Mostrando postagens com marcador Análise. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Análise. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 21 de junho de 2023

ChatGPT e o estudo de Latim

 Desde que o chatbot ChatGPT foi lançado em novembro do ano passado, muito se tem discutido a respeito de sua potencialidade e capacidades em diversas áreas. No meio dos estudos clássicos muitos ficaram impressionados com a capacidade de conversação do mesmo em latim (seja lá o que isso signifique), e diversos professores de latim no facebook e no reddit se sentiram ameaçados por essa capacidade, mas será há risco da AI superar o latinista humano? Muitas áreas que foram abaladas pelo hype do ChatGPT têm demonstrado cada vez mais que usar ou confiar no chatbot é mais detrimental que benéfico, e como seria essa situação no meio dos estudos clássicos ou mesmo conhecimento básico de latim? Passei uns dois dias "brincando" com o ChatGPT (geralmente em inglês) e cheguei a algumas conclusões e fiz algumas descobertas interessantes... Mas primeiro, um comentário que fez eu me interessar pelo chatbot primeiro:


Essa imagem foi postada no Facebook ou no Reddit por alguém que se impressionou pela AI... A princípio, a questão é uma simples que envolve dois fatores de resposta, um "objetivo" (o que a frase latina quer dizer) e um "subjetivo" (que imagem 'criativa' ela evoca ou lembra). Na primeira parte o significado é basicamente copiado da internet e completamente padrão, na segunda, que teoricamente é a principal competência do chatbot, a resposta é banal, mas correta.

Contudo, basta prestar um pouco mais atenção que vemos um grande problema: a PERGUNTA é o que "aequam seruare mentam" significa, e aqui há um erro de digitação (mentam = menta, e não mentem = mente) que o chatbot não só não percebe (pois o repete), mas ainda assim traduz da frase mais tradicional. Isso deve ocorrer porque, como se desenvolve via machine learning, busca como construir a frase/resposta mais provável, por etapa. O mesmo fenômeno, com alguns caveats interessantes ocorre quando eu perguntei o sentido de uma palavra em Catulo:

Para ser 100% honesto, a pergunta em questão não é das mais fáceis. Muitas pessoas tem debatido o sentido exato da palavra maria no poema (que eu traduzi aqui), se é que tem algum sentido e ela não deva ser removida. Contudo, a própria complexidade da questão garante que há muitas respostas aceitáveis, e não é difícil achar uma no google.

Contudo o ChatGPT impressiona pelo fato de que é quase impossível achar uma resposta mais errada que essa. Em primeiro lugar, o poema que contém a linha "atque in perpetuum, frater, aue atque uale" é o poema 101, não 115, mas de modo similar que a resposta anterior, ele simplesmente buscou o poema mais famoso do poeta e, partindo do mesmo passou a responder como se eu tivesse perguntado a respeito da última linha ("the line in question", eu não perguntei por linha específica, mas pela palavra).

Mas não é a única coisa reveladora a respeito dessa resposta, pois o poema 101 só tem 10 linhas, e portanto não pode ter o verso de número 13. Uma busca rápida na wikipedia, mostra que por causa da tabela ser pequena três linhas são divididas nos versos 1, 5 e 7, que é provavelmente como o ChatGPT chegou ao número 13, buscando o poema a partir da wikipedia. Por fim, termina com a explicação da palavra maria e dá uma interpretação questionável do uso da água no poema (que é razoável como simbologia per se, mas não cabe no poema 101, muito menos no 115, em que maria não pode significar mar), mas nos revela outra coisa sobre o chatbot: o ChatGPT só consegue "pensar" em inglês, pois embora os "mares" (en: seas) são mencionados no poema, e maria significa mares, o termo que Catulo usa no poema 101 com esse sentido é aequora.

Má lógica, respostas chutadas ou simplesmente fingir que algo não existe são uma praga quando vamos perguntar coisas referentes aos clássicos, mesmo em casos que o próprio programa sugeriu que fizéssemos certas perguntas:



Aqui nos deparamos com exemplos clássicos. No primeiro caso é simplesmente má lógica: se Catalepton XIV não é de Virgílio não há paralelos textuais entre eles (a resposta para a questão é facilmente encontrada no google), o que não só é falso, mas é o cerne dessa questão, já que os paralelos são tão gritantes, diretos e não característicos de Virgílio que é a principal razão pela qual os críticos não reconhecem a autoria. No segundo caso é ainda mais interessante, pois logo após perguntar dos paralelos no Catalepton o Chatbot sugeriu perguntar de outros autores, e ao questionar em relação a Valério Flaco a AI responde primeiro outra coisa, e ao ser pressionada finge que paralelos não existem (ao tentar perguntar de livros específicos da Punica de Sílio Itálico o ChatGPT simplesmente inventou paralelos inexistentes)...


Essa questão foi para testar qual acervo o ChatGPT usa para adquirir vocabulário, pois há um erro clássico no Lewis and Short, que interpreta incorretamente livor num poema de Tíbulo para justificar a interpretação tradicional de Juvenal (e, por isso, eu questionei nos dois poemas). Na primeira tentativa, o ChatGPT apresenta um verso sem qualquer relação com o poema mencionado. Quando eu pergunto a respeito do poema de Tíbulo a resposta é ainda mais surpreendente. Ao copiar a passagem de de Tíbulo a AI simplesmente chuta o poeta e poema (por ser uma elegia amorosa, Ovídio é o chute mais provável), como meus estudantes do EM fazem, mas não apenas isso, como traduz a passagem inteira errando especificamente e exclusivamente o sentido da palavra liuor (que aqui é a marca vermelha do chupão/mordida)... Nesse sentido, o ChatGPT até parece um pouco humano, pois aparenta ser como certos alunos terríveis que já tive e tenho...

Questões difíceis, obviamente, ele não responde, só finge responder. A AI sabe o que é uma conjectura, sabe o que deve fazer e alega apresentar uma, mas apresenta exatamente a mesma passagem, não dando resposta nenhuma.

Esse é um caso mais simples, mas que possui algumas respostas erradas facilmente disseminadas (inclusive em dicionários, como no Lewis and Short), mas embora é esperado que a AI erre, aqui é mais um equívoco espetacular. Novamente, a citação é estúpida e inventada, a referência falsa, e stellas significa as estrelas, não a constelação ou as constelações, mesmo que o verso faça referência às ursas (não apenas a maior, como propõe a tradução). Tudo errado, novamente.

Terminando as perguntas clássicas e me focando em linguagem e tradução posteriormente, aqui é só um exemplo de quão péssimo é a capacidade da AI de adicionar macrons e compreender a quantidade das sílabas em latim. Ditongos marcados como breves, as mesmas palavras com diferentes quantidades silábicas nos dois quadros... Uma zona...



Duas coisas o povo comenta que é boa a capacidade do ChatGPT: tradução de e para o latim, e produção de texto em latim... Quem me conhece sabe que conversação em latim não me interessa, então nem vou me dar ao trabalho de comentar, apenas recomendaria evitar o uso do chatbot e não se impressionar com o nonsense produzido por ele... Mas tradução me interessa significativamente.

Os primeiros problemas óbvios são notados quando pedimos para traduzir um texto clássico. O ChatGPT apresenta uma tradução e posteriormente um comentário apontando a "teoria da tradução" por trás dessa execução. Há três tipos gerais de tradução:

1º) Puro e simples plágio. A tradução é a do Fairclough para a loeb (no passado o ChatGPT usava Dryden... talvez era óbvio demais, já que o programa é incapaz de versificar de modo apropriado), e a teoria não bate com o projeto do tradutor original, de servir de suporte para a leitura do texto latino.

2º) Aparentemente não plágio, mas o poema inteiro é perdido, já que a estrutura do poema, bem como toda a semântica da segunda parte, não batem. A "teoria" diz que tenta pegar o tom provocativo e até obsceno do original, mas mesmo a primeira metade (que meio que traduz o poema original) é pesadamente bowdlerizada e não bate com a teoria proposta.

3º) Não encontra o texto de referência e inventa qualquer coisa... Ao menos o ChatGPT sabe que Paulino de Nola é cristão...

------------

Produção original e tradução de passagens modernas não ficam muito atrás. Eu quase dou crédito ao ChatGPT por fazer um dístico em que ao menos o primeiro verso quase escande como hexâmetro:

Mas a questão de qual palavra no genitivo os adjetivos simplicis e fragilis modificam, de modo que o latim é incorreto e a tradução tenta lidar com isso. Tentar traduzir do português para o latim até que não foi a pior, exceto por algumas escolhas ruins de vocabulário e o péssimo duplo genitivo em "capituli negationum":

Então tentei ver se ele conseguia fazer algo menos pior que a tradução do Mark Walker para O Hobbit (Hobbitus ille):

Todos os problemas originais permanecem, fora o fato de abuso de genitivo e duplo genitivo incluindo um que não consigo entender (secundae editioni patri) e um completamente errado (Tookorum)... Aparentemente, ele mantém o câncer neo latino de não saber que segunda edição é editio altera, ou saber que a gíria inglesa existe em latim e é factura simile...

Enfim, o ChatGPT não só não é uma ameaça para os latinistas, como provavelmente não ajuda muito os estudos da língua, por qualquer pessoa interessada na cultura, na língua ou em perguntas difíceis. Tudo o que foi apresentado aqui como nonsense possui resposta relativamente fácil de achar no google (exceto a conjectura no Culex), de modo que mesmo como ferramenta de busca para classicistas a AI se mostrou inferior. Ela, contudo, é notável em ter convicção e capacidade de persuadir no erro, o que torna ela uma ferramenta ainda pior de estudo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Antilogia i-tradutória da poesia latina tardia [pt. 3] - Poetas "Pagãos", pt.2

Primeira Parte [Anônimos], Segunda parte [Pagãos]


Os últimos séculos da antiguidade foram uma época predominantemente cristã e com a maior parte dos escritores sendo cristãos e escrevendo em temática cristã. De certo modo, apenas Ausônio e Claudiano são "escritores maiores" da literatura secular tardia (um terceiro, Dracôncio, escreveu tanto poemas cristãos como poemas profanos, e ambas as obras tem seu próprio status de literatura "maior"... porém não vou falar dele aqui), enquanto os outros escritores ou escrevem traduções/adaptações (como Aviano e Avienio) ou tem um corpus muito pequeno para ser avaliado.

De fato, a grande dificuldade de se falar desses escritores menores é a dificuldade em poder compreender o fenômeno histórico ou mesmo o valor desses poetas baseado numa representatividade tão limitada em tamanho e proporção. É, de fato, difícil até mesmo compreender o que a palavra "menor" significa em contexto da poesia romana. Eles são "menores" unicamente porque o corpus sobrevivente é minúsculo e de difícil comparação, e sabemos de modo muito claro que o destino da sobrevivência dos clássicos deve-se ao capricho da fortuna, e não ao valor intrínseco das obras. Catulo, as Silvas do Estácio, quase não sobrevivem, Juvenal chegou a ser esquecido e mutilado, e nenhum historiador sobreviveu intacto, e conhecemos o nome e eventualmente meia linha de diversos "grandes autores" que pereceram. Aparentemente faria algum sentido pressupor que o que sobreviveu foi o melhor a que os copistas tinham acesso, mas "melhor" é questionável, e o "acesso" variava drasticamente particularmente no período tardio, e a grande verdade é que a sobrevivência dos clássicos se deu majoritariamente por acaso. Willis coloca isso muito bem:

Que a seleção e sobrevivência [dos clássicos] foi largamente acidental é facilmente observada. A imagem de uns poucos e notáveis ápices restantes de um continente afogado é romântica, mas falsa: alguém deve pensar mais em um terremoto que com sublime imparcialidade poupou aqui um palácio, ali um chiqueiro. Se aceitaria mais calmamente a perda de Ênio se não se tivesse todo Silius Italicus; Thyestes de Seneca meramente insulta nossa dor pela perda daquele de Varius. A obra em que Lívio devotou sua vida é preservada naquelas partes em que o queremos como guia em menor grau, e perdidas onde precisamos dela ainda mais. A obra de homens totalmente desconhecidos frequentemente sobreviveu - Manilius, Calpurnius Siculus, Solinus - e obras de autoria quase incerta - o Aetna, o panegírico sobre Messala, o Historia Augusta.

