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domingo, 25 de outubro de 2020

BOWDLERIZAÇÃO E CONTRA-BOWDLERIZAÇÃO EM TRADUÇÕES LATINAS [Palavras importam]

Bowdlerização dos clássicos é um fenômeno histórico da recepção dos textos antigos extremamente complexo, embora amplamente estudado e documentado. Na sociedade moderna, o processo de expurgar o texto clássico daquilo que, por qualquer razão, "não se deva ser visto" é caracterizado como censura e não vista com bons olhos não só dentro da comunidade acadêmica, mas também para o leitor comum. Contudo, o leitor comum, particularmente o não-especialista ou aquele que não sabe a língua em questão (contando com traduções para ter "acesso" às obras) tem de encarar a dura realidade desse processo histórico, que não desapareceu completamente: ainda há muitas coisas sobre as quais não queremos discutir que silenciamos, ignoramos, ou modificamos para que se possa "engolir" com mais facilidade (por nós, eu falo aqui leitores, críticos, tradutores e mesmo especialistas e professores). Recentemente, no mundo todo, o mundo dos estudos clássicos tem tomado uma postura oposta e de extrema aversão ao processo, e os textos clássicos e comentários estão cada vez mais explícitos que nunca, em casos em que o texto latino (eu imagino que o mesmo ocorra em grego, mas eu não posso opinar diretamente no assunto) não é explícito ou a "questão" (obscena, pesada, imoral, vulgar, ilegal, etc) sequer existe de fato no texto. Esse movimento contrário tem grande força como remédio e trás muita coisa para a discussão, contudo essa tendência tem se tornado majoritária dentro da leitura e tradução dos clássicos, e começo a perceber que ela também tem o potencial de trazer seus próprios perigos... Essa postagem não se pretende um estudo geral sobre o tema e sobre tais tendências, pois eu não tenho competência para isso. O que eu quero apresentar são três diferentes modos em que esses processos (expurgo e atenuação vs explicitação) podem ser usados, em três diferentes casos e autores, e discutir isso partindo das "palavras" e as traduções (ou não traduções) das mesmas.


CONTIDO OU LÍNGUA SOLTA? Juvenal, Sat. II

Começar a falar de bowdlerização significa, quase sempre, começar a falar de Juvenal. O poeta tem uma larga história de censura, seja no texto latino como em suas traduções, desde o início do período moderno (é irônico que não temos evidência dos medievais expurgando o poeta, já que os medievais adoravam Juvenal exatamente por ele expor as "imoralidades", e não a despeito disso... e falamos tão mal da "censura" medieval...). Em 1505 foi publicado o texto latino de Mancinellus (imagem acima), que embora continha o texto completo comentava apenas aquilo que era "adequado à moral", e representava de modo enganoso ou falso muito do que não o era; em 1683 foi publicado Iuuenalis Satirae ab omni obscoenitate expurgatae, que foi mais longe e removeu toda obscenidade do próprio texto latino, versões como essas se proliferaram em todos os países, e até o século XX ainda eram publicados Juvenais recortados em latim. A primeira tradução espanhola contém o revelador comentário:

"He procurado hacerle hablar en español con la misma pureza, propriedad, elegancia y decoro que él propio hablaria se hubiera nacido entre nosotros. He suprimido la Sátira IC., y le he depurado y expurgado de quanto pudiese ser ofensivo á la decencia y delicadeza de las consumbres cristianas"

Em português a tradução de Francisco Antônio Martins Bastos remove ou diminui obscurece as notas sexuais, e ainda assim Ary de Mesquita, selecionando uma das traduções dele, nos diz em 1950 que "As suas [Juvenal] sátiras são escritas em linguagem livre, o que ao autor desta colectânea deu o trabalho de escolher a menos ouriçada de escabrosidades".

O resultado prático desse "pudor" deve ser óbvio: um grupo significativo de sátiras foi sistematicamente removido das versões vernáculas, ou terminaram carentes de comentários. As sátiras II, IV e IX são as mais frequentemente omitidas, e as poucas vezes que são traduzidas, são sistematicamente bowdlerizadas omitindo tudo aquilo que o tradutor não quer falar a respeito. Como exemplares dessa tradição eu irei mencionar a tradução "integral" de Ramsey (Loeb) e a versão de Francisco Antônio Martins Bastos (reeditado pela Ediouro).

O antídoto para tal atitude veio com a modernidade, em que o Juvenal foge das amarras de uma "linguagem polida" e dos limites da representação moral. Em inglês vemos, de dois modos distintos, esse movimento contrário nas versões de Peter Green e de Susanna Braund (de modos um tanto distintos), e no Brasil pelo excelente trabalho do Fábio Cairolli especificamente na segunda sátira (aqui). A diferença não poderia ser mais gritante, e eu vou começar a apontar a idiossincrasia da tendência moderna, porém devido ao fato de ela não ser óbvia, e o dano ao texto ser menor que a tendência bowdlerizante. Aqui eu vou me abster à discussão textual, embora devo apontar de cara que Braund tem o melhor texto latino, Green o mais errático, e Cairolli provavelmente o pior; a diferença, contudo, é menos importante na segunda sátira do que em outras mais problemáticas, e o melhor benefício para o texto é provavelmente apenas uma linha, a 108, que Braund lê "Assyria...urbe" (i.e.: Babilônia), Green omite "urbe/orbe" e Cairolli lê "Assyrio...orbe" como "em mundo Assírio" (orbe, quando significa "mundo", significa o mundo inteiro, não a parte em questão...). Discrepâncias menores são menos relevantes para a discussão...

Há uma diferença significativa entre as traduções... Green contém menos palavrões e obscenidades "diretas", e na segunda sátira eu contei apenas 3 casos (cocks, whores e fag; pica, putas e bicha!), contudo a expressão é massivamente contemporânea, e muitas vezes anacrônica, dos quais seleciono alguns exemplos: raging queens, humbuggers, dyke, fairies (sentido de "bicha"), gangsters, killjoy, boutique, queers, gazette, pansies... Até onde sei, a última edição de Green foi pesadamente revisada, porque ela tinha um tom extremamente livre e por conta das críticas ele deixou o seu Juvenal em um tom mais elegante e solene; todos os exemplos tirados são dessa edição já revisada e que removeu muitas "vulgaridades", e só posso imaginar como a versão anterior era antes da revisão. Susanna Braund é provavelmente a tradutora mais elegante de Juvenal da modernidade, a despeito da prosa, e normalmente não se abstém de falar das questões moralmente difíceis do poeta (aqui, há, contudo, uma neutralização estranha "turns pale from both diseases"... basicamente "curte" os dois lados, i.e. o cu e a rola... a expressão inglesa é estranhamente contida, mas isso é excepcional na tradução), mas ainda assim na mesma sátira ela apresenta duas expressões populares e duas ofensas vulgares: digging-hole, bogus, arsehole (com sentido de "cu"... é um tanto engraçado ver essa variante britânica com esse sentido) e arse (e devo mencionar "patrician cunt" na sexta sátira...). O Cairolli, que fez a melhor tradução portuguesa, tem igualzinho (e outros diminutivos), buraco (cu), tesão (?, tenho dúvidas se conto entre léxico tradicional ou popular), a raba (com sentido de bunda), frouxos (sentido de efeminado) e grana, dentre o uso popular, e tem bicha(s), cu e enrabado como obscenidade clara, além da significativa licenciosidade de traduzir fracta uoce (voz feminina) como boca frouxa (associado ao sexo oral?).

Essa licenciosidade é extremamente marcada quando comparamos com as traduções antigas, já mencionadas. Nenhuma obscenidade e nenhuma vulgaridade tanto em Ramsey quanto em Bastos, contudo isso claramente tem um preço, e alto: um dos pontos cruciais da sátira envolve o fato de que mesmo as prostitutas não são tão ruins moralmente quanto os "homens de bem", e uma dessas comparações envolve a notável aversão que os romanos tinham ao sexo oral, e no verso 49 Juvenal diz "Tedia non lambit Cluuiam nec Flora Catullam", que Bastos traduz de modo completamente obscuro um "Não é com Clúvia, Tédia, nem com Flora, | Torpe Catula", sem menção à prostituição ou mesmo qual o "feio exemplo" de que elas não se gabam, enquanto Ramsey remove a linha inteira, dizendo apenas "never in our sex will you fing such loathsome examples of evil"; o que nem mesmo as prostitutas não fazem (e que os homens efeminados fazem), é "lamber" uma a outra.

Contudo, essa evidencialização corre o risco de falsificar o registro do poeta, algo que ao menos Green tem noção bem clara do que faz. Que versões antigas do Juvenal são bowdlerizadas é algo que é quase senso comum, de modo que o leitor ao ler uma tradução antiga sabe bem que esse é o caso, mas o leitor moderno pode não se dar conta, ao ler as novas traduções, é de que Juvenal não usa nenhuma palavra vulgar ou palavrão, mantendo um registro sempre solene e clássico (a única exceção é a palavra cicer [pau], no fragmento de Oxford, mas ela não só é excepcional como existe em apenas um único manuscrito... por hora, vamos assumir que Juvenal não usou essa palavra). Juvenal não é Catulo ou Marcial, que gostam de jogar obscenidades e vulgaridades para todo o lado, e até mesmo Horácio tem uma gama de palavras que Juvenal nunca usaria: caco, merda, pedo, oppedo e muto (apenas no primeiro livro das sátiras). As palavras mais usadas, como pathicus e cinaedus são de construção similares a "passivo" e "sodomita", não "bicha", e a diferença de registro é notável.

Novamente, as tendências modernas de tradução são extremamente efetivas como antídoto para a tendência bowdlerizante e de censura pela qual o texto de Juvenal sofreu por séculos, mas o leitor crítico deve ter bastante cuidado em perceber que há algo de extremo que vai para o outro lado, e assim como a tendência de omitir, ela pode dizer muito mais do que Juvenal dizia, e frequentemente de um modo que não representa o estilo do poeta, o que nem sempre é a preocupação com certas tendências tradutórias contemporâneas.


UMA PALAVRA E DISCREPÂNCIA INTERPRETATIVA: Virgílio, Aen. IIII, 215

O caso em estudo é bem distinto do que falamos em Juvenal. Enquanto no processo anterior há coisas que Juvenal diz que são omitidas de um lado, e por outro lado os tradutores criam um modo e registro de discurso que não representa rigorosamente o registro do autor, na seguinte passagem da Eneida estamos lidando com os limites da interpretação, feitas por dois grandes tradutores que também apresentam tais tendências opostas no que traduzem.

Carlos Alberto Nunes é o grande tradutor dos épicos clássicos (Ilíada, Odisseia, Eneida) e do drama shakespeariano, e deve-se notar que ao menos em Shakespeare Carlos Alberto tem a tendência de tornar o verso (frequentemente vulgar) em algo bastante elegante, que ocasionalmente não bate com a obscenidade ocasionalmente hilária do bardo inglês. João Ângelo é notório professor de latim e um dos maiores classicistas do país, famoso também pela tradução integral da poesia de Catulo, e embora Catulo seja um poeta realmente vulgar e obsceno, o verso de João não tem o menor receio de expor essa obscenidade, e, se minha contagem está correta, usa bem mais palavras vulgares que o próprio poeta (lembrar novamente de cinaedus e pathicus, que em 16.2 Ângelo traduz por "bicha" e "chupador"). O que acontece aqui é que os tradutores parecem discordar da interpretação de uma palavra no texto virgiliano, e ambos interpretam no limite do que o texto latino tem o potencial de significar. O verso é o seguinte:

et nunc ille Paris cum semiuiro comitatu

Carlos Alberto traduz o verso do seguinte modo:

E ora esse Páris, seguido de um bando de gente somenos

João Ângelo claramente discorda da interpretação/tradução do Nunes, apresentando sua própria interpretação para a palavra semiuiro:

Somenos: inferior. Virgílio diz semiuiro comitatu, "gente efeminada", "só metade homem".

Qual das duas traduções/interpretações é a correta? Honestamente, eu pessoalmente acredito que ambas estão erradas, e acho que Virgílio quer dizer aqui "companhia de eunucos" (ver o mesmo sentido em XII 99; a associação dos troianos com os eunucos do culto de Cibele é persistente, e permanece até mesmo em Nono), que é o sentido mais direto e causa menos problemas interpretativos; contudo a postagem não diz respeito a minha interpretação pessoal, mas aos possíveis modos de se ler a palavra, e como traduzi-la...

