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quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Humor Housmaniano, fragmentos de Cartas


Que Housman é frequentemente engraçado quando a maioria dos escritores consegue ser maçante não é segredo para ninguém, e seu estilo é cativante mesmo quando o conteúdo de seu discurso é irrelevante ou incorreto. Como 2020 está acabando, posto aqui algumas passagens da correspondência de Housman, contextualizada sempre que possível. A edição base é The Letters of A. E. Housman, por Henry Maas (Harvard University Press, 1971).


Sobre liberais (na Inglaterra do XIX, termo geral para se referir a todos os membros da esquerda, de anarquistas, comunistas, progressistas e liberais propriamente ditos, que são considerados esquerda na Inglaterra) e conservadores nas universidades, após uma proibição de participação política:

Semana passada, claro, ocorreu uma cena excitante: a campanha aberta pelo Vice-chanceler anunciando que qualquer graduando que tomar parte em qualquer encontro político será multado em £5, que foi fel e absinto para um grande número de Liberais, especificamente, que estavam prometendo a si a honra e glória de ficar ao lado de Sir William Harcourt na plataforma, e espalhando as asas da Universidade sobre ele: graduandos Conservadores foram afetados com menos severidade, já que nenhum deles é sequer capaz de falar decentemente. (Carta para Lucy Housman, 15 de Março de 1878)

A respeito de comentários sobre A Shropshire Lad:

Kate escreve para dizer que gosta do verso mais que dos sentimentos. Os sentimentos, ela então segue dizendo, parecem ser tirados do livro de Eclesiastes. Preferir a minha versificação aos sentimentos do Espírito Santo é decididamente lisonjeiro, mas me soa um tanto ímpio [...] (Carta para Laurence Housman, 27 de Abril de 1896)

Uma inusitada companhia:

 Eu confirmei, ao olhar de Wenlock Edge que a Igreja de Hughley não pode ter um campanário. Mas eu já havia composto o poema e não podia ter inventado um outro nome que soasse tão bem, e eu posso apenas deplorar que a Igreja em Hughley tem de seguir o péssimo exemplo da Igreja de Brou, que persiste em ficar na planície após Matthew Arnold dizer que ela fica entre montanhas. [...]
Morris morreu! agora Swinburne terá algo sobre o que escrever. Ele escreveu 12 epicédios para P. B. Marston, assim Morris deve ser bom para ao menos 144. [...]
Uma nova firma editorial me escreveu propondo publicar o sucessor de A.S.L. Porém, como eles não se ofereceram para escrevê-lo, tive de recusar. (Carta para Laurence Housman, 5 de Outubro de 1896)

Poesia sobre o mar:

O mar é um assunto de modo algum exaurido. Eu tenho em algum lugar um poema que chama a atenção a uma de suas características mais notáveis, que dificilmente algum poeta parece ter observado. Eles o chamam salgado, ou azul, ou profundo, ou escuro, e assim por diante; mas eles nunca fizeram uma reflexão tão profundamente verdadeira como a seguinte:
            Ó mares, vastidão,
            Quão úmidos são! [...] (Carta para Laurence Housman, 12 de Maio de 1897)

  Sobre o porque Housman não permitia antologistas a imprimir os poemas dele, mas permitia músicos:

O que deves ter em mente é o fato de que eu permito compositores arranjarem minhas músicas em palavras [sic] sem qualquer restrição. Eu nunca ouço a música, então não sofro; mas é muito diferente de ser incluído em uma antologia, com W. E. Henley ou Walter de la Mare. (Carta para Grant Richards, 2 de Julho de 1907)

Romances de Masenfield:

Eu também devo te agradecer pelos dois romances de Masenfield, dos quais eu li Captain Margaret. Bem legível e contendo um número de detalhes interessantes; porém péssimo. (Carta para Grant Richards, 12 de Abril de 1910)

Sobre a proficiência linguística dos censores, que atrasaram uma carta de Edmund Gosse por uma semana e ainda reclamaram que ele devia escrever "menos e mais claramente". Gosse protestou publicamente no The Times, e Housman lhe respondeu em carta:

