choca,
ou os sacos caem às 4:00
da manhã
fazendo o único som em sua vida.

cerveja
rios e mares de cerveja
a rádio cantando canções de amor
enquanto o telefone permanece silente
e as paredes permanecem
subindo e descendo
e a cerveja é tudo o que há.
Trad: Raphael Soares

domingo, 14 de dezembro de 2014

Paul Verlaine - Le Rossignol


Le Rossignol - Paul Verlaine

Comme un vol criard d'oiseaux en émoi,
Tous mes souvenirs s'abattent sur moi,
S'abattent parmi le feuillage jaune
De mon coeur mirant son tronc plié d'aune
Au tain violet de l'eau des Regrets
Qui mélancoliquement coule auprès,
S'abattent, et puis la rumeur mauvaise
Qu'une brise moite en montant apaise,
S'éteint par degrés dans l'arbre, si bien
Qu'au bout d'un instant on n'entend plus rien,
Plus rien que la voix célébrant l'Absente,
Plus rien que la voix - ô si languissante ! -
De l'oiseau que fut mon Premier Amour,
Et qui chante encor comme au premier jour;
Et dans la splendeur triste d'une lune
Se levant blafarde et solennelle, une
Nuit mélancolique et lourde d'été,
Pleine de silence et d'obscurité,
Berce sur l'azur qu'un vent doux effleure
L'arbre qui frissonne et l'oiseau qui pleure.




O Rouxinol - Paul Verlaine

Como um voo de aves em motim
As lembranças se abatem sobre mim,
Se abatem pela amarela folhagem
De meu coração mirando sua paisagem,
Tronco torto de amieiro à violeta d'água
(que corre melancólica) das Mágoas,
Se abatem, e pois que o rumor malvado
Que por brisa branda foi acalmado,
Se extingue aos poucos n'árvore, se bem
Que num instante resta nada além,
Nada além da voz celebrando o Ausente,
Nada além da voz, - tão enlanguescente! -
Da ave que foi o meu Primeiro Amor,
Como o primeiro dia canta em ardor;
E sobre o esplendor triste de sua lua
Se eleva pálida e solene, sua
Noite melancólica de verão
Plena de silêncio e de obscuridão,
Embala no azul que um vento doce aflora
A árvore que treme e a ave que chora.

Trad: Raphael Soares

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Comentário sobre Fears and Scruples, de Robert Browning

Robert Browning foi um poeta inglês particularmente interessante. Aliás, pertence a um período bastante curioso da literatura inglesa (e somente dela) que é denominada tradicionalmente pelo nome genérico de "período vitoriano", devido ter existido durante o reinado da rainha Vitória, entre 1840 e 1880, e que ocorreu logo após a literatura feita pelos grandes românticos da primeira (Blake, Wodsworth e Coleridge) e da segunda (Shelley, Byron e Keats) geração. O romantismo inglês praticamente se encerra na década de 20, praticamente com a morte de Byron (em 1824). Os românticos que sobrevivem (a exceção apenas de Landor) não puderam escrever mais grandes obras de relevância, e a geração que se seguiu foi bastante prolífica, a seu modo. O mais curioso é que, na prática, pouca coisa tem em comum os principais nomes desse período: Tennyson, Elizabeth Browning, Robert Browning, Dante Gabriel Rossetti, Christina Rossetti, Algernon Charles Swinburne, Matthew Arnold, as Irmãs Brönte e George Meredith, além de curiosidades como Fitzgerald, Edward Lear, Lewis Carrol e principalmente G. M. Hopkins, bem como um sem número de escritores menores, aqui representado apenas pelo soneteiro Blunt. De poesia, o que temos desses autores traduzidos no Brasil? Um sem número de pequenos poemas esparsos em livros, jornais e na internet. Em livro exclusivamente o único que ainda possui alguma sorte é Hopkins, com algumas antologias traduzidas por Augusto de Campos, Aíla Gomes, Luís Bueno bem como poesias esparsas mais facilmente encontráveis. De Browning temos um único livro: O Flautista de Manto Malhado de Hamelin, em tradução de Alípio Correia de França Neto (sorte que tem também Swinburne com um livro de um poema só: Dolores). De resto temos o poema Mocidade e Arte (1948, por Bezerra de Freitas), O Amor entre as Ruínas, um fragmento de Sordello, Minha Última Duquesa (1950, 1995 e 1996 respectivamente, por Décio Pignatari), Lembranças longe da pátria, Encontro à noite (1988, por José Lino Grünewald), Childe Rolland à Torre Negra Chegou (de 2000 por Fabiano Moraes), O Patriota (por Cunha e Silva Filho), O Amante de Porfíria (2012, por Adriano Escandolara), o Flautista de Hamelin (2012, por Valdir Dalla Mata) e O Amor Entre Ruinas (2014, por Matheus Mavericco). Em Portugal há mais algumas traduções: A. Herculano de Carvalho, João Almeida Flor e, possivelmente, Fernando Pessoa.

