domingo, 11 de setembro de 2011

Intermezzo 9 - Heine

Intermezzo 9 - Heine
Auf Flügeln des Gesanges,
Herzliebchen, trag ich dich fort,
Fort nach den Fluren des Ganges,
Dort weiß ich den schönsten Ort;

Dort liegt ein rotblühender Garten
Im stillen Mondenschein,
Die Lotosblumen erwarten
Ihr trautes Schwesterlein.

Die Veilchen kichern und kosen,
Und schaun nach den Sternen empor,
Heimlich erzählen die Rosen
Sich duftende Märchen ins Ohr.

Es hüpfen herbei und lauschen
Die frommen, klugen Gazelln,
Und in der Ferne rauschen
Des heiligen Stromes Well'n.

Dort wollen wir niedersinken
Unter dem Palmenbaum,
Und Liebe und Ruhe trinken,
Und träumen seligen Traum.



Intermezzo 9 - Heine
Sobre asas dos versos cantantes,
Querida, para longe te levo,
Levo-te para os prados dos Ganges,
Lá há o mais belo relevo;

Lá repousa um rubro jardim
No belo e afável luar,
Os lótus, suas irmãs assim,
Estão a procurar.

As violetas riem e brincam,
Fitam depois as astrais plagas,
As rosas furtivas narram
Às orelhas aromais sagas.

Pulou e espiou a gazela
Esperta para este lado,
O murmúrio, ouviu ela,
Das ondas do flúmen sagrado.

Lá desejamos submergir
Debaixo das palmeiras,
Do amor e calma se servir,
Sonhar sonhos à clareira.

Trad: Raphael Soares



O que me chama grande atenção para a poesia alemã é o Lied. Heine é sem dúvidas o poeta mais músicado do mundo. Só esse poema foi músicado por uns 20 compositores. O mais importante provavelmente é Mendelssohn. O Lied "Auf Flügeln des Gesanges" de Mendelssohn é uma obra prima do gênero, QUASE rivalizando com os Lieder de Schubert.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

La Folle - Sully Prudhomme

La Folle - Sully Prudhomme
Sonnet

Errante, elle demande aux enfants d'alentour
Une fleur qu'elle a vue un jour en Allemagne,
Frêle, petite et sombre, une fleur de montagne.
Au parfum pénétrant comme un aveu d'amour.

Elle a fait ce voyage, et depuis son retour
L'incurable langueur du souvenir la gagne :
Sans doute un charme étrange et mortel accompagne
Cette fleur qu'elle a vue en Allemagne un jour.

Elle dit qu'en baisant la corolle on devine
Un autre monde, un ciel, à son odeur divine,
Qu'on y sent l'âme heureuse et chère de quelqu'un.

Plusieurs s'en vont chercher la fleur qu'elle demande,
Mais cette plante est rare et l'Allemagne est grande ;
Cependant elle meurt du regret d'un parfum.




A Louca - Sully Prudhomme
Soneto

Errante, ela para as crianças pedia,
Uma tal flor que vira, um dia, na Alemanha,
Pequena e frágil flor, bela flor da montanha.
De perfume pungente e uma atração sombria.

Essa viagem ela fez, e lhe afligia¹
A incurável dor de uma lembrança tamanha¹ :
Sem dúvida um mortal encanto acompanha
Essa tal flor que vira na Alemanha um dia.¹

Algum divino odor, um mundo e, ela parola,
Um céu sublime surge ao cheirar a corola,
Se sente a alma feliz, por alguém, e querida.

Muitos partem, por ela, em tal busca pretensa,
Mas essa planta é rara e a Alemanha é imensa;
Sem sentir o perfume ela deixou a vida.

Trad: Raphael Soares

¹ Sem cesura. O primeiro é um dodecassílabo romântico.



Sully Prudhomme é um poeta pouquíssimo conhecido no Brasil, apesar de sua qualidade poética e o título de 1º Nobel de Literatura. Essa tradução (minha segunda em língua francesa, que não domino) é criticável por diversos aspéctos, em particular em relação às inversões tortuosas. Esse poema possui ainda mais duas traduções, uma por Fontoura Xavier e outra por Raimundo Correia.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

3 Poetisas de Língua Inglesa: Dickinson, Plath e Sexton

Aqui mais 3 traduçoes, mas antes delas um pedido de desculpas:

A falta da qualidade dessas traduções decorre da minha incompreensão da poética das autoras. Foi uma tentativa quase misstranslation. Por sorte há muitas, e competentes, traduções de Dickinson e Plath, apesar de Sexton ser pouco traduzida no brasil.

Seguem as traduções:



712 - Dickinson

Because I could not stop for Death,
He kindly stopped for me;
The carriage held but just ourselves
And Immortality.

We slowly drove, he knew no haste,
And I had put away
My labor, and my leisure too,
For his civility.

We passed the school, where children strove
At recess, in the ring;
We passed the fields of gazing grain,
We passed the setting sun.

Or rather, he passed us;
The dews grew quivering and chill,
For only gossamer my gown,
My tippet only tulle.

We paused before a house that seemed
A swelling of the ground;
The roof was scarcely visible,
The cornice but a mound.

Since then 'tis centuries, and yet each
Feels shorter than the day
I first surmised the horses' heads
Were toward eternity.


18 April - Plath

the slime of all my yesterdays
rots in the hollow of my skull

and if my stomach would contract
because of some explicable phenomenon
such as pregnancy or constipation

I would not remember you

or that because of sleep
infrequent as a moon of greencheese
that because of food
nourishing as violet leaves
that because of these

and in a few fatal yards of grass
in a few spaces of sky and treetops

a future was lost yesterday
as easily and irretrievably
as a tennis ball at twilight


After Auschwitz - Anne Sexton

Anger,
as black as a hook,
overtakes me.
Each day,
each Nazi
took, at 8: 00 A.M., a baby
and sauteed him for breakfast
in his frying pan.

And death looks on with a casual eye
and picks at the dirt under his fingernail.

Man is evil,
I say aloud.
Man is a flower
that should be burnt,
I say aloud.
Man
is a bird full of mud,
I say aloud.

And death looks on with a casual eye
and scratches his anus.

Man with his small pink toes,
with his miraculous fingers
is not a temple
but an outhouse,
I say aloud.
Let man never again raise his teacup.
Let man never again write a book.
Let man never again put on his shoe.
Let man never again raise his eyes,
on a soft July night.
Never. Never. Never. Never. Never.
I say those things aloud.

I beg the Lord not to hear.



Dickinson – 712 (numeração de Johnson)

Porque não pude parar para a Morte -
Ela, gentil, parou para mim –
A Carruagem levou Nós duas -
E a Imortalidade.

E lento fomos – Nenhuma pressa
E eu deixei de lado
Meu trabalho e indolência
Por sua Cortesia –

Passamos em frente à Escola, onde as Crianças
Brincavam - no intervalo –
Passamos pelos Campos de Trigos Maduros –
Passamos pelo ocaso –

Ou melhor – Ele passou por Nós –
E o Frio esfriava e me gelava –
Meu Vestido somente de Gaze –
E só de Tule minha capa –

Paramos ante uma Casa, semelhante
A um relevo no chão -
Mal se via o Telhado –
A Cornija - no chão –

Desde então – Séculos passaram –
Cada um mais curto que um Dia
Pela primeira vez vi que os cavalos
Rumavam para a eternidade.


Plath – 18 de Abril

a lama de todos os meus ontens
apodrecem no vácuo de meu crânio

e caso o meu estômago se contrair
devido algum fenômeno explicável
como gravidez ou constipação

eu não lembro de você

ou que por causa do sono
infrequente como a lua de queijo
que por causa da comida
é nutritiva como folhas de violeta
que por causa dela

e em poucas jardas fatais de grama
em poucos espaços dos céus e das copas

um futuro estava perdido ontem
tão facilmente e irremediavelmente
como uma bola de tênis no ocaso


Anne Sexton – Depois de Auschwitz

A raiva,
tão negra como um gancho,
vence-me.
Cada dia,
cada Nazista
pega, às 8:00 da manhã, um bebê
e o refoga na sua frigideira
para o café da manhã.

E a morte olha com um olhar casual
e pega a sujeira abaixo da unha.

O homem é mau,
eu grito.
O homem é uma flor
que deve-se queimar,
eu grito.
O homem
é um pássaro enlameado,
eu grito.

E a morte olha com um olhar casual
e coça o anus.

O homem com seus róseos pés,
com seus dedos milagrosos
não é um tempo
mas um casebre,
eu grito.
Que o homem nunca mais erga sua xícara de chá.
Que o homem nunca mais escreva um livro.
Que o homem nunca mais calce seus sapatos.
Que o homem nunca mais abra seus olhos,
na fina noite de julho.
Nunca. Nunca. Nunca. Nunca. Nunca.
Eu grito essas coisas.