Não percebes a situação. Não é a tua mão que o Censor não acha clara; é teu vocabulário. Um homem de letras escrevendo para outro, naturalmente, escreve em inglês, uma língua antiga e copiosa. Mas ninguém no escritório do Censor conhece 500 palavras de inglês: 450 de inglês com 550 de gíria, são o suficiente para expressar todas as ideias que circulam naquele claustro pálido e zeloso. E se o Censor acha suas cartas longas, não é que são longas em tamanho, mas que levam um longo tempo para ler quando muitas palavras tem de ser buscadas no dicionário. Por exemplo, deves ter usado a palavra 'tendency'. Essa é uma palavra que ninguém no escritório do Censor jamais usa, jamais ouve, ou mesmo vê: quando eles querem dizer 'tendency' eles sempre dizem 'trend', como fazem todos os escritores que eles já leram. (O que eles dizem quando eles querem dizer 'trend' eu não sei: talvez eles nunca queiram dizer) [...] (Carta para Edmund Gosse, 27 de Janeiro de 1915)

Sobre bibliófilos, após um de seus estudantes pedir uma primeira edição de A Shropshire Lad:

Decerto que não. Eu tenho apenas duas cópias restantes, e elas são para o bom e o puro. As coisas mais chocantes a respeto de vocês, "devotos de edições", são a falta de vergonha com que confessão o vício e a calma estupidez com que vocês esfaqueia a vaidade dos autores. Como vocês supõe que nós nos sentimos quando ouvimos toda essa confusão a respeito da diferença entre uma primeira edição e uma décima? Os únicos méritos de qualquer edição são a correção e legibilidade. Isso lhes pasma; e quando eu digo que a primeira edição continha um erro que é corrigido na segunda, vocês ficam prontos a arrancar seus próprios cabelos.
Eu pedi aos editores para enviar uma cópia da publicação a um de seus devotos ferrenhos, que insinceramente finge, como tu, estar interessado em minha poesia. Quando ele pôs as mãos nela, não esperou para ler, enviou-me na próxima saída dos correios pelo meu autógrafo. Eu fico realmente feliz quando ouço que vendedores de livros desonestos estão praticando extorsão em gente desse tipo, e demandando somas que vão de 7/6 a uma guinea, de acordo com a aparência do comprador, se parece um tolo de marca maior ou menor. (Carta para P. P. Stevens, 27 de Outubro de 1922)

Sobre casamento e morte:

Morte e casamento estão invadindo esta Faculdade com tal fúria que devo me sentir grato por ter escapado de ambas. (Carta para Percy Withers, 29 de Maio de 1925)

 Em resposta a alguém tentando escrever um livro sobre Housman:

Eu estive muito doente no início do ano, e eu estou novamente em uma enfermaria. Eu espero que possas restringir teu ardor indecente por algum tempo, quando eu estiver apropriadamente morto e tua obra proposta não será, pela sua própria natureza, imprópria. Mas esperança não é mais que esperança, pois minha família é forte e vive muito, exceto quando resolvem beber.
Não me envie teu manuscrito. Pior que a prática de escrever livros sobre homens vivos é a conduta dos vivos supervisionarem tais livros. Eu não te proíbo citar os estratos de minhas cartas. (Carta para Houston Martin, 22 de Março de 1936)

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Antilogia i-tradutória da poesia latina tardia [pt. 3] - Poetas "Pagãos", pt.2

Primeira Parte [Anônimos], Segunda parte [Pagãos]


Os últimos séculos da antiguidade foram uma época predominantemente cristã e com a maior parte dos escritores sendo cristãos e escrevendo em temática cristã. De certo modo, apenas Ausônio e Claudiano são "escritores maiores" da literatura secular tardia (um terceiro, Dracôncio, escreveu tanto poemas cristãos como poemas profanos, e ambas as obras tem seu próprio status de literatura "maior"... porém não vou falar dele aqui), enquanto os outros escritores ou escrevem traduções/adaptações (como Aviano e Avienio) ou tem um corpus muito pequeno para ser avaliado.

