quinta-feira, 26 de maio de 2011

Erlkönig - Goethe + Notas

Der Erlkönig¹ - Goethe
Wer reitet so spät durch Nacht und Wind?
Es ist der Vater mit seinem Kind.
Er hat den Knaben wohl in dem Arm,
Er faßt ihn sicher, er hält ihn warm.

„Mein Sohn, was birgst du so bang dein Gesicht?"
„Siehst Vater, du den Erlkönig¹ nicht!
Den Erlenkönig¹ mit Kron'² und Schweif?"
„Mein Sohn, es ist ein Nebelstreif."

„Du liebes Kind, komm geh'² mit mir!
Gar schöne Spiele, spiel'² ich mit dir,
Manch'² bunte Blumen sind an dem Strand.
Meine Mutter hat manch'² gülden Gewand."

„Mein Vater, mein Vater, und hörest du nicht,
Was Erlenkönig¹ mir leise verspricht?"
„Sei ruhig, bleibe ruhig, mein Kind,
In dürren Blättern säuselt der Wind."

„Willst feiner Knabe du mit mir geh'n²?
Meine Töchter sollen dich warten schön,
Meine Töchter führen den nächtlichen Reihn³
Und wiegen und tanzen und singen dich ein."

„Mein Vater, mein Vater, und siehst du nicht
Dort Erlkönigs¹ Töchter am düsteren Ort?"
„Mein Sohn, mein Sohn, ich seh'es² genau:
Es scheinen die alten Weiden⁴ so grau."


„Ich lieb dich, mich reizt deine schöne Gestalt,
Und bist du nicht willig, so brauch'² ich Gewalt!"
„Mein Vater, mein Vater, jetzt faßt er mich an,
Erlkönig¹ hat mir ein Leids getan."

Dem Vater grauset's², er reitet geschwind,
Er hält in den Armen das ächzende Kind,
Erreicht den Hof mit Müh'⁵ und Not,
In seinen Armen das Kind war tot.

Notas:
¹ O nome Erlkönig não possui uma etimologia exata, composta de König (Rei, que também pode vir escrito Koenig) e Erl (não existe no alemão como palavra isolada). Erlkönig é um personagem mitológico maligno ligado à natureza. A tradução usual desse termo é Rei dos Elfos (ou Elfo-rei), mas o Erlkönig não se parece nem um pouco com a imagem que temos de elfo. Erlenkönig é o mesmo nome, porém com Erl no plural (Erlen).

Esse poema foi musicado por Schubert (além de pelo menos mais 20 compositores) e minha tradução é mais tradução da música que do original goethiano. É um poema incrível, de profundidade psicológica e polissemia quase insuperável. Falarei mais sobre ele e suas traduções qualquer dia.

² Elisões, em decorrência da métrica.

³ Passagem problemática. Reihn não existe mas é homófono de Rhein, embora não creio que seja Rhein que o texto deseja dizer. Reihn poderia também ser uma elisão de die Reihen, porém o artigo den é de acusativo singular masculino (o singular é Reihe, e é feminino). Isso há um dilema, pois, se Reihn é elisão de Reihen (feminino plural) por que a frase pede um acusativo masculino singular. A maioria das traduções em inglês omite essa passagem (ou repetem a idéia de dança ou canto), com excessão de A.Z.Foreman ([dance] in a ring), Walter Meyer (song fest) e Edgar Alfred Bowring (festival keep). Ao pesquisar um pouco, me deparei com der Reihentanz, e levando em consideração o tanzen do outro verso, faz todo o sentido.

⁴ die Weide pode significar tanto salgueiro como pasto, gramado etc... De acordo com o próprio texto, faz mais sentido que são velhos salgueiros.


⁵ Há versões onde aparece Mühe e outras onde aparecem Müh'. Optei pela que aparece na música de Schubert (Müh'). A principal diferença é que o 'e' é pronunciado como sílaba separada, causando uma diferença na metrificação.



O Erlkönig¹ - Goethe
Quem tarde cavalga em noite e vento?
É um velho pai e seu filho atento.²
Em braços fortes jaz escondida
A criança do frio, bem protegida.³

„Oh filho, que temor seus olhos veem?”
„Não vê pai, lá, que o Erlkönig vem,
O Erlenkönig, de cauda e cetro?”
„Filhinho, é só de névoa um metro.”

„Querido jovem, vens comigo!
Soberbos jogos jogarei contigo,
Há vivas⁴ flores, muitas, na margem.
Mamãe tem uma áurea roupagem”.


„Paizinho, paizinho, ouves no caminho⁵
Que o Erlkönig me promete baixinho?”
„Acalme-se filho meu, se acalma,
São folhas secas na eólia alma.⁶”

„Amável menino, venha a mim,⁷
Minhas filhas te esperam assim,
Elas te guiarão ao festejo noturno,
Em canto e dança, e embalo soturno.”


„Paizinho, paizinho, não estás vendo
Irmãs dele naquele lugar horrendo?”
„Consigo ver com clareza, filho:
De velhos salgueiros cinzas o brilho.”

„Eu te amo, me atrai tua aparência.
Se não queres vir, usarei a violência!”

„Paizinho, paizinho, agarrou-me agora
O Erlkönig quer me levar embora.”⁸

Horrorizado, o pai ágil cavalgou,
E firme ao braço o filho chorou,
Chega a seu campo a custo e fado,
Co’o filho inerte, por morto dado.⁹

Trad: Raphael Soares

¹ Mantive o nome Erlkönig (e sua variante Erlenkönig) devido à falta de equivalência, entretanto, se você preferir pode ler Elfo-rei (ou Rei dos Elfos para o Erlenkönig), já que possui a mesma estrutura sonora. Essa tradução é dedicada ao grande tradutor Ivo Barroso, já que as leituras que fiz no blog Gaveta do Ivo me encorajaram a continuar a "decifrar hieróglifos". É importante informar que a sonoridade é baseada na versão musical de Schubert. Mais sobre o poema e sua tradução no próximo post.