Oro ao Senhor que não ouça.

domingo, 10 de julho de 2011

Tyger - Blake

The Tyger - William Blake

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare sieze the fire?

And what shoulder, & what art.
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And watered heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?



Tygre – William Blake

Tygre, Tygre, brilho & brasa
Que a flora noturna abraça,
Que mão com tal maestria,
Moldou a tua simetria?

Qual remoto céu ou abrolhos
Forjou o fogo dos teus olhos?
Que asa atreveu-se a alçar-te?
Qual mão içou o ardor destarte?

Quais ombros, & qual ação,
Fez tendões do coração?
E quando o coração pulsa,
Que pés & mãos de repulsa?

Que martelo? Que corrente?
Que fornalha fez tua mente?
Que bigorna? Que poder
Pôde o teu terror tecer?

Quando os astros clarões tantos
Lançaram, caiu o céu em prantos,
Sorriu Ele da façanha?
Fez o Anho & a ti a mesma sanha?

Tygre, Tygre, brilho & brasa
Que a flora noturna abraça,
Que mão com tal maestria,
Forjou a tua simetria?

Trad: Raphael Soares



Não resisti. Mesmo sabendo que há mais de 20 traduções portuguesas deste poema, resolvi fazer minha própria versão. Fazer o quê?

terça-feira, 5 de julho de 2011

La Beauté - Charles Baudelaire

La Beauté - Charles Baudelaire

Je suis belle, ô mortels! comme un rêve de pierre,
Et mon sein, où chacun s'est meurtri tour à tour,
Est fait pour inspirer au poète un amour
Eternel et muet ainsi que la matière.

Je trône dans l'azur comme un sphinx incompris;
J'unis un coeur de neige à la blancheur des cygnes;
Je hais le mouvement qui déplace les lignes,
Et jamais je ne pleure et jamais je ne ris.

Les poètes, devant mes grandes attitudes,
Que j'ai l'air d'emprunter aux plus fiers monuments,
Consumeront leurs jours en d'austères études;

Car j'ai, pour fasciner ces dociles amants,
De purs miroirs qui font toutes choses plus belles:
Mes yeux, mes larges yeux aux clartés éternelles!



A Beleza – Charles Baudelaire

Como um sonho de pedra, oh mortais! Sou formosa,
E meu seio, onde todo homem sofre sua dor,
É feito p’ra inspirar no poeta um amor
Assim como a matéria, eterna e silenciosa.

Reino no azul como uma esfinge incompreendida;
Branco como o cisne é meu coração de neve;
Odeio o movimento e a sua linha breve,
Nunca chorei nem nunca ri em toda a vida.

Os poetas, ao ver minhas grandes atitudes,
Que imprimo aos colossais, perfeitos, monumentos,
Consumirão seus dias aos tomos mais inrudes;

Tenho para fascinar do amante os momentos,
Espelhos que farão mais bela a realidade:
Os olhos olharão à eterna claridade!

Trad: Raphael Soares



Primeira tentativa de tradução poética usando a língua francesa. E essa é uma tradução criticável por vários aspéctos: 1º o primeiro e quarto versos estão idênticos aos respectivos versos da tradução de Ignácio de Souza Moitta, apesar de ter pensado em usar originalmente [...]bonita/[...]que eterna e muda fica. 2º o sétimo verso lembra muito a tradução de Junqueira e Haddad (que são idênticas nesse verso). 3º o oitavo verso não é um alexandrino, mas um dodecassílabo romântico (acentos na 4ª, 8ª e 12ª vogas, sem censura). 4º poeticamente é uma tradução meio fraca, mas ao menos acho que o léxico e estilo estão meio-baudelairianos.

Para fazer essa tradução, também consultei 4 traduções brasileiras (Almeida, Haddad, Moitta e Junqueira), além de 5 ingesas (Kline, Aggeler, Campbell, Nilan e Shanks).

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Der Doppelgänger - Heinrich Heine

Der Doppelgänger - Heinrich Heine¹

Still ist die Nacht, es ruhen die Gassen,
In diesem Hause wohnte mein Schatz;
Sie hat schon längst die Stadt verlassen,
Doch steht noch das Haus auf demselben Platz.

Da steht auch ein Mensch und starrt in die Höhe
Und ringt die Hände vor Schmerzensgewalt;
Mir graust es, wenn ich sein Antlitz sehe -
Der Mond zeigt mir meine eigne Gestalt.

Du Doppelgänger, du bleicher Geselle!
Was äffst du nach mein Liebesleid,
Das mich gequält auf dieser Stelle
So manche Nacht, in alter Zeit?

¹ O título Der Doppelgänger não é de Heine, mas sim do lied de Schubert (Der Doppelgänger, D.957, n.13). O poema faz parte do Buch der Lieder, seção Die Heimkehr (poema XX).



O Doppelgänger - Heinrich Heine¹

A noite está calma, as ruas tranquilas,
Nesta casa morava o meu rubi;
Foi-se, há muito abandonou a vila²,
Mas a casa ainda permanece aqui.

Também há lá, um homem p’ra o céu voltado
Torcendo as mãos co’o peso da agonia;
Quando sua fronte vejo, fico horrorizado–
No luar minha própria face via.

Tu, Doppelgänger, tu, pálido amigo!
Por quê imitas meu sofrer de amor
Que aqui mesmo muito acabou comigo
E causou-me, em antigos tempos, dor?

Trad: Raphael Soares

¹ Do mesmo modo que preferi manter o nome Erlkönig (ao invés de Rei dos Elfos ou Rei dos Alnos), optei por manter Doppelgänger, que além de ser reconhecido no Brasil com esse nome mesmo (ver Doppelgänger na Wikipédia) uma tradução hiperliteral seria ridícula. Assim como Elkönig, a tradução também foi feita a partir da música.

² No original Schatz [tesouro, jóia] e Stadt [cidade], vertidos como rubi e vila. Importante perceber que não há aliteração entre Sie [z], schon [ʃ] e Stadt [s]. Tentei reproduzir essas aproximações sonoras com as oclusivas t, d e b. Lamentavelmente, as fricativas causam um efeito mais interessante no poema, daí acrescentei também os sons fricativos em Foi-se [f & s] e vila [v].

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Poemas Muito Traduzidos

Recentemente me deparei com uma grande pergunta: Qual é o poema mais traduzido em língua portuguesa?

Como há pouquíssimas pesquisas bibliográficas de poesia no Brasil, difícil saber a resposta, já que não é facil para mim que moro num lugar tão tão distante ter acesso à informações bibliográficas precisas, isso desconsiderando as traduções feitas em periódicos de pouquíssimo alcance. Com os recursos que disponho, procurei na internet mesmo e em meu pequeno (mesmo) acervo. Eis alguns poemas extremamente traduzidos para a nossa língua:

Emily Dickinson - 449 (na numeração de Johnson)
Graças ao site sobre Emily Dickinson da Unesp (link aqui) que contem o maior levantamento sobre Dickinson no Brasil, podemos ver que o poema mais traduzido (não é surpresa) é o "I died for Beauty". Possui, segundo o site, 21 traduções respectivamente de Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Olívia Krähenbühl, Nise Martins Laurindo, Vera das Neves Pedroso, Carolina Matos, Jorge de Sena, Jorge Wanderley, Aíla de Oliveira Gomes, Idelma Ribeiro de Faria, José Lino Grünewald, Helena Alvim Ameno, Zelita Seabra, Isa Mara Lando, Lucia Olinto, Nuno Júdice, Ivo Bender, António Simões, Fernanda Mourão e Augusto de Campos. Aparentemente, o site desconsidera a tradução de Ivo Barroso.
Todas essas traduções podem ser encontradas no site.

Edgar Allan Poe - The Raven
Já falei sobre esse em um post anterior. Possui pouco mais de 30 traduções em português, além de uma série de traduções parciais, paródias, imitações e poemas inspirados. No site do Elson Fróes (link aqui) pode-se ler praticamente todas.