De fato, a grande dificuldade de se falar desses escritores menores é a dificuldade em poder compreender o fenômeno histórico ou mesmo o valor desses poetas baseado numa representatividade tão limitada em tamanho e proporção. É, de fato, difícil até mesmo compreender o que a palavra "menor" significa em contexto da poesia romana. Eles são "menores" unicamente porque o corpus sobrevivente é minúsculo e de difícil comparação, e sabemos de modo muito claro que o destino da sobrevivência dos clássicos deve-se ao capricho da fortuna, e não ao valor intrínseco das obras. Catulo, as Silvas do Estácio, quase não sobrevivem, Juvenal chegou a ser esquecido e mutilado, e nenhum historiador sobreviveu intacto, e conhecemos o nome e eventualmente meia linha de diversos "grandes autores" que pereceram. Aparentemente faria algum sentido pressupor que o que sobreviveu foi o melhor a que os copistas tinham acesso, mas "melhor" é questionável, e o "acesso" variava drasticamente particularmente no período tardio, e a grande verdade é que a sobrevivência dos clássicos se deu majoritariamente por acaso. Willis coloca isso muito bem:

Que a seleção e sobrevivência [dos clássicos] foi largamente acidental é facilmente observada. A imagem de uns poucos e notáveis ápices restantes de um continente afogado é romântica, mas falsa: alguém deve pensar mais em um terremoto que com sublime imparcialidade poupou aqui um palácio, ali um chiqueiro. Se aceitaria mais calmamente a perda de Ênio se não se tivesse todo Silius Italicus; Thyestes de Seneca meramente insulta nossa dor pela perda daquele de Varius. A obra em que Lívio devotou sua vida é preservada naquelas partes em que o queremos como guia em menor grau, e perdidas onde precisamos dela ainda mais. A obra de homens totalmente desconhecidos frequentemente sobreviveu - Manilius, Calpurnius Siculus, Solinus - e obras de autoria quase incerta - o Aetna, o panegírico sobre Messala, o Historia Augusta.

Aqui eu não vou ser completamente apressado em me juntar ao coro que diz que, como Butler, diz que Silius Italicus é o autor do "pior épico já escrito", porque já disse algo similar sobre Ausônio e tive de morder a língua depois. Contudo em linhas gerais isso ainda é verdade: o que nós temos não representa necessariamente o melhor da literatura, e quando vamos para a literatura tardia, cujos autores sobreviveram de modo muito mais limitado, essa desproporção é ainda pior. Mesmo na "era de ouro" e "era de prata" devemos questionar o valor relativo do que sobreviveu; por exemplo Quintiliano nos dá uma lista de autores que devem ser lidos por serem o que mais representa o melhor da literatura latina, e Quintiliano é o mais próximo de um crítico literário da época, e a lista segue assim: Virgílio acima de todos (claro), Macer e Lucrécio (mas não pela formação do estilo), Varro Atacinus (não deve ser menosprezado a despeito de sua reputação), Ênio (pela antiguidade), Ovídio (apaixonado demais pelo próprio talento, mas merece louvor aqui e ali), Cornélio Severo (o primeiro livro... se tivesse escrito o resto do mesmo modo mereceria mais respeito), Serranus e Valério Flaco (que morreram antes de chegarem ao ápice), Saleius Bassus (que é talentoso, mas não ficou melhor com a idade), Rabirius e Pedo (se sobrar tempo), Lucano (excelente, porém mais para oradores e autores de prosa que para poetas). Deixando de lado a ausência completa de satiristas (Juvenal, Persio, Horácio) e dramaturgos, e Ovídio sendo o único representante da poesia elegíaca (aparentemente Quintiliano pensa que as elegias ovidianas devem bastar para o gênero inteiro... o que é difícil de desautorizar quando o comparamos com o Corpus Tibulliano e o estado de Propércio), o que chama atenção não é a ausência dos "grandes poetas" que conhecemos, mas a presença marcada de autores de obras que não sobreviveram: Macer, Varro, Cornélio Severo, Serranus, Bassus, Rabirius e Pedo sobrevivem apenas em nome e pequenas citações, Ênio apenas em fragmento, e mesmo Flaco quase desapareceu completamente. É impossível avaliar de modo correto e crítico quando grande parte do que é necessário para a avaliação simplesmente não existe. Por outro lado, algo como Liber Memorialis de Ampelius sobreviveu, o que prova que inutilidades estúpidas podem ser abençoadas pelo acaso e sobreviver à era clássica.