² Os adjetivos (velho e atento) desse verso são acréscimos, que não destoam do sentido original.

³ As ideias desses dois versos estão misturadas na tradução. A única mudança importante é que no texto alemão a voz é ativa (o pai segura) enquanto na tradução a voz é passiva (a criança está sendo segurada).

⁴ Bunte significa coloridas, sortidas. Optei por usar vivas flores tanto pela poeticidade do termo quanto pelo número de sílabas.

⁵ O menino pergunta "você não está ouvindo...?". Como o "não" (nicht) é retórico optei (em decorrência do metro) por deixar a pergunta como afirmativa.

⁶ Há aqui uma omissão (sussurram).

⁷ Originalmente é uma pergunta, mas devido a música de Schubert optei por eliminar a interrogação, mantendo contudo o sentido completo do verso.

⁸ Omissão (Leid = dor, sofrimento, machucado).

⁹ Em prosa chã: "Em seus braços o filho está morto"

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Outros Prelúdios

Van Gogh
Eliot é um dos poetas contemporâneos mais famosos, e influenciou legiões e legiões de poetas de todos os países e todas as idades. No Brasil, houve tempo que Eliot e Pound eram as maiores e mais modelares figuras da poesia. Apesar de toda a fama de Eliot, os seus "Preludes" não estão entre seus poemas mais apreciados, estudados ou traduzidos, embora eu possua uma preferência particular por eles.

Ha dois grandes tradutores de Eliot no Brasil: Ivo Barroso e Ivan Junqueira. Além desses, outros tradutores trabalharam sobre os versos eliotianos em jornais, revistas, antologias e outros meios de divulgação. Difícil saber tudo o que foi traduzido do autor sem um bom trabalho de pesquisa. Até onde pude conferir, os prelúdios foram traduzidos por Ivan Junqueira na sua tradução da poesia completa de Eliot pela Nova Fronteira (doravante designada IJ), também foram traduzidos por Maurício Borba Filho em seu blog (doravante MBF) e a última tradução integral desses quatro poemetos foi a que eu apresentei no post passado (RS). Há também a tradução do 1º prelúdio por Arthur A. de Ataíde publicado no blog da revista eletrônica Crispim (doravante AAA). A única tradução portuguesa que tenho notícia é a da edição de "Prufrock e Outras Observações" pela editora Assírio & Alvim em tradução de João Almeida Flor (JAF).

Todas as traduções do poema têm seus méritos, e pretendo fazer aqui uma comparação saudável entre elas.



A primeira coisa que percebemos ao comparar as traduções é que a única que mantém o metro da poesia inglesa é a de AAA. Todas as outras versões em português são escritas em verso livre. O metro original é uma notavel vantagem. AAA também abusa de rimas imperfeitas, onde apenas as vogais tônicas e postônicas se repetem (beco/aceso, embrulha/sujas, vago/telhado e coches/postes); o efeito final é bem interessante. AAA também é o único que mantém todas as rimas, enquanto IJ e JAF não se importam em manter todas.

IJ traduz de forma mais livre, rimando ocasionalmente e até mesmo dividindo um verso em dois (como em: And newspapers from vacant lots => E jornais que circulam no vazio/de terrenos baldios). JAF não mantém nenhuma rima original, mas acaba criando uma bem esquisita no primeiro prelúdio (aquaceiros/fumeeiros/candeeiros), que pela escolha das palavras presumo que tenha sido uma rima proposital, embora feitas em versos que não rimam (beat/chimneypots/lamps).

Ainda falando das rimas, RS tenta manter as rimas do poema, mas não consegue manter todas, ou por não achar solução adequada ou por não perceber a rima (como em stands e hands). A tradução de MBF também procura manter as rimas na medida do possível, mantendo umas e omitindo outras (como feet/beat/street => pés/ressoa/ecoa) ou até mesmo mudando as rimas de posição. Interessante notar que a preocupação com o som vai diminuindo de poema para poema: o primeiro prelúdio de MBF mantém mais rimas que o último. O número de omissões sonoras em MBF é superior à RS.

No nível lexical e sintático, novamente AAA recebe destaque: é a única tradução que não se utiliza de embelezamentos, à exceção de uma única inversão marcada ("termina cinza o dia aceso") em decorrência da rima. IJ, RS e MBF utilizam-se com frequencia de inversões bem marcadas e um lexico não condizente com a poética "seca" de Eliot. Encontramos em IJ: declina => settles down; ranço => smell; constelada => constituted; estiolam => fade; vespertinos => evening; entre outros. IJ é o que mais altera o registro do texto sem justificativa (não há metro e poucas rimas), enquanto RS e MBF processam mudanças, em geral, por conta das rimas.

As rimas obrigaram os tradutores a fazerem escolhas, no mínimo, interessantes:
- AAA: Termina cinza o dia aceso. => The burnt-out ends of smoky days.
             Bafeja um potro em meio a coches. => A lonely cab-horse steams and stamps.

- IJ: As lâmpadas dardejam seu clarão => And then the lighting of the lamps.

- MBF: Os termos tépidos de dias de névoa e torpores => The burnt-out ends of smoky days
             Alguém pensa nas mãos e grafias => One thinks of all the hands
             E edições noturnas, um olhar profundo => And evening newspapers, and eyes

- RS: Como se frases por ela fossem compreendidas; => As the street hardly understands;

Algumas dessas escolhas mudam o sentido das imagens, mudam as próprias imagens ou possuem um registro que difere muito do poema.

AAA, em decorrencia da métrica, acaba sendo um texto mais conciso do que o texto inglês (lembrando que a língua é rica em monossílabos, enquanto o português não), e acaba perdendo um pouco da escrita fragmentária do autor também; mas o maior problema de AAA é o de não ser tradução de todos os quatro prelúdios, mas somente do primeiro. IJ possui uma dicção poética própria, que está presente em outras traduções e poesias do grande poetae tradutor que é Ivan Junqueira. É importante lembrar que tanto AAA quanto RS portam-se como "exercícios e brincadeiras tradutórias", e ambas fazem interferências variadas sobre o poema.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Preludes - TS. Eliot

Voltei com mais uma tradução, e agora é Eliot. Vim com uma novidade também: resolvi "ilustrar" os poemas com pinturas em PD. O nome do pintor segue em itálico abaixo da pintura.