Aqui eu não vou ser completamente apressado em me juntar ao coro que diz que, como Butler, diz que Silius Italicus é o autor do "pior épico já escrito", porque já disse algo similar sobre Ausônio e tive de morder a língua depois. Contudo em linhas gerais isso ainda é verdade: o que nós temos não representa necessariamente o melhor da literatura, e quando vamos para a literatura tardia, cujos autores sobreviveram de modo muito mais limitado, essa desproporção é ainda pior. Mesmo na "era de ouro" e "era de prata" devemos questionar o valor relativo do que sobreviveu; por exemplo Quintiliano nos dá uma lista de autores que devem ser lidos por serem o que mais representa o melhor da literatura latina, e Quintiliano é o mais próximo de um crítico literário da época, e a lista segue assim: Virgílio acima de todos (claro), Macer e Lucrécio (mas não pela formação do estilo), Varro Atacinus (não deve ser menosprezado a despeito de sua reputação), Ênio (pela antiguidade), Ovídio (apaixonado demais pelo próprio talento, mas merece louvor aqui e ali), Cornélio Severo (o primeiro livro... se tivesse escrito o resto do mesmo modo mereceria mais respeito), Serranus e Valério Flaco (que morreram antes de chegarem ao ápice), Saleius Bassus (que é talentoso, mas não ficou melhor com a idade), Rabirius e Pedo (se sobrar tempo), Lucano (excelente, porém mais para oradores e autores de prosa que para poetas). Deixando de lado a ausência completa de satiristas (Juvenal, Persio, Horácio) e dramaturgos, e Ovídio sendo o único representante da poesia elegíaca (aparentemente Quintiliano pensa que as elegias ovidianas devem bastar para o gênero inteiro... o que é difícil de desautorizar quando o comparamos com o Corpus Tibulliano e o estado de Propércio), o que chama atenção não é a ausência dos "grandes poetas" que conhecemos, mas a presença marcada de autores de obras que não sobreviveram: Macer, Varro, Cornélio Severo, Serranus, Bassus, Rabirius e Pedo sobrevivem apenas em nome e pequenas citações, Ênio apenas em fragmento, e mesmo Flaco quase desapareceu completamente. É impossível avaliar de modo correto e crítico quando grande parte do que é necessário para a avaliação simplesmente não existe. Por outro lado, algo como Liber Memorialis de Ampelius sobreviveu, o que prova que inutilidades estúpidas podem ser abençoadas pelo acaso e sobreviver à era clássica.

 Como avaliar, portanto, alguém como Servasius (ou Sebastus, ou Servastus... o nome Serbastus é falso, e foi ele que sobreviveu nos manuscritos), que sobreviveu com apenas dois excelentes poemas: De Vetustaste e De Cupiditate? Não temos seu nome corretamente, e ele nunca é mencionado por ninguém, e os dois poemas sobreviventes são muito bons. É um grande poeta que sumiu, como um Gonçalves Dias que sobrevive apenas com Canção do Exílio e Seus Olhos? Um poeta medíocre que teve sorte de escrever um ou dois poemas brilhantes, como O Redivivo de Bonifácio? Em última instância, o julgamento geral desse corpus é impossível.

Para essa postagem eu vou tentar falar sobre um grupo complicado em particular (os Poetae Novelli) e a partir daí alguns autores baseados em poemas ou passagens que me interessam, ou creio que podem interessar estudiosos, em particular: Luxórius, Namatiano, Servasius[?] e Avieno. Seria bom ter tempo para falar da tradição bucólica, ou alguns dos poemas mais famosos de autoria duvidosa (como Pervigilium Veneris, poemas do Appendix Vergiliana, os Centões) mas o escopo é muito grande e minha competência muito limitada; nem haverá tempo de falar de Dracôncio, que é um dos raros poetas que sobreviveram com um corpus significativo de obras tanto cristãs como profanas. Essa postagem é ainda mais desorganizada que as demais, e não vejo como poderia ser diferente.


Poetae Novelli (II-IV Séculos)

Durante muitos anos o estudo da literatura latina tinha um capítulo interessante sobre um suposto grupo, chamado Poetae Novelli, escrevendo entre o período entre Adriano e Marco Aurélio. Contudo, diferente do que ocorreu com os neotéricos do primeiro século A.C., os poetas caracterizados como Poetae Novelli não se relacionaram pessoalmente um com o outro (exceto por Florus e Adriano), e de fato pertencem a gerações diferentes. Sobre comentários gerais sobre o grupo e os problemas filológicos, uma leitura rápida seria "Albrecht, M. von. A history of Roman literature: From Livius Andronicus to Boethius with special regard to its influence on world literature. Vol. 2. 1997". Para mais discussão vão as edições de Silvia Mattiacci, de Edward Courtney (a de Blänsdorf não tem comentário), e o artigo mais detalhado do Cameron. O meu comentário, contudo, vai tentar chamar atenção para o quanto perdemos em não ter uma parte representativa desses autores.

A primeira coisa a notar a respeito desses poetas é o como eles sobreviveram, havendo um ou outro testemunho contemporâneo mas os fragmentos são transmitidos por nós por meio dos comentários dos gramáticos. Isso tem implicações difíceis de mensurar, porque gramáticos citam versos geralmente para apontar os elementos mais raros ou diferentes encontrados na poesia deles (ou, citam o modelo paradigmático, usualmente o primeiro encontrado no primeiro livro, como Diômedes citando um dístico paradigmático em Tíbulo [I. 1 1-2], ou Caesius Bassus citando o primeiro "pentâmetro" paradigmático em propércio [II. 1 2]), e como resultado os Poetae Novelli podem parecer muito mais diferentes (esquisitões, afetados ou inovadores, dependendo para quem se perguntar) nos fragmentos do que realmente são. Por outro lado, também vemos que muitas diferenças e inovações individuais não se destacam, não são aceitas ou mesmo não são percebidas pelos contemporâneos, de modo que muitas características distintas do período podem nunca ter sido registradas pelos gramáticos.

A segunda coisa a se ter em mente é que, embora não os temos hoje, os antigos leram e de algum modo apreciaram a obra desses poetas, e eles quase certamente foram uma grande influência posterior, e poderiam explicar parte da mudança de gosto entre o período de Juvenal e Ausônio (e, desconfio, Ausônio era mais "clássico" que os Novelli, e Claudiano ainda mais clássico; Dracôncio, Paulino e Venâncio vão anunciando o medieval). Ausônio leu certamente Annianus, que ele cita por nome, e aproveitou ao menos uma invenção métrica de Serenus (Parentalia 27 = Serenus 16; mas Ausônio toma uma liberdade extra, que pode ou não vir da fonte). Septimius Serenus era conhecido e admirado por Sidônio, e sobreviveu até pelo menos o século X sendo lido e copiado (um catálogo de Bobbio registra libros Septimii Sereni duos, unum de ruralibus, alterum de historia Troiana[...]). Eles não são um período e grupo de autores irrelevantes para a compreensão do desenvolvimento da história literária, e a perda desses poetas pode ser tão prejudicial à compreensão da literatura romana como se perdêssemos toda a literatura do século XIX e tentássemos olhar o século XX sob princípios do XVIII.

Algumas características que podemos observar do todo que temos:

1) entusiasmo pelo arcaísmo, ao mesmo tempo (paradoxalmente, ao menos em aparência) de busca por uma linguagem mais simples do rústico e do homem comum.
2) novas formas métricas inventadas, e possivelmente mesmo o uso de polimetria (cujos primeiros exemplos inequívocos que temos são de Ausônio, Paulino e da Bobiensia, mas que temos razões para crer que já eram prática usual).
3) preferência por diminutivos
4) expressão coloquial e até mesmo vulgar, multilinguismo. Geralmente usado para representar cenas do quotidiano ou situações sentimentais.
5) uso ampliado de neologismos, particularmente em Apuleio (tanto em prosa quanto em verso)
6) aparente desprezo pelo gênero épico (vários épicos sobrevivem do primeiro século, e muitos outros conhecemos de nome... contudo, do período entre Silius Italicus e Claudiano apenas um épico é conhecido, de Clemens sobre os feitos de Alexandre, e parece ser uma obra reacionária). Por outro lado poemas históricos, didáticos, diversas formas arcaicas restauradas foram preferidas, bem como gêneros poéticos novos.

Chega de nonsense, e vamos a alguns poucos versos, dos Novelli do século III em diante:

Alfius Avitus (prob. gov. 244-246), frag 1

marite, si sanguis Curis,
Sabina si caedes placet,
in me, oro, conuertas manus

Ó marido, se sangue Curis,
Sabina aplaca se mata,
em mim, oro, vire as mãos.
--- [Aqui vemos arcaísmo (no caso, falso) e coloquialismo simultaneamente. Curis aqui é singular significa Quiritis (cidadão sabino), em seu singular raro Quiris, que se pensava derivar de Cures, nome da cidade Sabina (etimologia duvidosa, no mínimo), e por isso usa a forma Curis singular jamais atestada; por outro lado, é coloquial o uso parentético de oro, que é bem mais popular que o já menos formal uso parentético de quaeso nas cartas de Cícero.]

Serenus (post-Avitus), frags 16 e 17 (17 e 16)

perit abit auipedis animula leporis
vidinha avipede da lebre parte de vez
----
animula miserula properiter abiit
vidinha, miserazinha, rápido sumiu.
--- [aqui estou presumindo anima abit uel perit contra homo uel bestia obit, que parece durar até o fim da antiguidade. Contudo, as citações dão ambas aqui, e Green edita "abiit" para uma pessoa (amita); de modo que a palavra final é abiit ou obiit.]

Trads: Raphael Soares


 

Luxorius (V-VI Séculos)
E chegamos a Luxorius, talvez o maior de todos os poetas menores. O autor com o maior número de poemas e maior espaço separado dentro da Anthologia Latina (nomeado. Há suspeitas de um corpus maior composto dos poemas 90-190 sendo de um único autor africano, mas não temos seu nome nem podemos confirmar definitivamente a teoria) é o poeta Luxorius, que contém um "Liber Epigram[m]aton" composto dos poemas 287-375 (Riese), além de um Cento (Epithalamium Fridi) e um poema esparso (203 Riese). Ainda assim, muitos críticos duvidam se sequer vale a pena ler a obra do autor ou estudá-lo, a despeito do momento importante em que escreveu, o reinado Vândalo sobre Cartago.

Avaliar Luxoris é um trabalho hercúleo por incontáveis razões: a obra inteira do poeta deriva de um único manuscrito (Parisinus Latinus 10318), manuscrito esse que é extremamente corrupto a despeito da idade (isso é demonstrado pela cópia de poemas que temos controle para ver a leitura correta, como os Centões e poucos poemas que temos tradição independente, como o Pervigilium Veneris... ele, contudo, não parece ter sido intencionalmente interpolado em nenhuma parte da transmissão dele, que parece ter se dado mais por uma sucessão de erros estúpidos), conhecemos muito menos da época e local em que Luxorius viveu que de qualquer outro período e local da antiguidade, e por fim algumas alusões e usos de linguagem se perderam completamente no tempo por não serem atestadas ou comentadas por nenhuma outra fonte (exceto, possivelmente no que diz respeito ao circus, em que outros poemas da Anthologia Latina parecem dar auxílio). O resultado é que Luxorius é quase sempre muito obscuro, e muitas vezes não dá para saber se a obscuridade é da referência, do estado do texto, ambas ou somos nós que somos burros e não conseguimos ver o óbvio.

No geral, Luxorius, ao menos pelo que pude ler, parece muito diferente de marcial. Ele é muito mais claramente cínico que o predecessor dele, ao invés de irônico, de modo que me lembra um pouco Heine. Por conta disso ele parece bem menos hilário, e mais alguém que dá uma alfinetada para um quase-riso que não sai. Algumas vezes ele claramente não está interessado em fazer rir, mas é difícil de entender qual o interesse dele.

Mas antes de apresentar minha tradução do que me interessou e eu consegui entender de Luxorius, eu quero mostrar as dificuldades inerentes da leitura do poeta, e o que eu não consigo entender. Se alguém quiser enfrentar a leitura do poeta, deve estar preparado para esses obstáculos. Segue um poema do manuscrito (o 4º), e eu vou por abaixo a transcrição completa dos 5 "primeiros" versos, expandindo apenas as abreviações.

De epigramata parva quod in hoc libro scripserit
si quis hoc nostro detra[h]it ingenio
adtendat modicis condimensibis annum
et faciles hiemis uiris et esset dies
Nouerit brebibus magnum dependere usum (
uel depende reusum)
altra mensuram gratia nulla datur

Desconsiderando de pronto as discrepâncias ortográficas (detrait=detrahit, brebibus=brevibus) e aceitando as duas correções de Salmásio (-mensibus e ultra), o texto ainda assim tem diversos problemas além de ser ilegível (quero dizer, eu consigo entender "ultra mensuram gratia nulla datur", que é "prazer/graça nenhum(a) e dado em/através de medida exagerada", que parece certo... mas o resto do poema não dá para ler), é óbvio há um verso faltando no início (o poema começa no pentâmetro, o segundo verso), e apenas o primeiro e o quinto verso escandem, já que os versos 2-4 são impossíveis de ler no metro correto. "Condimensibus" tem sido geralmente lido com "condi de mensibus" ou "concludi mensibus", o terceiro verso é difícil de ajustar em metro e sentido, e a recriação de Shackleton Bailey não ajuda (et graciles uerni temporis et esse dies... de fato, só uma estação tem os dias mais curtos, mas seria o inverno, não a primavera... assumindo que eu fiz minha lição de geografia corretamente sei que Cartago fica ainda no hemisfério norte). Boa sorte lendo o resto.

Outro poema que me interessou, pelo título, foi o 296 (In spadonem regium, qui mitellam sumebat), mas não importa quanto eu o tente ler eu não entendo ele nem qual é a dele, e não sei se é corrupção (ao menos capillo...crine me parecem corruptos, ou não sei qual a diferença), se obscuridade da referência ou se eu sou tapado... Enfim, aos poemas. Todas as traduções são minhas, embora valha dar uma espiada nas versões de Art Beck publicadas na revista Sibila (em inglês). O texto em geral segue Riese (evitei reler o poema 317, que me parece errado, e o 293 não tem problemas), contudo aceitei a conjectura rarus (em obeli) de Klapp (pensei em aceitar prauus de Riese, mas jamais castus de Sh. Bailey) e leio scire...ipsam como a maioria dos editores no poema 322 (embora eu faça uma tradução mais livre do sentido nos últimos versos... esses dois versos são bem complicados, e é possível que o poema esteja incompleto), e aceito graciles de Watt no poema 329.

