segunda-feira, 18 de abril de 2011

Introdução à tradução dos Sonetos de Shakespeare

Praticamente é impossível, nas traduções de qualquer língua para o português, preservar todos os valores do original. Formalmente, o metro nem sempre pode ser guardado, ou o ritmo; para conservar as rimas, tem-se, muitas vezes, de parafrasear ou resumir o pensamento do autor. Traduzir é, antes do mais, compreender; mas ninguém pode garantir que nossa compreensão do texto seja exata ou ainda a única exata. Ainda que o fosse, não se poderia respeitar, escrupulosamente, a sonoridade das palavras, nem as evocações que essas palavras despertam com sua simples sonoridade. Traduzir é assim recriar, empreender uma aventura de compreensão e reexpressão de determinado texto. Não há traduções exatas; há, isto sim, reexpressões algumas vezes felizes de textos estrangeiros.(SHAKESPEARE, 2008, p.9)
 Com essas palavras Péricles Eugênio introduz as suas traduções dos sonetos. O tradutor explica de forma clara e simples as dificuldades inerentes do ato de traduzir (ou reexpressar, ou transcriar, ou recriar, ou transladar, ou i-traduzir, ou intraduzir ou o como você quiser chamar o ato tradutório voltado à poesia).

Shakespeare simplesmente é um dos autores mais traduzidos do mundo, apesar da primeira tradução integral direta tenha se dado apenas em 1933, as traduções vêm crescendo ano a ano (MARTINS, 2010, p.49). Os sonetos, ao que me consta, foram traduzidos para a língua portuguesa parcialmente pelo menos 7 vezes (Péricles Eugênio, Ivo Barroso, Bárbara Heliodora, Faça Você Mesmo [org:Jorge Furtado], Diego Raphael, Ênio Ramalho e Renata Cordeiro) e há pelo menos mais 6 traduções integrais (Jorge Wanderley, Jerónimo de Aquino, Tereza Christina, Vasco Graça Moura, Oscar Mendes e Milton Lins), afora traduções isoladas (como o 47º por Elson Fróes, 1º e 17º por Fabrício Souza, I e V e X por mim e inúmeras outras espalhadas por aí). O maior problema ao traduzir Shakespeare não é literário (na verdade, também é literário), que é o "peso" de se traduzir o grande bardo inglês. Por conta da sofisticada poética, imagética e forma dos poemas, convencionalmente se acredita que a tradução dos sonetos é uma ação (desde o início) fadada ao fracasso.

O PROBLEMA DA INTRADUZIBILIDADE DA POESIA
O maior problema da intraduzibilidade da poesia é quanto ao fato de que para a poesia ABSOLUTAMENTE TUDO é importante. A sonoridade, ritmo, metro, imagens, disposição gráfica, estrutura sintática, repetições e muitos outros fatores são absolutamente essenciais. Um exemplo claro é a poesia "Soneto do Amor Total" de Vinícius de Morais, onde a repetição das consoantes nasais e vogais nasalizadas gera um efeito que auxilia a interpretação poética. O mesmo ocorre com as "Vogais Sem Valor" de Pinagé, onde a falta de uma vogal em cada poesia é importantíssimo para a própria construção semântica. Muito costuma se discutir se uma tradução deve ser "puramente semântica" ou "puramente formal". Eu, pessoalmente, com a ousadia de alguem que não é estudioso da tradução, considero essa discussão completamente sem propósito. Se tranpor apenas a "forma", perde-se o sentido e a obra deixa de ser tradução e se transpor apenas o "sentido", o próprio sentido se perde, pois o sentido também está contido na forma. Forma e sentido não podem ser separadas na poesia, e devem ser traduzidas juntas.