Preludes
Edouard Manet
  I

The winter evening settles down
With smell of steaks in passageways.
Six o'clock.
The burnt-out ends of smoky days.
And now a gusty shower wraps
The grimy scraps
Of withered leaves about your feet
And newspapers from vacant lots;
The showers beat
On broken blinds and chimney-pots,
And at the corner of the street
A lonely cab-horse steams and stamps.
And then the lighting of the lamps.

   II

The morning comes to consciousness
Of faint stale smells of beer
From the sawdust-trampled street
With all its muddy feet that press
To early coffee-stands.

With the other masquerades
That time resumes,
One thinks of all the hands
That are raising dingy shades
In a thousand furnished rooms.

Félix Vallotton
     III

You tossed a blanket from the bed,
You lay upon your back, and waited;
You dozed, and watched the night revealing
The thousand sordid images
Of which your soul was constituted;
They flickered against the ceiling.
And when all the world came back
And the light crept up between the shutters,
And you heard the sparrows in the gutters,
You had such a vision of the street
As the street hardly understands;
Sitting along the bed's edge, where
You curled the papers from your hair,
Or clasped the yellow soles of feet
In the palms of both soiled hands.

     IV

His soul stretched tight across the skies
That fade behind a city block,
Or trampled by insistent feet
At four and five and six o'clock;
And short square fingers stuffing pipes,
And evening newspapers, and eyes
Assured of certain certainties,
The conscience of a blackened street
Impatient to assume the world.

I am moved by fancies that are curled
Around these images, and cling:
The notion of some infinitely gentle
Infinitely suffering thing.

Wipe your hand across your mouth, and laugh;
The worlds revolve like ancient women
Gathering fuel in vacant lots.



Prelúdios
  I

A tarde de inverno vai baixando
Com um cheiro de bifes nos cruzamentos.
Seis horas.
O fim queimado de dias nevoentos.
E agora uns chuvarais lestos
Prendem os horrendos restos
De folhas secas que envolvem nossos pés
E jornais nos espaços vagos;
As batidas dos chuvaréis
Nas chaminés e nos olhos-mágicos quebrados,
E numa esquina de corcéis
Uma montaria solitária bafeja, trota e avança.
E a lâmpada suas luzes lança.

Edouard Manet
   II

A manhã toma consciência
Das vertigens do cheiro de cerveja
Que vem da rua de serragem batida
Com as pegadas de todos os pés enlameados
Até as primeiras cafeterias.

Junto dos outros mascarados
É que o tempo recomeça,
Pensa-se que todas essas mãos
São, numa centena de quartos mobiliados,
Emergentes tons sombrios.


     III

Um cobertor da cama agitaste,
Caíste de costas, e aguardaste;
Adormeceste, e observaste a noite que revelava
Um milhar de imagens sórdidas
Do que tua alma foi formada;
Contra o teto eram arremessadas.
E quando todo mundo retornou
E entre as venezianas deslizou a claridade,
E você ouviu os pardais nas calhas da cidade,
Tiveste uma visão da rua
Como se frases por ela fossem compreendidas;
Sentado numa parte da cama, onde
Curvastes papéis que teu cabelo esconde,
Ou agarraste dos pés a amarela sola nua
Nas palmas de ambas as mãos encardidas.



Paul Cézanne
     IV

Pelos céus a alma se estendeu dando pequeninas
Voltas que passam por trás de um muro,
Ou esmagou-a uns pés insistentes
Quando marca quatro e cinco e seis o relógio duro;
E dedos curtos preenchendo os cachimbos,
E os jornais da tarde, e as retinas
Certos de certas certezas,
A consciência de uma rua decadente
Sem paciência para apropriar-se do mundo.

Sou movido por sonhos que se curvaram
Em volta dessas imagens, e prendendo:
A noção de algo infinitamente gentil
Algo infinitamente sofrendo.

Limpe a mão sobre a boca, e ria;
O mundo gira, em órbita, como anciãs
Juntando combustível em espaços vagos.

Trad: Raphael Soares

Se existe um motivo para alguem aprender inglês esse motivo chama-se Thomas Stearns Eliot. A poesia de Eliot é fora do tempo e do espaço. Eliot não é um poeta americano tampouco um poeta britânico, ao mesmo tempo que é ambos. A poética eliotiana se espelha no passado para a compreensão do presente, ao tempo que é em parte profética e/ou reformadora. Mas se há uma coisa magnífica nos poemas desse gênio é decerto a linguagem.

Parece até lugar comum falar de "linguagem do autor", mas quando esse escritor é Eliot isso se torna uma verdade fundamental. Eliot possui uma linguagem bastante "a-poética", sem exageros, sem rebuscamentos, sem belas imagens. A estrutura sintática de Eliot é pouco marcada, direta, quase ao ritmo da fala normal, sua escolha lexical é simples sem rebuscamentos, até mesmo as rimas dos seus poemas quase somem em uma declamação, já que a maior parte delas são compostas em cima de enjambements, e aparentam rimas ocasionais da fala quotidiana.

De acordo com o que foi exposto, minha principal preocupação ao i-traduzir Eliot foi tentar manter essa linguagem mais natural possível, principalmente no nível lexical, e na medida do possível no nível sintático. Lastimavelmente, as rimas algumas vezes me obrigaram a inserir inversões indesejadas. Outras vezes as rimas estavam criando um rítmo que destoava da poética eliotiana, e para evitar isso coloquei algumas rimas "imperfeitas" (como vagos/quebrados ou insistentes/decadente/sem), pois achei assim melhor. Tentei em alguns casos recriar a sonoridade marcada de alguns versos (como Of faint stale smells of beer/From the sawdust-trampled street), embora nem sempre no mesmo lugar (no caso citado: Com as pegadas de todos os pés enlameados/Até as primeiras cafeterias), sempre procurando manter o registro natural e sem rebuscamentos.