293. De auriga Aegyptio qui semper vincebat
Quamuis ab Aurora fuerit genetrice creatus
Memnon, Pelidae conruit ille manu.
At te Nocte satum, ni fallor, matre parauit
Aeolus et Zephyri es natus in antra puer.
Nec quisquam qui te superet nascetur Achilles:
Dum Memnon facie es, non tamen es genio.
Sobre um condutor Egípcio que sempre venceu
Embora de Aurora mãe criado foi
Memnon, caiu por própria mão do Pélida
Se não me engano, a noite é tua mãe e de Éolo
Prole, Nato pra Zéfiras cavernas.
Não vai nascer pra superar-te algum Aquiles.
De Memnon tens a face, não o fado.

Trad: Raphael Soares

317. In puellam hermaphroditam
Monstrum feminei bimembre sexus,
quam coacta uirum facit libido,
quin gaudes futui furente cunno?
Cur te decipit inpotens uoluptas?
Non das, quo pateris facisque, cunnum.
Illam, qua mulier probaris esse,
partem cum dederis, puella tunc sis.

Para uma garota hermafrodita
Monstro bimembre em sexo de mulher,
Cuja libido em macho te compele,
Porque não gozas foda em tua cona?
Por que o prazer selvagem assim te engana?
Não dás boceta, que é aberta e quente.
Aquela parte (que é prova que és mulher)
Quando deres, menina então serás.

Trad: Raphael Soares

322. De eo qui uxorem suam prostare faciebat pro filiis habendis
Stirpe negata patrium nomen
non pater, audis;
rarus adulter
coiugis castae uiscera damnas,
pariat spurios ut tibi natos,
inscia, quo sint semine creti.
Fuerant forsan ista ferenda
foeda, Proconi, uota parumper,
†scire uel ipsam† si tuus umquam
posset adultus dicere matrem.
Sobre um homem que prostituiu a mulher para que tivesse filhos
Negado foste de ter tua estirpe
queres te ouvir pai; adúltero raro,
da tua casta mulher macula a carne,
para parir pra ti espúrios filhos,
ignorante de qual sêmen gerou.
Talvez essa nojeira tua fosse
suportável por um tempo, Procônio,
se o filho ao crescer pudesse então
dizer que ao menos sua mãe sabia.

Trad: Raphael Soares

329. In eum qui foedas amabat
Diligit informes et foedas Myrro puellas;
quas graciles pulcro uiderit ore, timet.
Iudicium hoc quale est oculorum, Myrro, fateri,
ut tibi non placeat Pontica, sed Garamas!
Iam tamen agnosco, cur tales quaeris amicas:
Pulcra tibi numquam, sed dare foeda solet.

Para um homem que amava as feias
Myrro ama meninas deformadas e feias;
quando vê belas e modestas, teme.
Que julgamento há em teu olhar, ó Myrro,
Que não te agrada Pôntica, mas Gárama¹.
Agora eu sei porque buscais estes partidos:
Bela se dar a ti, nah, feia talvez!

Trad: Raphael Soares

¹O poema conta com um estereótipo racial do que seria uma mulher bonita e uma feia, que devia ser claro para os leitores cartaginenses da época. O estereótipo da mulher bonita não é claro, pois não é muito claro se Pontica significa da costa (como sugere Pontus) ou é corrupção (Poenica, i.e. Púnica) ou de alguma cidade específica desconhecida, mas o estereótipo da feia é pontual, Garamas são mulheres da tribo Garamantes, que eram os Berberes da Líbia e Tunísia, e, diferente do que alguns tem assumido por ser tribo africana, os Berberes não eram negros (e, o próprio poeta representa elogiosamente a beleza negra, o que também se reflete em outros poemas da Anthologia). O estereótipo racial também tem ares de "manter-se romano" do fim da África (os Garamantes nunca se tornaram romanos como outros grupos étnicos do norte da África)


A postagem, contudo, já ficou enorme. Não editei a parte anterior, para deixar claro que fiquei devendo Namatiano, Servasius e Avieno.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Antilogia i-tradutória da poesia latina tardia [pt. 2] - Poetas "Pagãos", pt.1

Primeira parte aqui.

Decimius Magnus Ausonius (310 - 395)

Se há um autor que deve ser individualmente analisado antes de qualquer julgamento de valor sobre a poesia tardia, esse autor é Décimo Magno Ausônio. Entre a morte de Juvenal e a obra de Ausônio há um grande vazio do nosso conhecimento, havendo poucos autores conhecidos e poucas obras sobreviventes (Pervigilium Veneris é provavelmente a mais importante delas, se é que podemos realmente datar ela como pré-Ausoniana). A reputação de Ausônio contudo tem de lidar com o duro (e factualmente incorreto) julgamento de Gibbon de que "[a] fama poética de Ausônio condena o gosto de sua era", de modo que reabilitar a literatura da época envolve primeiramente reabilitar Ausônio. Contudo, deve ser bem lembrado que a fama do poeta na época se dava principalmente pela sua atuação como professor e gramático, seguido de amplo respeito pela sua atuação política (aparentemente ele não foi um grande político de fato, e como co-governador na Gália o filho dele deve ter feito a maior parte do trabalho), e havia na época poetas mais famosos, o que ele próprio reconhece em sua correspondência. A verdadeira fama poética de Ausônio veio no Renascimento Carolíngeo, com um segundo Boom no Renascimento Humanista, e ninguém jamais condenaria o gosto da época. Dentre os humanistas, Petrarca, Bocácio, Erasmo e todos os outros tinham a poesia ausoniana em alta estima; em Portugal Achiles Estaço possuía um manuscrito de Cesares (Valicelliana ms.D 54) além de mencionar outros poemas de Ausônio em seus comentários (ex: menção ao poema Oratio na página 14 de seu comentário sobre Horácio) e Camões imitou um poema que ele devia encontrar dentro das obras de Ausônio (De Rosis Nascentibus, 15-16; comparar com Lusíadas, IX 61 2-4... A obra entrou nas edições de Ausônio em 1511 e era a atribuição mais comum no XVI) e possivelmente teve influência de Bissula, dos Idílios e talvez de Cupido Cruciatus em alguns de seus poemas (Camões, contudo, parece tomar a descrição das musas de outra fonte clássica); além do mais, Ausônio é o grande modelo literário para os epigramas e epitáfios portugueses do XVI, muito mais que Marcial. Chaucer provavelmente usa Ausônio como autoridade para a função das musas Cleo e Calíope, já que não conhecia grego (comentário mais detalhado aqui). Na Alemanha e França a fama literária de Ausônio nunca desapareceu completamente.

Mas por conta dos ataques ao valor do poeta, ataques esses que eu pessoalmente cheguei a repetir de modo pouco crítico, acho que devo falar um pouco das principais críticas que a ele são feitas antes mesmo de falar da vida e obra, já que tudo o que é dito contra Ausônio é, de algum modo, repetido ou modificado ao tratar da literatura latina tardia. As quatro principais queixas contra o Ausônio são as seguintes: 1) se removermos a dicção e versificação de Ausônio não sobra nada; 2) o poeta não tinha nada o que dizer (frequentemente em oposição); 3) o estilo dele é decadente e já não mais clássico; 4) os melhores momentos dele são nada mais que ecos da literatura anterior.
 
1) A primeira crítica é a mais comum, e também é a mais fácil de refutar. É o tipo de crítica que parece dizer alguma coisa, mas no fundo não diz nada. Se tirarmos a dicção e versificação (entendendo seja do ponto de vista mais estrito como mais amplo) de QUALQUER poeta, o que é que sobra? Talvez em alguns casos sobre uma filosofia ou crítica social pertinente ou história relevante, mas a poesia de qualquer poeta desaparece se dela removermos a dicção e versificação. Coleridge, um brilhante poeta e crítico, disse exatamente a mesma coisa de Virgílio, e se isso pode ser aplicado ao maior dos poetas latinos, o pode ser para qualquer um.

2) A segunda crítica é ligeiramente mais útil para compreender o poeta e a posição dele na poesia latina, mas dificilmente é algo que vai determinar o valor por si só. A primeira coisa é que ela não é completamente verdade, e a respeito disso a carta para o São Paulino de Nola, o Protrepticus ad Nepotem, sua pro fissão de fé em Ephemeris (embora pode não ter sido planejado nesse caso) e muitos poemas de Parentalia são poemas que definitivamente mostram inteligência ao falar de algo relevante para a ocasião e para o poeta. Contudo, em muitos dos poemas de Ausônio, incluindo seu famosíssimo Mosella, não há um "tema" de discussão, mas o tema é circunstancial e Ausônio usa seu talento na composição, não no desenvolvimento de uma ideia ou argumento. De fato, comparado com as críticas sociais dos satiristas Pérsio e Juvenal, dos epigramas de Marcial, da composição da ideia nacional de Virgílio ou da filosofia e retórica de Lucrécio e Lucano, Ausônio parece não ter muito sobre o que falar. Mas ter o que falar não é o bastante para ser poeta, como vimos no Disticha Catonis, que nem é mais lido como poesia hoje em dia, e se a ausência de uma "tese" ou "temática relevante" predica a má qualidade de um poeta, muito da melhor poesia moderna tem de ser jogada na lata de lixo também, incluindo grande parte da literatura neoclássica e quase toda a poesia simbolista. Se não me engano, Manuel Bandeira disse de Mallarmé que a maior de suas qualidades era que quase todos os seus poemas eram "de circunstância", e o mesmo pode ser dito seguramente de Ausônio, e é nisso que provavelmente jaz o apelo que o autor pode ter nos nossos dias.

3) A terceira crítica é completamente estúpida e sem sentido, mas exatamente essa estupidez que pode nos ajudar a compreender o nosso erro em lidar tanto com a poesia de Ausônio como com a poesia tardia em geral. Se assumimos que "poesia latina" é a "linguagem clássica de Virgílio", qualquer coisa que não é Virgílio vai ser sem refinamento (como Ênio e Lucrécio) ou decadente (como Estácio ou Ausônio) em comparação (e, paradoxalmente, tudo o que soar virgiliano será imitação barata ou fraude); contudo, se alterarmos o padrão, apenas como experiência, e dizermos, por exemplo, que a "poesia latina" é o "estilo de Estácio", a coisa vai repentinamente mudar de figura: o uso de linhas espondaicas em hexâmetros em palavras não gregas de Juvenal e Horácio (Ars 467), e os hiatos na Eneida (e em Catulo, se Catulo tiver, de fato, hiatos) vão parecer bárbaros, e a sintaxe de quase todos os poetas vai parecer muito pouco variada. Podemos fazer essa experiência em qualquer língua: se "poesia inglesa" é o "estilo de Dryden", Shakespeare e Spencer vão parecer bárbaros, e os românticos completamente afetados; se a "poesia brasileira" é o "estilo de Bilac", Varella e Gonçalves Dias vão parecer preguiçosos (o que não são), Alberto de Oliveira simplório, Augusto dos Anjos obscuro e Jorge de Lima simplesmente errado. Não é só injusto comparar um autor e época no padrão inalcançável de outro, mas não faz o menor sentido e não tem o menor valor crítico. Se toda a literatura representar uma decadência em relação ao padrão inalcançável de outrem, o fazer literário em si não tem sentido. Além do mais, o próprio latim "clássico" de Cícero e Virgílio foi condenado como já decadente por Fronto, em comparação com o "mais puro" latim pré-clássico.

4) A última crítica parece ser feita por pessoas que não conhecem a literatura latina ou não sabem como a própria literatura funciona, mas curiosamente é feita por latinistas e críticos literários competentes. Se esse padrão é levado a sério, Virgílio, Dante, Camões, Shakespeare, Tennyson e Machado estão todos no mesmo barco, já que o melhor de suas obras ecoa as obras de seus antepassados. O que é relevante é como o autor em si desenvolve esses temas e técnicas em sua obra como um todo e em seus poemas isoladamente. O julgamento deve ser específico, nunca geral.
 
Considerando a ignorância geral a respeito de quem foi o poeta e suas obras, é importante falar um pouco sobre ele e sobre sua obra, o que eu definitivamente não quero fazer nem tenho qualquer competência. Ausônio nasceu na Gália, de família cristã provavelmente falante de grego (ao menos a família da mãe era tradicionalmente da região desde os tempos do império gaulês, a estirpe do pai, contudo, é um mistério... a educação de Ausônio foi em grego, assim como a do filho dele, e o neto, Paulino de Pella, aprendeu latim já quase adulto), e bem jovem se tornou famoso pela sua inteligência como gramático e passou a lecionar em Bordeux por volta de 330-334 (ao menos 30 anos antes de ser convocado a Trier, na metade de 360... a data 334 é a mais provável), o que é uma idade excepcionalmente baixa para lecionar em universidades. Contudo, um pouco antes da carreira de Ausônio decolar, uma grande amargura provavelmente se sucedeu, já que Juliano famosamente baniu todos os cristãos de lecionarem em escolas e universidades por todo o império, e havia um confronto entre as facções cristã e pagã em Bordeaux. No meio de 360 (após 364, mas antes de 368, quando Ausônio acompanhou Graciano nas campanhas germânicas) Ausônio foi convocado para ser tutor do futuro imperador Graciano, e assumiu diversos cargos políticos desde então. Aqui, vale a pena apontar que a grande maioria da obra Ausoniana é posterior a esse período, e de fato não temos nenhuma obra indisputavelmente genuína que deve ter sido escrito antes de 345, embora sem dúvidas ele escreveu muitos poemas desde o início de sua carreira de grammaticus e mesmo antes. Algumas obras disputáveis, contudo, podem ser de período anterior, mas é difícil de acreditar na maioria dessas atribuições, seja porque elas são muito estúpidas mesmo para um poeta jovem, mas que conhecia bem o grego (como Periochae Homeri), ou são simplesmente muito boas para um poeta amador cujo ápice de escrita se deve a um período bem posterior (De Rosis Nascentibus, que como imitação virgiliana deve ser necessariamente de um período anterior).
 