Parece óbvio aqui que ambos os tradutores foram levados a tais extremos interpretativos por conta de seus hábitos, seja o da elegância de Nunes, seja do caráter direto e sem ocultações do Ângelo. Em matéria puramente linguística, ambas as versões são possíveis, na medida em que a compreensão de "somenos" e "efeminada" seja específica.

O problema interpretativo não é particular da passagem, mas de todos os compostos latinos em semi. Quando se usa o termo semi-algo pressupõe-se que tal coisa ou ser seja composto de metade "esse algo" e metade "outra coisa", e o resultado disso é que compostos com semi sempre têm um sentido limitado e variado, e quando o sentido não é óbvio pelo contexto os críticos ficam numa saia justa: talvez o mais famoso e debatido exemplo seja semipaganus em Pérsio em que não apenas basta saber o que significa metade paganus, como se faz necessário entender o que diabos é a outra metade (a interpretação mais comum é o de semirusticus semipoetaque; i.e.: só metade poeta... ainda assim a leitura não é clara).

O que então semiuir significa? Virtualmente qualquer coisa: Hércules é semiuir (semideus), o Minotauro é semiuir (semibos... "semibovemque virum semivirumque bovem" é provavelmente a pior linha de Ovídio... contudo, apenas semiuir é usado, e pode gerar confusão), um tritão é semiuir, um hemafrodita é semiuir (semimulier) e por aí vai. A palavra, isolada da outra "metade" pode também denominar alguém fisicamente incompleto, como um aleijado ou um castrado.

Em que sentido semiuir pode significar "somenos"? Eu consigo pensar em apenas dois modos: se uir significa "nobre", de "alta estirpe", semiuir pode significar semiplebs; uir também pode ser usado com sentido de soldado (ainda usamos "1000 homens", por exempo...), nesse caso semiuir pode significar semiarator (semirusticus), meio-camponeses, soldados "inferiores". Embora eu pessoalmente não me sinto atraído por nenhuma das alternativas, em matéria puramente linguística essas leituras são possíveis, e "somenos" é uma tradução adequada para elas.

Em que sentido semiuir pode significar "efeminados"? Não no sentido mais óbvio da palavra em português. Eu não sei exatamente com que sentido o João Ângelo leu, mas os leitores dele provavelmente vão entender a expressão efeminados como "meio bicha". O problema é que essa leitura não faz o menor sentido (nem mesmo em português... o que diabos seria "meio-bicha"? quem "dá meia-bunda"?), e semipathicus não é uma metade válida (exceto se houver divisão temporal, ou seja, de dia é "mano" e de noite "mona"), e semimulier significa hermafrodita, como já vimos. Contudo, "efeminado" também pode ter uma ampla gama de sentidos, seja cosmético (i.e.: semifemina no sentido de ser homem mas se vestir, maquiar, perfumar, como uma "mulher", visto que romanos não eram sensíveis à diferenças culturais... asiáticos eram consistentemente vistos desse modo) seja com uma particularidade sexual específica considerada imoral e efeminada pelos romanos (semipuer, i.e.: pederasta), mas que não costuma receber esse adjetivo na sociedade moderna (que vai usar "pedófilo" ou "pederasta", não "efeminado"). De fato, "pederasta" é a interpretação clássica, e Sérvio, que interpreta semiuir como "id est effeminati" mas especificamente referente a quem "ab ipsis enim ferunt coepisse stupra puerorum"; a acusação de que gregos e frígios eram pederastas (que, para os romanos, era ser efeminado) é recorrente, e semiuir é amplamente usado com sentido especifico de pederasta na antiguidade tardia, seja pelo poeta Ausônio (ver meu comentário anterior), seja pelos imitadores de Virgílio (Prudêncio, por exemplo). Semiuir pode significar "efeminado" no sentido de cosmética, ou no sentido específico da prática da pederastia, mas aparentemente não no sentido mais geral que a palavra evoca em português.

Aqui é um exemplo das dificuldades interpretativas que uma única palavra pode trazer, e como práticas e tendências tradutórias podem levar críticos a compreender no limite da interpretação mais "branda" ou mais "pesada", quando vistas e traduzidas por dois latinistas da maior competência.


FOI ESTUPRO, NÃO 'AMOR'! Ovídio, Met. IIII, 798-799

Se há algo que une o corpus da literatura latina é a misoginia, e se há uma consequência disso que representa a maior dificuldade nossa a lidar com as obras clássicas é a representação e glorificação do estupro de mulheres, que é pervasivo em toda a literatura latina, em todos os seus gêneros.

É extremamente difícil falar desse assunto, é bem delicado; eu mesmo imaginei que seria bem mais fácil dissertar sobre isso brevemente, mas falar de um tema como esse não é fácil. Contudo, se negar a falar disso, que é tão óbvio e evidente, e tentar usar técnicas Jedi para fingir que isso não existe na "nossa amada literatura clássica" não é apenas contraprodutivo e desonesto intelectualmente, mas pode ser realmente perigoso e ajudar a passar adiante uma narrativa que glorifica o abuso sexual, culpa a vítima ou diminui seus impactos. Lastimavelmente, não sou psicólogo, pedagogo, assistente social ou alguém que trabalhe na linha de frente dessas questões, e por isso eu recomendo a leitura do texto de Dani Bostick (aqui) antes de qualquer discussão; ela apresenta de modo sucinto e claro os problemas dessa distorção, e eu vou tentar me focar em interpretação.

Em primeiro lugar, é importantíssimo lembrar que os romanos simplesmente amavam narrativas de estupro. Essa parte, tristemente, não é tão difícil de compreender hoje em dia, tendo em vista a ampla demanda de pornografia hardcore, rape porn, o apelo popular de filmes rape and revenge, de modo que a ampla representação do abuso sexual não é exatamente algo que desapareceu completamente, ou que provavelmente vai desaparecer. Agora os romanos REALMENTE amavam esse tipo de representação, de modo que é mandatório que os romanos conheçam essas narrativas e saibam representar o estupro. Virgílio conta mais de uma história de estupro, e é particularmente notável que ele represente até mesmo a guerra (o saque de Troia, em Aen. II 469-505) em termos de violência sexual. Grande parte das histórias mitológicas envolvem algum tipo de fraude ou violência sexual. Mesmo o gênero mais inocente, como o Bucólico, pode conter uma representação gráfica e sombria: a segunda écloga de Nemesiano conta a história de dois pastores que resolvem estuprar uma pastora que colhia flores. Poemas nupciais são outro caso de destaque: é esperado que o poeta represente detalhadamente o estupro marital, seja estando confortável ou não com isso (notar a diferença entre a atitude de Ausônio e Claudiano, em Cento e Fescennina), e pode nos parecer surpreendente hoje que alguém como o general Stilicho ordene que seu poeta pessoal componha versos que representem, em detalhes, a própria filha sendo estuprada e violentada pelo marido. Contudo, isso faz perfeito sentido dentro do contexto romano.

Não é fácil falar sobre isso, e em algumas épocas e lugares isso pode ser bem problemático. O fato de lidar com obscenidades e violência, em muitos lugares, pode custar a carreira de alguém, ou limitar drasticamente as opções de emprego (se alguém ler isso que escrevi, e souber quem sou eu, é muito provável que eu nunca consiga emprego em nenhuma escola ou faculdade cristã, e isso é um risco real). É quase anedótico que Housman, quando comentou textos extremamente obscenos, o fez em latim e em revista alemã, não em inglês como era sua prática usual, e Michael Hendry conhecia os riscos quando resolveu publicar seus textos online ("escrever on-line sobre algumas passagens de Sátira Romana, Marcial ou Aristófanes, pode significar nunca mais ser capaz de ensinar no ensino médio outra vez"... original aqui), e não é fácil encontrar sempre o modo correto de apresentar essas questões problemáticas. Mas é uma questão de obrigatoriedade moral fazer como recomenda Bostick, e dizer que é estupro, não fingir que é outra coisa, quando estupro for.

Como é esperado, até pelo tema geral desse Palavras Importam, as abundantes representações de estupro na literatura latina historicamente sofreram muita bowdlerização, omissão, e esse impulso ainda persiste até hoje, mais do que com obscenidade geral. Mas há um movimento forte que quer representar melhor as coisas como realmente são e falar francamente como as coisas são. O movimento feminista também tem relido muito da antiguidade e trazendo nova luz seja para a arte seja para a interpretação. Uma dessas figuras que mais tem sido revisitada é a figura da Medusa, que tem sido vista como a mulher forte, redesenhada (como na imagem acima, da Medusa decapitando Perseu), cuja história é compreendida (como diz Bostick em seu ensaio "Netuno estuprou a Medusa"), vista como um símbolo literário de culpar a vítima, e até mesmo participou de campanha online contra o estupro (na #Me(dusa)too)...

Só tem um grande problema aqui: MEDUSA NÃO FOI ESTUPRADA POR NETUNO.

Novamente vamos retomar essa tendência de discrepância entre traduções antigas e modernas, que é surpreendente. A maioria das pessoas, acessa o conhecimento dos textos clássicos através de tradução, e é uma das razões pela qual a Wikipedia em inglês da Medusa diz "se Ovídio diz que ela era uma participante [do sexo] com seu consenso não é claro" (grifo meu), e ao me deparar com as traduções inglesas fica claro a discrepância: de um lado "hook up", "attain her love", "make love", "seduced her", de outro "ravished her", "yelded her" e "raped her". Essa narrativa deriva de uma única fonte, por isso a discrepância interpretativa é de ordem tradutória, já que a relação entre Netuno e Medusa é contada unicamente nas Metamorfoses de Ovídio. Aqui temos uma discrepância de como traduzir e representar a passagem, o que também é discrepância de época. Aqui o original ovidiano, que, até onde sei, não apresenta problemas textuais:

hanc pelagi rector templo uitiasse Mineruae
dicitur;

Eu por hora não vou discutir qual é a "história verdadeira" da Medusa. Essa narrativa é, ao que tudo indica, criação ovidiana e não faz parte da mitografia ou do grosso das múltiplas leituras da história da Medusa; uma coisa que eu acho muito relevante para a interpretação de Ovídio é a poderosa negação da autoridade da própria narrativa nessa passagem, que o narrador não assume atribuindo para a narrativa a autoridade do dicitur (dizem, é rumor, eu não garanto que foi assim que aconteceu). Por questão de argumento eu vou assumir o verso como "fato" e como a "verdadeira história" da Medusa, segundo Ovídio ouve estupro? ele é ambíguo a respeito?

A resposta é não. A despeito de ser uma palavra de carga semântica pesada ("uitium", vício, contaminação), uitiasse tem um sentido muito claro, inequívoco e preciso: tirar a virgindade (vulgar "descabaçar", ou no mais elegante paraensês "mexer com"). Que fique claro: uitiasse é uma expressão claramente misógina que deve ser problematizada, já que propaga a noção de que a mulher se contamina ou perde o valor com a prática sexual, um tipo de linguagem que ainda persiste nos dias de hoje, e pode ser extremamente danosa particularmente quando aplicada para pessoas que sofreram violência. Contudo isso é uma questão de texto: uitio não significa estuprar (como, aliás, stuprum), não tem essa conotação. De fato, olhando os usos clássicos da palavra (o ThLL ainda não chegou em V, e eu não estou com cabeça para pesquisar o sentido que Terêncio dá à palavra, que na prática não importa), os gramáticos Gélio e Quintiliano usam em sentido que deixa absolutamente claro que o ato de uitiare (tirar a virgindade, "contaminar") foi consensual da parte da mulher "contaminada" (urgh!), de modo que a moça em Quintiliano usa de retórica para proteger o perpetrador da "malicia". Mas de fato, não precisamos dos gramáticos ou mesmo dos usos externos, porque o próprio Ovídio deixa claro o sentido da palavra: em Heroides 11 a expressão vitiati pondera ventris não deixa quaisquer dúvidas a respeito do sentido da palavra, já que todos podemos concordar que Macareu foi um completo "filho da puta", mas a entrega de Canace foi certamente voluntária, que é o sentido com que o próprio poeta usa (segundo o próprio autor, contudo, Canace foi estuprada por Netuno). A passagem em questão não se trata de estupro, embora ainda assim humilha e põe a responsabilidade desproporcionalmente sobre a mulher. Como o ensaio primeiramente postado diz, "não é tua [do professor] tarefa também redefinir o estupro e trivializar a violência sexual", e isso vale de ambos os lados, pois tratar do "estupro de Medusa" É redefinir o estupro apontando um que nunca ocorreu segundo a própria fonte tratada.