Alguns problemas apareceram e não tiveram uma solução satisfatória. Um deles foi "vacant lots", que é aquele pedaço de terra que não possui construções permanentes, ou seja, um terreno baldio, que traduzi para "espaços vagos" no primeiro prelúdio em decorrência da sonoridade com "quebrados", e tive de fazer o mesmo no 4º prelúdio, já que a mesma expressão apareceu novamente. Ainda no primeiro poema, tive de "aumentar" o sentimento de solidão do "cab-horse" (que foi vertido apenas como "montaria") criando uma "rua de corcéis". O pensamento que tive é de que a solidão é ainda mais forte quando não se está sozinho fisicamente, e como precisava de uma rima em "éis" ou "és" criei essa imagem. Não compromete o sentido do poema, mas dá um destaque maior para essa passagem. Tambem acrescentei o "avança", mas é um acrescimo menos problemático.

O segundo poema foi mais simples, e a única modificação importante foi a inversão entre o último e penúltimo versos, que troquei em decorrência da rima e porque não prejudicava o rítmo, além de que é melhor terminar o poema com um predicativo do sujeito do que com um complemento nominal. O terceiro poema me incomodou pelo uso da segunda pessoa. Primeiramente tentei usar o "você", mas não consegui manter por todo o poema e tive de mudar, o que acabou gerando um registro um pouco mais formal do que o do poema em inglês. Aqui em meu estado é comum usar o verbo na segunda pessoa, mas se mistura frequentemente com a terceira, o que não podia reproduzir no poema, então as duas opções (tu ou você) não soariam como quotidianas. Mudei também a posição de uma rima.

E por fim, o quarto poema. Esse foi o poema que mais fiz acréscimos (pequeninas e duro) e mudanças lexicais (relógio, retinas e decadente) em decorrência das rimas. Criei também (não intencionalmente) uma ambiguidade problemática que não existe no texto fonte ("Sem paciencia para apropriar-se do mundo") devido o uso da preposição "para". Mas dois problemas se destacam; o primeiro é a minha ignorância no ultimo verso "Gathering fuel" que verti quase literalmente para "Juntando combustível" (conferi a tradução de Ivan Junqueira que verteu para "juntando lenha", mas ainda achei estranho, de qualquer modo, lenha não deixa de ser um combustível, apesar de ser bem mais corrente em português); o segundo foi a quadra "Sou movido por sonhos que se curvaram/Em volta dessas imagens, e prendendo:/A noção de algo infinitamente gentil/Algo infinitamente sofrendo." que achei de muito mal gosto, quase infantil e que nada condiz com Eliot.

No geral tive bons resultados nos 3 primeiros prelúdios, mas sinto que o 4º deve ser reformulado (ou totalmente refeito). Espero que gostem dos poemas feitos por aquele que é, talvez, o maior poeta de língua inglesa.



Nota adicional (21/05/11): Outra observação que havia me esquecido: no primeiro poema há duas variações de uma palavra (Chuvaráis ~ Chuvaréis), que não são do português padrão culto. Quando traduzi estes versos, escolhi traduzi-los para o "meu" português (ou seja, o português do Pará), apesar de não abusar de expressões regionais. Dizem que no alasca os esquimós têm 10 palavras para descrever os tipos de branco, devido a quantidade de neve; paralelamente, no pará temos ao menos 7 palavras para descrever os tipos de chuva (chuva, chuvisco, toró, chuvaral [~ chuvarel] entre outros), então tomei a liberdade de usar um desses termos em suas duas variações, e acho que Eliot não se importaria. Não sei se esse termo é usado em outras partes do Brasil, mas independentemente, creio que pode ser facilmente entendido.

 Nota adicional (22/05/11): Também havia me esquecido de falar sobre o verso: "Como se frases por ela fossem compreendidas". Não foi um equívoco interpretativo, fiz essa mudança por vontade própria. Queria pegar o "clima" dos versos e do poema, e achei melhor inverter o direcionamento da imagem, e ao invés da visão da rua/como se ela dificilmente compreendesse, preferi dar uma ligação maior entre o observador e observado. Tá legal, tambem tinha que rimar com "encardidas" do último verso, mas não foi só a tirania das rimas que me fez trocar a direção da imagem, mas uma escolha pessoal.

domingo, 15 de maio de 2011

Δωρια - Ezra Pound

Esse poema aqui achei do fundo do baú. Foi o primeiro texto que não-traduzi, em Junho de 2010. Está vertido quase palavra-por-palavra e o resultado final não me agrada muito hoje. Algumas escolhas me parecem estranhas hoje, como usar "negro" (figurativamente) para Bleak e manter o Orcus da mesma forma, já que Orco é feio. De um modo ou de outro, segue o poema.

Δωρια - Ezra Pound

Be in me as the eternal moods
of the bleak wind, and not
As transient things are—
gaiety of flowers.
Have me in the strong loneliness
of sunless cliffs
And of gray waters.
Let the gods speak softly of us
In days hereafter,
the shadowy flowers of Orcus
Remember thee.



Δωρια - Ezra Pound

Ser em mim como o humor eterno
do vento negro, e não
Como as coisas transitórias são
alegrias de flores.
Ter-me na forte solidão
dos precipícios sem sol
e das águas cinzas.
Que os deuses sussurram sobre nós
nos dias que se seguem,
as flores sombrias de Orcus
lembram-se de ti.