Mas aí vem um problema grave. É teóricamente impossível realizar uma tradução onde TODOS os elementos correspondam-se perfeitamente idênticos ao do "original", e em contrapartida, sempre uma tradução contem um "sentido" que não havia originalmente. Se pensar-mos bem, isso acontece na própria língua, por exemplo, os sinônimos nunca são perfeitos, portanto, como dizer que Death e Morte são exatamente a mesma coisa? Isso toma proporções ainda mais graves quando o mesmo conjunto sonoro (significante) está em jogo: a palavra "seca" para um paraense como eu (que nesci e cresci em volta de rios e onde chove todos os dias) não significa nem de longe o que significa para alguem do interior do nordeste ou de uma metrópole do sudeste brasileiro.

Divagações e mais divagações não resolvemos a pergunta fundamental: é possível traduzir poesia? Alguns acham que não, outros que sim, outros que não e sim. O mais importante são as implicações da resposta: se não é possível traduzir poesia, por quê traduzí-la? E mais importante ainda: se é possível apenas atingir um gral imperfeito na tradução poética, todas as traduções são inferiores ao "original", o que para mim (como para toda uma teoria da literatura contemporânea) não faz o menor sentido. A tradução de poesia, é por conseguinte poesia, e portanto possui um valor como poesia, e logicamente é tão poesia quanto o "original". Sendo poesia, a tradução poética está sujeita aos mesmos critérios de valoração que toda a obra literária (e por conseguinte, as traduções brasileiras são uma parte da literatura brasileira, não das literaturas originárias do texto-fonte), então tanto uma tradução pode ser "inferior" quanto "superior" no julgamento subjetivo de um crítico.
O público espera dos profissionais da literatura que lhe digarn quais são os bons livros e quais são os maus: que os julguem, separem o joio do trigo, fixem o cânone. A função do crítico literário é, conforme a etimologia, declarar: "Acho que este livro é bom ou mau"..[...] A crítica deveria ser uma avaliação argumentada. Mas as avaliações literárias, tanto as dos especialistas quanto as dos amadores, têm, ou poderiam ter, um fundamento objetivo? Ou mesmo sensato? Ou elas nunca são senão julgamentos subjetivos e arbitrários, do tipo "Eu gosto, eu não gosto"? Aliás, admitir que a apreciação crítica é inexoravelmente subjetiva nos condena fatalmente a um ceticismo total e a um solipsismo trágico? (COMPAGNON, 2010, p.221)
Tradução como  reprodução "idêntica" de um texto-fonte de um signo para outro não existe, isso é fato tanto na tradução entre línguas como nas traduções na própria língua. Tradução é uma criação (ou re-criação), e portanto uma poesia nova. Fora a definição de "o que é poesia?", ainda temos "o que é uma boa poesia?" e por conseguinte "o que é uma boa tradução?". Todas essas perguntas são extremamente pessoais. Podemos responder de inúmeras formas à qualquer uma delas. (cf. WARREN & WELLEK,[s/d] e COMPAGNON, 2010). As vezes a falta dessa reflexão gera um pensamento que a pesquisa de SILVA (s/d) mostrou como comum pela crítica de tradução ao tratar-se dos sonetos:
O tradutor, unido à visão de seu ofício como algo incompleto por apresentar-se tardiamente à forma e ao  conteúdo  do  'original',  tornou-se  o  alvo  maior  das  inúmeras  críticas  perpetradas  pelos  defensores  e instigadores da ilusória sistematização do ato tradutório, decorrente da idéia de que duas línguas precisam ser equiparadas simetricamente para que a transposição de conhecimento seja completa. Com isso, o tradutor foi freqüentemente  relegado  (e  relegou  a  si  mesmo)  à  sombra  do  autor,  ao  anonimato  contundente  que,  ao mesmo tempo em que reflete a condição inferior e mecânica em face da genialidade autoral, procura anular sua  responsabilidade  perante  a  tradução  que  apresenta. O  tradutor  estaria,  enfim,  fadado  a  reproduzir  os significados autorais e manter-se alheio às  inevitáveis contribuições que  instala em  seu  texto,  sob a  forma  (nem sempre discreta) de interferências oriundas de sua formação discursivo-ideológica, de suas concepções de mundo e das repercussões provocadas pelas circunstâncias contextuais mais imediatas. [...] Desta forma, seguindo a noção tradicional, se se considera a tradução como busca de equivalências – tanto de forma quanto de conteúdo – entre as línguas envolvidas, então traduzir poesia consiste em procurar repetir  a  mesma  associação  acima  citada  na  língua  de  chegada;  em  última  instância,  tal  tarefa  implica equacionar  unidades  de  som  e  sentido  a  fim  de  configurar uma  significação  ao mesmo  tempo  distante  da linguagem  coloquial  e o mais próxima possível daquela  supostamente pretendida pelo  autor do  ‘original’. Todavia,  esta  tarefa  esbarra  tanto  na  assimetria  entre  línguas  quanto  na  condição  inferior  conferida  ao tradutor, o qual não deteria uma habilidade poética a ser equiparada à do gênio criativo. (p.1274)