Por fim, uma nota a uma tradução brasileira. Raimundo Carvalho traduziu os 5 primeiros cantos de Ovídio em sua tese (aqui), e assim que ele traduz a passagem:

No templo de Minerva, o deus do mar violou-a,
dizem.

Carvalho sabe muito bem que Medusa não foi estuprada, tanto por ser ele próprio um classicista extremamente competente, como por ter lido uma edição bilíngue comentada que ao menos traduz corretamente a passagem. Talvez ele tenha desejado apresentar uma maior ambiguidade na passagem, prática que é cada vez mais comum entre os tradutores brasileiros, a despeito do original bastante direto. Minha intuição de falante do português consegue assumir, ao menos teoricamente, que a palavra "violar" pode ter tanto o sentido de "desvirginar" (manchar) como de "estuprar"; contudo, se eu leio a passagem em português a minha conclusão natural é que o "deus do mar a estuprou", uma interpretação cuja falsidade apenas o latim é capaz de desviar. Dicionários não parecem ajudar ou lidar bem com o termo, já que dois dicionários que tenho (Aulete escolar e Aurélio Jr.) apresentam o sentido de "tirar a virgindade" mas não de "estuprar", enquanto outros (Houaiss, Priberam, Aurélio, Bechara) apresentam apenas o sentido de "estuprar" mas não o de "tirar a virgindade". Alguns amigos de outras regiões têm me dito que eles também entendem "violar" como estuprar, e acabam caindo no mesmo problema de leitura que eu indiquei. Mas talvez o tradutor venha de uma comunidade linguística em que violar é mais usado com sentido de "desvirginar", já que em outra ocasião ele escreve " 'Ele | me violou contra meu querer' " e se "violar" significa "estuprar" aqui a frase é de uma tautologia absurda.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Antilogia i-tradutória da poesia latina tardia [pt. 2] - Poetas "Pagãos", pt.1

Primeira parte aqui.

Decimius Magnus Ausonius (310 - 395)

Se há um autor que deve ser individualmente analisado antes de qualquer julgamento de valor sobre a poesia tardia, esse autor é Décimo Magno Ausônio. Entre a morte de Juvenal e a obra de Ausônio há um grande vazio do nosso conhecimento, havendo poucos autores conhecidos e poucas obras sobreviventes (Pervigilium Veneris é provavelmente a mais importante delas, se é que podemos realmente datar ela como pré-Ausoniana). A reputação de Ausônio contudo tem de lidar com o duro (e factualmente incorreto) julgamento de Gibbon de que "[a] fama poética de Ausônio condena o gosto de sua era", de modo que reabilitar a literatura da época envolve primeiramente reabilitar Ausônio. Contudo, deve ser bem lembrado que a fama do poeta na época se dava principalmente pela sua atuação como professor e gramático, seguido de amplo respeito pela sua atuação política (aparentemente ele não foi um grande político de fato, e como co-governador na Gália o filho dele deve ter feito a maior parte do trabalho), e havia na época poetas mais famosos, o que ele próprio reconhece em sua correspondência. A verdadeira fama poética de Ausônio veio no Renascimento Carolíngeo, com um segundo Boom no Renascimento Humanista, e ninguém jamais condenaria o gosto da época. Dentre os humanistas, Petrarca, Bocácio, Erasmo e todos os outros tinham a poesia ausoniana em alta estima; em Portugal Achiles Estaço possuía um manuscrito de Cesares (Valicelliana ms.D 54) além de mencionar outros poemas de Ausônio em seus comentários (ex: menção ao poema Oratio na página 14 de seu comentário sobre Horácio) e Camões imitou um poema que ele devia encontrar dentro das obras de Ausônio (De Rosis Nascentibus, 15-16; comparar com Lusíadas, IX 61 2-4... A obra entrou nas edições de Ausônio em 1511 e era a atribuição mais comum no XVI) e possivelmente teve influência de Bissula, dos Idílios e talvez de Cupido Cruciatus em alguns de seus poemas (Camões, contudo, parece tomar a descrição das musas de outra fonte clássica); além do mais, Ausônio é o grande modelo literário para os epigramas e epitáfios portugueses do XVI, muito mais que Marcial. Chaucer provavelmente usa Ausônio como autoridade para a função das musas Cleo e Calíope, já que não conhecia grego (comentário mais detalhado aqui). Na Alemanha e França a fama literária de Ausônio nunca desapareceu completamente.

Mas por conta dos ataques ao valor do poeta, ataques esses que eu pessoalmente cheguei a repetir de modo pouco crítico, acho que devo falar um pouco das principais críticas que a ele são feitas antes mesmo de falar da vida e obra, já que tudo o que é dito contra Ausônio é, de algum modo, repetido ou modificado ao tratar da literatura latina tardia. As quatro principais queixas contra o Ausônio são as seguintes: 1) se removermos a dicção e versificação de Ausônio não sobra nada; 2) o poeta não tinha nada o que dizer (frequentemente em oposição); 3) o estilo dele é decadente e já não mais clássico; 4) os melhores momentos dele são nada mais que ecos da literatura anterior.
 
1) A primeira crítica é a mais comum, e também é a mais fácil de refutar. É o tipo de crítica que parece dizer alguma coisa, mas no fundo não diz nada. Se tirarmos a dicção e versificação (entendendo seja do ponto de vista mais estrito como mais amplo) de QUALQUER poeta, o que é que sobra? Talvez em alguns casos sobre uma filosofia ou crítica social pertinente ou história relevante, mas a poesia de qualquer poeta desaparece se dela removermos a dicção e versificação. Coleridge, um brilhante poeta e crítico, disse exatamente a mesma coisa de Virgílio, e se isso pode ser aplicado ao maior dos poetas latinos, o pode ser para qualquer um.

2) A segunda crítica é ligeiramente mais útil para compreender o poeta e a posição dele na poesia latina, mas dificilmente é algo que vai determinar o valor por si só. A primeira coisa é que ela não é completamente verdade, e a respeito disso a carta para o São Paulino de Nola, o Protrepticus ad Nepotem, sua pro fissão de fé em Ephemeris (embora pode não ter sido planejado nesse caso) e muitos poemas de Parentalia são poemas que definitivamente mostram inteligência ao falar de algo relevante para a ocasião e para o poeta. Contudo, em muitos dos poemas de Ausônio, incluindo seu famosíssimo Mosella, não há um "tema" de discussão, mas o tema é circunstancial e Ausônio usa seu talento na composição, não no desenvolvimento de uma ideia ou argumento. De fato, comparado com as críticas sociais dos satiristas Pérsio e Juvenal, dos epigramas de Marcial, da composição da ideia nacional de Virgílio ou da filosofia e retórica de Lucrécio e Lucano, Ausônio parece não ter muito sobre o que falar. Mas ter o que falar não é o bastante para ser poeta, como vimos no Disticha Catonis, que nem é mais lido como poesia hoje em dia, e se a ausência de uma "tese" ou "temática relevante" predica a má qualidade de um poeta, muito da melhor poesia moderna tem de ser jogada na lata de lixo também, incluindo grande parte da literatura neoclássica e quase toda a poesia simbolista. Se não me engano, Manuel Bandeira disse de Mallarmé que a maior de suas qualidades era que quase todos os seus poemas eram "de circunstância", e o mesmo pode ser dito seguramente de Ausônio, e é nisso que provavelmente jaz o apelo que o autor pode ter nos nossos dias.

3) A terceira crítica é completamente estúpida e sem sentido, mas exatamente essa estupidez que pode nos ajudar a compreender o nosso erro em lidar tanto com a poesia de Ausônio como com a poesia tardia em geral. Se assumimos que "poesia latina" é a "linguagem clássica de Virgílio", qualquer coisa que não é Virgílio vai ser sem refinamento (como Ênio e Lucrécio) ou decadente (como Estácio ou Ausônio) em comparação (e, paradoxalmente, tudo o que soar virgiliano será imitação barata ou fraude); contudo, se alterarmos o padrão, apenas como experiência, e dizermos, por exemplo, que a "poesia latina" é o "estilo de Estácio", a coisa vai repentinamente mudar de figura: o uso de linhas espondaicas em hexâmetros em palavras não gregas de Juvenal e Horácio (Ars 467), e os hiatos na Eneida (e em Catulo, se Catulo tiver, de fato, hiatos) vão parecer bárbaros, e a sintaxe de quase todos os poetas vai parecer muito pouco variada. Podemos fazer essa experiência em qualquer língua: se "poesia inglesa" é o "estilo de Dryden", Shakespeare e Spencer vão parecer bárbaros, e os românticos completamente afetados; se a "poesia brasileira" é o "estilo de Bilac", Varella e Gonçalves Dias vão parecer preguiçosos (o que não são), Alberto de Oliveira simplório, Augusto dos Anjos obscuro e Jorge de Lima simplesmente errado. Não é só injusto comparar um autor e época no padrão inalcançável de outro, mas não faz o menor sentido e não tem o menor valor crítico. Se toda a literatura representar uma decadência em relação ao padrão inalcançável de outrem, o fazer literário em si não tem sentido. Além do mais, o próprio latim "clássico" de Cícero e Virgílio foi condenado como já decadente por Fronto, em comparação com o "mais puro" latim pré-clássico.

4) A última crítica parece ser feita por pessoas que não conhecem a literatura latina ou não sabem como a própria literatura funciona, mas curiosamente é feita por latinistas e críticos literários competentes. Se esse padrão é levado a sério, Virgílio, Dante, Camões, Shakespeare, Tennyson e Machado estão todos no mesmo barco, já que o melhor de suas obras ecoa as obras de seus antepassados. O que é relevante é como o autor em si desenvolve esses temas e técnicas em sua obra como um todo e em seus poemas isoladamente. O julgamento deve ser específico, nunca geral.
 
Considerando a ignorância geral a respeito de quem foi o poeta e suas obras, é importante falar um pouco sobre ele e sobre sua obra, o que eu definitivamente não quero fazer nem tenho qualquer competência. Ausônio nasceu na Gália, de família cristã provavelmente falante de grego (ao menos a família da mãe era tradicionalmente da região desde os tempos do império gaulês, a estirpe do pai, contudo, é um mistério... a educação de Ausônio foi em grego, assim como a do filho dele, e o neto, Paulino de Pella, aprendeu latim já quase adulto), e bem jovem se tornou famoso pela sua inteligência como gramático e passou a lecionar em Bordeux por volta de 330-334 (ao menos 30 anos antes de ser convocado a Trier, na metade de 360... a data 334 é a mais provável), o que é uma idade excepcionalmente baixa para lecionar em universidades. Contudo, um pouco antes da carreira de Ausônio decolar, uma grande amargura provavelmente se sucedeu, já que Juliano famosamente baniu todos os cristãos de lecionarem em escolas e universidades por todo o império, e havia um confronto entre as facções cristã e pagã em Bordeaux. No meio de 360 (após 364, mas antes de 368, quando Ausônio acompanhou Graciano nas campanhas germânicas) Ausônio foi convocado para ser tutor do futuro imperador Graciano, e assumiu diversos cargos políticos desde então. Aqui, vale a pena apontar que a grande maioria da obra Ausoniana é posterior a esse período, e de fato não temos nenhuma obra indisputavelmente genuína que deve ter sido escrito antes de 345, embora sem dúvidas ele escreveu muitos poemas desde o início de sua carreira de grammaticus e mesmo antes. Algumas obras disputáveis, contudo, podem ser de período anterior, mas é difícil de acreditar na maioria dessas atribuições, seja porque elas são muito estúpidas mesmo para um poeta jovem, mas que conhecia bem o grego (como Periochae Homeri), ou são simplesmente muito boas para um poeta amador cujo ápice de escrita se deve a um período bem posterior (De Rosis Nascentibus, que como imitação virgiliana deve ser necessariamente de um período anterior).
 