Blake - The Tyger
Esse para mim foi surpresa. Não esperava que esse poema tivesse tantas traduções. Numa pesquisa rápida, pouco exaustiva e com muitas falhas, encontrei 20 traduções do poema. 13 traduções são rimadas e metrificadas (segue o nome do tradutor mais a primeira linha, para fácil consulta):
Alex Raymundo (Tigre! Tigre! chama luminosa)
Augusto de Campos (Tygre! Tygre! Brilho, brasa)
Joedson Adriano (Tygre Tygre, Brilhante brasido)
Jorge Vilhena Mesquita (Tigre! Tigre! flamejando)
Jorge de Sena (Tigre, tigre, ardendo aceso)
José Paulo Paes (Tygre, Tygre, viva chama)
Ivo Barroso (Tigre! Tigre! tocha tesa)
Nagib Anderáos Neto (Tigre, tigre, brilho ardente)
Paulo Hecker Filho (Tigre, tigre, luz que cresta)
Paulo Vizioli (Tigre, tigre, flamante fulgor)
Renato Suttana (Tigre! Tigre! clarão feroz )
Sidnei Schneider (Tigre! Tigre, ardendo grave)
Vasco Graça Moura (Tigre, tigre, chama pura)
Há ainda mais 4 traduções não rimadas ou metrificadas:
Ângelo Monteiro (Tigre, tigre que flamejas)
Cunha e Silva Filho (Tigre! Tigre! luz queimando)
Luiz Felipe Coelho (Tigre! Tigre! brilhando intenso)
Shironaya [pseud] (Tigre, tigre, brilho incandescente)
E mais 3 traduções encontradas na internet sem indicação de autoria, mas provavelmente feitas pelo dono do blog ou perfil (clique para acessar):
(Tigre! Tigre! Luz brilhante)
(Tigre! Tigre! Flamejante brilho)
(Tigre, Tigre, ardendo luminoso)
Ao meu ver, de todas as traduções a melhor é a de Augusto de Campos.

Goethe - Der König in Thule
Apesar de Erlkönig ser, sem dúvida, o poema mais traduzido de Goethe, em português, ao que me parece, o poema mais traduzido é A Canção do Rei de Tule. Segundo a revista Estudos Vol.II há mais de 30 versões portuguesas do poema (das quais eu conheço apenas 7). Acrescente a esses a versão de Marcus Mazzari. Não sei de traduções brasileiras do poema.

Shakespeare - Soneto XXIX
Para a minha surpresa, o soneto mais traduzido de Shakespeare é o de nº 29. Não é o 15º, nem o 18º, nem o 23º nem o 116º, mas o 29º. Traduziram esse soneto no Brasil (em ordem cronológica) Péricles Eugênio Silva Ramos, Samuel Mac Dowell Filho, Ana Amélia Carneiro de Mendonça, Heitor P. Fróes, J.G.de Araújo Jorge, Ivo Barroso, Décio Pignatari e Lázaro Barreto. Além desses, os que traduziram integralmente os sonetos também traduziram o 29º, ou seja: Jerónimo de Aquino, Oscar Mendes, Jorge Wanderley, Marcos Beltrão Frederico, Milton Lins e Thereza Christina Rocque da Motta. Traduções portuguesas temos a de Carlos de Oliveira, Maria do Céu Saraiva Jorge, Ênio Ramalho e Vasco Graça Moura. Totaliza então 18 traduções do poema, isso desconsiderando as traduções de Barbara Heliodora (que provavelmente traduziu esse soneto, mas que não pude conferir), Maria Margarida Acedo (idem) e Renato Marques de Oliveira (que é quase igual a tradução de J.G. de Araújo Jorge).


Também há Baudelaire, que é um dos poetas mais traduzidos no Brasil. Apesar de possuir vários estudos bibliográficos, não tive paciência de contar as traduções do poeta, mas suponho que o poema mais traduzido do poeta seja Correspondences ou L’Homme et la Mer.

Se possível, ajudem a preencher esse vazio, postando poesias que foram traduzidas para o português mais de 20 vezes.


Informação adicionada em 08/09/11:  Guilherme de Almeida traduziu também a Canção do Rei de Tule... posteriormente falo sobre esse poema...

O Poema I Died for Beauty também foi traduzido no Brasil por Adriandos Delima, e pode ser lido aqui. Com isso são 23 traduções que consigo contar.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O Primeiro Soneto de Shakespeare Brasileiro

"Os Sonetos abarcaram no Brasil tardiamente, se comparado às obras dramatúrgicas do bardo inglês, pois as primeiras traduções brasileiras foram produzidas apenas no início da década de 1950, de autoria de Samuel Mac-Dowell Filho e Péricles Eugênio da Silva Ramos." (SILVA, s/d)
Assim começa um artigo de autoria de Gisele Dionísio da Silva. Apesar de não discordar totalmente da pesquisarora, afinal, a grande mania dos sonetos só iniciou-se na segunda metade do século XX tendo atualmente os Sonetos possuem mais de 50 tradutores (alguns traduziram um único soneto, outros todos), todos de 1950 até 2011. Péricles Eugênio e Samuel Mac-Dowell Filho foram os primeiros grande tradutores dos sonetos, sendo que PESR traduziu 4 sonetos em 1950, seguido pela Pequena Sequencia Shakespeariana de Mac-Dowell em 1952, para em fim publicar seus 33 sonetos em 1953.

Entretanto, anteriormente os sonetos já haviam dado as caras no Brasil num livrinho chamado Opalas (2ª ed de 1905) do poeta Fontoura Xavier, um dos precussores do parnasianismo. Fontoura Xavier traduziu 4 sonetos de Shakespeare: XIV (Eu não sei ler a sorte em astrolábios,), XVII (Assim queiram em época futura), XXI (Não sou daqueles que, exaltando aquela) e LIX (Se tudo quanto existe antes tinha existido); os três primeiros em decassílabos e o último em dodecassílabo com censura no meio.

Ao que me consta, Fontoura Xavier foi o primeiro tradutor dos Sonetos (e considerando um soneto como obra completa, o primeiro tradutor de uma obra de Shakespeare, já que precede o Hamleto de Tristão Cunha), e também o único até a publicação dos primeiros sonetos de Péricles Eugênio (XV, LXXI, LII e CXXX).

O procedimento tradutório de Fontoura Xavier é interessante. A tradução faz parte da produção poética do tradutor, e Xavier procura "adaptar" o pensamento e fala do traduzido para a sua poética particular. Ao traduzir Sully Prudhomme por exemplo, transforma "Errante, elle demande aux enfants d'alentour" em "Sei de um louco embalde, incessante, à porfia" mudando o sexo da figura sem motivo explicável (não é plausível o engano de elle, afinal, pelo amor de Deus, quem não sabe que elle é ela e não ele). Traduzindo Shakespeare, Fontoura Xavier não é muito diferente:

SONETO XIV

Eu não sei ler a sorte em astrolábios,
E nem predigo pela astrologia
A fome e a peste como uns tantos sábios,
Mas entretanto sei astronomia.

Um destino qualquer eu não leria;
Se houvesse por ventura o estranho fado
A ler de um rei ou príncipe de estado,
Bofé! que ao certo ler não saberia.

É que em duas estrelas eu resumo
(Teus olhos) toda a minha astronomia;
E tanto leio neles, que presumo

Que foste filha de um cinzel antigo,
E o dia em que morreres, nesse dia
Morre na terra a plástica contigo.

        trad: Fontoura Xavier

Algumas escolhas são marcantes. O maior problema dessa tradução é o mesmo problema que consta em toda a poética de Fontoura Xavier: o verso pouco natural. Na primeira estrofe temos um "astrolábios" que rima com "sábios", "sábios" esse que está em tom notadamente irônico (inexistente no poema em inglês), que é mais próprio da poesia "socialista" (o termo não é meu) de Fontoura Xavier.

Os dois argumentos principais do soneto estão nos versos de nº 12 e 14. No verso nº 12 o poeta tenta convercer o interlocutor a procriar, para que a beleza permaneça, e de certo modo, sabe que não acontecerá, o interlocutor não terá filhos e no verso nº 14 o poeta afirma que quando o interlocutor morrer morre toda a beleza e verdade junto com ele. Fontoura Xavier retira de seu poema o argumento da procriação, substituindo por um "Que foste filha de um cinzel antigo", que é completamente nonsense em relação ao próprio poema traduzido. Não parece ser o caso de um equívoco, já que a presença do "filha" indica que fontoura captou o sentido (já que não existe a palavra "filho" ou "filha" no texto em inglês) mas o modificou (com eficiência questionável).