Quanto ao cristianismo de Ausônio, algo mais precisa ser dito por conta de confusões que ainda permanecem a respeito do mesmo. Em matéria de estudo da literatura, Ausônio certamente não é um "poeta cristão" (como são, por exemplo, Prudêncio, Paulino, Venâncio, etc...), mas apenas no sentido de que a maior parte de sua obra é profana. Com tudo, é um erro crasso seguir Gibbons ao dizer que ele era "declaradamente pagão", o que definitivamente não é verdade, nem seguir Chisholm (para a Enciclopédia Britânica) em dizer que ele foi convertido ao cristianismo tardiamente e não era um grande entusiasta. Como já foi dito, Ausônio foi confessadamente Critão, e, de fato, professou sua fé em mais de uma ocasião dentro de sua poesia (Ephemeris 3 [Oratio], Versus Paschales), possui linguagem marcadamente cristã (gentes com sentido de "gentil", sanctius...reverentia... ambas em textos seculares), diversas vezes apresenta valores marcadamente cristãos, particularmente nos epitáfios. Não temos nenhuma evidência de que Ausônio sequer foi pagão em qualquer momento de sua vida, e muitas evidências do contrário, dentre as quais eu cito apenas duas. 1) a conversão ao cristianismo era matéria de orgulho entre autores antigos, de modo que os convertidos faziam questão de descrever sua conversão, e aqueles que sempre foram cristãos (como Paulino de Nola ou Paulino de Pela) costumam descrever suas experiências em termos de conversão também... Ausônio, que como dizia Symmachus, era incapaz de mentir mesmo em verso, nunca usa esse tipo de linguagem nem figurativamente, assumindo o pensamento e prática cristãs como algo "garantido"; 2) a família de Ausônio certamente apresenta comportamentos e valores que só podem ser explicados em contexto cristão, como a opção da tia de Ausônio (que o criou... ver Parentalia VI, que traduzo aqui) pelo celibato, e a conquista de status por parte da mulher através do celibato é algo que só pode existir dentro do contexto da antiguidade cristã, já que até mesmo a excessão romana (as Virgens Vestais), que assumem uma função mandatória para a sociedade, e por isso mesmo são tidas como "aberração" (Cf. Mary Beard e Peter Brown), ao ponto de que um dos ataques feitos à cristandade era exatamente a presença e aceitação dessas mulheres virgens, e a maior frequência (segundo os opositores) de mulheres celibatárias que casadas entre os cristãos (Cf. Santo Agostinho, Contra Faustum), de modo que numa sociedade e família cristã se esperava que Hilária casasse para garantir o seu status e o do marido e não ficasse "pra titia" cuidando do filho dos outros, o que é razoável e louvável num contexto cristão do IV século.

Em matéria de obra, uma coisa completamente externa mas que chama atenção é o fato de que Ausônio era quase certamente falante nativo de grego (a despeito do comentário do próprio de que os estudos dele de grego [i.e.: homérico] não avançaram de modo desejado, grego era a sua língua familiar, a língua de sua educação e da educação de seus familiares...), e isso é curiosamente persistente entre os melhores autores da antiguidade tardia: Amiano e Claudiano eram gregos, Luxório vivia num lugar de fala grega (e provavelmente o latim era puramente literário), e Paulino de Pela relata em seu poema-biografia o quão difícil foi aprender latim.
 
De resto, acho que muitas vezes os poemas falam por si só. Uma lista de obras interessantes do poeta talvez não seja muito relevante, visto que pouco se traduziu dele. Devo mencionar que o Gouvêa Júnior traduziu o Cento Nuptialis, que pode ser lido aqui, e que Daniel da Silva Moreira traduziu alguns epigramas aqui. O volume mais recente do Augusto de Campos aparentemente contém versões de Ausônio, mas não sei quais textos, mas de qualquer modo não espero muito do Augusto quando o assunto é latim. O Matheus de Souza está traduzindo todo o Parentalia, todos os domingos, no seu blog pessoal, e pode ser acessado pelo marcador Ausônio (aqui). O Matheus também foi bem generoso em contribuir com a tradução de um dos meus epigramas favoritos, que eu vou apresentar aqui na versão dele e na versão do João Ângelo.

Por fim, algo precisa ser dito quanto ao texto e numeração. Numeração de texto e verso, na maioria dos autores clássicos, é na maioria das vezes padronizado mesmo quando não faz o menor sentido (por exemplo, Catulo não tem poemas de número 18-20, de modo que em linhas gerais a numeração posterior não faz o menor sentido, mas permanece para evitar confusões), tudo isso para facilitar referência. Ausônio, contudo, é um daqueles raros poetas de corpus volumoso que não possui um sistema padronizado de numeração, de modo que ela é segue diferentes critérios e virtualmente todas as edições relevantes apresentam numeração diferente de uma para outra (excessão: Evelyn-White segue a mesma numeração de Peiper). O resultado disso é que dizer algo como "Epigrama 23" ou "Epigrama 90" não tem sentido por si só, sem fazer referência a edição em questão (o que, aqui no Brasil, ninguém faz), e pode ser ridiculamente difícil achar o texto em edições diferentes. Para a minha tradução eu vou usar a numeração que aparece na edição mais recente da obra, por Roger Green; a edição possui uma concordância (como todas as edições de Ausônio deveriam ter), mas eu vou apresentar os textos que possuem diferença em numeração do seguinte modo:
Epigr. 8G (Epit. 30S; Epit. 31Pe; Epit. 31Pr)
O que eu quero dizer com isso é que o poema seria o Epigrammata 8 na edição de Green, o Epitaphia 30 na edição de Schenkl (para o MGH, numeração idêntica à de Pastorino para as coleções, mas a organização geral das duas edições é distinta), Epitaphia 31 na edição de Peiper (Teubner... idêntica organização de Evelyn-White para a Loeb), e Epitaphia 31 na edição de Prete (organização parecida, mas não igual, à de Peiper nos epigramas e epitáfios, mas distinto nas cartas). Isso é uma bosta, mas é o melhor que posso fazer para garantir que os poemas sejam referenciados corretamente e qualquer um possa achar em sua própria edição ou versão favorita. Para os poemas que a numeração não varia (ou varia apenas se os prefácios são numerados), eu simplesmente seguirei Green. Para o poema que o Matheus e o Ângelo traduzem, eu vou seguir o texto que eles o Matheus usou (Evelyn-White... O Ângelo lê "ut" de T na primeira linha, porém não tenho ideia de onde ele tirou o número 50), mas vou manter o mesmo modelo de numeração (ou seja, o texto é da Loeb mas a numeração segue como Green, Schenkl, Peiper e Prete...). A ortografia é minha, que é a ortografia que acho mais fácil para transcrever. Em professores, a despeito de eu ler egregiam no texto (o manuscrito, aceito por Green e Pastorino) eu deixo a qualificação ambígua, aceitando ao menos tacitamente a opção egregia de Heinsius (como lido por Schenkl, Peiper) ou egregio de Holford-Strevens (que Green propõe mas não aceita no texto) como possibilidades implícitas. Não que importe com uma tradução dessa qualidade.

Parentalia VI [Trad: Raphael Soares]
Aemilia Hilaria matertera [uirgo deuota]
Tuque gradu generis matertera, sed uice matris
affectu nati commemoranda pio,
Aemilia, in cunis Hilari cognomen adepta
quod laeta et pueri comis ad effigiem;
reddebas uerum nom dissimulanter ephebum,
more uirum medicis artibus experiens.
Feminei sexus odium tibi semper, et inde
creuit deuotae uirginitatis amor,
quae tibi septenos nouies est culta per annos;
quique aeui finis, ipse pudicitiae.
Haec, quia uti mater monitis et amore fouebas,
supremis reddo filius exsequiis.
E tu, que é tia em grau, porém és vice-mãe
Em afeto o filho deve celebrar,
Emília, cujo nome Hilaro lhe é apenso
Porque no berço qual menino é alegre;
Sem dissimulação vera feição de um jovem,
Qual homem experiente em artes médicas.
Teu sexo feminino odiaste sempre, e assim
Veio o amor da devota virgindade,
Que mantiveste por nove sétimas de anos;
E o fim da vida é o fim da castidade.
Aqui, quem como mãe mantém amor, lições,
O filho a retornar ritual extremo.

 

Professores XVIII [Trad: Raphael Soares]
Marcello Marcelli filio grammatico Narbonensi
Nec te Marcello genitum, Marcelle, silebo,
aspera quem genetrix urbe, domo pepulit,
sed fortuna potens cito reddidit omnia et auxit;
amissam primum Narbo dedit patriam.
Nobilis hic hospes Clarentius indole motus
egregiam natam coniugio attribuir;
mox schola et auditor multus praetextaque pubes
grammatici nomen diuitiasque dedit.
Sed numquam iugem cursum fortuna secundat,
praesertim praui nancta uirum ingenii.
Verum oneranda mihi non sunt, memoranda recepi
fata; sat est dictum cuncta perisse simul,
non tamen et nomen, quo te non fraudo, receptum
inter grammaticos praetenuis meriti.


Nem esqueço a ti, Marcelo, herdeiro de Marcelo,
Áspera mãe forçou-te a outras plagas,
Tudo e mais a fortuna então te restaurou;
Assim, primeiro em Narbo, achaste pátria.
Aqui Clarêncio, nobre, a ti concedeu sua
Filha p'ra desposar, egrégia índole;
A seguir tuas lições atraíram mil jovens
Pela fama e carreira do gramático.
Mas a fortuna, embora longa, não prossegue,
Principalmente em depravada índole.
Não é o meu dever dar peso, mas lembrar
Do fado; basta lembrar: perdeu tudo
Só não renome, não te roubo, recebido
Qual gramático de mísero mérito.

 

Epigr. 20G (Epigr. 18S; Epigr. 40Pe; Epigr. 40Pr)
[AD VXOREM]
Vxor, uiuamus quod uiximus, et teneamus
nomina, quae primo sumpsimus in thalamo:
nec ferat ulla dies, ut commutemur in aeuo;
quin tibi sim iuuenis tuque puella mihi.
Nestore sim quamuis prouectior aemulaque annis
uincas Cumanam tu quoque Deiphoben;
nos ignoremus, quid sit matura senectus.
Scire aeui meritum, non numerare decet.
Trad: Matheus de Souza
Vivamos, minha
esposa, tudo o que vivemos,
guardando ainda o nome de casados.
Que eu seja o teu rapaz e tu a minha garota
sem que um dia a velhice nos ocorra.
Mais velho que Nestor eu seja e muito embora
emules a Sibila pela idade,
desconheçamos o que seja a senectude,
sabendo os dons do tempo sem contá-lo.

Trad: João Ângelo de Oliva Neto
Mulher, vivamos qual vivemos e tenhamos
os nomes que à primeira noite usamos.
Não haja um dia só, bem que mudemos sempre,
Que não me digas "jovem" e eu, "menina".
Mais velho embora que Nestor, rival que venças
em anos a Deífobe de Cumas,
a velhice madura ignoremos: o mérito
convém saber do tempo, não a soma.

 
Um epigama Jurídico comentado:
Epigr. 99
[Trad: Raphael Soares]

Iuris consulto, cui uiuit adultera coniux,
Papia lex placuit, Iulia displicuit.
Quaeritis, unde haec sit distantia? semiuir ipse
Scantiniam metuens non metuit Titiam.


Advogado que tem esposa adúltera,
lei Pápia aceita, a Júlia lei deplora.
Qual é a diferença? o imoral
Scantínia teme mas não teme a Titia.
Essa é uma pérola do humor jurídico da antiguidade, e um poema que sempre vale a pena apresentar para classes de latim e cultura romana. O conceito é bem simples, do advogado que é imoral e hipócrita: 4 leis são mencionadas, e o advogado se beneficia (lhe agrada) pessoalmente de duas delas, enquanto duas outras leis ele viola. O contexto das leis em si precisa ser mencionado. O advogado se beneficia pessoalmente da lei Pápia (Lex Papia Poppaea), que promove (basicamente força) o casamento, e se beneficia do status de casado por causa dela; contudo, lhe desagrada a lei Júlia, já que a sua esposa é adúltera e ele sabe disso (vive com esposa adúltera)... Para quem não sabe, ser corno manso em Roma era crime grave (Digesta 4, 4, 37). Porque ele aceita uma lei mas rejeita outra, sendo ele um advogado? Porque além de advogado ele é semiuir (a palavra é bem complicada em muitas situações... aqui, contudo, ela tem um sentido claro, que é o de pederasta... de fato, é o sentido usado por todos os apologistas cristãos do período, mas o sentido não é exatamente parte do vocabulário cristão... Cf. explicação de Servio Danielis para a palavra em Aen. IV 215: ab ipsis enim ferunt coepisse stupra puerorum), especificamente um pederasta. Por ser pederasta ele teme a lei Scantínia (ou Escantinia), que criminalizava o stuprum contra ingenui (o sexo com menores homens), porém ele se aproveita da lei Titia, que permitia que magistrados designassem tutores para jovens (o que, presumivelmente, o advogado em questão usa de algum modo para satisfazer seus desejos).