Trad: Raphael Soares

terça-feira, 3 de maio de 2011

Ezra Pound - Phanopoeia

Vou deixar a continuação da minha explicação da i-tradução de Shakespeare para depois. Por enquanto mais uma i-tradução:

Phanopoeia

I
ROSE WHITE, YELLOW, SILVER

The swirl of light follows me through the square,
The smoke of incense
Mounts from the four horns of my bed-posts,
The water-jet of gold light bears us up through the ceilings;
Lapped in the gold-coloured flame I descend through the æther.
The silver ball forms in my hand,
It falls and rolls to your feet.

II
SALTUS
The swirling sphere has opened
and you are caught up to the skies,
You are englobed in my sapphire.
Io! Io!

You have perceived the blades of the flame
The flutter of sharp-edged sandals.

The folding and lapping brightness
Has held in the air before you.
You have perceived the leaves of the flame.

III
CONCAVA VALLIS
The wire-like bands of colour involute mount from my fingers;
I have wrapped the wind round your shoulders
And the molten metal of your shoulders
bends into the turn of the wind,

AOI!
The whirling tissue of light
is woven and grows solid beneath us;
The sea-clear sapphire of air, the sea-dark clarity,
stretches both sea-cliff and ocean.



Phanopoeia
I
ROSA BRANCA, AMARELA, PRATEADA

O redemoinho de luz segue-me pela praça
A fumaça de incenso
Sobe pelas quatro pontas dos pilares da minha-cama
O jato-d'água de luz áurea leva-nos através dos limites;
Girou na chama dourada, descendo pelo éter.
A prata esférica na minha mão
Cai e rola a teus pés.

II
SALTUS
A esfera rolando foi aberta
e és arrebatado para o céu,
Estás englobado em minha safira.
Io! Io!

Você percebeu as lãminas de fogo
A vibração das sandálias, lâminas-afiadas.

O brilho dobra e gira
Parou no ar antes de ti.
Você tem percebido as folhas de fogo.

III
CONCAVA VALLIS
O metá-lico adorno da envolvente cor ergue-se de meus dedos;
Envolvi o vento em volta de teus ombros
que curva ante o girar do vento,

AOI!
O turbilhante tecido luminoso
Solidifíca-se e cresce sob nossos pés;
A safira claro-mar de ar, a escuro-mar claridade,
Estende-se a ambos: precipício e oceano.

Trad: Raphael Soares

Não sou um grande leitor de Pound, e dentre os grandes poetas e escritores modernos da primeira metade do século, Pound é o que menos conheço.
Phanopoeia, poema do início da carreira de Pound, procura demonstrar um poema focado na fanopéia, ou seja, nas imagens. As imagens nesse poema se movem, para cima, para baixo, em círculo. O poema não se volta para a sonoridade nem para as ideias intelectuais, mas por esse movimento de imagens.

Dificuldade adicional: frequentemente Pound usa o hífem para separar (wirelike - wire-like) ou unir (sharp edged - sharp-edged) as palavras, e tentei fazer o mesmo, mas o resultado não foi como esperado. A falta de conhecimento do estilo poundiano me atrapalhou muito, o que não me deu muitas oportunidades de "recriação". Apesar disso, dentre os poucos poemas do poeta que conheço, esse é um dos que gosto, apesar de não compreendê-lo. Gosto da ideia do movimento das imagens.

Foi uma tentativa.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Introdução à tradução dos Sonetos de Shakespeare

Praticamente é impossível, nas traduções de qualquer língua para o português, preservar todos os valores do original. Formalmente, o metro nem sempre pode ser guardado, ou o ritmo; para conservar as rimas, tem-se, muitas vezes, de parafrasear ou resumir o pensamento do autor. Traduzir é, antes do mais, compreender; mas ninguém pode garantir que nossa compreensão do texto seja exata ou ainda a única exata. Ainda que o fosse, não se poderia respeitar, escrupulosamente, a sonoridade das palavras, nem as evocações que essas palavras despertam com sua simples sonoridade. Traduzir é assim recriar, empreender uma aventura de compreensão e reexpressão de determinado texto. Não há traduções exatas; há, isto sim, reexpressões algumas vezes felizes de textos estrangeiros.(SHAKESPEARE, 2008, p.9)
 Com essas palavras Péricles Eugênio introduz as suas traduções dos sonetos. O tradutor explica de forma clara e simples as dificuldades inerentes do ato de traduzir (ou reexpressar, ou transcriar, ou recriar, ou transladar, ou i-traduzir, ou intraduzir ou o como você quiser chamar o ato tradutório voltado à poesia).

Shakespeare simplesmente é um dos autores mais traduzidos do mundo, apesar da primeira tradução integral direta tenha se dado apenas em 1933, as traduções vêm crescendo ano a ano (MARTINS, 2010, p.49). Os sonetos, ao que me consta, foram traduzidos para a língua portuguesa parcialmente pelo menos 7 vezes (Péricles Eugênio, Ivo Barroso, Bárbara Heliodora, Faça Você Mesmo [org:Jorge Furtado], Diego Raphael, Ênio Ramalho e Renata Cordeiro) e há pelo menos mais 6 traduções integrais (Jorge Wanderley, Jerónimo de Aquino, Tereza Christina, Vasco Graça Moura, Oscar Mendes e Milton Lins), afora traduções isoladas (como o 47º por Elson Fróes, 1º e 17º por Fabrício Souza, I e V e X por mim e inúmeras outras espalhadas por aí). O maior problema ao traduzir Shakespeare não é literário (na verdade, também é literário), que é o "peso" de se traduzir o grande bardo inglês. Por conta da sofisticada poética, imagética e forma dos poemas, convencionalmente se acredita que a tradução dos sonetos é uma ação (desde o início) fadada ao fracasso.