Outras traduções do mesmo veso em ordem cronológica:

Samuel Mac-Dowell Filho [1952]: "Em conúbbio nativo com o honesto." (???)
Jerónimo de Aquino [1956]: "Se o tesouro que ela é em ti, multiplicares."
Jorge Wanderley [1991]: "Se deres fruto de ti mesmo, um dia."
Marcos Beltrão [1998]: "Se de te guardares só pra ti te convertesses:"
Renata Cordeiro [2003]: "Se a reserva que tens, passares ao herdeiro;"
Milton Lins [2005]: "Se por ti mesmo os bens os converteres?"
Thereza Christina [2009]: "Se de teu próprio ser verteres o teu alento;"
Lázaro Ramos e Jorge Furtado [2010]: "Se tu concederes dar-lhes lastro"

É um verso, de fato, difícil, pois quase todos se confundiram ou alteraram tanto sua forma que seu sentido principal se perdeu. Desconsiderando as escolhas absurdas de Samuel Mac-Dowell Filho e Milton Lins (que são comuns), as traduções em verso livre cometeram erro de interpretação (Marcos Beltrão e Thereza Christina). As demais traduções estão bem de acorddo. Interessante também é a escolha de Ivo Barroso: "Que a verdade e beleza darão frutos/se em ti deixas de tanto reservar-te", essa escolha não pode ser considerada infiel, mas também não é tão direta assim: só sei que se trata da procriação porque li o texto em inglês.

A escolha de Fontoura Xavier para o 12º verso sem dúvida não teve preocupação nenhuma com o texto de origem, e foi opcionalmente feita para retirar a ideia de procriação do poema. No 14º verso, a opção do tradutor é de criar um texto com uma linguagem menos subjetiva, transformando a "beleza" em "plástica", mudança que não me agrada nem um pouco, além da inversão incomum para manter a rima com o 12º verso.

Vejamos outras traduções:


Samuel Mac-Dowell Filho: "Que em teu fim terá fim Kalokagatos." (???)
Jerónimo de Aquino: "Perdida a tua beleza, estarás tu extinto."

Ivo Barroso: "Teu fim põe termo ao verdadeiro e ao belo"
Jorge Wanderley: "Belo e verdade findam com teu fim"

Marcos Beltrão: "Que o teu fim será o término e a catacumba da verdade e da beleza"

Renata Cordeiro: "Com verdade e beleza, encontrarás a morte."
Milton Lins: "A verdade é teu fim como beleza" (???)
Thereza Christina: "Em ti toda a verdade e beleza findam."

Lázaro Ramos e Jorge Furtado: "Tua morte, o belo e o justo finda"

Verso também de difícil compreenção, que fez Renata Cordeiro, Thereza Christina e Jerónimo de Aquino confundirem-se pela inversão. Novamente, as escolhas de Samuel Mac-Dowell e Milton Lins dispensam comentários. Fontoura Xavier acertou o sentido do verso e do poema, mas o plasticizou. Falando do poema como todo, essa tradução é um pouco "forçada", apesar de alguns bons momentos. A modificação voluntária do sentido do poema não é exatamente um defeito, mas uma diferente concepção de tradução (como parte da obra criativa do tradutor). O mesmo faz nos outros sonetos, onde remove ou acrescenta ideias a partir dos ideais do tradutor/autor. No soneto nº XVII por exemplo Fontoura Xavier remove todo o conteúdo do dístico final (com o argumento da procriação e imortalização através do verso) deslocando o conteúdo dos outros versos, criando assim um poema completamente novo:

SONETO XVII

Assim queiram em época futura
Crer nos versos que faço às minhas penas,
E aonde como num sepúlcro apenas
Guardo parte de tua formosura.

Pois se eu dissesse de tu'alma pura
E de teu corpo como os tenho em mente
Diriam: "Qual, este poeta mente,
Nunca existiu tão bela escultura!"

Os meus sonetos amarelecidos
Dormiriam nas eras esquecidas
Até que a crítica os tomasse amiga,

Não para a glória tua ou do poeta
Mas como norma rara ou obsoleta
Dos exageros de uma escola antiga.

        trad: Fontoura Xavier
O mesmo ocorre nos outros dois sonetos traduzidos, assim como em praticamente todas as traduções do escritor.

A obra Opalas de Fontoura Xavier encontra-se em Domínio Público, mas apesar disso, não é fácil de ser adquirida.

E quase ia me esquecendo, eis aqui os dois poemas transcritos em língua inglesa:

SONNET XIV - Shakespeare

Not from the stars do I my judgement pluck;
And yet methinks I have Astronomy,
But not to tell of good or evil luck,
Of plagues, of dearths, or seasons' quality;
Nor can I fortune to brief minutes tell,
Pointing to each his thunder, rain and wind,
Or say with princes if it shall go well
By oft predict that I in heaven find:
But from thine eyes my knowledge I derive,
And, constant stars, in them I read such art
As truth and beauty shall together thrive,
If from thyself, to store thou wouldst convert;
   Or else of thee this I prognosticate:
   Thy end is truth's and beauty's doom and date.
SONNET XVII - Shakespeare

Who will believe my verse in time to come,
If it were filled with your most high deserts?
Though yet heaven knows it is but as a tomb
Which hides your life, and shows not half your parts.
If I could write the beauty of your eyes,
And in fresh numbers number all your graces,
The age to come would say 'This poet lies;
Such heavenly touches ne'er touched earthly faces.'
So should my papers, yellowed with their age,
Be scorned, like old men of less truth than tongue,
And your true rights be termed a poet's rage
And stretched metre of an antique song:
   But were some child of yours alive that time,
   You should live twice, in it, and in my rhyme.

domingo, 12 de junho de 2011

Chamber Music (I) - James Joyce

Vera Kratochvil
CHAMBER MUSIC
 I

Strings in the earth and air
Make music sweet;
Strings by the river where
The willows meet.

There's music along the river
For Love wanders there,
Pale flowers on his mantle,
Dark leaves on his hair.

All softly playing,
With head to the music bent,
And fingers straying
Upon an instrument.

James Joyce



Javier Baño
MÚSICA DE CÂMARA
 I

Cordas no ar e na terra
Juntas doce melodiam;
Cordas onde o rio cerra
E salgueiros se encontrar podiam.

Há música por todo o rio
Para o amor andarilhar,
Flores pálidas a cobrir,
Folhas negras a calhar.

Tudo docemente a tocar,
A cabeça à música pendendo,
E a mão a vadiar
Sobre o belo instrumento.

Trad: Raphael Soares



Joyce é considerado uma das maiores personalidades (e talvez a maior) da literatura do século XX. Sua Magnum Opus é sem dúvida Ulysses, entretanto, outras obras entram no rol de grandes obras do autor, como as Dublinenses e Retrato do Artista Quando Jovem. Iniciou sua carreira literária como poeta, e teve apreço e apoio de outros grandes escritores da época, entre eles Pound e Eliot.

Chamber Music é um texto no mínimo peculiar. O metro curto e a sonoridade marcante são dificuldades para a tradução, mas a maior dificuldade está na mudança de registro, onde arcaísmos e neologismos se misturam em uma linguagem em alguns momentos simplória e erudita em outros. Em minha i-tradução mantive as rimas mas perdi o metro (apesar de manter os versos curtos).

Tentei também traduzir o segundo poema do Chamber Music, mas depois de alguns resultados deveras infelizes, achei até um milagre conseguir i-traduzir o primeiro de forma razoavelmente "legível".

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Alguns apontamentos sobre o Erlkönig de Goethe

Albert Sterner
A temática básica de Erlkönig não foi criada por Goethe. O Erlkönig é um mito tradicional dinamarquês, que falou em língua alemã pela primeira vez através de Johann Gottfried von Herder em seu  Erlkönigs Tochter, que era uma recriação poética do conto dinamarquês. A própria palavra Erlkönig provém desse texto, já que "Erl" não existe na lingua alemã.

As semelhanças entre o texto de Herder e Goethe são muitas (a presença das Irmãs do Erlkönig, a métrica, o desfecho, e etc...). Entretanto, foi o poema de Goethe que foi para o imaginário mundial, e é considerado o texto "oficial" do mito, o que pode ser explicado tanto pela qualidade do poema quanto pelo número de traduções, referência e paródias do texto, o que me leva a crer que Der Erlkönig é um dos textos mais famosos da língua alemã.

De paródias, consigo lembrar três de cabeça: a 1ª de um autor anônimo (Eine Kurzfassung), a 2ª da banda alemã Rammstein (Dalai Lama), e a 3º da banda norueguesa Jackman. O número de referências ao texto são inúmeras, algumas importantes que lembro são: a senhora Erlking em A Segunda Fundação (de Asimov), um romance de Kevin Flinn chamado Through the Night and Wind, em Dead Beat (de Jim Butcher) há referência à um livro chamado Die Lied Der Erlking [sic], a música Die Schwarzen Reiter da banda E Nomine começa com "Wer reitet so spät durch Nacht und Wind?", no romance Le Roi des Aulnes (de Michel Tournier) o protagonista é identificado como o Erlkönig e em A Volta do Parafuso às referências ao mito são claras.