Quanto ao cristianismo de Ausônio, algo mais precisa ser dito por conta de confusões que ainda permanecem a respeito do mesmo. Em matéria de estudo da literatura, Ausônio certamente não é um "poeta cristão" (como são, por exemplo, Prudêncio, Paulino, Venâncio, etc...), mas apenas no sentido de que a maior parte de sua obra é profana. Com tudo, é um erro crasso seguir Gibbons ao dizer que ele era "declaradamente pagão", o que definitivamente não é verdade, nem seguir Chisholm (para a Enciclopédia Britânica) em dizer que ele foi convertido ao cristianismo tardiamente e não era um grande entusiasta. Como já foi dito, Ausônio foi confessadamente Critão, e, de fato, professou sua fé em mais de uma ocasião dentro de sua poesia (Ephemeris 3 [Oratio], Versus Paschales), possui linguagem marcadamente cristã (gentes com sentido de "gentil", sanctius...reverentia... ambas em textos seculares), diversas vezes apresenta valores marcadamente cristãos, particularmente nos epitáfios. Não temos nenhuma evidência de que Ausônio sequer foi pagão em qualquer momento de sua vida, e muitas evidências do contrário, dentre as quais eu cito apenas duas. 1) a conversão ao cristianismo era matéria de orgulho entre autores antigos, de modo que os convertidos faziam questão de descrever sua conversão, e aqueles que sempre foram cristãos (como Paulino de Nola ou Paulino de Pela) costumam descrever suas experiências em termos de conversão também... Ausônio, que como dizia Symmachus, era incapaz de mentir mesmo em verso, nunca usa esse tipo de linguagem nem figurativamente, assumindo o pensamento e prática cristãs como algo "garantido"; 2) a família de Ausônio certamente apresenta comportamentos e valores que só podem ser explicados em contexto cristão, como a opção da tia de Ausônio (que o criou... ver Parentalia VI, que traduzo aqui) pelo celibato, e a conquista de status por parte da mulher através do celibato é algo que só pode existir dentro do contexto da antiguidade cristã, já que até mesmo a excessão romana (as Virgens Vestais), que assumem uma função mandatória para a sociedade, e por isso mesmo são tidas como "aberração" (Cf. Mary Beard e Peter Brown), ao ponto de que um dos ataques feitos à cristandade era exatamente a presença e aceitação dessas mulheres virgens, e a maior frequência (segundo os opositores) de mulheres celibatárias que casadas entre os cristãos (Cf. Santo Agostinho, Contra Faustum), de modo que numa sociedade e família cristã se esperava que Hilária casasse para garantir o seu status e o do marido e não ficasse "pra titia" cuidando do filho dos outros, o que é razoável e louvável num contexto cristão do IV século.

Em matéria de obra, uma coisa completamente externa mas que chama atenção é o fato de que Ausônio era quase certamente falante nativo de grego (a despeito do comentário do próprio de que os estudos dele de grego [i.e.: homérico] não avançaram de modo desejado, grego era a sua língua familiar, a língua de sua educação e da educação de seus familiares...), e isso é curiosamente persistente entre os melhores autores da antiguidade tardia: Amiano e Claudiano eram gregos, Luxório vivia num lugar de fala grega (e provavelmente o latim era puramente literário), e Paulino de Pela relata em seu poema-biografia o quão difícil foi aprender latim.
 
De resto, acho que muitas vezes os poemas falam por si só. Uma lista de obras interessantes do poeta talvez não seja muito relevante, visto que pouco se traduziu dele. Devo mencionar que o Gouvêa Júnior traduziu o Cento Nuptialis, que pode ser lido aqui, e que Daniel da Silva Moreira traduziu alguns epigramas aqui. O volume mais recente do Augusto de Campos aparentemente contém versões de Ausônio, mas não sei quais textos, mas de qualquer modo não espero muito do Augusto quando o assunto é latim. O Matheus de Souza está traduzindo todo o Parentalia, todos os domingos, no seu blog pessoal, e pode ser acessado pelo marcador Ausônio (aqui). O Matheus também foi bem generoso em contribuir com a tradução de um dos meus epigramas favoritos, que eu vou apresentar aqui na versão dele e na versão do João Ângelo.

Por fim, algo precisa ser dito quanto ao texto e numeração. Numeração de texto e verso, na maioria dos autores clássicos, é na maioria das vezes padronizado mesmo quando não faz o menor sentido (por exemplo, Catulo não tem poemas de número 18-20, de modo que em linhas gerais a numeração posterior não faz o menor sentido, mas permanece para evitar confusões), tudo isso para facilitar referência. Ausônio, contudo, é um daqueles raros poetas de corpus volumoso que não possui um sistema padronizado de numeração, de modo que ela é segue diferentes critérios e virtualmente todas as edições relevantes apresentam numeração diferente de uma para outra (excessão: Evelyn-White segue a mesma numeração de Peiper). O resultado disso é que dizer algo como "Epigrama 23" ou "Epigrama 90" não tem sentido por si só, sem fazer referência a edição em questão (o que, aqui no Brasil, ninguém faz), e pode ser ridiculamente difícil achar o texto em edições diferentes. Para a minha tradução eu vou usar a numeração que aparece na edição mais recente da obra, por Roger Green; a edição possui uma concordância (como todas as edições de Ausônio deveriam ter), mas eu vou apresentar os textos que possuem diferença em numeração do seguinte modo:
Epigr. 8G (Epit. 30S; Epit. 31Pe; Epit. 31Pr)
O que eu quero dizer com isso é que o poema seria o Epigrammata 8 na edição de Green, o Epitaphia 30 na edição de Schenkl (para o MGH, numeração idêntica à de Pastorino para as coleções, mas a organização geral das duas edições é distinta), Epitaphia 31 na edição de Peiper (Teubner... idêntica organização de Evelyn-White para a Loeb), e Epitaphia 31 na edição de Prete (organização parecida, mas não igual, à de Peiper nos epigramas e epitáfios, mas distinto nas cartas). Isso é uma bosta, mas é o melhor que posso fazer para garantir que os poemas sejam referenciados corretamente e qualquer um possa achar em sua própria edição ou versão favorita. Para os poemas que a numeração não varia (ou varia apenas se os prefácios são numerados), eu simplesmente seguirei Green. Para o poema que o Matheus e o Ângelo traduzem, eu vou seguir o texto que eles o Matheus usou (Evelyn-White... O Ângelo lê "ut" de T na primeira linha, porém não tenho ideia de onde ele tirou o número 50), mas vou manter o mesmo modelo de numeração (ou seja, o texto é da Loeb mas a numeração segue como Green, Schenkl, Peiper e Prete...). A ortografia é minha, que é a ortografia que acho mais fácil para transcrever. Em professores, a despeito de eu ler egregiam no texto (o manuscrito, aceito por Green e Pastorino) eu deixo a qualificação ambígua, aceitando ao menos tacitamente a opção egregia de Heinsius (como lido por Schenkl, Peiper) ou egregio de Holford-Strevens (que Green propõe mas não aceita no texto) como possibilidades implícitas. Não que importe com uma tradução dessa qualidade.

Parentalia VI [Trad: Raphael Soares]
Aemilia Hilaria matertera [uirgo deuota]
Tuque gradu generis matertera, sed uice matris
affectu nati commemoranda pio,
Aemilia, in cunis Hilari cognomen adepta
quod laeta et pueri comis ad effigiem;
reddebas uerum nom dissimulanter ephebum,
more uirum medicis artibus experiens.
Feminei sexus odium tibi semper, et inde
creuit deuotae uirginitatis amor,
quae tibi septenos nouies est culta per annos;
quique aeui finis, ipse pudicitiae.
Haec, quia uti mater monitis et amore fouebas,
supremis reddo filius exsequiis.
E tu, que é tia em grau, porém és vice-mãe
Em afeto o filho deve celebrar,
Emília, cujo nome Hilaro lhe é apenso
Porque no berço qual menino é alegre;
Sem dissimulação vera feição de um jovem,
Qual homem experiente em artes médicas.
Teu sexo feminino odiaste sempre, e assim
Veio o amor da devota virgindade,
Que mantiveste por nove sétimas de anos;
E o fim da vida é o fim da castidade.
Aqui, quem como mãe mantém amor, lições,
O filho a retornar ritual extremo.

 

Professores XVIII [Trad: Raphael Soares]
Marcello Marcelli filio grammatico Narbonensi
Nec te Marcello genitum, Marcelle, silebo,
aspera quem genetrix urbe, domo pepulit,
sed fortuna potens cito reddidit omnia et auxit;
amissam primum Narbo dedit patriam.
Nobilis hic hospes Clarentius indole motus
egregiam natam coniugio attribuir;
mox schola et auditor multus praetextaque pubes
grammatici nomen diuitiasque dedit.
Sed numquam iugem cursum fortuna secundat,
praesertim praui nancta uirum ingenii.
Verum oneranda mihi non sunt, memoranda recepi
fata; sat est dictum cuncta perisse simul,
non tamen et nomen, quo te non fraudo, receptum
inter grammaticos praetenuis meriti.


Nem esqueço a ti, Marcelo, herdeiro de Marcelo,
Áspera mãe forçou-te a outras plagas,
Tudo e mais a fortuna então te restaurou;
Assim, primeiro em Narbo, achaste pátria.
Aqui Clarêncio, nobre, a ti concedeu sua
Filha p'ra desposar, egrégia índole;
A seguir tuas lições atraíram mil jovens
Pela fama e carreira do gramático.
Mas a fortuna, embora longa, não prossegue,
Principalmente em depravada índole.
Não é o meu dever dar peso, mas lembrar
Do fado; basta lembrar: perdeu tudo
Só não renome, não te roubo, recebido
Qual gramático de mísero mérito.

 

Epigr. 20G (Epigr. 18S; Epigr. 40Pe; Epigr. 40Pr)
[AD VXOREM]
Vxor, uiuamus quod uiximus, et teneamus
nomina, quae primo sumpsimus in thalamo:
nec ferat ulla dies, ut commutemur in aeuo;
quin tibi sim iuuenis tuque puella mihi.
Nestore sim quamuis prouectior aemulaque annis
uincas Cumanam tu quoque Deiphoben;
nos ignoremus, quid sit matura senectus.
Scire aeui meritum, non numerare decet.
Trad: Matheus de Souza
Vivamos, minha
esposa, tudo o que vivemos,
guardando ainda o nome de casados.
Que eu seja o teu rapaz e tu a minha garota
sem que um dia a velhice nos ocorra.
Mais velho que Nestor eu seja e muito embora
emules a Sibila pela idade,
desconheçamos o que seja a senectude,
sabendo os dons do tempo sem contá-lo.

Trad: João Ângelo de Oliva Neto
Mulher, vivamos qual vivemos e tenhamos
os nomes que à primeira noite usamos.
Não haja um dia só, bem que mudemos sempre,
Que não me digas "jovem" e eu, "menina".
Mais velho embora que Nestor, rival que venças
em anos a Deífobe de Cumas,
a velhice madura ignoremos: o mérito
convém saber do tempo, não a soma.

 
Um epigama Jurídico comentado:
Epigr. 99
[Trad: Raphael Soares]

Iuris consulto, cui uiuit adultera coniux,
Papia lex placuit, Iulia displicuit.
Quaeritis, unde haec sit distantia? semiuir ipse
Scantiniam metuens non metuit Titiam.