O poema Fears and Scruples chamou-me a atenção a partir da leitura do ensaio Kafka e seus precursores de Jorge Luís Borges. Vale a pena transcrever o trecho na íntegra:

A quarta das prefigurações [de Kafka] foi a que encontrei no poema "Fears and Scruples", de Browning, publicado em 1876. Um homem tem, ou julga ter, um amigo famoso. Nunca o viu e o fato é que ele não pode, até agora, ajudá-lo, mas dele contam gestos muito nobres, e cartas autênticas circulam com seu nome. Há, porém, quem ponha em dúvida os gestos, e os grafólogos afirmam o caráter apócrifo das cartas. O homem, no último verso, pergunta: "E se esse amigo fosse Deus?".

É no mínimo uma leitura curiosa a de Borges, vendo Browning pela contramão, ou seja, a partir de um possível (porém muitíssimo improvável) sucessor: Kafka. Como praticamente todas as leituras do escritor, é simplista, arbitrária e profundamente imprecisa. Ignora boa parte das características e possíveis significações do poema, particularmente no que se refere à religiosidade e "crítica religiosa" (no que se refere à "nova crítica", miticismo e busca pela historicidade documental das escrituras sagradas, com muitos expoentes na Inglaterra da década de 70-80), e reduzindo o poema a uma narrativa do absurdo avant la lettre, o que não é de modo algum. Ainda assim, não deixa de ser uma interessantíssima leitura, que nos mostra as possibilidades das mais arbitrária de se ler um escritor mais próximo de nós, e uma solução antiacademicista para se encontrar prazer numa leitura, com base em suas relações mais improváveis: ler Browning a partir de Kafka, que muito provavelmente não leram um ao outro.

Ignorar o aspecto religioso do poema é ignorar talvez sua parte mais interessante. O poema refere-se claramente a isso em várias passagens: o amigo oculto (unseen), as cartas (letters), as escrituras (writings), os atos (actions) e a coda do último verso, associando diretamente o amigo a Deus. Há ainda uma referência menos clara (principalmente em língua portuguesa, pelos motivos que explicarei): "All my days, I'll go the softlier," é uma citação de Isaías, que em língua portuguesa passa por alguns problemas, pois não possuímos uma bíblia com a mesma função social quase que "oficial" como as versões KJB Authorized version, exceto se tratando de pequenos grupos religiosos, como os Testemunhas de Jeová, por exemplo. Por um lado, temos em português a Bíblia de João Ferreira de Almeida, que é a mais antiga versão completa direto dos originais, no entanto, as sucessivas revisões da bíblia trouxeram uma discrepância entre o uso do adjetivo na seguinte passagem: mansamente, calmamente e humildemente, essa última sendo a mais comum nas bíblias mais novas. Por outro lado, a maioria da população brasileira é (ou ao menos não negou ser) católica, e nas bíblias católicas a forma é bastante diferente, pois esse é o texto base da Nova Vulgata ("lembra-te de que lenho andado na tua presença com fidelidade e de coração inteiro", por exemplo, na Bíblia de Jerusalém; as bíblias mais antigas não contém o adjetivo, pois são baseadas na Vulgata de Jerônimo). Optei pela forma "manso" porque é a forma que aparece na edição de Almeida de 1870, de maior circulação no período, mesmo que apenas a Almeida Corrigida Fiel da Sociedade Bíblica Trinitariana mantenha a forma "mansamente".