Falando-se de traduções, Erlkönig foi tão traduzido que não importa quantos nomes coloque a lista nunca vai ser exaustiva. Erlkönig virou centenas de pinturas, foi traduzido para a linguagem cinematográfica ao menos duas vezes (por Raymond Salvatore Harmon e Ben Zelkowicz), virou música nas mãos de Liszt, Spohr, Schubert entre inúmeros outros (confira uma pequena listagem das traduções musicais aqui e aqui). Erlkönig justamente ficou imortalizado devido suas inúmeras traduções musicais.

Para a língua inglesa, Der Erlkönig foi traduzido ao menos umas 10 vezes. A primeira tradução para o inglês foi feita pelo escritor Sir Walter Scott, posteriormente outro escritor (Matthew G. Lewis) resolver fazer sua tradução do poema. Mais tarde seguiu-se a tradução de Edgar Alfred Bowring, e no início do século 20 a tradução de Arthur Westbrook. Recentemente temos também a tradução de Natalia MacFarren, A.S. Kline, A.Z.Foreman, Walter Meyer e K.W.Barde. Analisando rapidamente as traduções para o inglês, percebo que a de Lewis é a mais ousada. Não sei se gosto da tradução de Lewis e sua sonoridade (muito aberta, como no primeiro verso: "Who is it that rides through the forest so fast"), mas é interessante como Lewis voluntariamente modifica as ideias e imagens do poema alemão, em contrapartida, não gosto de como Lewis descreve as cenas. A tradução de Sir Walter Scott, a primeira para a língua inglesa, não me agrada nem um pouco. Das traduções mais antigas, a que mais gosto é a de Edgar Alfred Bowring.

Em língua portuguesa, a poesia de Goethe foi traduzida durante um bom período de tempo mas atualmente está quase esquecida. Se por um lado o Fausto, Os Sofrimentos do Jovem Werther, as Correspondências e outros textos de Goethe ainda são bastante editados e traduzidos, sua poesia lírica têm sido marginalizadas ao menos no Brasil. Levando em consideração que não encontro Der Erlkönig no volume de poesia alemã de Geir Campos nem entre as poesias traduzidas de Goethe por Manuel Bandeira ou Ary de Mesquita, acredito que até a minha tradução não havia nenhuma tradução brasileira minimamente "legível". Em portugal há a tradução de Ana Vitorino, e não conheço nenhuma outra.

Há também três outras traduções/traições do poema que são encontradas facilmente na internet (que prova a fama do poema), a primeira de Carlos Bechtinger, a segunda de Ericson Willians e a terceira de um autor desconhecido (primeiros versos: "Quem cavalga tão depressa através da noite e do vento?/O cavaleiro é um pai com o seu filho;"). Chamo-as de traduções/traições primeiro por serem péssimas poesias (se um bom poema em alemão vira um péssimo poema em português a tradução não é uma boa tradução). A "tradução" de Bechtinger é incômoda por vários motivos, entre eles o uso exagerado de pronomes (Ele tem o menino bem no braço,/Ele o segura firme, ele o mantém quente), o ritmo de prosa, a não preocupação com aspectos sonoros, além da tradução de Weiden para pastos, o que apesar de possível, a imagem poética é inequívoca. Ericson Willians percebe que uma tradução literal seria assassinar o poema, portanto, tenta (sem sucesso) aumentar a poeticidade do texto em português, mas o faz apenas acrescentando alguns adjetivos. A tradução de Ericson também peca no português, mas devemos considerar que Ericson é (ou ao menos era ao criar essa tradução) um estudante autodidata de alemão e um não-tradutor (assim como a minha pessoa). Por outro lado, Ericson foi, ao que me consta, o primeiro a ter o bom senso de manter o nome Erlkönig ao invés de traduzir como Rei dos Elfos (como fazem os outros tradutores). A tradução anônima nem ao menos merece ser comentada.

O que é importante perceber é que o senso comum diz que uma tradução mais livre costuma ser "semanticamente mais fiel" (embora a ideia de separar som de sentido na poesia me é bastante estranha) que uma "tradução poética", percebemos que não é bem assim. Exemplos:

Goethe: „Mein Sohn, mein Sohn, ich seh'es genau:/Es scheinen die alten Weiden so grau."
Ericson Willians: "Meu filho, meu filho, eu vejo claramente:/Os velhos salgueiros emitem uma trêmula luz cinza"
Bechtinger: Meu filho, meu filho/eu vejo bem – os pastos parecem tão cinzas.–
Anônimo: Meu filho, meu filho, o que em torno se passa/É o brilho pardo dos salgueiros velhos.
Ana Vitorino: Meu filho, meu filho, o que estou a ver:/São velhos salgueiros na sombra a mexer.
Raphael Soares: „Consigo ver com clareza, filho:/De velhos salgueiros cinzas o brilho.”



J(ulius) of Cleves
Resolvi traduzir o Erlkönig  durante a leitura de A Volta do Parafuso de Henry James. Creio que Henry James tinha em mente o Erlkönig ao criar seu livro (acho que Der Sandmann também foi influência para James), e decidi traduzir o poema goethiano durante minha leitura do romance de James. Para compensar minha deficiência da língua alemã, estava munido de dois dicionários de alemão, uma gramática, 10 traduções inglesas, 2 francesas além da música (e partitura) de Schubert (da qual tirei o "metro" e o "clima" do poema).

Traduzir poesia não é algo fácil. Além dos dilemas do texto (como o "Reihn"), temos todo um padrão de metrificação, de tom e de carga semântica. Para se ter uma ideia, antes de aceitar os dois primeiros versos em sua forma final "Quem tarde cavalga em noite e vento?/É um velho pai e seu filho atento", várias outras tentativas foram feitas:

Quem tardo cavalga em noite e vento?
-----relento/alento/intento (tentativa não concluida devido à pobreza da rima)

Quem tardo cavalga em vento e breu?
É um pai  co'o    jovem filho seu (não coube na métrica)
                -belo e                    (idem)
         - que vai co'o jovem filho seu    (idem)

Quem 'stá, em vento e noite, em andança? (péssimo verso e fora da métrica)
É um pai que tardo vai com sua criança     (idem)

Quem pela tormenta vai tão tardo?
É um pai, cavalga co'o filho amado (influência das traduções inglesas, o tardo dá ideia de lentidão, assim como perde-se a ideia do vento e da noite)

Quem é que vai em noite e tornado?
cavalga um pai e seu filho amado (idem, porém a acentuação é menos forçada)

Quem tardo cavalga em noite fria?
É um pobre pai e sua jovem cria (não tinha muito o que fazer e resolvi avacalhar)
--------------------- noite mole
-------------------------- prole (idem)

-----------------------selvagem?
-----margem/paragem/serragem/bagagem (esboço)

Quem cavalga, ao vento, já tão tardo?
É só um pai com o filho amado. (até ficou bom, mas o metro é forçado no primeiro verso, e novamente a ideia de lentidão)

Traduzir poesia tambem implica prestar atenção em pequenas coisas, como a aliteração bunte Blumen, primeiramente pensada finas flores, posteriormente vertida para vivas flores devido a proximidade entre [v] e [f].

Se há algo criticável na minha tradução é o excesso de adjetivos (áurea, eólia, noturno, soturno e etc...) e as inversões incomuns (um exemplo marcante é o verso: "De velhos salgueiros cinzas o brilho."), mas semanticamente falando, é um poema bem fiel, com apenas duas omissões (säuselt e Leids), que a custo tiveram de ser feitas, menos que qualquer outra tradução (mesmo "livre") que conheço.

Interessante observar que, apesar de ser um poema aparentemente simples, o Erlkönig é extremamente polissêmico assim como o A Volta do Parafuso de James. Dentre os que estudam e comentam o poema, muitos indicam a possibilidade de um delírio por parte da criança (por doença ou outro motivo) que já estaria próxima da morte (o que seria indicado pela expressão so spät - tão tarde do narrador). Há inúmeras outras análises do poema, e cada parte dele ajuda a corroborar essas interpretações.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Erlkönig - Goethe + Notas

Der Erlkönig¹ - Goethe
Wer reitet so spät durch Nacht und Wind?
Es ist der Vater mit seinem Kind.
Er hat den Knaben wohl in dem Arm,
Er faßt ihn sicher, er hält ihn warm.

„Mein Sohn, was birgst du so bang dein Gesicht?"
„Siehst Vater, du den Erlkönig¹ nicht!
Den Erlenkönig¹ mit Kron'² und Schweif?"
„Mein Sohn, es ist ein Nebelstreif."

„Du liebes Kind, komm geh'² mit mir!
Gar schöne Spiele, spiel'² ich mit dir,
Manch'² bunte Blumen sind an dem Strand.
Meine Mutter hat manch'² gülden Gewand."