 Como avaliar, portanto, alguém como Servasius (ou Sebastus, ou Servastus... o nome Serbastus é falso, e foi ele que sobreviveu nos manuscritos), que sobreviveu com apenas dois excelentes poemas: De Vetustaste e De Cupiditate? Não temos seu nome corretamente, e ele nunca é mencionado por ninguém, e os dois poemas sobreviventes são muito bons. É um grande poeta que sumiu, como um Gonçalves Dias que sobrevive apenas com Canção do Exílio e Seus Olhos? Um poeta medíocre que teve sorte de escrever um ou dois poemas brilhantes, como O Redivivo de Bonifácio? Em última instância, o julgamento geral desse corpus é impossível.

Para essa postagem eu vou tentar falar sobre um grupo complicado em particular (os Poetae Novelli) e a partir daí alguns autores baseados em poemas ou passagens que me interessam, ou creio que podem interessar estudiosos, em particular: Luxórius, Namatiano, Servasius[?] e Avieno. Seria bom ter tempo para falar da tradição bucólica, ou alguns dos poemas mais famosos de autoria duvidosa (como Pervigilium Veneris, poemas do Appendix Vergiliana, os Centões) mas o escopo é muito grande e minha competência muito limitada; nem haverá tempo de falar de Dracôncio, que é um dos raros poetas que sobreviveram com um corpus significativo de obras tanto cristãs como profanas. Essa postagem é ainda mais desorganizada que as demais, e não vejo como poderia ser diferente.


Poetae Novelli (II-IV Séculos)

Durante muitos anos o estudo da literatura latina tinha um capítulo interessante sobre um suposto grupo, chamado Poetae Novelli, escrevendo entre o período entre Adriano e Marco Aurélio. Contudo, diferente do que ocorreu com os neotéricos do primeiro século A.C., os poetas caracterizados como Poetae Novelli não se relacionaram pessoalmente um com o outro (exceto por Florus e Adriano), e de fato pertencem a gerações diferentes. Sobre comentários gerais sobre o grupo e os problemas filológicos, uma leitura rápida seria "Albrecht, M. von. A history of Roman literature: From Livius Andronicus to Boethius with special regard to its influence on world literature. Vol. 2. 1997". Para mais discussão vão as edições de Silvia Mattiacci, de Edward Courtney (a de Blänsdorf não tem comentário), e o artigo mais detalhado do Cameron. O meu comentário, contudo, vai tentar chamar atenção para o quanto perdemos em não ter uma parte representativa desses autores.

A primeira coisa a notar a respeito desses poetas é o como eles sobreviveram, havendo um ou outro testemunho contemporâneo mas os fragmentos são transmitidos por nós por meio dos comentários dos gramáticos. Isso tem implicações difíceis de mensurar, porque gramáticos citam versos geralmente para apontar os elementos mais raros ou diferentes encontrados na poesia deles (ou, citam o modelo paradigmático, usualmente o primeiro encontrado no primeiro livro, como Diômedes citando um dístico paradigmático em Tíbulo [I. 1 1-2], ou Caesius Bassus citando o primeiro "pentâmetro" paradigmático em propércio [II. 1 2]), e como resultado os Poetae Novelli podem parecer muito mais diferentes (esquisitões, afetados ou inovadores, dependendo para quem se perguntar) nos fragmentos do que realmente são. Por outro lado, também vemos que muitas diferenças e inovações individuais não se destacam, não são aceitas ou mesmo não são percebidas pelos contemporâneos, de modo que muitas características distintas do período podem nunca ter sido registradas pelos gramáticos.