Por fim, recomendo que alguém tome ciência do poeta e traduza para nós Bissula, Mosela e Cupido Cruciatus... Eu não farei, decerto...


Sem fotos, bustos ou pinturas do autor.
Claudius Claudianus (c. 370 - 404 prob.)

Se é quase obrigatório começar a falar da antiguidade tardia com Ausônio, o passo seguinte é necessariamente falar de Claudiano. Claudiano, diferentemente de Ausônio, foi um poeta profissional, circulando a corte do imperador Honório após a morte de Teodósio. Enquanto Ausônio foi tomado como poeta nacional da França e nunca esquecido lá (Hugo, por exemplo, sabia versos dele de cor, e também escreveu Le Rhin, em prosa, mas de caráter similar ao Mosela) a reputação dele sofreu muita oscilação nos outros lugares; Claudiano, sendo lembrado como "o último pagão de Roma", "o último grande poeta latino" tendeu a ser visto em geral com simpatia, embora eu duvido muito que ele tenha tido quantidade significativa de leitores em qualquer época. Hoje em dia a crítica literária favorece o estudo de Claudiano, tendo em vista que a obra dele é em sua quase totalidade política, o que resultou em um grande número de dissertações de doutorado sobre obras específica.

Pouco sabemos da vida de Claudiano. O poeta era grego de Alexandria, numa época em que a intelectualidade da parte oriental do império era raramente bilíngue. Ele provavelmente escreveu sempre em grego, e de fato 7 epigramas dele da fase inicial sobrevivem em grego na Anthologia Palatina (I 19, 20; V 86; IX 139, 140, 753, 754), e um fragmento (Gigantomachia) sobrevive em tradição manuscrita isolada. Contudo, em 394 ele parte para a parte ocidental do império, e no ano seguinte escreve o poema mais antigo que chegou até nós: "Panegyricus fictus Olybrio et Probino consulibus", um elogio aos seus jovens patronos. Após o período ele escreveu diversos Panegíricos para seu mais poderosos patronos, Stilicho e Honorius, dois poemas para as núpcias de Honorius, invectivas contra inimigos dos mesmos, narrativa político-histórica e ensaiou a composição de dois épicos (De raptu Proserpinae e Gigantomachia); de resto, alguns poemas menores e de circunstância sobreviveram. A morte dele se presume pela ausência de qualquer texto ou alusão aos feitos de patronos após 404.

Se Claudiano era realmente pagão ou cristão é algo de debate e provavelmente não pode ser definida para além da incerteza, ao menos com base nas informações que temos. Dois poemas cristãos são atribuídos a Claudiano: Laus Christi e Miracula Christi, mas o primeiro também é atribuído a Merobaudes em melhores bases, e o segundo foi atribuído tardiamente sem bases manuscritas. Mesmo considerando que os poemas fossem de Claudiano, não há nada nos mesmos que não possa ser feito com base em conhecimento superficial das histórias e crenças cristãs, e naquele período não as conhecer era praticamente impossível: Miracula Christi, em particular me parece simplesmente muito apressado (cada dístico um milagre, e de fato o presente dos reis magos no segundo distico não é um... há um possível mal entendimento também no 7º). O que ainda se pode dizer é que autores antigos como Agostinho e Orósio afirmavam que Claudiano sempre fora pagão e nunca se converteu; Scourfield escreve que "como um poeta em uma corte fortemente cristã, é improvável que ele tenha sido pagão", contudo outros estudiosos têm notado que a época em que ele se mudou para o ocidente é extremamente suspeita. Em 393 Teodósio eliminou toda a legalidade dos ritos pagãos, e em 394 massiva perseguição e destruição ocorreu na parte oriental do império (é incerto se o imperador promoveu tais perseguições pessoalmente, mas é certo que ele permitiu que elas ocorressem), então é bastante razoável que o poeta esteja seguindo a tendência da intelectualidade pagã do período e escapando à perseguição.

Como eu já mencionei aqui e na postagem sobre Amiano, é algo bem notável que os melhores autores latinos do período eram falantes de grego. Com tudo, o que é fascinante em Claudiano é o quão "latina" é a sua dicção. Amiano deve ter usado muito latim no período do exército, e Ausônio teve educação bilíngue, ao mesmo tempo que ambos os autores escrevem com muita excentricidade de dicção, sintaxe ou semântica baseado no grego; Ausônio, em paticular, aprecia a escrita macarrônica. Claudiano, contudo, é possivelmente o mais "latino" de todos os autores latinos, ou, ao menos de todos os autores da antiguidade tardia latina. Pelo fato de que ele era grego, muita gente, inclusive eu, tem procurado marcas de grecismo e excentricidades na dicção do poeta, e as poucas que alguns tem identificado parecem ser todas falsas. Aqui eu vou dar os exemplos que eu conheço:

Panegyricus Dictus Olybrio et Probino Consulibus:
122. "in hastam"
Segundo Dewar in hastam tem sentido modal, e por isso seria grecismo. Contudo, Hall e Charlet pensam que in hastam tenha sentido final, portanto é latim natural. De qualquer modo, mesmo esse grecismo é poético desde o período augustano.
De Consulato Stilich. Lib I:
29. Sed pacem foedat vitiis; hic publica felix,
Burman, Heinsius, Dietrich consideram que publica é grecismo (hic ad quod publica). Hic publica com sentido de hic in publica já aparece em Plínio contudo, e publica aqui é por antimetria lugares/ambientes públicos, não exatament "em público".

De Consulato Stilich. Lib II:
389. Depulsa terris iterum regnare dedisti.
Lemaire diz que dedisti é grecismo, e tem o sentido de fecisti. Eu não sei nem mesmo se pode-se dizer que do com sentido de facio é grecismo, mas isso é irrelevante aqui de qualquer modo. Em linguagem militar, do pode significar conceder (permissão, segurança, prêmio), devolver ou restaurar, todos sentidos mais adequados que criar ou produzir.

Panegyricus dictus Honorio sextum consuli
361. dissimulata diu tristes in amore repulsas
Eu não entendo o bastante de grego para saber exatamente porque dissimulata tristes repulsas seria graecismo eleganti (Gesner). Contudo, Birt deve estar certo em interpretar dissimulata com o sentido de neglecta (usado por Ausônio e por Claudiano em outra passagem), e construir repulsas como acusativo de queror.

Por fim, traduzo duas passagens curtas, com base no texto estabelecido por John Barrie Hall. Claudiano é um pouco mais difícil de traduzir, porque a melhor poesia dele é significamente grande em tamanho, por isso eu vou traduzir o trecho mais curto da Fescennina e um poema da Carmina minora, que me parece interessante pelo contexto de divulgação de poemas na época. Até onde sei, há apenas uma tradução de Claudiano para o português europeu, do De Raptu Proserpinae, e em prosa.

Fescennina Dicta Honorio Augusto et Mariae [Trad: Raphael Soares]
III (13)
Solitas galea fulgere comas,
Stilicho, molli necte corona.
Cessent litui saeuumque procul
Martem felix taeda releget.
Tractus ab aula rursus in aulam
redeat sanguis. Patris officiis
iunge potenti pignora dextra.
Gener Augusti pridem fueras,
nunc rursus eris socer Augusti.
quae iam rabies liuoris erit?
uel quis dabitur color inuidiae?
Stilicho socer est, pater est Stilicho.


Sobre o cabelo brilha o elmo em luz,
Stilicho, e brando pões o louro à testa.
Cessem trompetes, e que o sevo Marte
Seja afastado pela tocha fértil.
Que se una a real com a real
Estirpe. O ofício que é do pai
Junge os amantes com potente destra.
Genro de Augusto outrora o foste tu,
E em retorno agora és sogro Augusto.
Que espaço há p'ra raivas da inveja?
Ou o que é que justifica a cor da inveja?
Stilicho é sogro, e pai é Stilicho.

Carmina Minora [Trad: Raphael Soares]
19 - Epistula ad Gennadium ex Proconsule
Italiae commune decus, Rubiconis amoeni
incola, Romani fama secunda fori,
Graiorum popules et nostro cognite Nilo
(utraque gens fasces horret amatque tuos),
carmina ieiunas poscis solantia fauces?
testor amicitiam nulla fuisse domi.
Nam mihi mox nidum pinnis confisa relinquunt
et lare contempto non reditura uolant.

Da itália gente orgulho, e em Rubicão ameno
habita, e em fama lácia o segundo,
Famoso à gente grega e alcança até o Nilo
(Que amaram e odiaram teu ofício),
Me pedes versos para alentar tua garganta?
Tenho nenhum, te digo como amigo.
Quando confiam nas suas asas os meus versos
Fogem de case e nunca mais se voltam.



[Avianus] (~400)

Nada sabemos sobre quem escreveu as fábulas geralmente conhecidas pelo nome autoral "Avianus". As 42 fábulas em dístico elegíaco foram certamente escritas por uma só pessoa, para um Teodósio (presumivelmente Macrobius Ambrosius Theodosius, o que coloca a construção da coleção por volta do ano 400). Se ele é o poeta que Teodósio menciona posteriormente, seu nome era Avienus. Os manuscritos não concordam em nome (Avianus, Avianius, Avienus... o nome Flávio é invenção posterior baseado em má identificação), e aparentemente o autor foi confundido com o outro poeta, Avienius (conhecido no período medieval como Avieno), o que abre a possibilidade para o fato de que o poeta tinha qualquer nome.

As fábulas de "Aviano" gozaram popularidade imensa no período medieval, o resultado é que a tradição textual do poeta é muito contaminada e interpolada (há enormes séries de finais distintos entre os manuscritos) e muitos manuscritos apresentam scholia, comentários e glosas. Robert Gregory Risse editou um desses comentários, e eu recomendo que todo mundo leia porque ele é hilário... Aquele tipo de comentário e leitura que é tão ruim, mas tão ruim, que chega a ser até bom e divertido... Eu iria apresentar uma tradução minha para a Fábula 2, contudo ainda há muitos outros escritores de maior interesse e mérito que precisam ser comentados, e se eu dedicar tanto tempo assim para cada um a série nunca acaba. Também preciso revisar minhas escolhas textuais: no verso 10 eu li excidit com Baehrens, que é a expressão correta e adequada, mas depois de ver como alguns classicistas (que são poetas muito melhores que "Aviano") lidam com substituições por sinônimos e cometem algumas falhas e absurdos de expressão, referência ou fato bem piores que occidit, me parece hoje que a pior forma é legítima, se tratando de uma versão indireta por um versificador que demonstra pouca riqueza de vocabulário.

"Aviano" recebeu uma tradução integral, disponível livremente na internet: a versão de Jorge Manuel Tribuzi Correia de Melo, que preparou uma versão e notas para a sua dissertação (aqui).



Bônus: Publilius Optantianus Porfirius (336+)

Por fim, apresento alguns poemas de Optantianus (que antecede Ausônio) e que não requerem tradução. Optantianus era um político romano, e poeta diletante, que após ser banido em algum momento da carreira escreveu elogios e bajulações para Constantino e foi permitido retomar postos políticos. O que é particularmente notável desse poeta é como a má qualidade e diletantismo podia se passar por poesia que presta, numa época de baixo nível cultural... Como muitas pessoas sabem, a história tende a se repetir, porque aparentemente o ser humano não aprende de verdade com ela. O "texto" é retirado da Patrologia Latina.






domingo, 21 de junho de 2020

FUNDAMENTALISMO VS FILOLOGIA NA POÉTICA DE ARISTÓTELES [Palavras Importam]

Nada representa melhor uma leitura fundamentalista como um extremista religioso falando sobre a homossexualidade. Isso é condenado e repulsivo “porque está na bíblia”. Não importa o debate, não importa o contexto, e não adianta qualquer tentativa de discutir o ponto que logo virá a lição “leia a Bíblia, Levítico dezoito vinte e três 'Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é', está lá e é a palavra de Deus”. O fundamentalista religioso, contudo, nunca irá dizer que Levítico 11 “está na Bíblia”, ou Levítico 19:19, porque o fundamentalista adora bacon, camarão e roupas da moda. No fundo no fundo, o fundamentalista não quer compreender o texto sagrado ou obedecer as leis de seu Deus, ele apenas não gosta de Gays e quer jogar autoridade para justificar seu ódio e calar quem pensa diferente.

Leituras fundamentalistas não são exclusividade de textos sagrados, mas estão espalhadas por todo o ramo das humanidades. Recentemente, ao fazer uma crítica em relação à (in)precisão histórica violenta em um texto literário, seu autor, visivelmente ofendido por minha rudeza, delicadamente me disse para comer capim e ler Aristóteles, porque, dixit dominus, o mesmo "em A Arte Poética, capítulo 9" (assumo que seja a numeração de Heinsius, o que é engraçado por mais de uma razão), autorizou todo o tipo de violência histórica na obra poética. Não costumo recusar convites à leitura, mesmo que seja Aristóteles, e mesmo que seja, outra vez, a mesma passagem da Arte Poética que já discuti ao menos duas outras vezes nos últimos 12 meses, já que por mais que eu ache que conheço essa passagem inteiramente, e li diversas interpretações da mesma, eu sempre posso cometer um grave e estúpido oversight, e tenho algum talento para isso, já que é o homem é completamente impotente diante de sua própria estupidez; quanto ao capim, tenho de admitir que não agrada ao meu paladar, a despeito de ser um notório jumento, espero que chá seja o bastante.