CONTRA UMA ANÁLISE OBJETIVA DA TRADUÇÃO
Há duas coisas que me incomodam na proposta de análise objetiva da tradução proposta por Paulo Henriques Brito. Em seu artigo "É Possível Avaliar Traduções" Paulo Henriques argumenta de forma brilhante sua proposta, entretanto, ao ver alguns exemplos de aplicação chego à conclusão que essa "Análise Objetiva" na verdade trata-se de critérios fenomenológicos para uma análise subjetiva padrão. Não há objetividade na proposta de Paulo Henriques, da mesma forma que criar critérios e notas (como 0 a 10 em performance, criação, inovação e beleza por exemplo) não torna uma avaliação de poesia (em um concurso por exemplo) objetiva.

A proposta é simples: é como um placar, onde todas as omissões, acrescimos, inversões sintáticas, variações rítmicas são "pesadas" e dispostas como um "placar". Também temos os níveis de correspondência, que vai do mais geral ao mais específico. Entretanto, o próprio sentido de "corresponder" se torna um pouco problemático. Voltando-se para o caso Shakespeare, seria mesmo o decassílabo o "correspondente" mais próximo do "pentâmetro jambico", já que Tristão da Cunha considera o verso livre mais próximo do rítmo do "pentâmetro jâmbico". Além disso, tradicionalmente o verso decassílabo não possui acentos na 5º nem na 7ª sílaba, consideraríamos essa norma? Outra coisa importante é que os poemas em língua portuguesa possuem muito mais inversões do que os versos em inglês (devido a estrutura das línguas), então seria "correspondente" uma tradução com mais inversões? Quem julga isso?

Claro, os pesquisadores que seguem essa metodologia declaram que "ainda que fatores subjetivos possam intervir no estabelecimento de graus de correspondência, o fato é que a proposta aqui discutida proporciona a obtenção de dados mais concretos, o que, por sua vez, possibilita quantificar, de algum modo, os juízos de valor." (CAMPOS, s/d, p.7-8) entretanto a coisa é menos objetiva do que parece, pois o sistema de "placar" é totalmente subjetivo. Os casos precisam ser analizados separadamente, e o pesquisador decide o que é uma omissão ou acréscimo "relevante" ou o que é uma alteração lexical que causa um efeito grave. Exemplos:
- As mudanças feitas pelo tradutor [Ivo Barroso] não descaracterizaram a imagética do poema [Soneto1] (LANDSBERG, p.2)
-O acréscimo [de Wanderley] , porém, não destoa totalmente do original (LANDSBERG p.2)
-Embora  [Wanderley] acrescente três elementos, eles não causam alterações no significado do soneto [XV]. (LANDSBERG p.3)

Além disso, uzando a mesma metodologia duas pesquisadoras chegam a diferentes conclusões: LANDSBERG afirma que a tradução de Ivo Barroso é a mais "fiel", enquanto CAMPOS afirma que a maior fidelidade está em Jorge Wanderley. Usando os mesmos dados que LANDSBERG ao analizar o Soneto XV tiro outras conclusões (no sentido da "objetividade" proposta): a tradução mais "fiel" seria a de Péricles Eugênio que contém apenas 2 omissões e 3 acrescimos (um de um termo quase elíptico, passível de explicação e outro uma partícula sem significação nenhuma), contra 5 omissões e 3 acrescimos de Wanderley e 13 omissões e 3 acrescimos de Barroso, embora as alterações sintáticas são muito mais frequêntes em Péricles Eugênio, mas que devido a "correspondência" (o fato de um poema em português conter mais inversões que um em inglês) pode ser justificado. Então temos 3 julgamentos completamente distintos seguindo um mesmo critério "objetivo".