Há no poema uma quadra que considero absolutamente fantástica:

"Letters?" (hear them!) "You a judge of writing?
  Ask the experts! How they shake the head
O'er these characters, your friend's inditing -
  Call then forgery from A to Z!
que verti como:

“Cartas?” (ouça) “Acaso julgas escrituras?
  Pergunte a especialistas, e eles irão ler
Sobre esses caracteres, e essas feituras –
  Chamá-los-iam forjados de A a Z!

A crítica tende a apontar como uma resposta à "Nova Crítica", como a de Baur e Renan, que negavam a veracidade das escrituras como valor histórico absoluto. Mas acho curioso os exegetas de Browning ignorarem a situação da crítica textual da bíblia (partindo das variantes da edição do Novo Testamento Grego de Mill e dos pesquisadores posteriores que vieram a sacrificar suas vidas à crítica textual do Novo Testamento) e do pensamento ateísta na Inglaterra, em especial de Charles Bradlaugh, o mais famoso ateu-político da ilha no período, e seu discípulo ainda mais famoso e radical J. M. Robertson, pai da teoria do Mito de Jesus. Pensando nos pesquisadores ingleses da época faz mais sentido a questão de perguntar aos doutos especialistas a veracidade das cartas, das escrituras. Mais importante é o paragrafo seguinte em que se questiona: "He, of all you find so great and good,/He, he only, claims this, that, the other/Action - claimed by men, a multitude?". Argumento usado anos depois por Robertson para negar a historicidade de Jesus: quem mais disse sobre ele que não seus discípulos, considerando que para a maioria dos defensores dessas teorias as citações de Tácito nos Anais e de Josefo nas Antiguidades são forjadas (e a carta de Plínio é ambígua), e nenhuma delas fala de quaisquer prodígios do filho de Deus. Considero esses dois parágrafos um centro interessantíssimo do poema, já que o talento lírico de Browning se mostra ainda mais forte quando põe palavras nas bocas daqueles em que não acredita.

De resto, o poema usa duas split-rhymes (love him/above him e refute you/brute you), sendo que mantive do mesmo modo a primeira e devido a natureza da construção não pude manter na segunda (até poderia, mas "tu é bruto, tu" soaria paraense em demasia, e "embrutecer-vos" muito longe do estilo original), mas mantive exatamente as mesmas vogais de todo o segmento (vos refuto/vós seus brutos). Porém, não resisti em colocar "Peep at hide-and-seek" como "Pira-se-esconde", embora não faça a mínima ideia se essa brincadeira (pique esconde, esconde esconde entre outros nomes) se chama assim em outra parte do Brasil. Conhecendo o poeta sinto que essa opção é perdoável. De resto, com uma ou outra opção que fui obrigado a tomar (ou fiz porque quis mesmo), o texto traduzido segue muito próximo o som e as palavras do texto em inglês, e aceito sugestões para a melhoria. Já recebi uma, inclusive.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Anne Finch, Countess of Winchilsea - The Introduction

Tenho de primeiramente pedir desculpas pela minha ausência. Uma série de fatores externos (e alguns não tão externos assim) me impediram ou dificultaram de postar no blog mensalmente, e fiquei quatro meses afastado do blog. Entre esses fatores os mais importante foram a sequência de viagens a Curitiba com o objetivo de fazer a seleção para o Mestrado em Letras na UFPR (em que fui aprovado, para ser orientado pelo tradutor de Joyce, o profº Dr. Caetano Waldrigues Galindo), e meus problemas com a minha operadora de internet que, Claro, não direi qual é. Apesar de tudo, quero compensar o tempo ausente postando, ao menos 5 postagens neste mês para compensar os demais, então isso vai ficar um pouco mais movimentado nos últimos tempos. Procurarei fazer mais comentários sobre traduções também, além de traduções novas: estou devendo um comentário sobre a opção entre os decassílabos e dodecassílabos para verter o pentâmetro jâmbico inglês, um sobre forma e conteúdo em traduções, um comentário sobre a tradução anterior e etc... Nas próximas postagens também planejo fazer alguns comentários sobre a Eneida de Virgílio em Português, então não percam os capítulos dos próximos episódios.