Advogado que tem esposa adúltera,
lei Pápia aceita, a Júlia lei deplora.
Qual é a diferença? o imoral
Scantínia teme mas não teme a Titia.
Essa é uma pérola do humor jurídico da antiguidade, e um poema que sempre vale a pena apresentar para classes de latim e cultura romana. O conceito é bem simples, do advogado que é imoral e hipócrita: 4 leis são mencionadas, e o advogado se beneficia (lhe agrada) pessoalmente de duas delas, enquanto duas outras leis ele viola. O contexto das leis em si precisa ser mencionado. O advogado se beneficia pessoalmente da lei Pápia (Lex Papia Poppaea), que promove (basicamente força) o casamento, e se beneficia do status de casado por causa dela; contudo, lhe desagrada a lei Júlia, já que a sua esposa é adúltera e ele sabe disso (vive com esposa adúltera)... Para quem não sabe, ser corno manso em Roma era crime grave (Digesta 4, 4, 37). Porque ele aceita uma lei mas rejeita outra, sendo ele um advogado? Porque além de advogado ele é semiuir (a palavra é bem complicada em muitas situações... aqui, contudo, ela tem um sentido claro, que é o de pederasta... de fato, é o sentido usado por todos os apologistas cristãos do período, mas o sentido não é exatamente parte do vocabulário cristão... Cf. explicação de Servio Danielis para a palavra em Aen. IV 215: ab ipsis enim ferunt coepisse stupra puerorum), especificamente um pederasta. Por ser pederasta ele teme a lei Scantínia (ou Escantinia), que criminalizava o stuprum contra ingenui (o sexo com menores homens), porém ele se aproveita da lei Titia, que permitia que magistrados designassem tutores para jovens (o que, presumivelmente, o advogado em questão usa de algum modo para satisfazer seus desejos).

Por fim, recomendo que alguém tome ciência do poeta e traduza para nós Bissula, Mosela e Cupido Cruciatus... Eu não farei, decerto...


Sem fotos, bustos ou pinturas do autor.
Claudius Claudianus (c. 370 - 404 prob.)

Se é quase obrigatório começar a falar da antiguidade tardia com Ausônio, o passo seguinte é necessariamente falar de Claudiano. Claudiano, diferentemente de Ausônio, foi um poeta profissional, circulando a corte do imperador Honório após a morte de Teodósio. Enquanto Ausônio foi tomado como poeta nacional da França e nunca esquecido lá (Hugo, por exemplo, sabia versos dele de cor, e também escreveu Le Rhin, em prosa, mas de caráter similar ao Mosela) a reputação dele sofreu muita oscilação nos outros lugares; Claudiano, sendo lembrado como "o último pagão de Roma", "o último grande poeta latino" tendeu a ser visto em geral com simpatia, embora eu duvido muito que ele tenha tido quantidade significativa de leitores em qualquer época. Hoje em dia a crítica literária favorece o estudo de Claudiano, tendo em vista que a obra dele é em sua quase totalidade política, o que resultou em um grande número de dissertações de doutorado sobre obras específica.

Pouco sabemos da vida de Claudiano. O poeta era grego de Alexandria, numa época em que a intelectualidade da parte oriental do império era raramente bilíngue. Ele provavelmente escreveu sempre em grego, e de fato 7 epigramas dele da fase inicial sobrevivem em grego na Anthologia Palatina (I 19, 20; V 86; IX 139, 140, 753, 754), e um fragmento (Gigantomachia) sobrevive em tradição manuscrita isolada. Contudo, em 394 ele parte para a parte ocidental do império, e no ano seguinte escreve o poema mais antigo que chegou até nós: "Panegyricus fictus Olybrio et Probino consulibus", um elogio aos seus jovens patronos. Após o período ele escreveu diversos Panegíricos para seu mais poderosos patronos, Stilicho e Honorius, dois poemas para as núpcias de Honorius, invectivas contra inimigos dos mesmos, narrativa político-histórica e ensaiou a composição de dois épicos (De raptu Proserpinae e Gigantomachia); de resto, alguns poemas menores e de circunstância sobreviveram. A morte dele se presume pela ausência de qualquer texto ou alusão aos feitos de patronos após 404.

Se Claudiano era realmente pagão ou cristão é algo de debate e provavelmente não pode ser definida para além da incerteza, ao menos com base nas informações que temos. Dois poemas cristãos são atribuídos a Claudiano: Laus Christi e Miracula Christi, mas o primeiro também é atribuído a Merobaudes em melhores bases, e o segundo foi atribuído tardiamente sem bases manuscritas. Mesmo considerando que os poemas fossem de Claudiano, não há nada nos mesmos que não possa ser feito com base em conhecimento superficial das histórias e crenças cristãs, e naquele período não as conhecer era praticamente impossível: Miracula Christi, em particular me parece simplesmente muito apressado (cada dístico um milagre, e de fato o presente dos reis magos no segundo distico não é um... há um possível mal entendimento também no 7º). O que ainda se pode dizer é que autores antigos como Agostinho e Orósio afirmavam que Claudiano sempre fora pagão e nunca se converteu; Scourfield escreve que "como um poeta em uma corte fortemente cristã, é improvável que ele tenha sido pagão", contudo outros estudiosos têm notado que a época em que ele se mudou para o ocidente é extremamente suspeita. Em 393 Teodósio eliminou toda a legalidade dos ritos pagãos, e em 394 massiva perseguição e destruição ocorreu na parte oriental do império (é incerto se o imperador promoveu tais perseguições pessoalmente, mas é certo que ele permitiu que elas ocorressem), então é bastante razoável que o poeta esteja seguindo a tendência da intelectualidade pagã do período e escapando à perseguição.

Como eu já mencionei aqui e na postagem sobre Amiano, é algo bem notável que os melhores autores latinos do período eram falantes de grego. Com tudo, o que é fascinante em Claudiano é o quão "latina" é a sua dicção. Amiano deve ter usado muito latim no período do exército, e Ausônio teve educação bilíngue, ao mesmo tempo que ambos os autores escrevem com muita excentricidade de dicção, sintaxe ou semântica baseado no grego; Ausônio, em paticular, aprecia a escrita macarrônica. Claudiano, contudo, é possivelmente o mais "latino" de todos os autores latinos, ou, ao menos de todos os autores da antiguidade tardia latina. Pelo fato de que ele era grego, muita gente, inclusive eu, tem procurado marcas de grecismo e excentricidades na dicção do poeta, e as poucas que alguns tem identificado parecem ser todas falsas. Aqui eu vou dar os exemplos que eu conheço:

Panegyricus Dictus Olybrio et Probino Consulibus:
122. "in hastam"
Segundo Dewar in hastam tem sentido modal, e por isso seria grecismo. Contudo, Hall e Charlet pensam que in hastam tenha sentido final, portanto é latim natural. De qualquer modo, mesmo esse grecismo é poético desde o período augustano.
De Consulato Stilich. Lib I:
29. Sed pacem foedat vitiis; hic publica felix,
Burman, Heinsius, Dietrich consideram que publica é grecismo (hic ad quod publica). Hic publica com sentido de hic in publica já aparece em Plínio contudo, e publica aqui é por antimetria lugares/ambientes públicos, não exatament "em público".

De Consulato Stilich. Lib II:
389. Depulsa terris iterum regnare dedisti.
Lemaire diz que dedisti é grecismo, e tem o sentido de fecisti. Eu não sei nem mesmo se pode-se dizer que do com sentido de facio é grecismo, mas isso é irrelevante aqui de qualquer modo. Em linguagem militar, do pode significar conceder (permissão, segurança, prêmio), devolver ou restaurar, todos sentidos mais adequados que criar ou produzir.

Panegyricus dictus Honorio sextum consuli
361. dissimulata diu tristes in amore repulsas
Eu não entendo o bastante de grego para saber exatamente porque dissimulata tristes repulsas seria graecismo eleganti (Gesner). Contudo, Birt deve estar certo em interpretar dissimulata com o sentido de neglecta (usado por Ausônio e por Claudiano em outra passagem), e construir repulsas como acusativo de queror.

Por fim, traduzo duas passagens curtas, com base no texto estabelecido por John Barrie Hall. Claudiano é um pouco mais difícil de traduzir, porque a melhor poesia dele é significamente grande em tamanho, por isso eu vou traduzir o trecho mais curto da Fescennina e um poema da Carmina minora, que me parece interessante pelo contexto de divulgação de poemas na época. Até onde sei, há apenas uma tradução de Claudiano para o português europeu, do De Raptu Proserpinae, e em prosa.

Fescennina Dicta Honorio Augusto et Mariae [Trad: Raphael Soares]
III (13)
Solitas galea fulgere comas,
Stilicho, molli necte corona.
Cessent litui saeuumque procul
Martem felix taeda releget.
Tractus ab aula rursus in aulam
redeat sanguis. Patris officiis
iunge potenti pignora dextra.
Gener Augusti pridem fueras,
nunc rursus eris socer Augusti.
quae iam rabies liuoris erit?
uel quis dabitur color inuidiae?
Stilicho socer est, pater est Stilicho.


Sobre o cabelo brilha o elmo em luz,
Stilicho, e brando pões o louro à testa.
Cessem trompetes, e que o sevo Marte
Seja afastado pela tocha fértil.
Que se una a real com a real
Estirpe. O ofício que é do pai
Junge os amantes com potente destra.
Genro de Augusto outrora o foste tu,
E em retorno agora és sogro Augusto.
Que espaço há p'ra raivas da inveja?
Ou o que é que justifica a cor da inveja?
Stilicho é sogro, e pai é Stilicho.

Carmina Minora [Trad: Raphael Soares]
19 - Epistula ad Gennadium ex Proconsule
Italiae commune decus, Rubiconis amoeni
incola, Romani fama secunda fori,
Graiorum popules et nostro cognite Nilo
(utraque gens fasces horret amatque tuos),
carmina ieiunas poscis solantia fauces?
testor amicitiam nulla fuisse domi.
Nam mihi mox nidum pinnis confisa relinquunt
et lare contempto non reditura uolant.

Da itália gente orgulho, e em Rubicão ameno
habita, e em fama lácia o segundo,
Famoso à gente grega e alcança até o Nilo
(Que amaram e odiaram teu ofício),
Me pedes versos para alentar tua garganta?
Tenho nenhum, te digo como amigo.
Quando confiam nas suas asas os meus versos
Fogem de case e nunca mais se voltam.



[Avianus] (~400)

Nada sabemos sobre quem escreveu as fábulas geralmente conhecidas pelo nome autoral "Avianus". As 42 fábulas em dístico elegíaco foram certamente escritas por uma só pessoa, para um Teodósio (presumivelmente Macrobius Ambrosius Theodosius, o que coloca a construção da coleção por volta do ano 400). Se ele é o poeta que Teodósio menciona posteriormente, seu nome era Avienus. Os manuscritos não concordam em nome (Avianus, Avianius, Avienus... o nome Flávio é invenção posterior baseado em má identificação), e aparentemente o autor foi confundido com o outro poeta, Avienius (conhecido no período medieval como Avieno), o que abre a possibilidade para o fato de que o poeta tinha qualquer nome.

As fábulas de "Aviano" gozaram popularidade imensa no período medieval, o resultado é que a tradição textual do poeta é muito contaminada e interpolada (há enormes séries de finais distintos entre os manuscritos) e muitos manuscritos apresentam scholia, comentários e glosas. Robert Gregory Risse editou um desses comentários, e eu recomendo que todo mundo leia porque ele é hilário... Aquele tipo de comentário e leitura que é tão ruim, mas tão ruim, que chega a ser até bom e divertido... Eu iria apresentar uma tradução minha para a Fábula 2, contudo ainda há muitos outros escritores de maior interesse e mérito que precisam ser comentados, e se eu dedicar tanto tempo assim para cada um a série nunca acaba. Também preciso revisar minhas escolhas textuais: no verso 10 eu li excidit com Baehrens, que é a expressão correta e adequada, mas depois de ver como alguns classicistas (que são poetas muito melhores que "Aviano") lidam com substituições por sinônimos e cometem algumas falhas e absurdos de expressão, referência ou fato bem piores que occidit, me parece hoje que a pior forma é legítima, se tratando de uma versão indireta por um versificador que demonstra pouca riqueza de vocabulário.

"Aviano" recebeu uma tradução integral, disponível livremente na internet: a versão de Jorge Manuel Tribuzi Correia de Melo, que preparou uma versão e notas para a sua dissertação (aqui).