„Mein Vater, mein Vater, und hörest du nicht,
Was Erlenkönig¹ mir leise verspricht?"
„Sei ruhig, bleibe ruhig, mein Kind,
In dürren Blättern säuselt der Wind."

„Willst feiner Knabe du mit mir geh'n²?
Meine Töchter sollen dich warten schön,
Meine Töchter führen den nächtlichen Reihn³
Und wiegen und tanzen und singen dich ein."

„Mein Vater, mein Vater, und siehst du nicht
Dort Erlkönigs¹ Töchter am düsteren Ort?"
„Mein Sohn, mein Sohn, ich seh'es² genau:
Es scheinen die alten Weiden⁴ so grau."


„Ich lieb dich, mich reizt deine schöne Gestalt,
Und bist du nicht willig, so brauch'² ich Gewalt!"
„Mein Vater, mein Vater, jetzt faßt er mich an,
Erlkönig¹ hat mir ein Leids getan."

Dem Vater grauset's², er reitet geschwind,
Er hält in den Armen das ächzende Kind,
Erreicht den Hof mit Müh'⁵ und Not,
In seinen Armen das Kind war tot.

Notas:
¹ O nome Erlkönig não possui uma etimologia exata, composta de König (Rei, que também pode vir escrito Koenig) e Erl (não existe no alemão como palavra isolada). Erlkönig é um personagem mitológico maligno ligado à natureza. A tradução usual desse termo é Rei dos Elfos (ou Elfo-rei), mas o Erlkönig não se parece nem um pouco com a imagem que temos de elfo. Erlenkönig é o mesmo nome, porém com Erl no plural (Erlen).

Esse poema foi musicado por Schubert (além de pelo menos mais 20 compositores) e minha tradução é mais tradução da música que do original goethiano. É um poema incrível, de profundidade psicológica e polissemia quase insuperável. Falarei mais sobre ele e suas traduções qualquer dia.

² Elisões, em decorrência da métrica.

³ Passagem problemática. Reihn não existe mas é homófono de Rhein, embora não creio que seja Rhein que o texto deseja dizer. Reihn poderia também ser uma elisão de die Reihen, porém o artigo den é de acusativo singular masculino (o singular é Reihe, e é feminino). Isso há um dilema, pois, se Reihn é elisão de Reihen (feminino plural) por que a frase pede um acusativo masculino singular. A maioria das traduções em inglês omite essa passagem (ou repetem a idéia de dança ou canto), com excessão de A.Z.Foreman ([dance] in a ring), Walter Meyer (song fest) e Edgar Alfred Bowring (festival keep). Ao pesquisar um pouco, me deparei com der Reihentanz, e levando em consideração o tanzen do outro verso, faz todo o sentido.

⁴ die Weide pode significar tanto salgueiro como pasto, gramado etc... De acordo com o próprio texto, faz mais sentido que são velhos salgueiros.


⁵ Há versões onde aparece Mühe e outras onde aparecem Müh'. Optei pela que aparece na música de Schubert (Müh'). A principal diferença é que o 'e' é pronunciado como sílaba separada, causando uma diferença na metrificação.



O Erlkönig¹ - Goethe
Quem tarde cavalga em noite e vento?
É um velho pai e seu filho atento.²
Em braços fortes jaz escondida
A criança do frio, bem protegida.³

„Oh filho, que temor seus olhos veem?”
„Não vê pai, lá, que o Erlkönig vem,
O Erlenkönig, de cauda e cetro?”
„Filhinho, é só de névoa um metro.”

„Querido jovem, vens comigo!
Soberbos jogos jogarei contigo,
Há vivas⁴ flores, muitas, na margem.
Mamãe tem uma áurea roupagem”.


„Paizinho, paizinho, ouves no caminho⁵
Que o Erlkönig me promete baixinho?”
„Acalme-se filho meu, se acalma,
São folhas secas na eólia alma.⁶”

„Amável menino, venha a mim,⁷
Minhas filhas te esperam assim,
Elas te guiarão ao festejo noturno,
Em canto e dança, e embalo soturno.”


„Paizinho, paizinho, não estás vendo
Irmãs dele naquele lugar horrendo?”
„Consigo ver com clareza, filho:
De velhos salgueiros cinzas o brilho.”

„Eu te amo, me atrai tua aparência.
Se não queres vir, usarei a violência!”

„Paizinho, paizinho, agarrou-me agora
O Erlkönig quer me levar embora.”⁸

Horrorizado, o pai ágil cavalgou,
E firme ao braço o filho chorou,
Chega a seu campo a custo e fado,
Co’o filho inerte, por morto dado.⁹

Trad: Raphael Soares

¹ Mantive o nome Erlkönig (e sua variante Erlenkönig) devido à falta de equivalência, entretanto, se você preferir pode ler Elfo-rei (ou Rei dos Elfos para o Erlenkönig), já que possui a mesma estrutura sonora. Essa tradução é dedicada ao grande tradutor Ivo Barroso, já que as leituras que fiz no blog Gaveta do Ivo me encorajaram a continuar a "decifrar hieróglifos". É importante informar que a sonoridade é baseada na versão musical de Schubert. Mais sobre o poema e sua tradução no próximo post.

² Os adjetivos (velho e atento) desse verso são acréscimos, que não destoam do sentido original.

³ As ideias desses dois versos estão misturadas na tradução. A única mudança importante é que no texto alemão a voz é ativa (o pai segura) enquanto na tradução a voz é passiva (a criança está sendo segurada).

⁴ Bunte significa coloridas, sortidas. Optei por usar vivas flores tanto pela poeticidade do termo quanto pelo número de sílabas.

⁵ O menino pergunta "você não está ouvindo...?". Como o "não" (nicht) é retórico optei (em decorrência do metro) por deixar a pergunta como afirmativa.

⁶ Há aqui uma omissão (sussurram).

⁷ Originalmente é uma pergunta, mas devido a música de Schubert optei por eliminar a interrogação, mantendo contudo o sentido completo do verso.

⁸ Omissão (Leid = dor, sofrimento, machucado).

⁹ Em prosa chã: "Em seus braços o filho está morto"

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Outros Prelúdios

Van Gogh
Eliot é um dos poetas contemporâneos mais famosos, e influenciou legiões e legiões de poetas de todos os países e todas as idades. No Brasil, houve tempo que Eliot e Pound eram as maiores e mais modelares figuras da poesia. Apesar de toda a fama de Eliot, os seus "Preludes" não estão entre seus poemas mais apreciados, estudados ou traduzidos, embora eu possua uma preferência particular por eles.

Ha dois grandes tradutores de Eliot no Brasil: Ivo Barroso e Ivan Junqueira. Além desses, outros tradutores trabalharam sobre os versos eliotianos em jornais, revistas, antologias e outros meios de divulgação. Difícil saber tudo o que foi traduzido do autor sem um bom trabalho de pesquisa. Até onde pude conferir, os prelúdios foram traduzidos por Ivan Junqueira na sua tradução da poesia completa de Eliot pela Nova Fronteira (doravante designada IJ), também foram traduzidos por Maurício Borba Filho em seu blog (doravante MBF) e a última tradução integral desses quatro poemetos foi a que eu apresentei no post passado (RS). Há também a tradução do 1º prelúdio por Arthur A. de Ataíde publicado no blog da revista eletrônica Crispim (doravante AAA). A única tradução portuguesa que tenho notícia é a da edição de "Prufrock e Outras Observações" pela editora Assírio & Alvim em tradução de João Almeida Flor (JAF).

Todas as traduções do poema têm seus méritos, e pretendo fazer aqui uma comparação saudável entre elas.



A primeira coisa que percebemos ao comparar as traduções é que a única que mantém o metro da poesia inglesa é a de AAA. Todas as outras versões em português são escritas em verso livre. O metro original é uma notavel vantagem. AAA também abusa de rimas imperfeitas, onde apenas as vogais tônicas e postônicas se repetem (beco/aceso, embrulha/sujas, vago/telhado e coches/postes); o efeito final é bem interessante. AAA também é o único que mantém todas as rimas, enquanto IJ e JAF não se importam em manter todas.

IJ traduz de forma mais livre, rimando ocasionalmente e até mesmo dividindo um verso em dois (como em: And newspapers from vacant lots => E jornais que circulam no vazio/de terrenos baldios). JAF não mantém nenhuma rima original, mas acaba criando uma bem esquisita no primeiro prelúdio (aquaceiros/fumeeiros/candeeiros), que pela escolha das palavras presumo que tenha sido uma rima proposital, embora feitas em versos que não rimam (beat/chimneypots/lamps).