A segunda coisa a se ter em mente é que, embora não os temos hoje, os antigos leram e de algum modo apreciaram a obra desses poetas, e eles quase certamente foram uma grande influência posterior, e poderiam explicar parte da mudança de gosto entre o período de Juvenal e Ausônio (e, desconfio, Ausônio era mais "clássico" que os Novelli, e Claudiano ainda mais clássico; Dracôncio, Paulino e Venâncio vão anunciando o medieval). Ausônio leu certamente Annianus, que ele cita por nome, e aproveitou ao menos uma invenção métrica de Serenus (Parentalia 27 = Serenus 16; mas Ausônio toma uma liberdade extra, que pode ou não vir da fonte). Septimius Serenus era conhecido e admirado por Sidônio, e sobreviveu até pelo menos o século X sendo lido e copiado (um catálogo de Bobbio registra libros Septimii Sereni duos, unum de ruralibus, alterum de historia Troiana[...]). Eles não são um período e grupo de autores irrelevantes para a compreensão do desenvolvimento da história literária, e a perda desses poetas pode ser tão prejudicial à compreensão da literatura romana como se perdêssemos toda a literatura do século XIX e tentássemos olhar o século XX sob princípios do XVIII.

Algumas características que podemos observar do todo que temos:

1) entusiasmo pelo arcaísmo, ao mesmo tempo (paradoxalmente, ao menos em aparência) de busca por uma linguagem mais simples do rústico e do homem comum.
2) novas formas métricas inventadas, e possivelmente mesmo o uso de polimetria (cujos primeiros exemplos inequívocos que temos são de Ausônio, Paulino e da Bobiensia, mas que temos razões para crer que já eram prática usual).
3) preferência por diminutivos
4) expressão coloquial e até mesmo vulgar, multilinguismo. Geralmente usado para representar cenas do quotidiano ou situações sentimentais.
5) uso ampliado de neologismos, particularmente em Apuleio (tanto em prosa quanto em verso)
6) aparente desprezo pelo gênero épico (vários épicos sobrevivem do primeiro século, e muitos outros conhecemos de nome... contudo, do período entre Silius Italicus e Claudiano apenas um épico é conhecido, de Clemens sobre os feitos de Alexandre, e parece ser uma obra reacionária). Por outro lado poemas históricos, didáticos, diversas formas arcaicas restauradas foram preferidas, bem como gêneros poéticos novos.

Chega de nonsense, e vamos a alguns poucos versos, dos Novelli do século III em diante:

Alfius Avitus (prob. gov. 244-246), frag 1

marite, si sanguis Curis,
Sabina si caedes placet,
in me, oro, conuertas manus

Ó marido, se sangue Curis,
Sabina aplaca se mata,
em mim, oro, vire as mãos.
--- [Aqui vemos arcaísmo (no caso, falso) e coloquialismo simultaneamente. Curis aqui é singular significa Quiritis (cidadão sabino), em seu singular raro Quiris, que se pensava derivar de Cures, nome da cidade Sabina (etimologia duvidosa, no mínimo), e por isso usa a forma Curis singular jamais atestada; por outro lado, é coloquial o uso parentético de oro, que é bem mais popular que o já menos formal uso parentético de quaeso nas cartas de Cícero.]

Serenus (post-Avitus), frags 16 e 17 (17 e 16)

perit abit auipedis animula leporis
vidinha avipede da lebre parte de vez
----
animula miserula properiter abiit
vidinha, miserazinha, rápido sumiu.
--- [aqui estou presumindo anima abit uel perit contra homo uel bestia obit, que parece durar até o fim da antiguidade. Contudo, as citações dão ambas aqui, e Green edita "abiit" para uma pessoa (amita); de modo que a palavra final é abiit ou obiit.]