O PROBLEMA DA INTRADUZIBILIDADE DA POESIA
O maior problema da intraduzibilidade da poesia é quanto ao fato de que para a poesia ABSOLUTAMENTE TUDO é importante. A sonoridade, ritmo, metro, imagens, disposição gráfica, estrutura sintática, repetições e muitos outros fatores são absolutamente essenciais. Um exemplo claro é a poesia "Soneto do Amor Total" de Vinícius de Morais, onde a repetição das consoantes nasais e vogais nasalizadas gera um efeito que auxilia a interpretação poética. O mesmo ocorre com as "Vogais Sem Valor" de Pinagé, onde a falta de uma vogal em cada poesia é importantíssimo para a própria construção semântica. Muito costuma se discutir se uma tradução deve ser "puramente semântica" ou "puramente formal". Eu, pessoalmente, com a ousadia de alguem que não é estudioso da tradução, considero essa discussão completamente sem propósito. Se tranpor apenas a "forma", perde-se o sentido e a obra deixa de ser tradução e se transpor apenas o "sentido", o próprio sentido se perde, pois o sentido também está contido na forma. Forma e sentido não podem ser separadas na poesia, e devem ser traduzidas juntas.

Mas aí vem um problema grave. É teóricamente impossível realizar uma tradução onde TODOS os elementos correspondam-se perfeitamente idênticos ao do "original", e em contrapartida, sempre uma tradução contem um "sentido" que não havia originalmente. Se pensar-mos bem, isso acontece na própria língua, por exemplo, os sinônimos nunca são perfeitos, portanto, como dizer que Death e Morte são exatamente a mesma coisa? Isso toma proporções ainda mais graves quando o mesmo conjunto sonoro (significante) está em jogo: a palavra "seca" para um paraense como eu (que nesci e cresci em volta de rios e onde chove todos os dias) não significa nem de longe o que significa para alguem do interior do nordeste ou de uma metrópole do sudeste brasileiro.

Divagações e mais divagações não resolvemos a pergunta fundamental: é possível traduzir poesia? Alguns acham que não, outros que sim, outros que não e sim. O mais importante são as implicações da resposta: se não é possível traduzir poesia, por quê traduzí-la? E mais importante ainda: se é possível apenas atingir um gral imperfeito na tradução poética, todas as traduções são inferiores ao "original", o que para mim (como para toda uma teoria da literatura contemporânea) não faz o menor sentido. A tradução de poesia, é por conseguinte poesia, e portanto possui um valor como poesia, e logicamente é tão poesia quanto o "original". Sendo poesia, a tradução poética está sujeita aos mesmos critérios de valoração que toda a obra literária (e por conseguinte, as traduções brasileiras são uma parte da literatura brasileira, não das literaturas originárias do texto-fonte), então tanto uma tradução pode ser "inferior" quanto "superior" no julgamento subjetivo de um crítico.
O público espera dos profissionais da literatura que lhe digarn quais são os bons livros e quais são os maus: que os julguem, separem o joio do trigo, fixem o cânone. A função do crítico literário é, conforme a etimologia, declarar: "Acho que este livro é bom ou mau"..[...] A crítica deveria ser uma avaliação argumentada. Mas as avaliações literárias, tanto as dos especialistas quanto as dos amadores, têm, ou poderiam ter, um fundamento objetivo? Ou mesmo sensato? Ou elas nunca são senão julgamentos subjetivos e arbitrários, do tipo "Eu gosto, eu não gosto"? Aliás, admitir que a apreciação crítica é inexoravelmente subjetiva nos condena fatalmente a um ceticismo total e a um solipsismo trágico? (COMPAGNON, 2010, p.221)
Tradução como  reprodução "idêntica" de um texto-fonte de um signo para outro não existe, isso é fato tanto na tradução entre línguas como nas traduções na própria língua. Tradução é uma criação (ou re-criação), e portanto uma poesia nova. Fora a definição de "o que é poesia?", ainda temos "o que é uma boa poesia?" e por conseguinte "o que é uma boa tradução?". Todas essas perguntas são extremamente pessoais. Podemos responder de inúmeras formas à qualquer uma delas. (cf. WARREN & WELLEK,[s/d] e COMPAGNON, 2010). As vezes a falta dessa reflexão gera um pensamento que a pesquisa de SILVA (s/d) mostrou como comum pela crítica de tradução ao tratar-se dos sonetos:
O tradutor, unido à visão de seu ofício como algo incompleto por apresentar-se tardiamente à forma e ao  conteúdo  do  'original',  tornou-se  o  alvo  maior  das  inúmeras  críticas  perpetradas  pelos  defensores  e instigadores da ilusória sistematização do ato tradutório, decorrente da idéia de que duas línguas precisam ser equiparadas simetricamente para que a transposição de conhecimento seja completa. Com isso, o tradutor foi freqüentemente  relegado  (e  relegou  a  si  mesmo)  à  sombra  do  autor,  ao  anonimato  contundente  que,  ao mesmo tempo em que reflete a condição inferior e mecânica em face da genialidade autoral, procura anular sua  responsabilidade  perante  a  tradução  que  apresenta. O  tradutor  estaria,  enfim,  fadado  a  reproduzir  os significados autorais e manter-se alheio às  inevitáveis contribuições que  instala em  seu  texto,  sob a  forma  (nem sempre discreta) de interferências oriundas de sua formação discursivo-ideológica, de suas concepções de mundo e das repercussões provocadas pelas circunstâncias contextuais mais imediatas. [...] Desta forma, seguindo a noção tradicional, se se considera a tradução como busca de equivalências – tanto de forma quanto de conteúdo – entre as línguas envolvidas, então traduzir poesia consiste em procurar repetir  a  mesma  associação  acima  citada  na  língua  de  chegada;  em  última  instância,  tal  tarefa  implica equacionar  unidades  de  som  e  sentido  a  fim  de  configurar uma  significação  ao mesmo  tempo  distante  da linguagem  coloquial  e o mais próxima possível daquela  supostamente pretendida pelo  autor do  ‘original’. Todavia,  esta  tarefa  esbarra  tanto  na  assimetria  entre  línguas  quanto  na  condição  inferior  conferida  ao tradutor, o qual não deteria uma habilidade poética a ser equiparada à do gênio criativo. (p.1274)

CONTRA UMA ANÁLISE OBJETIVA DA TRADUÇÃO
Há duas coisas que me incomodam na proposta de análise objetiva da tradução proposta por Paulo Henriques Brito. Em seu artigo "É Possível Avaliar Traduções" Paulo Henriques argumenta de forma brilhante sua proposta, entretanto, ao ver alguns exemplos de aplicação chego à conclusão que essa "Análise Objetiva" na verdade trata-se de critérios fenomenológicos para uma análise subjetiva padrão. Não há objetividade na proposta de Paulo Henriques, da mesma forma que criar critérios e notas (como 0 a 10 em performance, criação, inovação e beleza por exemplo) não torna uma avaliação de poesia (em um concurso por exemplo) objetiva.