Bônus: Publilius Optantianus Porfirius (336+)

Por fim, apresento alguns poemas de Optantianus (que antecede Ausônio) e que não requerem tradução. Optantianus era um político romano, e poeta diletante, que após ser banido em algum momento da carreira escreveu elogios e bajulações para Constantino e foi permitido retomar postos políticos. O que é particularmente notável desse poeta é como a má qualidade e diletantismo podia se passar por poesia que presta, numa época de baixo nível cultural... Como muitas pessoas sabem, a história tende a se repetir, porque aparentemente o ser humano não aprende de verdade com ela. O "texto" é retirado da Patrologia Latina.






quarta-feira, 29 de julho de 2020

Antilogia i-tradutória da poesia latina tardia [pt. 1] - Poetas Anônimos

Há um grande problema no estudo da literatura latina, um problema que é extremamente óbvio para qualquer um que pensa a seu respeito, mas por uma razão ou outra não pensamos. O latim foi sistematicamente usado como principal forma de expressão literária no ocidente desde os tempos clássicos até o renascimento, o que dá em torno de 1500 anos de literatura, mas quando falamos de "literatura latina" (particularmente poesia) quase sempre nos restringimos a um período de duzentos anos indo de Lucrécio a Marcial. O renascimento, a despeito de seu monumental esforço em resgatar e comentar os clássicos, é um dos principais culpados dessa negligência, por conta do desprezo geral que o período teve em relação à era medieval. Com isso surgiu uma ideia geral de decadência do "Latim de Ouro", para um inferior "Latim de Prata" e um deplorável e decadente "Latim Medieval", relegando o latim tardio a um irrelevante meio.

Antes de qualquer coisa, essa postagem não pretende criar uma revisão violenta de valor, alegando que o latim tardio (e seus autores) é, de algum modo, superior ao clássico, e não por concordar ou discordar com a periodização e o julgamento de valor recebido, mas unicamente porque o latim clássico tem Virgílio, o que faz qualquer disputa um caso perdido. Mas do mesmo modo que é necessário que nós estudemos não-Virgílios, pelas mais diversas razões, não é mais justificável, em nosso tempo, ignorar mais de mil anos de história literária baseado nos preconceitos de nossos avós intelectuais. Precisamos conhecer a literatura latina tardia, e precisamos conhecer a literatura latina medieval, seja para reforçar ou rejeitar os juízos recebidos. Não é possível avaliar propriamente algo que não conhecemos, e no presente momento conhecemos muito pouco.

Essa antilogia foi influenciada por dois livros que não poderiam ser mais díspares em seleção e método. O primeiro é o Medeias Latinas de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, que na minha opinião é o melhor livro de poesia latina publicado nos últimos anos (a despeito do latim horrendo e porcamente revisado da edição), que ao construir uma seleção baseada em tema deu espaço particular para a poesia da antiguidade tardia, o que me chamou atenção e me comoveu profundamente pela qualidade do que eu li, seja pelo talento do tradutor, seja pelo interessante valor agregado dos próprios textos escolhidos. O segundo foi o Poesia Tradução e Versão de Abgar Renault, que me ensinou duas coisas importantes para me encorajar a escrever e traduzir esses poetas, a de que mesmo uma tradução ruim é melhor do que tradução nenhuma, e que mesmo em poesia é possível que uma má tradução, que apaga muito da mágica positiva do poema, ainda traga um pouco do que é bom do poeta. Já informo que todas as traduções aqui que forem minhas provavelmente serão ruins, feitas um tanto às pressas e organizadas quase aleatoriamente por um amador sem amor ou talento, mas eu espero que a exposição ao menos sirva para criar um diálogo ou chamar atenção para o período. Se meu violento abuso e presunção na terra das musas ofenderem tanto o leitor, espero o encorajar a salvar a dignidade da língua latina oferecendo uma versão melhor, ou melhores poemas que os casualmente selecionados por mim.

Comecemos a jornada...


Manuscrito musical do Disticha, Sec. XIII
- Disticha Catonis (Sec. III-IV)
Se o objetivo for unicamente fazer as pessoas se interessarem pela poesia tardia, Disticha Catonis é um péssimo ponto de partida. A obra, atribuída tardiamente a um Dionísio Catão (porém o nome é um equívoco, por associação à Catão, o velho), não agrada mais nosso paladar moderno. A obra não é o que conhecemos hoje como poesia, sendo basicamente moral versificada, e embora as viradas dos séculos parecem reviver a preferência à leitura moralizante das obras, e embora nosso próprio século parece estar engajado em ler obras exclusivamente pelo "valor moral", ou pela "agenda" que o autor e obra trazem, "cancelando" tudo aquilo que for condenado, o nosso século não está muito apto a aceitar os valores morais de dos velhos latinos. A despeito de ser muito difícil hoje em dia de ver a Disticha como grande poesia ou mesmo grande moral, é muito importante lembrar que esse foi provavelmente o texto latino mais influente na educação medieval e mesmo na educação moderna. Todos leram os Dísticos, todos parafrasearam os Dísticos, e muitos autores genuinamente os consideravam grande poesia ou grande moral. De resto, vão umas versões:

Livro I. 21 (Trad: Ary de Mesquita)
Infantem nudum cum te natura crearit,
paupertatis onus patienter ferre memento.
Fazendo o homem nascer sem roupa, a natureza
Ensina a suportar o fardo da pobreza.
Livro II. 11 (Trad: Ary de Mesquita)
Aduersum notum noli contendere uerbis:
lis uerbis minimis interdum maxima crescit.

Evita discutir com pessoas amigas:
De tolas discussões, às vezes, surgem brigas.
Livro III. 3 (Trad: Ary de Mesquita)
Productus testis, saluo tamen ante pudore,
quantumcumque potes, celato crimen amici.

Obrigado a depor contra um amigo, evita
Mostrar-lhe a falta enquanto a honra to permita.
Livro III. 4 (Trad: Raphael Soares)
Sermones blandos blaesosque cauere memento:
simplicitas ueri forma est, laus ficta loquentis.

Cuidado com lisonja indiscriminada:
Louvores faz o falso, franqueza a verdade.
Livro IV. 5 (Trad: Raphael Soares)
Cum fueris locuples, corpus curare memento:
aeger diues habet nummos, se non habet ipsum.
Quando te enriquecer da saúde vá cuidar:
Ou adoecer, tendo vinténs para gastar.
Livro IV. 19 [?] (Trad: Ary de Mesquita)
Disce aliquid; nam cum subito Fortuna recessit,
ars remanet uitamque homnis non deserit umquam.
Deve ter profissão a própria gente rica:
Os bens se podem ir, mas a profissão fica.
Bônus Round:
Livro I. 17
Ne cures, si quis tacito sermone loquatur:
conscius ipse sibi de se putat omnia dici.
Chaucer (Trad: José Francisco Botelho)
Aproximou-se. Disse assim Catão:
Quem tem culpa a pesar no coração
Suspeita sempre da conversa alheia.
A diferença do original para a "tradução" Chauceriana se dá pela leitura medieval de "conscius ipse sibi" (consciente de si, que conhece bem a si) como pessoa culpada, com senso de culpa. Mas isso é assunto para outra ocasião.


Cópia do livro disponível para a leitura aqui.

- Epigrammata Bobiensia (~400 A.D.)
Essa coleção da antiguidade tem uma boa e longa história, do tipo WTF... Essa coleção de poemas foi produzida ainda na antiguidade, no início do século V (Naucellius, autor de alguns poemas da coleção, ainda estava vivo, e possivelmente Claudiano também), e o livro sobreviveu à idade média até que uma cópia dele (possivelmente do século VII), a única, foi encontrada em Bobbio em 1493. Até então, os editores só se interessaram por um poema atribuído a Sulpícia, e por alguma razão aleatória e inexplicável Avantius resolveu atribuir vários dos poemas Anônimos à pena de Ausônio, e depois disso o manuscrito se perdeu. Como o livro havia se perdido e não sabíamos exatamente quais os critérios para a atribuição dos poemas, esses poemas permaneceram sendo editados como se fossem de Ausônio até que no meio do século XX Augusto Campana encontrou uma cópia (aparentemente com algumas omissões) da coleção em meio aos manuscritos do Vaticano (Vat. Lat. 2836), e então a obra inteira pode ser lida, avaliada e as atribuições de autoria confirmadas ou questionadas.

A Epigrammata Bobiensia (que não é uma coleção de epigramas, e ironicamente sobrevive em um manuscrito do Vaticano, não de Bobbio) é uma miscelânia antiga, construída por poetas competentes, embora muito da coleção é tradução de poemas da Antologia Grega, alguns dos poemas (como o 6, o 36-37 ou 70) só podem ser latinos; além do mais, uma das traduções é muito interessante também, como veremos, por "traduzir" a primeira linha da Ilíada como "arma virumque". Aqui vão alguns poemas da Bobiensia, que certamente não são de Ausônio. Apenas mencionando que Bob. 53, em tradução do Gouveia, é referido por ele como Ausônio Ep. 129, baseado na edição bipontina (o poema certamente não é de Ausônio, mas circulou com os textos do poeta até a redescoberta do codex), porém estou apresentando uma versão mais correta, já que a edição Medeias Latinas apresenta non digna est no verso 7, que na verdade é um erro de digitação para nan digna da edição Bipontina, que o tradutor usa, enquanto eu imprimo o indigna (-a sensum 'valde digna' attribuentes, ThLL) do manuscrito, que não me convence muito, mas pode justificar melhor a tradução.

Bob. 7 [Trad: Raphael Soares]
[In marmoreum signum]
E marmore hanc me carneam effinxit Scopas,
Baccham euhiantem. tange: digito cesserim.
de mármore formastes a mim tal carne, Escopas,
Bacante boquiaberta!. Toque e eu recuarei.
Bob. 47 [Trad: Raphael Soares] 
De matrimonio grammatici infausto
"Arma uirumque" docens atque "Arma uirumque" peritus
non duxi uxorem, sed magis arma domum.
namque dies totos totasque ex ordine noctes
litibus oppugnat meque meumque larem
atque ut perpetuis dotata <a> matre duellis
arma in me tollit nec datur ulla quies.
iamque repugnanti dedam me, ut denique uictus
iurger ob hoc solum, iurgia quod fugiam.
"As armas e os barões" ensino, "As armas..." douto,
As armas, não mulher, à casa trouxe.
Pois todo santo dia e toda santa noite
assalta a mim e ao lar com seus litígios
Porque a mãe por dote deu duelos eternos
armada contra mim sem dar descanso.
Desisto de lutar, enfim, só assim que venço,
Só essa queixa: a de fugir das queixas.
Bob. 53 [Trad: Gouveia Jr.]
In Medeae imaginem
Medeam uellet cum pingere Timomachi mens
uoluentem in natos crudum animo facinus,
immanem exhausit rerum in diuersa laborem,
fingeret adfectum matris ut ambiguum.
ira subest lachrymis, miseratio non caret ira:
alternum uideas ut sit in alterutro.
cunctantem satis est: indigna* est sanguine mater
natorum, tua non dextera, Timomache. 
Quando Timômaco u'a Medeia quis pintar,
com crueldade intentando o crime contra os filhos,
realizou grande esforço em coisas diferentes,
para representar o ambíguo amor materno.
Há compaixão na ira, há ira sob as lágrimas -
o que vires em um, assim seja no outro.
Está muito exitante: a tua mão não merece
ó Timômaco, u'a mãe com o sangue dos filhos.

Bônus Round:
Bob. 70
In Romulum
M mutaris et R sedes si, Basse, notarum
nominis, altae Urbis moenia qui statuit,
alternasque ueli
s apicum †a se† scribere uoces,
Morulus hac fuerit, qui nunc est Romulus, arte.
 Assim na edição de Speyer, do link postado. Esse poema eu apresento como uma provocação e convite à leitura, tradução, e imitação. O poema é de cara interessante por gênero e estrutura: o gênero é um tipo de poema conhecido como lusus in nomine (lit.: brincadeira partindo do nome), havendo mais outros exemplos na própria Epigrammata, como Bob. 41 e Bob. 61, ou integrado em poemas maiores, como em Carmen Pascale de Sedulius (Convenit Heliae! meritoque et nomine fulgens | Hac ope dignus erat: nam si sermonis Achivi | Una per accentum mutetur littera, sol est. I. 185-7), em que Elias (lat. Heliae) se torna o próprio sol (gr. Helios) com a mudança de uma letra em pronúncia Argiva. A forma é um caso curioso de dois estilos métricos inseridos no poema, sendo um dístico elegíaco seguido de um dístico em hexâmetros. Por conta do conteudo do poema, podemos estar certos de que não é tradução ou imitação latina, mas uma composição nova dentro do gênero e que necessariamente foi composta em latim (mesmo que o autor seja grego ou falante primário do grego, como Claudiano ou Ausônio, a composição é original latina) por alguém que dominava a língua grega, já que o jogo de palavras envolve a alternância das letras M e R do nome Romulus, para construir a palavra grega Morulus (μωρός; Morulus é latinização, como se fosse um cognomen). Speyer sugere a autoria de Anicius Probinus, mas não possui qualquer base sólida, e embora esse é, de todos os epigramas da coleção, o mais "Ausoniano" deles, quase certamente não é de Ausônio também, ou ao menos não há qualquer base para essa atribuição, contudo, sendo de um poeta romano que não veio da Gália esse seria o único exemplo de poema polimétrico conhecido que não foi escrito por autor gálico. Vamos tentar falar dos versos.