Não me entendam mal, não sou contra o método de Paulo Henriques Brito, muito pelo contrário, acho-o interessantíssimo, e foi a pesquisa dele que guiou algumas (muitas) de minhas escolhas i-tradutórias. A resalva é apenas essa: o método não é nem de longe objetivo! O método de Brito é um excelente método de avaliação, e ele nos guia uma análise crítica subjetiva. É um guia objetivo para uma crítica subjetiva. Ainda falta eu dizer a segunda coisa que me incomoda nesse método, que é o "valor". A ideia central desse método é de que o texto base é 100%, e a tradução é sempre imperfeita, uma determinada porcentagem da base, e sempre a tradução será menos do que o "original", e também não considera, dentre as traduções, qual é o melhor poema. Apesar de me incomodar com esse ponto de vista, compreendo-o, pois desconsiderá-lo abalaria o sistema que propõe-se objetivo, pois apenas a subjetividade pode definir o "valor" de um poema como "bom poema" ou "mau poema".

PRINCÍPIOS TEÓRICOS
Meu objetivo ao traduzir Shakespeare foi o de apresentar o "meu Shakespeare", apesar de, reconheço, minha habilidade poética sem nitidamente inferior dos grandes poetas-tradutores Ivo Barroso e Péricles Eugênio. Possuo uma visão de Shakespeare e tentei criar esse Shakespeare que imagino em português. Tentei, claro, criar 3 bons poemas em português, embora não sei se obtive exito. Procurei ser fiel mais a minha visão de Shakespeare do que às palavras, o que nem sempre consegui, e se errei não errei intencionalmente, apesar de inúmeras escolhas pouco tradicionais, escolhas essas que ainda irei explicar. No próximo post vou falar dos problemas que encontrei ao i-traduzir os sonetos de Shakespeare, desde a escolha dos poemas até os problemas formais e semânticos bem como os decorrentes da diferênça linguística inglês-português, e posteriormente falarei das soluções encontradas.


BIBLIOGRAFIA
CAMPOS, Giovana Cordeiro. Avaliação de Tradução Poética: Um estudo de caso. s/d. Disponível em: <>. Acesso em 12/04/11.
COMPAGNON, Antoine. O Demônio da Teoria: Literatura e senso comum. Trad: Cleonice Paes Barreto Mourão e Consuelo Fortes Santiago. 2ª Ed. Belo Horizonte: UFMG, 2010, 292p.
LANDSBERG, Débora.  Os Sonetos de Shakespeare: estudo comparativo das perdas e ganhos das diferentes estratégias tradutórias. s/d. Disponível em: <>. Acesso em 12/04/11.
MARTINS, Márcia A.P.. Sotaque Brasileiro. in:  AGUIAR, Josélia (Ed.). 7 Clássicos Ingleses. São Paulo: Duetto, 2010, 128p. (Entre Livros; v.1)
SILVA, Gisele Dionísio da. Critica às Traduções Brasileiras dos Sonetos de Shakespeare: Uma reflexão sobre a noção de intraduzibilidade poética. s/d. Disponível em: <www.filologia.org.br/ileel/artigos/artigo_499.pdf>. Acesso em 12/04/11.
SHAKESPEARE, William. Sonetos. Trad. e notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos. Ed. Bilíngue. São Paulo: Hedra, 2008, 103p..
WARREN, Austin e WELLEK, René. Teoria da Literatura. Trad: José Palla e Carmo. 5ª Ed. Portugal: Publicações Europa-América, [s/d].

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