A proposta é simples: é como um placar, onde todas as omissões, acrescimos, inversões sintáticas, variações rítmicas são "pesadas" e dispostas como um "placar". Também temos os níveis de correspondência, que vai do mais geral ao mais específico. Entretanto, o próprio sentido de "corresponder" se torna um pouco problemático. Voltando-se para o caso Shakespeare, seria mesmo o decassílabo o "correspondente" mais próximo do "pentâmetro jambico", já que Tristão da Cunha considera o verso livre mais próximo do rítmo do "pentâmetro jâmbico". Além disso, tradicionalmente o verso decassílabo não possui acentos na 5º nem na 7ª sílaba, consideraríamos essa norma? Outra coisa importante é que os poemas em língua portuguesa possuem muito mais inversões do que os versos em inglês (devido a estrutura das línguas), então seria "correspondente" uma tradução com mais inversões? Quem julga isso?

Claro, os pesquisadores que seguem essa metodologia declaram que "ainda que fatores subjetivos possam intervir no estabelecimento de graus de correspondência, o fato é que a proposta aqui discutida proporciona a obtenção de dados mais concretos, o que, por sua vez, possibilita quantificar, de algum modo, os juízos de valor." (CAMPOS, s/d, p.7-8) entretanto a coisa é menos objetiva do que parece, pois o sistema de "placar" é totalmente subjetivo. Os casos precisam ser analizados separadamente, e o pesquisador decide o que é uma omissão ou acréscimo "relevante" ou o que é uma alteração lexical que causa um efeito grave. Exemplos:
- As mudanças feitas pelo tradutor [Ivo Barroso] não descaracterizaram a imagética do poema [Soneto1] (LANDSBERG, p.2)
-O acréscimo [de Wanderley] , porém, não destoa totalmente do original (LANDSBERG p.2)
-Embora  [Wanderley] acrescente três elementos, eles não causam alterações no significado do soneto [XV]. (LANDSBERG p.3)

Além disso, uzando a mesma metodologia duas pesquisadoras chegam a diferentes conclusões: LANDSBERG afirma que a tradução de Ivo Barroso é a mais "fiel", enquanto CAMPOS afirma que a maior fidelidade está em Jorge Wanderley. Usando os mesmos dados que LANDSBERG ao analizar o Soneto XV tiro outras conclusões (no sentido da "objetividade" proposta): a tradução mais "fiel" seria a de Péricles Eugênio que contém apenas 2 omissões e 3 acrescimos (um de um termo quase elíptico, passível de explicação e outro uma partícula sem significação nenhuma), contra 5 omissões e 3 acrescimos de Wanderley e 13 omissões e 3 acrescimos de Barroso, embora as alterações sintáticas são muito mais frequêntes em Péricles Eugênio, mas que devido a "correspondência" (o fato de um poema em português conter mais inversões que um em inglês) pode ser justificado. Então temos 3 julgamentos completamente distintos seguindo um mesmo critério "objetivo".

Não me entendam mal, não sou contra o método de Paulo Henriques Brito, muito pelo contrário, acho-o interessantíssimo, e foi a pesquisa dele que guiou algumas (muitas) de minhas escolhas i-tradutórias. A resalva é apenas essa: o método não é nem de longe objetivo! O método de Brito é um excelente método de avaliação, e ele nos guia uma análise crítica subjetiva. É um guia objetivo para uma crítica subjetiva. Ainda falta eu dizer a segunda coisa que me incomoda nesse método, que é o "valor". A ideia central desse método é de que o texto base é 100%, e a tradução é sempre imperfeita, uma determinada porcentagem da base, e sempre a tradução será menos do que o "original", e também não considera, dentre as traduções, qual é o melhor poema. Apesar de me incomodar com esse ponto de vista, compreendo-o, pois desconsiderá-lo abalaria o sistema que propõe-se objetivo, pois apenas a subjetividade pode definir o "valor" de um poema como "bom poema" ou "mau poema".

PRINCÍPIOS TEÓRICOS
Meu objetivo ao traduzir Shakespeare foi o de apresentar o "meu Shakespeare", apesar de, reconheço, minha habilidade poética sem nitidamente inferior dos grandes poetas-tradutores Ivo Barroso e Péricles Eugênio. Possuo uma visão de Shakespeare e tentei criar esse Shakespeare que imagino em português. Tentei, claro, criar 3 bons poemas em português, embora não sei se obtive exito. Procurei ser fiel mais a minha visão de Shakespeare do que às palavras, o que nem sempre consegui, e se errei não errei intencionalmente, apesar de inúmeras escolhas pouco tradicionais, escolhas essas que ainda irei explicar. No próximo post vou falar dos problemas que encontrei ao i-traduzir os sonetos de Shakespeare, desde a escolha dos poemas até os problemas formais e semânticos bem como os decorrentes da diferênça linguística inglês-português, e posteriormente falarei das soluções encontradas.