Ainda falando das rimas, RS tenta manter as rimas do poema, mas não consegue manter todas, ou por não achar solução adequada ou por não perceber a rima (como em stands e hands). A tradução de MBF também procura manter as rimas na medida do possível, mantendo umas e omitindo outras (como feet/beat/street => pés/ressoa/ecoa) ou até mesmo mudando as rimas de posição. Interessante notar que a preocupação com o som vai diminuindo de poema para poema: o primeiro prelúdio de MBF mantém mais rimas que o último. O número de omissões sonoras em MBF é superior à RS.

No nível lexical e sintático, novamente AAA recebe destaque: é a única tradução que não se utiliza de embelezamentos, à exceção de uma única inversão marcada ("termina cinza o dia aceso") em decorrência da rima. IJ, RS e MBF utilizam-se com frequencia de inversões bem marcadas e um lexico não condizente com a poética "seca" de Eliot. Encontramos em IJ: declina => settles down; ranço => smell; constelada => constituted; estiolam => fade; vespertinos => evening; entre outros. IJ é o que mais altera o registro do texto sem justificativa (não há metro e poucas rimas), enquanto RS e MBF processam mudanças, em geral, por conta das rimas.

As rimas obrigaram os tradutores a fazerem escolhas, no mínimo, interessantes:
- AAA: Termina cinza o dia aceso. => The burnt-out ends of smoky days.
             Bafeja um potro em meio a coches. => A lonely cab-horse steams and stamps.

- IJ: As lâmpadas dardejam seu clarão => And then the lighting of the lamps.

- MBF: Os termos tépidos de dias de névoa e torpores => The burnt-out ends of smoky days
             Alguém pensa nas mãos e grafias => One thinks of all the hands
             E edições noturnas, um olhar profundo => And evening newspapers, and eyes

- RS: Como se frases por ela fossem compreendidas; => As the street hardly understands;

Algumas dessas escolhas mudam o sentido das imagens, mudam as próprias imagens ou possuem um registro que difere muito do poema.

AAA, em decorrencia da métrica, acaba sendo um texto mais conciso do que o texto inglês (lembrando que a língua é rica em monossílabos, enquanto o português não), e acaba perdendo um pouco da escrita fragmentária do autor também; mas o maior problema de AAA é o de não ser tradução de todos os quatro prelúdios, mas somente do primeiro. IJ possui uma dicção poética própria, que está presente em outras traduções e poesias do grande poetae tradutor que é Ivan Junqueira. É importante lembrar que tanto AAA quanto RS portam-se como "exercícios e brincadeiras tradutórias", e ambas fazem interferências variadas sobre o poema.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Preludes - TS. Eliot

Voltei com mais uma tradução, e agora é Eliot. Vim com uma novidade também: resolvi "ilustrar" os poemas com pinturas em PD. O nome do pintor segue em itálico abaixo da pintura.

Preludes
Edouard Manet
  I

The winter evening settles down
With smell of steaks in passageways.
Six o'clock.
The burnt-out ends of smoky days.
And now a gusty shower wraps
The grimy scraps
Of withered leaves about your feet
And newspapers from vacant lots;
The showers beat
On broken blinds and chimney-pots,
And at the corner of the street
A lonely cab-horse steams and stamps.
And then the lighting of the lamps.

   II

The morning comes to consciousness
Of faint stale smells of beer
From the sawdust-trampled street
With all its muddy feet that press
To early coffee-stands.

With the other masquerades
That time resumes,
One thinks of all the hands
That are raising dingy shades
In a thousand furnished rooms.

Félix Vallotton
     III

You tossed a blanket from the bed,
You lay upon your back, and waited;
You dozed, and watched the night revealing
The thousand sordid images
Of which your soul was constituted;
They flickered against the ceiling.
And when all the world came back
And the light crept up between the shutters,
And you heard the sparrows in the gutters,
You had such a vision of the street
As the street hardly understands;
Sitting along the bed's edge, where
You curled the papers from your hair,
Or clasped the yellow soles of feet
In the palms of both soiled hands.

     IV

His soul stretched tight across the skies
That fade behind a city block,
Or trampled by insistent feet
At four and five and six o'clock;
And short square fingers stuffing pipes,
And evening newspapers, and eyes
Assured of certain certainties,
The conscience of a blackened street
Impatient to assume the world.

I am moved by fancies that are curled
Around these images, and cling:
The notion of some infinitely gentle
Infinitely suffering thing.

Wipe your hand across your mouth, and laugh;
The worlds revolve like ancient women
Gathering fuel in vacant lots.



Prelúdios
  I

A tarde de inverno vai baixando
Com um cheiro de bifes nos cruzamentos.
Seis horas.
O fim queimado de dias nevoentos.
E agora uns chuvarais lestos
Prendem os horrendos restos
De folhas secas que envolvem nossos pés
E jornais nos espaços vagos;
As batidas dos chuvaréis
Nas chaminés e nos olhos-mágicos quebrados,
E numa esquina de corcéis
Uma montaria solitária bafeja, trota e avança.
E a lâmpada suas luzes lança.

Edouard Manet
   II

A manhã toma consciência
Das vertigens do cheiro de cerveja
Que vem da rua de serragem batida
Com as pegadas de todos os pés enlameados
Até as primeiras cafeterias.

Junto dos outros mascarados
É que o tempo recomeça,
Pensa-se que todas essas mãos
São, numa centena de quartos mobiliados,
Emergentes tons sombrios.


     III

Um cobertor da cama agitaste,
Caíste de costas, e aguardaste;
Adormeceste, e observaste a noite que revelava
Um milhar de imagens sórdidas
Do que tua alma foi formada;
Contra o teto eram arremessadas.
E quando todo mundo retornou
E entre as venezianas deslizou a claridade,
E você ouviu os pardais nas calhas da cidade,
Tiveste uma visão da rua
Como se frases por ela fossem compreendidas;
Sentado numa parte da cama, onde
Curvastes papéis que teu cabelo esconde,
Ou agarraste dos pés a amarela sola nua
Nas palmas de ambas as mãos encardidas.



Paul Cézanne
     IV

Pelos céus a alma se estendeu dando pequeninas
Voltas que passam por trás de um muro,
Ou esmagou-a uns pés insistentes
Quando marca quatro e cinco e seis o relógio duro;
E dedos curtos preenchendo os cachimbos,
E os jornais da tarde, e as retinas
Certos de certas certezas,
A consciência de uma rua decadente
Sem paciência para apropriar-se do mundo.

Sou movido por sonhos que se curvaram
Em volta dessas imagens, e prendendo:
A noção de algo infinitamente gentil
Algo infinitamente sofrendo.

Limpe a mão sobre a boca, e ria;
O mundo gira, em órbita, como anciãs
Juntando combustível em espaços vagos.

Trad: Raphael Soares

Se existe um motivo para alguem aprender inglês esse motivo chama-se Thomas Stearns Eliot. A poesia de Eliot é fora do tempo e do espaço. Eliot não é um poeta americano tampouco um poeta britânico, ao mesmo tempo que é ambos. A poética eliotiana se espelha no passado para a compreensão do presente, ao tempo que é em parte profética e/ou reformadora. Mas se há uma coisa magnífica nos poemas desse gênio é decerto a linguagem.

Parece até lugar comum falar de "linguagem do autor", mas quando esse escritor é Eliot isso se torna uma verdade fundamental. Eliot possui uma linguagem bastante "a-poética", sem exageros, sem rebuscamentos, sem belas imagens. A estrutura sintática de Eliot é pouco marcada, direta, quase ao ritmo da fala normal, sua escolha lexical é simples sem rebuscamentos, até mesmo as rimas dos seus poemas quase somem em uma declamação, já que a maior parte delas são compostas em cima de enjambements, e aparentam rimas ocasionais da fala quotidiana.

De acordo com o que foi exposto, minha principal preocupação ao i-traduzir Eliot foi tentar manter essa linguagem mais natural possível, principalmente no nível lexical, e na medida do possível no nível sintático. Lastimavelmente, as rimas algumas vezes me obrigaram a inserir inversões indesejadas. Outras vezes as rimas estavam criando um rítmo que destoava da poética eliotiana, e para evitar isso coloquei algumas rimas "imperfeitas" (como vagos/quebrados ou insistentes/decadente/sem), pois achei assim melhor. Tentei em alguns casos recriar a sonoridade marcada de alguns versos (como Of faint stale smells of beer/From the sawdust-trampled street), embora nem sempre no mesmo lugar (no caso citado: Com as pegadas de todos os pés enlameados/Até as primeiras cafeterias), sempre procurando manter o registro natural e sem rebuscamentos.