Trads: Raphael Soares


 

Luxorius (V-VI Séculos)
E chegamos a Luxorius, talvez o maior de todos os poetas menores. O autor com o maior número de poemas e maior espaço separado dentro da Anthologia Latina (nomeado. Há suspeitas de um corpus maior composto dos poemas 90-190 sendo de um único autor africano, mas não temos seu nome nem podemos confirmar definitivamente a teoria) é o poeta Luxorius, que contém um "Liber Epigram[m]aton" composto dos poemas 287-375 (Riese), além de um Cento (Epithalamium Fridi) e um poema esparso (203 Riese). Ainda assim, muitos críticos duvidam se sequer vale a pena ler a obra do autor ou estudá-lo, a despeito do momento importante em que escreveu, o reinado Vândalo sobre Cartago.

Avaliar Luxoris é um trabalho hercúleo por incontáveis razões: a obra inteira do poeta deriva de um único manuscrito (Parisinus Latinus 10318), manuscrito esse que é extremamente corrupto a despeito da idade (isso é demonstrado pela cópia de poemas que temos controle para ver a leitura correta, como os Centões e poucos poemas que temos tradição independente, como o Pervigilium Veneris... ele, contudo, não parece ter sido intencionalmente interpolado em nenhuma parte da transmissão dele, que parece ter se dado mais por uma sucessão de erros estúpidos), conhecemos muito menos da época e local em que Luxorius viveu que de qualquer outro período e local da antiguidade, e por fim algumas alusões e usos de linguagem se perderam completamente no tempo por não serem atestadas ou comentadas por nenhuma outra fonte (exceto, possivelmente no que diz respeito ao circus, em que outros poemas da Anthologia Latina parecem dar auxílio). O resultado é que Luxorius é quase sempre muito obscuro, e muitas vezes não dá para saber se a obscuridade é da referência, do estado do texto, ambas ou somos nós que somos burros e não conseguimos ver o óbvio.

No geral, Luxorius, ao menos pelo que pude ler, parece muito diferente de marcial. Ele é muito mais claramente cínico que o predecessor dele, ao invés de irônico, de modo que me lembra um pouco Heine. Por conta disso ele parece bem menos hilário, e mais alguém que dá uma alfinetada para um quase-riso que não sai. Algumas vezes ele claramente não está interessado em fazer rir, mas é difícil de entender qual o interesse dele.

Mas antes de apresentar minha tradução do que me interessou e eu consegui entender de Luxorius, eu quero mostrar as dificuldades inerentes da leitura do poeta, e o que eu não consigo entender. Se alguém quiser enfrentar a leitura do poeta, deve estar preparado para esses obstáculos. Segue um poema do manuscrito (o 4º), e eu vou por abaixo a transcrição completa dos 5 "primeiros" versos, expandindo apenas as abreviações.

De epigramata parva quod in hoc libro scripserit
si quis hoc nostro detra[h]it ingenio
adtendat modicis condimensibis annum
et faciles hiemis uiris et esset dies
Nouerit brebibus magnum dependere usum (
uel depende reusum)
altra mensuram gratia nulla datur

Desconsiderando de pronto as discrepâncias ortográficas (detrait=detrahit, brebibus=brevibus) e aceitando as duas correções de Salmásio (-mensibus e ultra), o texto ainda assim tem diversos problemas além de ser ilegível (quero dizer, eu consigo entender "ultra mensuram gratia nulla datur", que é "prazer/graça nenhum(a) e dado em/através de medida exagerada", que parece certo... mas o resto do poema não dá para ler), é óbvio há um verso faltando no início (o poema começa no pentâmetro, o segundo verso), e apenas o primeiro e o quinto verso escandem, já que os versos 2-4 são impossíveis de ler no metro correto. "Condimensibus" tem sido geralmente lido com "condi de mensibus" ou "concludi mensibus", o terceiro verso é difícil de ajustar em metro e sentido, e a recriação de Shackleton Bailey não ajuda (et graciles uerni temporis et esse dies... de fato, só uma estação tem os dias mais curtos, mas seria o inverno, não a primavera... assumindo que eu fiz minha lição de geografia corretamente sei que Cartago fica ainda no hemisfério norte). Boa sorte lendo o resto.