Antes de seguir com a discrepância entre a leitura fundamentalista e a filológica (não tratarei, por razões claras das “filosóficas”), há algo interessante sobre o método. O método fundamentalista é simples: jogar a autoridade da “palavra” para calar a oposição, não importando nem mesmo o que ela quer dizer. Não se pode discutir, não se pode debater, porque nosso senhor o grande X disse isso e porque ele disse isso é verdade. Por razões óbvias isso é mandatório nos templos, porque se Deus não tem autoridade sobre a “verdade” não há sentido em buscar por ele. Contudo, nas humanidades as academias tem uma parcela de culpa, pois mesmo se, ao menos em teoria, elas não incentivam essas práticas e recomendam o debate, as práticas acadêmicas tendem a, pouco a pouco, mecanizar a autoridade pela autoridade, palavra pela palavra. A verdade e o conhecimento são construídas por meio de palavras, assim como a mentira e a ignorância; precisamos de palavras para construir os sensível, e precisamos das mesmas para propagar o nonsense. Ao invés do debate e reflexão, aos poucos se instauram as palavras vazias e a autoridade. Isso não é a prática geral das academias, ou daqueles formados por ela (ao menos quero acreditar nisso com base na minha experiência), porém pequenas práticas tendem a incentivar ou mesmo premiar a aceitação da autoridade ou do vazio de sentido, mesmo que nas pequenas coisas.

Que Aristóteles possa ser usado como autoridade suprema e irrefutável para “provar” um ponto é algo absurdo, porém nada novo. O que me surpreende bastante é o quê exatamente Aristóteles está sendo usado para provar. Já por 1600 Heinsius (o mesmo responsável pela numeração supracitada) usou a mesma passagem para condenar todo o drama medieval cristão ESPECIFICAMENTE porque eles usavam a história real (ou, ao menos Heinsius e os autores medievais acreditavam ser essas histórias reais) mas a tratavam como mito (e também pela natureza das mesmas, como veremos), e ele provavelmente ficaria chocado ao ver que estão usando essa passagem para afirmar que Aristóteles aprovava nela a violação da verdade histórica à favor da arte. De fato, entre o século XV e XVIII a leitura da Poética era largamente ahistórica, e os autores do período, em comum com fundamentalistas modernos, se importavam unicamente com a “verdade” de Aristóteles, i.e. o que a literatura vernacular do período deveria ser, e a influência das diversas leituras aristotélicas do período é sumarizada por Wilhelm Dilthey, de modo que apenas repasso para quem interessar (“Die Einbildungskraft des Dichters. Bausteine für eine Poetik”, há uma tradução nas obras Seletas em Inglês, vol. V), embora compreender o contexto geral da crítica da época me parece mais relevante do que de uma obra específica, para o leitor comum.

Não é a primeira vez que eu vejo essa leitura, de que a “falsidade” histórica é justificada pela “verossimilhança” (ocasionalmente com alguns desenvolvimentos mais exorbitantes como “tempo mítico”), na passagem, e já vi até dois críticos aparentemente inteligentes chegarem à mesma conclusão. Fui novamente buscar bibliografia, ler mais comentários que ainda não tinha lido. Não é surpresa confirmar, novamente, que nenhum filólogo competente que estudou a “Poética” sequer leu esse texto desse modo, e olha que há filólogos desonestos e inventores de “modismos”, especificamente porque essa leitura é impossível em mais de um aspecto, e assumir que essa leitura é razoável implica em dizer que o próprio texto está errado. O que eu ainda não consegui descobrir é de onde essa leitura surgiu, e quando ficou popular entre críticos e polemistas leigos. O máximo que sei é que ela ainda não existia no período vitoriano inglês, e na França Denis Diderot apresenta a leitura da época do texto e não cometia esse erro, e não consigo achar esse aborto interpretativo nem mesmo nos humanistas e outros escritores do período “acientífico” (embora eles estavam mais lendo Aristóteles para “confirmar” Horácio, o que também não é uma boa ideia), e mesmo Pietro Vettori (Victorius), autor do mais importante comentário do período humanístico, mas que insiste em dizer que Aristóteles afirma que a poesia necessariamente precisa ser em verso, ainda não é capaz de ler desse modo. Devo assumir então que ela é uma leitura moderna, mas não posso dizer quão moderna. Essa leitura depende de uma tríade de ignorância, talvez deliberada como convém ao fundamentalista, que em geral causa todo tipo de erro, mas aqui em especial parece ser deliberada e em larga escala.

  1. a ignorância do contexto externo: o crítico fundamentalista ignora ou deliberadamente não quer saber sobre a história do texto. O crítico pode até saber que o texto é um dos textos “não publicados” do autor, mas não sabe ou não quer saber o que isso significa para a interpretação do texto. O crítico não sabe ou não quer saber como a obra chegou até nós, e em que condições; o crítico não quer ouvir dizer que “a 'Poética' sofreu em sua transmissão mais qualquer outra obra autêntica de Aristóteles” (“the Poetics has suffered in its transmission more than any other authentic work of Aristotle”, na Editio Maior mais recente, a única), porque se as bases da Escritura caem a base de sua Verdade cai; ele não quer saber que a situação do texto já era famosamente ruim no primeiro século A.C., como atestam Plutarco e Strabo, e se souber no máximo vai considerar o testemunho dos antigos como exagerado, porque todos os antigos podem mentir, exceto suas Escrituras. Mais importante, o crítico fundamentalista não sabe, ou não quer saber, sobre que obras o autor originalmente falava, quais estéticas estavam em voga, as mudanças, o que havia e não havia no período, ou quais valores em específico o autor condena e o porquê, já que o crítico fundamentalista não se importa com o que Aristóteles dizia e como julgava os seus contemporâneos, mais como a palavra do Senhor é eterna e como a profecia d'Ele explica Pound e Eliot. O filólogo, contudo, não pode fazer o mesmo, porque tentar compreender o contexto no maior grau que for humanamente possível é a pedra fundamental de seu trabalho. Como não é do fundamentalista, ele usa seus poderes na segunda ignorância.
  2. a ignorância do contexto interno: nem sempre basta ignorar apenas o contexto e a transmissão do texto, às vezes se faz necessário ignorar exatamente o que o texto diz e suas palavras, ou ao menos as partes do texto que desagradam ou não corroboram a tese. Essa é, contudo, a mais defensável das ignorâncias. Todos os homens são propensos a isso, e a natureza do debate, que não permite trazer tudo ao mesmo tempo pode distorcer e deliberadamente esconder partes significativas do texto que fariam uma leitura incorreta cair por terra. De fato, mesmo gigantes (como Carpeaux, Housman ou Frye) podem estar face a face ou citar a prova necessária para derrubar parte de suas teses e ainda insistirem em não ver ou fingirem que significa outra coisa, e se os maiores homens podem cometer os mais óbvios e vergonhosos dos erros, não é justo exigir que os pequenos nunca incorram em um grave equívoco de omissão. Contudo, o crítico fundamentalista possui método, e não basta apenas casualmente omitir tudo aquilo que causa dificuldades ao argumento, ele precisa omitir tudo. É por isso que esse crítico ama o aforismo e a citação curta, já que esvaziado de seu contexto interno uma passagem isolada pode significar o que ele bem entender, e é essa a razão porque o crítico fundamentalista cita unicamente a passagem “1451a” a partir da linha 36 e nunca vira a página. Do mesmo modo que o fundamentalista religioso é capaz de dizer que Isaías 45:1 profetiza o “Messias” Cristo (mesmo sendo nominalmente explícito que o “Messias” foi Ciro da Pérsia), o crítico fundamentalista pode dizer que Aristóteles falava na passagem da liberdade com que o poeta pode tratar os fatos históricos, mesmo quando Aristóteles diz com todas as letras em 1451b 29-32 que ele não estava falando disso. O fundamentalista não quer saber em que contexto a frase foi dita, porque no fundo ele não quer entender a passagem, mas a instrumentalizar.
  3. a ignorância do  não-dito: o resultado lógico das ignorâncias anteriores, pois se o crítico não sabe em que contexto o texto foi produzido e transmitido, a que contexto se referia, e o que o que vem antes e depois propriamente dito, o texto fica incompleto e o seu sentido não fica claro. Se o texto é incompleto e o sentido não é claro, o leitor deve construir o sentido e ler nas entrelinhas. Ninguém ama mais ler nas entrelinhas que o crítico fundamentalista, que ama tanto o método que destrói as linhas a favor das entrelinhas. Se o sentido não é completo ele tem de ser inventado, e se ele tem de inventar ele o fará naturalmente para confirmar e defender as suas ideias, não para compreender a do autor. O filólogo venderia a alma por mais contexto e mais linhas, o fundamentalista não quer mais contexto e mais linhas porque quer inventar a sua interpretação.

A exposição do método fundamentalista, para a presente discussão, se deve porque esses são especificamente os tipos de ignorância, que nas medidas da minha capacidade, pretendo evitar. Para a presente discussão, o foco será especificamente “o que” o autor diz a respeito da diferença entre a arte [poesia] e a história, e por que as palavras importam, e espero apontar algumas questões gerais pertinentes à tradução dessas palavras e construções importantes, e porque traduções descuidadas de prosa podem auxiliar ao engano mesmo que não sejam objetivamente incorretas. Aqui eu vou apontar tudo o que estarei usando para a leitura, para que quem quiser possa me seguir. Isso não é uma bibliografia exaustiva, mas apenas algo que todo o leitor pode acompanhar, embora eu possa trazer algo de fora.´

Minhas referências ao texto da Poética seguem unicamente a numeração de Bekker como ela aparece na Editio Maior de Leonardo Tarán, e não faço referências a número de capítulo ou versículo seja usando a mais comum de Heinsius ou qualquer outra divisão humanística. Talvez o ideal fosse usar as duas, mas considerando que todas as edições, traduções e comentários respeitáveis do texto mencionam a numeração de Bekker é a forma mais padrão de citar os textos, e, de fato, tem sido a única usada por comentários e teses diversas sobre os autores do período. Eu vou seguir lendo o texto de H. S. Butcher (link da quarta edição, idêntica à terceira), apresentando uma interpretação vernácula para quem não puder o inglês e partir comentando daí; a escolha do texto de Butcher foi não apenas porque está em domínio público e todos podem seguir comigo, mas porque comparada com paráfrases como a de Bywalter ou a da edição da Loeb, que acrescentam muitas partes explicativas ao próprio texto, ou as portuguesas que conheço (que, me parecem, apresentam problemas particulares), essa me parece mais “funcionalmente” colada ao original em construção, de modo que dentre as traduções livremente disponíveis é a que melhor serve aos propósitos de um comentário assim.

Para comentários textuais e a história do texto e transmissão de Aristóteles, o interessado deve ler “Aristotle Poetics: Editio Maior of the Greek Text with Historical Introductions and Philological Commentaries” de Leonardo Tarán, e quando houver alguma menção aos problemas textuais a recomendação é partir para lá. Eu aqui vou fazer referências repetidas ao comentário de Bywalter, "Aristotle, on the Art of Poetry. A Revised Text, with Critical Introduction, Translation and Notes" (“the best so far” para Tarán, “the most important” para Nagy), e garanto para quem duvidar que vou, exceto quando notado, lidar apenas com o que é mais unânime entre comentadores, seja antigos como Vincenzo Maggi (Madius) e Pietro Vettori (Victorius), seja modernos como Else (que é idiossincrático sob qualquer aspecto) ou Whalley. Por conta disso, vou me limitar na discussão específica da história e da poética, e me abster de peregrinar pelas discussões mais cabeludas e ambíguas, como por exemplo da percepção do filósofo a respeito da comédia (estaria Aristóteles sugerindo que a “comédia nova” [ou mais propriamente uma intermediária] é superior à de Aristófanes, como me parece? ou pior, a nova comédia evoluiu para um ponto que a tragédia nunca chegou, na época do autor, o que é razoável?), ou de quão “historicamente reais” seriam os eventos dos mitos, ou de qual é a relação sintático-semântica do nome e universal (é por causa da universalidade que a poesia põe nomes próprios aos personagens ou é universal a despeito de colocar nomes próprios, ou subsequentemente a ela coloca nomes nos personagens, ou qualquer outra coisa assim), e é a razão da minha omissão é o de não me perder num buraco negro cíclico das discussões interpretativas de várias das especificidades da obra, o que não é tarefa para um homem são. Se um leitor achar, dentro de uma das partes que omiti, há algo importante para a discussão que eu, em minha estupidez, ignorei, o leitor ao menos poderá trazer à mesa da próxima vez que for discutir e ler a poética, e pode se deleitar em rir de como eu fui um asno e deixei passar esse fato importante. Pois vamos ao Aristóteles, e francamente espero que o chá seja mais palatável.