Hoje, trago um poema de Anne Finch, a Condessa de Winchilsea (1661-1720). A simples data já seria uma boa justificativa para traduzi-la: há no Brasil uma carência generalizada de poetas e poesias do século XVII. Temos as últimas obras de Shakespeare, mas ele é um poeta que pertence ao século anterior, e alguma coisa de Donne e Ben Johson muito esparsamente. Do centro do século temos apenas Milton, e muito mal, apesar de novas traduções de Paraíso Perdido e uma recente, e única, tradução de Paraíso Reconquistado feita a quatro mãos. Mas o que dizer dos outros grandes nomes do período? Robert Herrick, George Herbert, Samuel Butler, John Wilmot, Andrew Marvel e até mesmo John Dryden? Pouco se tem em português desses autores (e, para falar a verdade, pouco se lê dos autores de língua portuguesa do mesmo período), exceto uma ou outra pequena antologia ou publicados esparsamente num jornal ou revista. Para piorar, mesmo buscando em vários tomos sobre literatura inglesa e cânones de autores (como Pound, Bloom e outros maníacos por listinhas) nunca havia ouvido falar de Anne Finch até me deparar com o ensaio UM TETO TODO SEU, de Virgínia Woolf. A condessa de Winchilsea parece realmente um daqueles casos assustadores de descaso completo. Bastando olhar de relance o poema que ora apresento, The Introduction, para notar o quão forte é a expressão de uma mulher poetisa do século XVII, e de modo que nunca fora dito anteriormente. Se a poetisa tem seus defeitos e seus excessos, muito talvez seja os defeitos e excessos que nós imputamos aos escritores do período (e que talvez sejam os defeitos e faltas de nós mesmos), e que não são melhores em um escritor do sexo masculino como Marvel, Rochester ou Dryden. Se dela temos uma obra menor, boa parte é devido a ela ser mulher, e portanto possuir menos possibilidades para publicar e imortalizar-se com sua obra. Mas se ela apresenta grandes qualidades, muitas delas são justamente pelas mesmas razões, como poderá ser visto no poema que se segue.

The Introduction foi escrita provavelmente no início da carreira poética de Anne Finch (muito provavelmente em torno do início da década de 90), para um livro de poemas que a escritora imaginava escrever (como também indica o próprio poema). O livro nunca veio à luz, porque seria escrito por uma mulher, mas a autora permitiu que um livro de versos seus fosse publicado anonimamente em 1713. The Introduction, no entanto só foi publicado em 1903. O poema é uma espécie de introdução quase desculpa (típica de alguns escritores de várias épocas), mas chama atenção a noção que a autora tem em relação a ser uma escritora do gênero feminino, as dificuldades, julgamentos e a ética que permeia esse fato. Não consigo pensar em nenhum poema anterior a este que contenha notas de amargura, ironia e percepção da condição feminina. Creio ser melhor o próprio poema defender-se sozinho. O texto utilizado é o da 5ª Edição da Norton Anthology of Poetry (2005), e apresento o poema em duas traduções (que espero poder discutir melhor as diferenças entre elas em outra ocasião), de modo similar ao que fiz com o Soneto XIV de Shakespeare: uma versão em decassílabos e uma em dodecassílabos, em ambos os casos mantendo o mesmo número de versos e as rimas nas mesmas posições (algumas vezes de modo imperfeito). Notar que o último verso é um hexâmetro, por isso vertido igualmente nas duas versões.