1-2 "M mutaris et R sedes si...notarum | nominis": Basicamente qual o início do jogo do poema. Aqui eu vou chamar atenção primeiro para a prosódia, e o fato de que embora "m" e "r" sejam apenas consonantes e com a pronúncia com vogais curtas, o fato de serem consideradas "semivogais" (em terminologia latina) faz com que a pronúncia sega "em" e "er" (ao invés de "me" ou "re", ou os portugueses "eme" e "erre") tornando as vogais longas por posição. A construção "mutaris sedes" é algo relativamente simples de entender no discurso. De resto, "notarum" tem o sentido de "das letras".

2 "altae Urbis moenia": Construção poética tradicional, dando ênfase épica ou solene. Ex: "moenia mundi" + adj (Lucretius, repetidas vezes); "altae moenia Romae" e "incluta...moenia Dardanidum" e outras (Virgílio); "Romulus aeternae nondum formauerat urbis | moenia" (Tibullus); "Karthaginis alta moenia?" (Valerius Maximus).

3 "alternasque uelis apicum †a se† scribere uoces". O manuscrito apresenta "velit", que é facilmente corrigido para "velis". "uox" significa novamente as letras, a pronúncia, escrita. O texto da tradição permanece extremamente complicado, por conta de que "a si" não chega a trazer exatamente um sentido, e, de fato, as vozes escreverem "a si" parece muito mais indicar a forma "correta", ou sendo tautológico ao se referir à forma alternada. Zicàri propôs "apicum has excribere", que é paleologicamente provável e em teoria tem um bom sentido, contudo, embora a alegação do comentarista de que "excribere" como composto pode significar algo como "inverter" (referindo-se a has, "tais letras em específico") é algo que faz sentido e há paralelos, mas todos esses paralelos sempre fazem referências ao fato de copiar diretamente um texto, produzir uma cópia. A solução mais simples me parece ser a de Courtney "apicum rescribere", que tem o sentido atestado que parece correto. Deixo, claro, para o leitor decidir. Minha intuição, provavelmente falsa é que ao invés de †a se† devêssemos ler "nam" (porque, porque está scribere), e "scribere" com o sentido de "registrar", oficializar, fazemos com que Morulus, o idiota, se torne Romulus, o rei e imperador de Roma; contudo devo estar lendo Anne Carson demais.



Anthologia Latina, Riese. Cópia aqui.
- Anthologia Latina
A única coleção conhecida da antiguidade que chegou ao nosso tempo foi a Epigrammata Bobiensia, e, portanto, não existe uma "Antologia Latina" no mesmo sentido que existe uma "Antologia Grega". Contudo, várias antologias, florilégios e coleções foram feitas durante o período medieval, com diversas finalidades (quase nunca puramente artísticas), e por conta da parca sobrevivência dos textos clássicos, quando os críticos modernos começaram a organizar os textos latinos (como Veterum Poetarum Catalecta do Scaliger, até a Anthologia de Burmann) o objetivo não foi o de preservar o que de melhor existia em matéria de poesia latina para a posteridade, mas coligir tudo o que fosse possível de encontrar para preservar, mesmo que não fosse de grande valor literário. A consequência disso é óbvia, e faz com que, em termos gerais, a Anthologia Latina não seja nem de longe comparável em valor que a contraparte grega, e de certo modo não podemos nem mesmo chamá-la de antologia. Alexander Riese publicou a primeira recensão e organização crítica dos textos, e até o presente momento é ainda a única (não vamos falar da tentativa de Shackleton Bailey... Podemos fingir que ela simplesmente nunca aconteceu, para não manchar a imagem do grande crítico). Porque não podemos falar de uma Anthologia Latina, eu decidi então falar de um único poema, Anônimo, da mesma.

O poema que vou traduzir é o 130 (Riese, III. 171 de Burman), que está presente num dos mais antigos códices que temos (Codex Salmasianus, ou Codex Parisinus Lat. 10318), é um poema que antecede o 5º século (se crê que a coleção de poemas do Codex seja cópia de uma coleção composta na África por volta de 534), devendo ter sido escrito entre os tempos de Hosídio Gueta e Luxorius, sendo portanto do período tratado. O poema é bem interessante quando você desconsidera a misoginia, típica dos latinos, e trata de uma prostituta de nome Caballina, que não apenas tem nome equino como comporta-se como tal. Do ponto de vista linguístico, é um dos primeiros casos de bestialização violenta da linguagem, pois "iunctas" do último verso só pode se referir a um animal (e foi a mesma razão para Bailey tentar remover a palavra, substituindo por "pugnas"), e, de fato, se omitirmos o título do poema é possível lê-lo sem se dar conta de que o mesmo trata-se de uma mulher, já que fremebat intransitivo é geralmente usado para animais (e, de fato, Virgílio usa para cavalos, frementem equum nas Geórgicas). Por conta disso, o poema tem, de acordo com o meu conhecimento, sido tratado como que "demasiadamente obscuro", o que, a meu ver, não é preciso, já que a obscuridade é mais aparente que real. Segue o texto e versão. Só mencionando que "Parium nitens colorem" (que traduzi como "Alva cor de Paros") se refere ao mármore de Paros, famoso pela brancura e semi-transparência.

Anth. Lat. 130 R (Trad: Raphael Soares)
De Caballina meretrice
Caballina furens amanda nulli
Excussis modo calcibus fremebat;
Quae quamuis facie micet rubenti
Et uibret Parium nitens colorem,
Hirsutis tamen est petenda mullis,
Qui possint pariles citare iunctas.
A puta Cavalina
Cavalina loucaça e não amada,
como ela relinchava e dava coices;
Mesmo a vibrar rubor da sua face,
E vibrando sua alva cor de Paros,
Porém é duro o ataque de uma mula
Que pode se jungir nesse andamento.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Duas frustrações pueris - não-traduções de Catulo e Lucano

10 anos atrás, em 2009, estava iniciando o curso de Letras na Universidade Federal do Pará. No primeiro semestre de curso estudei meu primeiro nível de Latim. A professora da disciplina, Zilda Paiva, não era latinista ou classicista (de fato, ela é da linguística aplicada), e portanto era uma amadora, mas uma amadora no seu sentido mais puro: alguém que ama. Fiquei apaixonado pela disciplina e pela língua latina, que já tinha algum interesse antes mas não a ponto de querer aprender. De lá para cá colecionei textos e materiais da língua, e aos poucos tentei aperfeiçoar-me nela, sem exatamente grande sucesso.

Com apenas uma disciplina e apenas uma cópia do Gradus Primus I e de um mini-léxico latino, o meu eu de 10 anos ingenuamente achou que seria o bastante para iniciar projetos. Foi da língua latina meus dois primeiros projetos de tradução (já havia casualmente traduzido os Sonetos I, V e X de Shakespeare em verso livre... minha tradução rimada de O Corvo é de 2010). Pensava tinha o bastante para traduzir o "Livro" de Catulo e a "De Bello Civili" (que conhecia apenas como Pharsalia) de Lucano. Devo ter iniciado a traduzir ambos simultaneamente, e fiz pouco mais de 2 versos e umas palavras soltas de cada, perdendo os arquivos com o texto latino e a tradução no início de 2010 (perdi também uma narrativa curta). Nunca mais voltei para esses textos, e lembrei apenas agora que penso em não mais traduzir do latim, e portanto resolvi publicar no blog todo o que fiz na língua (em breve um pouco de Marcial, versos dos imperadores, além de mais 4 linhas de Manílio... acho que é tudo).

Acho que pode ser um pouco instrutivo relatar minha experiência de não-tradução do Carmen 2 de Catulo e do início de Lucano. Além da ampla incompetência com a língua, eu tinha uma visão muito ingênua a respeito da tradição e transmissão dos textos clássicos, e uma reflexão pode ser útil.


Caio Valério Catulo (Gaius Valerius Catullus, ~84 a.C. - ~54 a.C.) foi um importantíssimo e influente poeta romano do período republicano. Como poeta maior da língua, seria natural que sua obra fosse amplamente lida e, por conta disso, preservada. Contudo, isso não foi o caso, e um grande exemplo da minha ignorância a respeito do poeta tinha a ver com a condição em que o "Livro" de Catulo chegou até nós.

Nenhum poeta latino chegou tão perto da destruição quase completa quanto Catulo. Os poetas "neotéricos", em geral, foram muito pouco preservados (Hélvio Cinna, por exemplo, sobrevive em apenas 14 fragmentos, totalizando menos de 20 versos), e Catulo, esquecido durante quase toda a idade média, sobreviveu miraculosamente graças a um único manuscrito encontrado em Verona (V) nos fins do século XIII ou início do XIV, contendo o moderno Corpus do poeta (um segundo manuscrito, T, é um testemunho independente, porém contém apenas o poema 62).

Para quem vive na era da impressão e, mais recentemente, na era do texto eletrônico, é difícil imaginar a natureza complicada da transmissão dos clássicos. Como aluno de graduação, eu acreditava que ao lermos a vulgata comum de um texto latino eu estaria lendo "certamente" a "obra original" do autor. Hoje em dia é até absurdo imaginar que eu já pensei assim, então quando "estabeleci" meu texto de Catulo (i.e. copiei e colei de algum lugar online) não tinha pensado a respeito da natureza do texto, ou suas implicações para a interpretação. De fato, eu não tenho bem certeza de como era tal texto.

Como disse, todo o corpus de poemas de Catulo provém de um único manuscrito (V) que temos por milagre. Esse manuscrito, contudo, era absolutamente horrendo: recensão mal feita, altamente corrupto e interpolado, mal escrito e mal dividido. Mesmo os primeiros copistas sabiam que o texto que eles tinham em mãos era bem ruim, de modo que um manuscrito antigo (G, copiado de X, copiado de V ou uma cópia deste) escreve um parágrafo apontando que não é o copista a quem se deve culpar pela má qualidade do texto, mas o texto já chegou corrupto nas mãos deste. Considerando a proximidade dos manuscritos, é bastante simples e razoável se chegar a leitura de V mesmo após o desaparecimento do texto, contudo, V é tão ruim que o único jeito de se chegar a algo minimamente legível é por uma série de adivinhações mais ou menos arbitrárias.

A primeira dificuldade já vem com a divisão dos poemas. V não deveria ter os poemas divididos, ou não deveria dividir a maioria, e as cópias dele apontam ao menos os poemas atualmente estabelecidos como 2, 2b e 3 como um único poema. Logo de início, já se percebe que algo está errado. O poema deve aparecer mais ou menos assim em V:

 Passer deliciae meae puellae,
quicum ludere, quem in sinu tenere,
qui primum digitum dare at petenti
ea acris solet incitare morsus,
-------- Catullus, V, 2.1-4
Que "qui" e "ea" estão errados é bem simples de notar. Mesmo os antigos copistas corrigem frequentemente "qui" para "cui" e "ea" para "et". Lachmann não acreditou na correção "cui", sugerindo "quoi", que foi seguido por dois outros editores da década de 20 (Kroll de 1922 e Lafaye de 1923), mas no geral todos os outros editores, mesmo os mais excêntricos, imprimem "cui". No entanto, o final do terceiro verso é ligeiramente mais problemático: "at petenti" parece inapropriado. Os primeiros copistas sabiam disso, e emendaram para "patenti", "ac appetenti" e "appetenti", que é a que muitas edições modernas aceitam. A outra solução é "adpetenti". Desconsiderando os dois erros claros, esse é um que não muda tanto o sentido, mas ainda assim parece impossível saber qual a forma original que foi usada no terceiro verso, se é que o erro não é mais profundo.