Alguns problemas apareceram e não tiveram uma solução satisfatória. Um deles foi "vacant lots", que é aquele pedaço de terra que não possui construções permanentes, ou seja, um terreno baldio, que traduzi para "espaços vagos" no primeiro prelúdio em decorrência da sonoridade com "quebrados", e tive de fazer o mesmo no 4º prelúdio, já que a mesma expressão apareceu novamente. Ainda no primeiro poema, tive de "aumentar" o sentimento de solidão do "cab-horse" (que foi vertido apenas como "montaria") criando uma "rua de corcéis". O pensamento que tive é de que a solidão é ainda mais forte quando não se está sozinho fisicamente, e como precisava de uma rima em "éis" ou "és" criei essa imagem. Não compromete o sentido do poema, mas dá um destaque maior para essa passagem. Tambem acrescentei o "avança", mas é um acrescimo menos problemático.

O segundo poema foi mais simples, e a única modificação importante foi a inversão entre o último e penúltimo versos, que troquei em decorrência da rima e porque não prejudicava o rítmo, além de que é melhor terminar o poema com um predicativo do sujeito do que com um complemento nominal. O terceiro poema me incomodou pelo uso da segunda pessoa. Primeiramente tentei usar o "você", mas não consegui manter por todo o poema e tive de mudar, o que acabou gerando um registro um pouco mais formal do que o do poema em inglês. Aqui em meu estado é comum usar o verbo na segunda pessoa, mas se mistura frequentemente com a terceira, o que não podia reproduzir no poema, então as duas opções (tu ou você) não soariam como quotidianas. Mudei também a posição de uma rima.

E por fim, o quarto poema. Esse foi o poema que mais fiz acréscimos (pequeninas e duro) e mudanças lexicais (relógio, retinas e decadente) em decorrência das rimas. Criei também (não intencionalmente) uma ambiguidade problemática que não existe no texto fonte ("Sem paciencia para apropriar-se do mundo") devido o uso da preposição "para". Mas dois problemas se destacam; o primeiro é a minha ignorância no ultimo verso "Gathering fuel" que verti quase literalmente para "Juntando combustível" (conferi a tradução de Ivan Junqueira que verteu para "juntando lenha", mas ainda achei estranho, de qualquer modo, lenha não deixa de ser um combustível, apesar de ser bem mais corrente em português); o segundo foi a quadra "Sou movido por sonhos que se curvaram/Em volta dessas imagens, e prendendo:/A noção de algo infinitamente gentil/Algo infinitamente sofrendo." que achei de muito mal gosto, quase infantil e que nada condiz com Eliot.

No geral tive bons resultados nos 3 primeiros prelúdios, mas sinto que o 4º deve ser reformulado (ou totalmente refeito). Espero que gostem dos poemas feitos por aquele que é, talvez, o maior poeta de língua inglesa.



Nota adicional (21/05/11): Outra observação que havia me esquecido: no primeiro poema há duas variações de uma palavra (Chuvaráis ~ Chuvaréis), que não são do português padrão culto. Quando traduzi estes versos, escolhi traduzi-los para o "meu" português (ou seja, o português do Pará), apesar de não abusar de expressões regionais. Dizem que no alasca os esquimós têm 10 palavras para descrever os tipos de branco, devido a quantidade de neve; paralelamente, no pará temos ao menos 7 palavras para descrever os tipos de chuva (chuva, chuvisco, toró, chuvaral [~ chuvarel] entre outros), então tomei a liberdade de usar um desses termos em suas duas variações, e acho que Eliot não se importaria. Não sei se esse termo é usado em outras partes do Brasil, mas independentemente, creio que pode ser facilmente entendido.

 Nota adicional (22/05/11): Também havia me esquecido de falar sobre o verso: "Como se frases por ela fossem compreendidas". Não foi um equívoco interpretativo, fiz essa mudança por vontade própria. Queria pegar o "clima" dos versos e do poema, e achei melhor inverter o direcionamento da imagem, e ao invés da visão da rua/como se ela dificilmente compreendesse, preferi dar uma ligação maior entre o observador e observado. Tá legal, tambem tinha que rimar com "encardidas" do último verso, mas não foi só a tirania das rimas que me fez trocar a direção da imagem, mas uma escolha pessoal.

domingo, 15 de maio de 2011

Δωρια - Ezra Pound

Esse poema aqui achei do fundo do baú. Foi o primeiro texto que não-traduzi, em Junho de 2010. Está vertido quase palavra-por-palavra e o resultado final não me agrada muito hoje. Algumas escolhas me parecem estranhas hoje, como usar "negro" (figurativamente) para Bleak e manter o Orcus da mesma forma, já que Orco é feio. De um modo ou de outro, segue o poema.

Δωρια - Ezra Pound

Be in me as the eternal moods
of the bleak wind, and not
As transient things are—
gaiety of flowers.
Have me in the strong loneliness
of sunless cliffs
And of gray waters.
Let the gods speak softly of us
In days hereafter,
the shadowy flowers of Orcus
Remember thee.



Δωρια - Ezra Pound

Ser em mim como o humor eterno
do vento negro, e não
Como as coisas transitórias são
alegrias de flores.
Ter-me na forte solidão
dos precipícios sem sol
e das águas cinzas.
Que os deuses sussurram sobre nós
nos dias que se seguem,
as flores sombrias de Orcus
lembram-se de ti.

Trad: Raphael Soares

terça-feira, 3 de maio de 2011

Ezra Pound - Phanopoeia

Vou deixar a continuação da minha explicação da i-tradução de Shakespeare para depois. Por enquanto mais uma i-tradução:

Phanopoeia

I
ROSE WHITE, YELLOW, SILVER

The swirl of light follows me through the square,
The smoke of incense
Mounts from the four horns of my bed-posts,
The water-jet of gold light bears us up through the ceilings;
Lapped in the gold-coloured flame I descend through the æther.
The silver ball forms in my hand,
It falls and rolls to your feet.

II
SALTUS
The swirling sphere has opened
and you are caught up to the skies,
You are englobed in my sapphire.
Io! Io!

You have perceived the blades of the flame
The flutter of sharp-edged sandals.

The folding and lapping brightness
Has held in the air before you.
You have perceived the leaves of the flame.

III
CONCAVA VALLIS
The wire-like bands of colour involute mount from my fingers;
I have wrapped the wind round your shoulders
And the molten metal of your shoulders
bends into the turn of the wind,

AOI!
The whirling tissue of light
is woven and grows solid beneath us;
The sea-clear sapphire of air, the sea-dark clarity,
stretches both sea-cliff and ocean.



Phanopoeia
I
ROSA BRANCA, AMARELA, PRATEADA

O redemoinho de luz segue-me pela praça
A fumaça de incenso
Sobe pelas quatro pontas dos pilares da minha-cama
O jato-d'água de luz áurea leva-nos através dos limites;
Girou na chama dourada, descendo pelo éter.
A prata esférica na minha mão
Cai e rola a teus pés.

II
SALTUS
A esfera rolando foi aberta
e és arrebatado para o céu,
Estás englobado em minha safira.
Io! Io!

Você percebeu as lãminas de fogo
A vibração das sandálias, lâminas-afiadas.

O brilho dobra e gira
Parou no ar antes de ti.
Você tem percebido as folhas de fogo.

III
CONCAVA VALLIS
O metá-lico adorno da envolvente cor ergue-se de meus dedos;
Envolvi o vento em volta de teus ombros
que curva ante o girar do vento,

AOI!
O turbilhante tecido luminoso
Solidifíca-se e cresce sob nossos pés;
A safira claro-mar de ar, a escuro-mar claridade,
Estende-se a ambos: precipício e oceano.

Trad: Raphael Soares

Não sou um grande leitor de Pound, e dentre os grandes poetas e escritores modernos da primeira metade do século, Pound é o que menos conheço.
Phanopoeia, poema do início da carreira de Pound, procura demonstrar um poema focado na fanopéia, ou seja, nas imagens. As imagens nesse poema se movem, para cima, para baixo, em círculo. O poema não se volta para a sonoridade nem para as ideias intelectuais, mas por esse movimento de imagens.

Dificuldade adicional: frequentemente Pound usa o hífem para separar (wirelike - wire-like) ou unir (sharp edged - sharp-edged) as palavras, e tentei fazer o mesmo, mas o resultado não foi como esperado. A falta de conhecimento do estilo poundiano me atrapalhou muito, o que não me deu muitas oportunidades de "recriação". Apesar disso, dentre os poucos poemas do poeta que conheço, esse é um dos que gosto, apesar de não compreendê-lo. Gosto da ideia do movimento das imagens.

Foi uma tentativa.