BIBLIOGRAFIA
CAMPOS, Giovana Cordeiro. Avaliação de Tradução Poética: Um estudo de caso. s/d. Disponível em: <>. Acesso em 12/04/11.
COMPAGNON, Antoine. O Demônio da Teoria: Literatura e senso comum. Trad: Cleonice Paes Barreto Mourão e Consuelo Fortes Santiago. 2ª Ed. Belo Horizonte: UFMG, 2010, 292p.
LANDSBERG, Débora.  Os Sonetos de Shakespeare: estudo comparativo das perdas e ganhos das diferentes estratégias tradutórias. s/d. Disponível em: <>. Acesso em 12/04/11.
MARTINS, Márcia A.P.. Sotaque Brasileiro. in:  AGUIAR, Josélia (Ed.). 7 Clássicos Ingleses. São Paulo: Duetto, 2010, 128p. (Entre Livros; v.1)
SILVA, Gisele Dionísio da. Critica às Traduções Brasileiras dos Sonetos de Shakespeare: Uma reflexão sobre a noção de intraduzibilidade poética. s/d. Disponível em: <www.filologia.org.br/ileel/artigos/artigo_499.pdf>. Acesso em 12/04/11.
SHAKESPEARE, William. Sonetos. Trad. e notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos. Ed. Bilíngue. São Paulo: Hedra, 2008, 103p..
WARREN, Austin e WELLEK, René. Teoria da Literatura. Trad: José Palla e Carmo. 5ª Ed. Portugal: Publicações Europa-América, [s/d].

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sonetos I, V e X de William Shakespeare

SONNET 1

From fairest creatures we desire increase,
That thereby beauty's rose might never die,
But as the riper should by time decease,
His tender heir might bear his memory:
But thou, contracted to thine own bright eyes,
Feed'st thy light's flame with self-substantial fuel,
Making a famine where abundance lies,
Thyself thy foe, to thy sweet self too cruel.
Thou that art now the world's fresh ornament
And only herald to the gaudy spring,
Within thine own bud buriest thy content
And, tender churl, makest waste in niggarding.
    Pity the world, or else this glutton be,
    To eat the world's due, by the grave and thee.


Shakespeare, William. Sonnet 1. Ed. Amanda Mabillard. Shakespeare Online. 20 Aug. 2000. (Acesso em: 14/04/11) < http://www.shakespeare-online.com/sonnets/1.html >.


SONNET 5

Those hours, that with gentle work did frame
The lovely gaze where every eye doth dwell,
Will play the tyrants to the very same
And that unfair which fairly doth excel:
For never-resting time leads summer on
To hideous winter and confounds him there;
Sap check'd with frost and lusty leaves quite gone,
Beauty o'ersnow'd and bareness every where:
Then, were not summer's distillation left,
A liquid prisoner pent in walls of glass,
Beauty's effect with beauty were bereft,
Nor it nor no remembrance what it was:
    But flowers distill'd though they with winter meet,
    Leese but their show; their substance still lives sweet.

Shakespeare, William. Sonnet 5. Ed. Amanda Mabillard. Shakespeare Online. 20 Aug. 2000. (Acesso em: 14/04/11) < http://www.shakespeare-online.com/sonnets/5.html >.


SONNET 10

For shame deny that thou bear'st love to any,
Who for thyself art so unprovident.
Grant, if thou wilt, thou art beloved of many,
But that thou none lovest is most evident;
For thou art so possess'd with murderous hate
That 'gainst thyself thou stick'st not to conspire.
Seeking that beauteous roof to ruinate
Which to repair should be thy chief desire.
O, change thy thought, that I may change my mind!
Shall hate be fairer lodged than gentle love?
Be, as thy presence is, gracious and kind,
Or to thyself at least kind-hearted prove:
    Make thee another self, for love of me,
    That beauty still may live in thine or thee.


Shakespeare, William. Sonnet 10. Ed. Amanda Mabillard. Shakespeare Online. 20 Aug. 2000. (Acesso em: 14/04/11) < http://www.shakespeare-online.com/sonnets/10.html >.




I
Aos mais belos, o desejo é multiplicar.
Assim, nunca vá à morte a rosa da beleza,
Mas o tempo, vil, tende a tudo devorar,
Seu herdeiro a ostentará, fará a gentileza;
Mas tu, somente aos próprios olhos 'stás voltado,
Em fogo e ímpeto, a ti mesmo devoras,
Faz da abundância um lar à fome fadado,
Vil vilão de ti, contra ti guerras imploras;
Tu, agora és magnífica jóia do mundo,
Somente a anunciar a etérea primavera,
Enterrando o próprio botão, ao chão profundo,
Sovina, a avareza cresce como hera.
   Apiede-se do mundo, ou sede seu glutão,
   Comer o que é devido, por ti e o caixão.


Trad: Raphael Soares
V
As horas que enquadraram com gentil demanda
O olhar amante onde todos os olhos somem
Brincarão com os tiranos, união infanda,
E imbelamente o belo evade-se do homem;
Pois o tempo infatigável arrasta lento
O verão sobre o inverno, quando o devasta,
A seiva congelada, as folhas ao relento,
E a árida beleza escondida em neve vasta.
Se não é a essência restante do verão
Um líquido em muros de vidro aprisionado,
Da beleza o efeito à beleza deverão,
Nem ela nem nada relembrará o seu fado.
   Mas as flores destilaram, e à aridez
   Perecem, mas ressurgem em sua fluidez.


Trad: Raphael Soares
X
Que vergonha! Negas que pode amar a alguém,
Tu, que contra o próprio ser és tão imprudente.
Desejas ser tão amado por muitos, sem
Contudo amar ninguém, isso é muito evidente;
Pois está pelo ódio assassino possuído,
Que não hesita tramar contra o próprio ser,
Visando aruinar o nobre lar construído
Enquanto desejava apenas o erguer;
Oh! Mude o teu pensar para que eu mude o meu!
O ódio por acaso é mais viável que o amor?
Sede gracioso e gentil como o talhe teu,
Gentil ao menos ao próprio ser, vim propor:
   "Faze prole, se me tens amor" - repeti -
   "Para que a beleza viva, nos teus ou em ti."

Trad: Raphael Soares

Devido minha ousadia de I-traduzir Shakespeare, vou precisar de ao menos mais 3 posts para explicar minhas escolhas. Não vou postar qualquer outra I-tradução até me explicar completamente.