1451a 36 - 1451b 7

Aliás, é evidente, por causa do que se disse, que não é a função do poeta relatar o que aconteceu, mas o que deve acontecer - o que é possível de acordo com a lei da probabilidade ou necessidade. A diferença entre o poeta e historiador não é entre escrever verso e prosa. A obra de Heródoto pode ser posta em verso, e ainda seria um tipo de história com metro tanto quanto sem. A verdadeira diferença é que um relata aquilo que aconteceu, o outro o que deve acontecer. Poesia, por isso e uma coisa mais filosófica e elevada que história: pois poesia tende a exprimir o universal, história o particular.
Um dos aspectos deprimentes da nossa comodidade em ler um texto desse com divisões de capítulos e tópicos e paráfrase interpretativa é que ele nos força a ter de explicar o óbvio. Como a "divisão" não existe realmente, a leitura deixa absolutamente claro que tudo o que é dito nesse "parágrafo" e daqui em diante não é uma teoria estética isolada, mas consequência do que foi dito antes. A formulação inicial não é uma daquelas casuais formulações de mudança de assunto por associação (ex.: já que falamos em tomar uma cerveja, onde fica o banheiro?), mas uma clara determinação de continuidade e qual assunto é subordinado a qual: "por causa disso que falamos antes que a poesia [...]", ou seja, toda a questão da função da poesia, o "possível" (como termo técnico) é consequência da formulação da unidade da narrativa, que predica a discussão. A arte é uma "unidade" (não há tempo, nem tenho competência, e nem existe uma resposta absoluta para isso), e tudo o que for dito é resultado dessa unidade, não uma formulação isolada. Isso só pode ser compreendido em relação à unidade da narrativa, porque é seu resultado lógico (φανερός, ou seja, "está na cara" para quem acabou de me ouvir).

O problema do óbvio é que, por ser óbvio, ninguém fala disso, e é muito fácil de se ignorar, ou, em linguagem vulgar, "passar batido". Else sabia disso, e lembrando que todo mundo sabia disso também, achou que as pessoas deveriam não só atestar o óbvio como discutir as implicações do fato, o que, os críticos em geral simplesmente não fazem. Os comentários mais recentes sabem disso, já que fica claro pela própria interpretação, mas, novamente, eles não mencionam ou desenvolvem as implicações do fato. E, novamente, por ser óbvio, "passar batido" pode ser grave e simplesmente não ser percebido, já que eu conheço ao menos um classicista importante (me parece ser o único, mas podem haver mais) que esqueceu esse fato, e isso afetou a sua leitura da obra: o próprio tradutor Samuel Butcher (Aristotle's theory of poetry and fine art, Capítulo III, p.163 et seq.), que considera uma passagem autônoma em que Aristóteles constitui a sua tese de verdade poética que determina a natureza da poesia em si, e não como resultado da unidade poética. O erro de continuidade e separação não justifica o nonsense da "falsificação da história defendida por Big. Ari.", já que a interpretação da passagem ainda é adequada em Butcher, que altera sua importância e o quê é consequência de quê apenas. Porque o tradutor sabe o que significa "provável" e o que "deve" acontecer.

Há uma questão tradutória profundamente relevante aqui: alguns tradutores falam em coisa que "pode" acontecer, outros em coisa que "deve" acontecer, e essa discrepância persiste ao menos em inglês, português e francês. Isso não deveria ser problema porque Aristóteles também explica o que significa "pode/deve acontecer", ou seja, o que é verdadeiro, a consequência natural baseada no que a ação deve gerar como resultado, de acordo com o que é mais necessário ou mais provável. "pode/deve" no seguinte sentido: "se eu, Raphael Soares, me atirar do sexto andar do meu prédio diretamente sobre o cercado do térreo eu posso/devo morrer". As duas construções estão corretas, e têm o mesmo sentido. De fato, é possível que eu sobreviva, e embora é bem difícil de calcular as probabilidades, e "a História" registra de fato ao menos um caso de alguém que cai em queda similar (Avery Shawler, de abismo na mesma altura e caindo sobre uma bicicleta de massa similar ao cercado do térreo), embora não seja um caso de alguém que se atira. A arte não tem a função de relatar o que aconteceu, o indivíduo Avery Shawler que caiu num abismo de 18 metros em cima de sua bicicleta e sobreviveu, mas tem a função (dever?) de relatar o que "pode/deve" acontecer: se eu me jogo do sexto andar eu morro (e, obviamente, antes disso que evento me fez tomar essa ação, já que isso decorre da unidade da narrativa). Que alguém pode ler, em uma tradução brasileira, "o que pode acontecer" e interpretar como "todas as possibilidades, todo o reino do possível, tudo o que pode acontecer" é compreensível, o que não é compreensível é que alguém entenda "o mais provável e o necessário" como confirmando essa primeira leitura; que um tradutor português como Ana Maria Valente ou um brasileiro como "seja lá quem fez a coleção Os Pensadores" traduza como "princípio da verossimilhança" me parece simplesmente perverso. Que ἔοικα pode significar "parecido" ou "similar" é uma coisa, mas εἰκός só pode significar "provável". Aqui não é dizer algo que pareça verdade, mas de que é mais provável ser verdadeiro, e o sentido aqui não é nem discutido. Quando se diz "aquilo que pode acontecer de acordo com o princípio da verossimilhança" se diz algo bem distinto. Independente de uma eventual tradução como essa, em que a palavra do autor não importa, o sentido ainda deve ser tomado globalmente, e o fato de que dois portugueses resolvem inserir um "verossímil" anacronisticamente aqui, isso ainda não autoriza a interpretação moderna de verossimilhança ou de todas as probabilidades, porque, como veremos, o autor deixa completamente claro em 1451b 29-32 que há eventos que realmente aconteceram (eventos históricos) e que não são "verossímeis", ou seja, que não devem ser objetos da poesia (além do mais, os cânones da História Clássica não obriga que o historiador diga exatamente o que aconteceu, mas aquilo que parece ser razoavelmente aceitável como verdade... contudo, o leitor fundamentalista tem um ponto aqui: talvez seja assumir demais que alguém que fale sobre algo, i.e. Aristóteles sobre a história, necessariamente fez o dever de casa e sabe do que está falando... filólogos em geral não seguem essa linha, mas eu admito que o fundamentalista tem um ponto aqui); se o leitor não consegue dar um sentido para esse problema, ou não perceber que ele existe, ele não pode acusar a tradução e dizer que foi enganado por um "princípio da verossimilhança" que grassou entre traduções de língua portuguesa. O autor então fala, "claramente" que [por causa disso, novamente, sucessão de ideias] a literatura é universal enquanto a história particular. Como temos as nossas próprias ideias do que é universal, simplesmente paramos a leitura e citação aqui, e não temos paciência para ouvir o que Aristóteles tem a nos dizer a respeito disso. Porém antes do próximo "parágrafo" gostaria de apontar mais um fato e apresentar duas questões de leitura paralela que ao menos devem ser consideradas.

Como foi dito, tudo o que aparece a partir da primeira linha diz respeito à unidade poética, e o que deve/pode acontecer não apenas está sujeito às leis da probabilidade ou necessidade, mas também às "leis" da unidade Artística. Na mesma página, algumas linhas antes, o próprio Aristóteles dá exemplos, de outras coisas que ocorreram a Odisseu (na esfera do mito), mas que não aparecem na sua obra por causa das leis da unidade (há, isso é mais engraçado do que parece). O segundo ponto é que, embora eu seja moderno e concorde em abstrato com a afirmação de que a poesia não está necessariamente no "verso", aqui é muito importante compreender o que seria "pôr Hesíodo em verso não é poesia", e isso é muito relevante porque muito da poesia que não existia na época de Aristóteles é exatamente pôr obras de prosa em verso e ainda assim ser poesia, assim são as obras de Arato (que nasceu pouco depois de Aristóteles morrer), assim é Manílio, assim é grande parte da poesia tardo-antiga cristã das poetizações do Evangelho e das "Vita" dos santos; é, portanto, razoável ver como e porque esse texto foi usado pelos Humanistas e aqueles que os sucederam para condenar a narrativa poética em verso, mas para o crítico fundamentalista, que quer aplicar a verdade aristotélica para o fim dos tempos, uma dificuldade deve ser reconhecida e não pode ser ignorada: se Aristóteles está certo aqui em que uma "versificação" de uma "História" ainda é história versificada e não poesia, Aristóteles diz com todas as letras que Carmen paschale de Sedúlio e De vita Martini de Venâncio Fortunato, e se o fundamentalista pode se dizer no direito de que Aristóteles está certo ainda assim, eu certamente troco o filósofo grego pelos poetas latinos, pois ele não tem o direito de dizer que De vita não é poesia.

Por fim, vou apontar uma provocação curiosa do Else, que acrescenta ao que foi dito, e pode muito bem ser no que Aristóteles pensou. Para Else, Aristóteles está aqui alertando especificamente autores contemporâneos que tem tentado o modo da história, e ele realmente fala drasticamente mal dos autores "episódicos" e daqueles que escrevem Heracleidas e Thebaidas que enumeram e coligem narrativas, que é o modo da história. Novamente, isso não é agradável para os fundamentalistas, mas considerando as críticas severas anteriores que Aristóteles faz a essas narrativas é bem possível que ele tenha tido autores desse tipo em mente (embora, ao meu ver, a tese de Else se enfraquece e não se fortalece com a "historicidade", não no sentido do fundamentalista, do mito), e ele esteja aqui alertando para que poetas não sigam o mesmo caminho da "história" (não do fato, como veremos, mas dos deveres da história, e ignorando os deveres da poesia). Tudo isso, como vemos, tem o cerne na questão da unidade, mas agora a questão da "universalidade", que é a minha "favorita".


1451b 8-11
Por universal eu digo como uma pessoa, de determinado caráter/personalidade, irá falar ou agir em uma ocasião, de acordo com a lei da probabilidade ou necessidade; e é esta universalidade [a que a poesia visa nos nomes que coloca para os personagens]. O particular é - por exemplo - o que Alcibíades fez ou sofreu.
Para todo leitor atencioso um alerta deve ser acionado toda vez que uma passagem é sempre mencionada e sempre "cortada" exatamente na fração de segundo em que o autor vai dar um exemplo concreto. Todas as vezes que alguém resolve citar a passagem de Aristótles, quem faz a citação convenientemente elimina o exemplo concreto. O texto do fundamentalista sempre termina com "a literatura é universal e a história particular", e nunca após o autor dizer exatamente o que ele quer dizer, com exemplos, o que consiste a o universal e o particular. O leitor atencioso deveria se perguntar porque não terminam a citação após o exemplo, e antes de o autor fazer o parêntese sobre a comédia.

Antes de mais nada, eu não vou comentar, como disse, a respeito da relação entre a universalidade e o nome dos personagens. Há uma discussão infinita a esse respeito mesmo supondo que o texto grego esteja correto, e a discussão vai mais longa se não estiver. Por hora, a única coisa que se pode oferecer é que a universalidade tem relação com os nomes dos personagens mas isso não é claro como ou mesmo se é uma positiva (embora ninguém tenha me perguntado, a mim parece que Aristóteles diz que os nomes da comédia mais contemporânea, mais abstratos e gerais, são mais apropriados para o universal, e por isso "já é aparente na comédia", enquanto na comédia antiga a tendência pela retenção de nomes familiares e referenciais é a razão porque não é aparente na tragédia... aqui, me parece, o filósofo defende a completa separação até mesmo no nível referencial da história... contudo, não é uma leitura unânime, e é textualmente complicada e sua confirmação depende de um conhecimento de grego que eu não tenho e sob o qual dependo dos outros). O que eu devo mencionar é que aqui há uma clara repetição, que tem função, e que ao menos uma versão brasileira não respeita, e essa repetição é importante porque referencia novamente para o "universal" da poesia que fala o que "pode/deve" acontecer: "κατὰ τὸ εἰκὸς ἢ τὸ ἀναγκαῖον" (lei da probabilidade ou necessidade). Ele está repetindo e desenvolvendo o que disse, dentro do contexto da unidade: o dever da poesia (decorrente da necessidade da unidade) é falar daquilo que "deve/pode", ou seja, como um personagem X, de tendência Y age ou se comporta em situação Z [gerando resultado W] dentro da "lei da probabilidade ou necessidade". Um homem arrogante, achando que pode fazer feitos que o humano não pode fazer age em direção a esse feito que não consegue e resulta em sua queda, por exemplo, é algo que "pode/deve" ocorrer, com base nesse personagem, de tal caráter, que age de tal modo e o resultado é a consequência esperada por tal ação. Isso é o que a poesia, segundo Aristóteles, deve dizer, é seu dever e onde reside sua glória e superioridade. Isso é o universal para o autor. O particular, como o mesmo diz "é o que Alcibíades disse e fez".

É fácil entender porque o crítico moderno omite a citação. A literatura pós-romântica é notoriamente "individual", ou seja, baseada nesses acidentes do destino, do excepcional, do limite da probabilidade e do blatantemente absurdo, e desenvolvemos nossas próprias ideias de universal e local, então é desinteressante um Aristóteles que defende que o "universal" é o que é comum à normalidade do homem, que para nós é o ordinário e o desinteressante. Porém Aristóteles era um filósofo grego, do IV século A. C., não um cético pós-romântico. Dentro do contexto histórico e literário em que ele se inseria tanto as descrições como prescrições fazem sentido, e parecem combater tendências específicas também. A linha, contudo, não pode nem mesmo com truques Jedi da mente assumir outro sentido, então é cortada. Nem mesmo as leis da "verossimilhança" alteram o que está escrito porque o exemplo é muito claro, e remete diretamente à unidade. Contudo, Aristóteles não termina com o exemplo do universal, mas do individual.