The Introduction - Anne Finch, Countess of Winchilsea

Did I, my lines intend for public view,
How many censures, would their faults pursue,
Some would, because such words they do affect,
Cry they're insipid, empty, incorrect.
And many have attained, dull and untaught,
The name of wit only by finding fault.
True judges might condemn their want of wit,
And all might say, they're by a woman writ.
Alas! a woman that attempts the pen,
Such an intruder on the rights of men,
Such a presumptuous creature, is esteemed,
The fault can by no virtue be redeemed.
They tell us we mistake our sex and way;
Good breeding, fashion, dancing, dressing, play
Are the accomplishments we should desire;
To write, or read, or think, or to inquire
Would cloud our beauty, and exhaust our time,
And interrupt the conquests of our prime;
Whilst the dull manage of a servile house
Is held by some our outmost art, and use.
Sure 'twas not ever thus, nor are we told
Fables, of women that excelled of old;
To whom, by the diffusive hand of Heaven
Some share of wit, and poetry was given.
On that glad day, on which the Ark returned,
The holy pledge, for which the land had mourned,
The joyful tribes, attend it on the way,
The Levites do the sacred charge convey,
Whilst various instruments, before it play;
Here, holy virgins in the concert join
The louder notes, to soften, and refine,
And with alternate verse complete the hymn divine.
Lo! the young Poet, after God's own heart,
By Him inspired, and taught the Muses' art,
Returned from conquest, a bright chorus meets,
That sing his slain ten thousand in the streets.
In such loud numbers they his acts declare,
Proclaim the wonders of his early war,
That Saul upon the vast applause does frown,
And feels its mighty thunder shake the crown.
What, can the threatened judgment now prolong?
Half of the kingdom is already gone;
The fairest half, whose influence guides the rest,
Have David's empire o'er their hearts confessed.
A woman here, leads fainting Israel on,
She fights, she wins, she triumphs with a song,
Devout, majestic, for the subject fit,
And far above her arms, exalts her wit;
Then, to the peaceful, shady palm withdraws,
And rules the rescued nation, with her laws.
How are we fall'n, fall'n by mistaken rules?
And education's, more than nature's fools,
Debarred from all improvements of the mind,
And to be dull, expected and designed;
And if some one would soar above the rest,
With warmer fancy, and ambitions pressed,
So strong th'opposing faction still appears,
The hopes to thrive can ne'er outweigh the fears,
Be cautioned then my Muse, and still retired;
Nor be despised, aiming to be admired;
Conscious of wants, still with contracted wing,
To some few friends, and to thy sorrows sing;
For groves of laurel thou wert never meant;
Be dark enough thy shades, and be thou there content.




A Introdução - Anne Finch, Countess of Winchilsea

Fiz eu tais linhas para a vista pública,
Quantas faltas, censuras, tem tal rúbrica,
Um "seria", com letra afetarão,
Choram pois é vazia, incorreção.
E quantos o alcançaram, tolo e ingrato,
O nome do saber por achar falta.
Talvez julguem sua falta de saber,
Todos dirão: escrito por mulher.
Oh dó! uma mulher que tenta a pena,
Intrusa ao ofício de homem ela tenta,
Presunçosa criatura, estimada,
Por virtude alguma a falta é perdoada.
Dizem-nos que erramos sexo e caminho;
Boa de dançar, procriar, tocar pianinho
São tudo o que devemos desejar;
Ler, escrever, pensar, investigar
Nossa beleza turva, tempo gasta,
E interrompem as conquistas da casta;
Co'o débil comando de um lar servil
É, para alguns, nossa maior arte, util.
Nem mesmo assim, contar não nos compete
Fábulas, de umas que em velhice excedem;
A quem, por divisível mão dos Céus
Teve o saber e a poesia deu.
Que dia alegre, a Arca retornou,
Penhor sagrado, e a terra então chorou,
Tribos alegres, cuidam no caminho,
Levitas sacra carga tem certinho,
Antes tocaram seus instrumentinhos;
As virgens santas 'stão a concertar
Sonoras notas, mansas, refinar,
E com alternado verso o hino encerrar.
Veja! poeta, do cerne do Senhor,
Por ele instado em Musa a arte expor,
Retorna da conquista, e o coro aclara,
E canta os dez mil mortos pela estrada.
Em tais altivos números se encerra,
Proclamam as maravilhas de sua guerra,
Que Saul com vasto aplauso enfureceu,
Sentiu que a coroa o trovão venceu.
O quê? pode a pena então prolongar?
Metade do reinado findo está;
Melhor metade, que serve de guia,
O império de David confessaria.
Mulher, lidera Israel com distinção,
Lutou, venceu, triunfou com uma canção,
Devota, para isso que nasceu,
E sua armada exalta seu saber;
Então, pacífica, sua palma vela,
E a regra faz nação, com as leis dela.
E agora caímos por regras erradas?
Tolice de educação originada
Barrado das melhorias da mente,
Designado agir tão debilmente;
E se uma só se eleva sobre o resto,
Com morna fantasia e sem cabresto,
Irão aparecer contra fatores,
A esperança é mais fraca que os temores,
Cativa, a minha musa, aposentada;
Visa a admiração, não desprezada;
Consciente das vontades, contrai as asas,
A alguns poucos amigos, dor cantada;
Da láurea o gozo nunca saborear;
Se encobrir de tua treva, e irás te contentar.