Contudo, o início parece litigar apenas em detalhes ("adpetenti" e "appetenti" significam o mesmo, embora não está fora de questão uma corrupção maior na construção)... Mais grave, contudo, é a passagem que em V deve-se ler:
et solaciolum sui doloris,
credo ut cum gravis acquiescet ardor,
tecum ludere[m] sicut ipsa possem
et tristis animi levare curas.
Tam gratum est mihi quam ferunt puellae
pernici aureolum fuisse malum,
quod zonam soluit diu negatam.
-------- Catullus, V, 2.7-13 [2b.1-3]
Aqui o problema mais visível é que a construção e concatenamento de ideias é impossível. Além de uma terceira pessoa no fim, comparado com a segunda do resto do poema, há essa alusão mitológica (Atalanta) parece vir de lugar nenhum. Desde edições muito antigas, "quod zonan soluit diu negatam" vem separada de "Lugete, o Veneres Cupidinesque," (como aparece em V, onde os versos são parte de um mesmo poema) como Carmen II e III, mas a relação entre essas duas partes de 2 é puramente especulativa. Hoje em dia, a maioria dos editores considera os versos 11-13 como parte do mesmo poema, mas com uma lacuna entre, enquanto outros alegam que deve ser parte de um poema diferente (Kroll, por exemplo). Uns poucos sustentam que os três versos fazem parte desse mesmo poema, mas para isso ser possível alguma corrupção mais grave aconteceu com os versos, de modo que uma emenda mais severa precisa ser feita. Vale lembrar que a tradução mais famosa do poema em português considera toda a passagem um mesmo poema:
A Morte do Passarinho

Gracioso passarinho,
Delícias da minha amada;
Tu que tens parte em seus brincos,
Em seu regaço pousada;

Que o dedinho lhe provocas,
E a quem ela, com prazer,
O dedinho logo entrega,
Excitando-te a morder!

Quando está de mim saudosa,
E então lhe dá na vontade
Buscar em brincos mais ternos
Alívio à dura saudade,

Por calmar, segundo eu cuido,
Do seu peito o amante ardor,
E dar um consolozinho
Solitária à sua dor,

Contigo brinca. Esses brincos
Não os poder eu brincar!
Ai! tivesse-te como ela,
Que me rira do penar!

O bem, o bem, passarinho,
Que eu te havia de querer!
O tal fruto douradinho
Que a moça do bom correr

O virgíneo esquivo cinto
Se diz ter soltado enfim,
Certo não lhe era mais grato
Do que tu o foras a mim!


Trad: José Feliciano de Castilho (não o Antônio, como se afirma por aí)
Isso é uma paráfrase bastante livre, mas é a mais famosa, e provavelmente a melhor, tradução do poema 2 de Catulo, para a vergonha de todos os que vieram depois. É verdade que Castilho tinha algumas vantagens comparado aos contemporâneos, a tendência a paráfrase o livrou de seguir à risca e literalmente um texto latino defectivo (mais a frente), o desrespeito ao metro deu uma fluidez natural ao verso. Lexicalmente, hoje em dia seria inaceitável vulgaridades como "os brincos" (as brincadeiras), "consolozinho", "douradinho" e "calmar", além do que se um tradutor moderno traduzisse "dolor" por "saudades" seria atacado por uns duzentos fanáticos, mesmo sendo bem provável ser essa a mais correta tradução dentro do contexto. Castilho também pôs o "Tam gratum est mihi quam" para o fim e entende como se referindo à segunda pessoa, o que parece demonstrar que ele sentia que "algo errado aí não estava certo", e a facilidade da paráfrase deu uma fluência notável ao poema. A preocupação com o texto ruim parece ter prejudicado mais os tradutores posteriores.


Além da divisão, temos um problema no verso 8: "credo ut cum gravis acquiescet ardor," lido em V não faz sentido e é sintaticamente problemático, já que "possem" no subjuntivo imperfeito governa o futuro do indicativo "acquiescet", além do "ut" aparentemente desnecessário. Aqui várias soluções "simples" já foram tentadas: "credo, tum gravis", "credo, ut tum gravis", "credo ut, cum gravis", "credo et tam gravis", "(credo tum gravis...)", e o que todas elas tem em comum é que não são satisfatórias nem no sentido, nem na sintaxe, geralmente exigindo a revisão de algum outro verso, e frequentemente mudando o sentido e interpretação geral do poema. Alguns como Goold fazem malabarismo com os versos para mantê-lo, enquanto Heyworth simplesmente remove o verso inteiro, mesmo sendo bem provável que o verso não seja interpolado (interpoladores tendem a acrescentar versos para remover as dificuldades, não para acrescentá-las). Ellis obelisa o verso, enquanto Eisenhut o chama de locus desperatus (passagem tão corrupta que é impossível chegar à verdade), e Mynors de locus nondum expeditus (passagem que ninguém explicou de maneira convincente). "Credo" apresenta suas próprias dificuldades, se o pardal (passer) é alívio à "saudade" (usando a solução de Castilho) da "amada" (puella), porque ele "acha" (credo) que alivia o "ardor" (e no que exatamente consiste a palavra ardor aqui... Castilho parece interpretar como "paixão", mas é bem razoável que seja "ira")?

Olzaniec, por exemplo, tenta ler os versos assim: "credo, cum gravis acquiescet ardor,/tecum ludere sicut ipsa posse/et tristis animi levare curas." que pode ser lido como "Creio que, quando a grave ira [dela] diminuir, possa [eu] brincar contigo e os tristes sentimentos possa acalmar". É uma leitura mais especulativa, mas ao menos tem algum sentido até o 10º verso.

Agora ao tentar dar coesão ao poema como um todo se precisa alterar a gramática do verso 9 e refazer algumas construções no poema. Para "tecum ludere[m] sicut ipsa possem" (fora a remoção do "m" que provavelmente estava no original e foi removida já por alguns copistas antigos), alguns corrigem a gramática com "posse" e "passer" (Housman). Heyworth usaa "posse" removendo o verso corrupto 7 e escrevendo o verso 8 como "ad solaciolum". Goold também usa "posse" e troca as relações entre os versos 7 e 8, escrevendo o oitavo verso como "sit solaciolum". João Ângelo segue a lição de Goold (na verdade, de Voss[ius]... cito Goold porque Ângelo atribui a emenda "posse" a ele, mas é importante que a leitura de Goold e de Ângelo da sintaxe e unidade do poema são diferentes... Também chamo atenção que Voss une os dois poemas como "prova" de que "passer" é o pênis de Catulo, e as 3 últimas linhas seriam referência à Atalanta praticando sexo oral ou masturbação [não estou inventando isso], de modo que Ângelo segue a sintaxe mas não a semântica) lendo "posse", sem fazer nenhuma outra alteração, porém traduz o poema de modo ligeiramente diferente, já que ele usa um infinitivo "poder" mais indeterminado; Castilho reconstrói, ao invés da potencialidade menciona o fato de "não os poder brincar".


Sem ter a menor ideia da natureza dos problemas do texto, e usando uma cópia que não me lembro, tentei traduzir na época e fiz dois versos e algumas palavras. Em 2009 e 2010 eu não tinha aquela preocupação com a forma, mas tentava já pegar o conteúdo "interpretativo" dos textos. Como já dito, os versos foram perdidos, mas eu lembro que a "tradução" era mais ou menos assim:

Pássaro, delícias de minha amada
Com quem gracejas, que tem no seio,
digitum = no dedo / dare = ousa ou provoca
E isso foi tudo. Performance vergonhosa, admito. E logo percebo que uma de minha escolha implica uma interpretação diferente da que eu tinha (passer = pássaro) e outra implica uma interpretação que era minha (ludere = gracejas), mas que não é convincente. Usei "pássaro" para traduzir "passer" unicamente pela similaridade sonora, mas isso aparentemente coaduna com aquela interpretação imbecil de alguns poetas (entre os quais Salvatore Quasimodo e Décio Pignatari) em decidir que um pardal não é um animal de estimação adequado. Mesmo se desconsiderarmos a tradicional associação do pardal com Vênus, o στρουθοι no poema de Safo (fr.1), ainda resta o fato de que nada impede um animal de estimação como um pardal. No caso de gracejas, eu estava lendo "ludere" de modo sexual (fazer "gracinha", "gracejar", no sentido de fazer sexo), que remonta ao debate um pouco menos estúpido de se o "passer" do poema referir ao pênis de Catulo. Enquanto o primeiro caso ("passer" não sendo um pardal, mas um outro pássaro "melhor") pode ser simplesmente tratado como imbecilidade sem base, o segundo é mais complicado e não tenho nem competência necessária para debater. O caso é que hoje em dia essa interpretação não me convence mais.



Sem ter muita noção das minhas próprias limitações, também havia decidido traduzir "na íntegra" o poema "Sobre a Guerra Civil" (De Bello Civili), mas que conhecia apenas pelo título popular de Farsália (Pharsalia). Não conhecia a tradução do Filinto Elíseo, mas curiosamente minha versão dos dois primeiros versos ficou um tanto parecida. Lucano tem uma história textual complicada (como todos os clássicos) por outras razões, mas sobreviveu em vários manuscritos diferentes. Acredito que o início do poema não tem grandes problemas textuais pontuais, exceto pela possibilidade (não convincente) de que os 8 primeiros versos foram adicionados por um editor, e o poema começa com "Quis furor" (ou tinha um começo distinto que foi substituído).
Bella per Emathios plus quam ciuilia campos
iusque datum sceleri canimus, populumque potentem
in sua uictrici conuersum uiscera dextra
cognatasque acies[,] et[,] rupto foedere regni
certatum totis concussi uiribus orbis
in commune nefas, infestisque obuia signis
signa, pares aquilas et pila minantia pilis.
 Minha performance foi algo como isso:
As guerras mais que civis nos Emátios campos
e julgo dado ao ímpio canto, e o povo potente
em sua [...]
dextra = destra / uiscera = viscera
cognatasque acies = e o exército parente
Apenas para apresentar uma versão, a tradução do Filinto Elíseo:
Guerras mais que civis, no Emátio campo,
O jus dado à maldade canto, e o povo
Poderoso, que contra as entranhas suas
Houve empregado a vingadora destra.
Co'as forças juntas do abalado mundo,
Hostes parentas, roto o nó do império,
Para um total desastre, combateram:
Pendões contra pendões, águias contra águias,
Dardo no encontro hostil dardo ameaça.
 A editora da Unicamp, em 2016, publicou a primeira metade do poema em edição Bilíngue, com tradução, introdução e notas de Brunno V. G. Vieira. Por hora, não temos a segunda parte, os livros VI-X, mas ao que tudo indica é apenas uma questão de tempo. Gostaria de chamar também a atenção para o fato de que Bocage traduziu uma passagem descritiva da Farsália, intitulada "O Bosque de Marselha" (do Livro III), que pode ser lida aqui.



Edit 11/12/2019: Esqueci de mencionar outra particularidade do manuscrito Catuliano. A última palavra do manuscrito V é "negatam", mas a grande maioria dos editores escreve "ligatam" (incluindo João Ângelo, que traduz "zonam ... diu ligatam" para "o cinto atado há muito", ao invez de "negatam"="negado"... o cinto de Castilho é "esquivo", que talvez indique uma leitura diferente de "negatam" [como "rejeitado"?] ou improviso). O texto "quod zonam soluit diu ligatam" é a forma que era conhecida por Prisciano (Inst. 1.22) no século VI.

Também acrescento a tradução de Castilho para o início da Farsália:
Guerras mais que civis no emátio campo;
O crime alçado a jus; um grande povo,
que as armas triunfais crava em si próprio;
Hostes parentas; alianças rotas;
O globo todo em bélica vertigem
Para comum flagício; em campo e campo
Signas, águias iguais; pilos os mesmos,
A florear, embaterem-se, a esgrimirem;
Eis de meus versos o tremendo assunto!
Trad: José Feliciano de Castilho/ Ed: Renata Gurgel de Oliveira
Uma outra tradução do livro 1 pode ser achada aqui. Gostaria de saber porque diabos tanta gente se interessou por Lucano ao mesmo tempo.