Aqui eu vou ter de, lastimavelmente, abrir uma exceção à leitura do consenso. Não porque não há consenso, mas por que falta leitura. Também não é porque a linguagem é obscura, mas porque é direta mas nós, modernos, não entendemos o que deveria ser óbvio para o público original, então temos de tentar recriar isso, e há diversos problemas. O texto aqui não pode ser mais claro: "O particular é - por exemplo - o que Alcibíades fez ou sofreu", e não há outro jeito de entender ou construir isso com um sentido ligeiramente distinto, já que o que é dito é: o individual/particular significa (um exemplo do que é iconicamente particular) a "história" de Alcibíades, o que ele fez e o que aconteceu com ele. Quanto ao fato de que há pouca leitura, eu devo dizer que dentre os críticos há três grupos: os que simplesmente não comentam a passagem (mesmo Bywalter, “the best so far”), o que são a grande maioria, aqueles que glosam Alcibíades como político Ateniense (o que pode ser um serviço ou grande desserviço), e os raríssimos que tentam explicar a razão de Alcibíades ser mencionado aqui, e quase todas as interpretações são distintas, embora não necessariamente opostas ou concordantes. Portanto, o que vem a seguir, diferentemente do resto da leitura, não é o consenso dos filólogos e comentaristas, e aqui eu terei de me envolver na polêmica e apresentar uma leitura que me parece correta; mais que isso, ao menos da forma como apresento eu não a vi sendo apresentada em nenhum lugar, embora não clamo inventar ela: de fato é basicamente a mesma leitura da poética que outros filólogos chegaram, particularmente por causa da próxima passagem, mais explícita, e eu simplesmente acredito que o exemplo do "que Alcibíades fez ou sofreu" exatamente por isso mesmo... Depois disso apresento a leitura de Else que complementa a minha.

Novamente, considerando o contexto de produção e contexto interno da passagem o que o escritor quer dizer deve ser muito claro. De um lado a representação dos fatos (como veremos depois, mesmo dos que não são possíveis), do outro uma verdade mais elevada, o que "deve ocorrer de acordo com a lei da probabilidade e necessidade". Se o universal é o abstrato comum a todos os humanos e a verdade mais provável dentro da sequência de ação e consequência, o individual é o caso mais excepcional, irracional e "não possível" que "realmente aconteceu". Se "que deve/pode acontecer" é eu me jogar do sexto andar e "devo/posso" morrer e o histórico é Shawler (universal x individual), então um homem vão, envolvido na política, deve/pode cair e compreender seus erros, e isso é o universal, enquanto o individual é Alcibíades.

Isso parece divagar, mas não é. Alcibíades é Alcibíades, e isso, surpreendentemente é o bastante, e aqui, para mim, está a chave e, aquilo que o fundamentalista detesta. Sejamos francos e diretos, Alcibíades é o maior clusterfuck absurdo da antiguidade, e consideramos que tivemos lendas sobre Calígula isso parece até brincadeira, mas não é. O grande problema a respeito da História de Alcibíades (i.e.: o que ele disse e fez) é que ela não faz o menor sentido, e honestamente se você não sabe do que se trata eu recomendo muito que dê uma parada e vá descobrir, porque vale a pena. Ele foi um político extremamente arrogante, ambicioso, ocasionalmente estúpido (mas com uma aura que fazia todo mundo ficar idiota junto dele, o que surpreendia até mesmo os gregos... mas sabemos que provavelmente era porque ele devia ser "gato" demais para os padrões da época), que atentava contra os próprios interesses e nada dentro da história dele faz o menor sentido, e ainda assim ele foi uma das figuras que mais alterou o sentido da Grécia no Período em que viveu. A despeito de todos os seus feitos horríveis ou absurdos, ele nunca sofreu consequência alguma pelos seus atos (ok, exceto aquela vez que ele dormiu com a Rainha de Esparta, mas isso foi um caso raro), e ao mesmo tempo foi, ironicamente, punido de modo severo por atos que ele não fez (foi condenado à morte por uma conspiração contra seu próprio interesse, de que ele quase certamente não participou, e foi exilado por um ataque que outrem ordenou... aqui é difícil saber qual versão dos "atos" Aristóteles conhecia, mas mesmo se Alcibíades cometeu tais atos o próprio ato é irracional o bastante para não fazer sentido). Ele é a epítome do individual ou não universal porque é único. Ninguém é como Alcibíades, ninguém tem algo em comum com ele, a história dele não faz nenhum sentido, mas o que ele disse, fez e o que aconteceu com ele é domínio da história, o caso "extremo" do domínio que é só histórico e não é digno da poesia. A poesia apresenta a verdade, o que deve e é mais provável de acontecer em tal circunstância, e que é comum aos homens. À história cabe Alcibíades.

Eis o porque ninguém termina a "verdade" do Senhor Ari. mencionando seus exemplos. Nenhum autor moderno, em sã consciência, defenderia que o natural e consequente é o DEVER da literatura enquanto a mesma não deve falar desses casos estúpidos, absurdos e idiossincráticos, pois os mesmos são o "particular". Mas é exatamente isso o que está dito. O quão específico você interpreta a correlação "feitos de Alcibíades" = "particular" está em cheque, mas como a primeira parte é inequívoca e a segunda é especificamente o domínio da história, é esse o sentido mais óbvio. Além do mais, novamente, Aristóteles foi um escritor grego, não um pós-romântico inglês ou simbolista francês, e muitas de suas ideias, mesmo que parcialmente distorcidas ainda eram vistas de forma clara pelos escritores antigos... Um exemplo injusto mas que acho instrutivo é a polêmica de Machado com Eça, e que fique claro, o contexto é completamente diferente, mas como uma noção de unidade da parte de um e de outro são diferentes, e como isso diferentemente se executa na prática: Machado criticou Eça especificamente porque em "O Primo Basílio" toda a trama (para o crítico) decorreu de um acidente, a descoberta da carta pela criada, e sem o acidente (sem carta), não tinha trama... Critico o Machado pela mesma razão que critico Aristóteles, mas o como ele resolveu desenvolver essa unidade de caráter em sua própria obra é que é o surpreendente, já que em Memórias Póstumas há uma carta (ou seja, o acidente), mas ela não perturba a trama (ou seja, o que se espera dos personagens). Independente do resultado, a ideia não é comunicativa para nós, e o mesmo pode se dizer dos princípios estéticos renascentistas, e ainda mais dos gregos. Quando vemos os textos gregos (que conhecemos) a que Aristótles tinha acesso, suplementado pelos que ele conhecia e que não conhecemos, essa posição (mesmo que não concordemos com ela) é sensível. O fundamentalista não quer o sensível ou o que o filósofo pensou, quer uma autoridade para suas ideias, e não é por menos que a passagem é omitida.

Else, contudo, apresenta uma complicação extra, que é que, segundo ele o personagem Alcibíades era usado frequentemente na comédia (referências dentro da obra), e, pior ainda, as pessoas começavam a não só achar que a figura dele era "Razoável" como "simpatizavam" com essa figura absurda (polêmicas em relação ao coringa do Phoenix e sua possível perversão moral são mera coincidência), e mesmo um filólogo Alemão, Bruns, afirma (em um assunto não relacionado) que a figura de Alcibíades parecia se tornar parcialmente-reabilitada. O ponto, e novamente, é a unanimidade, é que o particular é algo que Alcibíades representa particularmente "individual", e esse individual não só não é a obrigação da literatura, como a literatura não deve falar desse individual. É por isso que a obra foi tão popular para condenar a literatura pia, botânica, ou histórica medieval, mas é óbvio também que ela, se condena as mesmas, não autoriza a individual e libertina estética pós romântica.

Críticos podem compreender isso, e entender o contexto e o texto, mas nenhum literato moderno vai defender algo como "a literatura só pode falar dos tipos prováveis", e que esses indivíduos bizarros e aleatórios são algo que a história deve comentar, e algo que cabe a ela apenas... Para mim, nenhum homem grego merece mais ficção do que Alcibíades (e muitos modernos concordam comigo a despeito de Aristóteles, não por que sou melhor que o autor grego, mas porque somos todos modernos), o fundamentalista (que, ironicamente, também concorda e usa Aristóteles para justificar um assassinato histórico ou uma excentricidade individual) finge que Aristóteles não disse isso e volta para a página anterior.

Ainda há, obviamente, um elefante na sala. Do modo como isso tem se apresentado, e como o próprio Aristóteles diz, de um lado temos a história real, que é dever da história, e do outro a invenção baseada na tradição ou mito que fala das coisas que "devem/podem" acontecer baseada nas leis já tratadas. A pergunta que fica é, mas e no caso da obra poética que TAMBÉM trata de fatos históricos? Aristóteles supõe que isso não é possível? Ou está dizendo que tudo é possível porque não é real? O autor, percebe muito bem que o que ele disse 'implica' que "não é possível" a literatura histórica ou ela seria má literatura (como ele fala antes ou depois) ou "história em verso" como ele profetiza se tentarem, contudo, sabendo dessas implicações, e sabendo que existiam grandes obras trágicas "históricas" (Captura de Mileto por Phrynicus ou As Pérsias de Ésquilo... seria interessante conhecer a opinião específica), Aristóteles tem de falar desse caso como um elemento separado, e é isso que leva toda aquela baboseira de achar que a primeira parte justificava qualquer assassinato histórico... Leremos:


1451b 29-32
E mesmo se acontecer de [o poeta] tomar um assunto histórico, ele não é menos poeta; pois não há razão que diga que alguns eventos que realmente ocorreram não devam se conformar à lei do provável e possível, e na virtude dessa qualidade[/função/valor] que ele é o poeta ou criador deles [dos eventos].
 Aqui há um pecado de tradução que ocorre, aparentemente, também no Ingles, mas que no português e francês ocorre mais, e é nesse ponto que vem o título de que palavras importam. Independente de como você traduzir uma passagem ou outra, alguém pode te criticar ou não por isso, as palavras que escolhes são significativas. As duas passagens marcadas usam a mesma palavra, γενόμενα/γενομένων em diferentes funções, de modo que eu não vou nem discutir qual é a tradução correta (eventos históricos, fatos que realmente ocorreram, situações reais, coisas que aconteceram; etc.), mas a leitura deve ser coerente. Aqui há uma tentativa de poeticidade que predica uma tradução mais elegante, e elegante é menos repetição (a tradição inglesa, ao menos, exige uma cláusula de legibilidade, que tem suas vantagens e desvantagens), mas o fato é que não há atenção o bastante para a tradução de prosa, e acho que um ponto a se começar é especificamente em relação a repetições e não repetições. É bem frequente que expressões repetidas sejam substituídas (para evitar repetição) quando a repetição é significativa; por outro lado, não é raro usar o mesmo termo quando um original usa dois ou mais. Em alguns casos isso é linguístico e inescapável (termos de parentesco, por exemplo), mas em outros é deliberado. Eu entendo que alguém não queira repetir a mesma construção diversas vezes num texto, mas como em 1451b 8-11 o DEVER da história é relatar "aquilo que aconteceu", o poeta pode adotar o "acontecido/o fato que aconteceu" sem deixar de ser poeta, na medida em que "aquilo que aconteceu" (a mesma construção) não é necessariamente oposta à "verdade" poética.

Eu vou abrir uma exceção aqui, porque eu não acho que eu consigo explicar isso melhor que um aristotelista conservador do XIX. Acho que é o melhor modo de explicar isso, e se a pessoa ainda assim não entender eu tento o que posso, mas não sei se consigo melhor:

Até esse ponto, um poema tem sido assumido sempre ser um mito [mithos] uma história ficcional (veja 5. 1449b 9), ou inventada pelo próprio poeta (b12, b21) ou adaptada da lenda. Aristóteles, contudo, agora lembra que pode existir tal coisa como drama histórico, um em que incidentes são tirados da história real (genomena). Tais incidentes, ele explica, são assuntos legítimos para a poesia, se eles podem se exibir como prováveis e naturais, assim como acontecimentos reais.
A primeira coisa a se notar dessa passagem, que fecha todo o argumento é que, em um aspecto o fundamentalista está correto em que o "valor" do poeta não está no "fato" histórico, mas na "realidade" e "universalidade", mas todo o resto, inclusive na definição dos termos ele está errado. Segundo Aristóteles, o poeta pode usar "o que realmente aconteceu/a realidade histórica/ o fato histórico", mas os termos são os mesmos da obrigação histórica; na ficção ele só precisa falar do "universal" e do que "deve acontecer", mas quando ele usa "o que realmente ocorreu" ele tem o ônus histórico, e ele só pode usar na medida que alguns fatos históricos (i.e.: verdadeiros, ou "que realmente ocorreram") não são "possíveis"... É aquele aforismo paradoxal que o impossível pode acontecer, e o impossível acontece o tempo todo e é objeto da história. Para Aristóteles, o que importa é o "possível" (em termo técnico), e por isso o impossível fica de fora. Essa passagem, novamente, concorda, de que alguns eventos históricos são passíveis de boas obras (e Aristóteles tem bons exemplos, mas temo que só prova que o que "é verdade" para Aristóteles é racismo para a sociedade moderna), e que algumas não são "possíveis", como a de Alcibíades, e é matéria para a história. Ninguém hoje em dia concorda com esses preceitos, mas dentro dos conceitos da unidade isso é uma estética consistente e sabemos a dificuldade sobre as quais o autor teve de trabalhar. O fato é que, aqui, o poeta que usa a história deve ser tão correto com os fatos, como também deve ser criador. É uma situação complicada, que não prevê o anacronismo deliberado e intencionado (mal-intencionado, diriam alguns) de Virgílio, ou a reformulação de prosa em verso, ou o centão, ou a poesia romântica, ou o individualismo moderno. Aristóteles não justifica o teu nonsense e absurdo, então aos bons poetas o que resta é levantar com os próprios pés e construir sua obra, época, público e críticos...