Trad: Raphael Soares



Venus Attired by the Graces, de Anne Finch. Óleo sobre tela
A Introdução - Anne Finch, Countess of Winchilsea

Fiz meus versos querendo que o público veja,
Quantos censuram pelas faltas que sobeja,
Iriam porque em tais palavras afeta,
Choram: vazias, insípidas, incorretas.
E quantos alcançaram, tolo e incontado,
O nome do saber achando apenas falta.
Talvez condenem o seu senso de saber,
Assim todos dirão: escrito por mulher.
Oh dó! uma mulher que é à pena afeita,
Como intrusa ao que é do homem direito,
Como presunçosa criatura, estimada,
A falta por virtude não será perdoada.
Dizem-nos que erramos nosso sexo e caminho;
Boas de vestir, dançar, procriar, tocar pianinho
São toda coisa que devemos desejar;
Porém ler, escrever, pensar, investigar
Enevoam a beleza, nosso tempo irrompe,
E as conquistas do nosso sexo interrompem;
Co'o débil comando de uma casa servil
É tido por alguns nossa maior arte, util.
Nem mesmo assim, contar não nos compete
Fábulas, de umas que em velhice excedem;
A quem, que pela divisível mão dos Céus
Compartilhou saber e a poesia deu.
E nesse alegre dia em que a Arca retornou,
Sagrado compromisso, e a terra então chorou,
Tribos em alegria, cuidam no caminho,
Levitas tem a sacra carga transmitindo,
Antes de tocar seus vários instrumentinhos
Aqui as virgens santas juntam-se em concerto
Sonoras notas, mansas, a se aperfeiçoar,
E com alternado verso o divino hino encerrar.
Vê! jovem poeta após o coração de Deus,
Expôs a arte da Musa que Ele quem deu,
Retorna da conquista, e o ilustre coro aclara,
E os dez mil que morreram canta pela estrada.
Em números tão altos seus atos se encerram,
Proclamam as maravilhas das primeiras guerras,
Que Saul sob vasto aplauso reprovou,
Sentiu que seu trovão a coroa balançou.
O quê? o julgamento pode prolongar?
Metade do reinado acabado já está;
Melhor metade, que serve de guia ao resto,
O império de David confessa sobre o peito.
Uma mulher, lidera Israel com distinção,
Ela lutou, venceu, triunfou co' uma canção,
Devota, majestosa, feita p'ra isto ser,
De longe sua armada exalta seu saber;
Então, pacífica, a incerta palma vela,
E as regras salvam a nação, com as leis dela.
Como caímos? caímos por regras erradas?
Tolice de educação, e só, originada
Barrada de todos os avanços da mente,
Designada e esperado agir tão debilmente;
E se uma só surge pairando sobre o resto,
Com morna fantasia e querer sem cabresto,
Aparecerão contra ela fortes fatores,
A esperança jamais supera os temores,
Cativa, a minha musa, ainda aposentada;
Visa a admiração, e não ser desprezada;
Consciente das vontades, co'asas apertadas,
A alguns poucos amigos, a dor é cantada;
Para os campos da láurea nunca existirás;
Se encobrir de tua treva, e irás te contentar.

Trad: Raphael Soares