Outro poema que me interessou, pelo título, foi o 296 (In spadonem regium, qui mitellam sumebat), mas não importa quanto eu o tente ler eu não entendo ele nem qual é a dele, e não sei se é corrupção (ao menos capillo...crine me parecem corruptos, ou não sei qual a diferença), se obscuridade da referência ou se eu sou tapado... Enfim, aos poemas. Todas as traduções são minhas, embora valha dar uma espiada nas versões de Art Beck publicadas na revista Sibila (em inglês). O texto em geral segue Riese (evitei reler o poema 317, que me parece errado, e o 293 não tem problemas), contudo aceitei a conjectura rarus (em obeli) de Klapp (pensei em aceitar prauus de Riese, mas jamais castus de Sh. Bailey) e leio scire...ipsam como a maioria dos editores no poema 322 (embora eu faça uma tradução mais livre do sentido nos últimos versos... esses dois versos são bem complicados, e é possível que o poema esteja incompleto), e aceito graciles de Watt no poema 329.

293. De auriga Aegyptio qui semper vincebat
Quamuis ab Aurora fuerit genetrice creatus
Memnon, Pelidae conruit ille manu.
At te Nocte satum, ni fallor, matre parauit
Aeolus et Zephyri es natus in antra puer.
Nec quisquam qui te superet nascetur Achilles:
Dum Memnon facie es, non tamen es genio.
Sobre um condutor Egípcio que sempre venceu
Embora de Aurora mãe criado foi
Memnon, caiu por própria mão do Pélida
Se não me engano, a noite é tua mãe e de Éolo
Prole, Nato pra Zéfiras cavernas.
Não vai nascer pra superar-te algum Aquiles.
De Memnon tens a face, não o fado.

Trad: Raphael Soares

317. In puellam hermaphroditam
Monstrum feminei bimembre sexus,
quam coacta uirum facit libido,
quin gaudes futui furente cunno?
Cur te decipit inpotens uoluptas?
Non das, quo pateris facisque, cunnum.
Illam, qua mulier probaris esse,
partem cum dederis, puella tunc sis.

Para uma garota hermafrodita
Monstro bimembre em sexo de mulher,
Cuja libido em macho te compele,
Porque não gozas foda em tua cona?
Por que o prazer selvagem assim te engana?
Não dás boceta, que é aberta e quente.
Aquela parte (que é prova que és mulher)
Quando deres, menina então serás.

Trad: Raphael Soares

322. De eo qui uxorem suam prostare faciebat pro filiis habendis
Stirpe negata patrium nomen
non pater, audis;
rarus adulter
coiugis castae uiscera damnas,
pariat spurios ut tibi natos,
inscia, quo sint semine creti.
Fuerant forsan ista ferenda
foeda, Proconi, uota parumper,
†scire uel ipsam† si tuus umquam
posset adultus dicere matrem.
Sobre um homem que prostituiu a mulher para que tivesse filhos
Negado foste de ter tua estirpe
queres te ouvir pai; adúltero raro,
da tua casta mulher macula a carne,
para parir pra ti espúrios filhos,
ignorante de qual sêmen gerou.
Talvez essa nojeira tua fosse
suportável por um tempo, Procônio,
se o filho ao crescer pudesse então
dizer que ao menos sua mãe sabia.

Trad: Raphael Soares

329. In eum qui foedas amabat
Diligit informes et foedas Myrro puellas;
quas graciles pulcro uiderit ore, timet.
Iudicium hoc quale est oculorum, Myrro, fateri,
ut tibi non placeat Pontica, sed Garamas!
Iam tamen agnosco, cur tales quaeris amicas:
Pulcra tibi numquam, sed dare foeda solet.

Para um homem que amava as feias
Myrro ama meninas deformadas e feias;
quando vê belas e modestas, teme.
Que julgamento há em teu olhar, ó Myrro,
Que não te agrada Pôntica, mas Gárama¹.
Agora eu sei porque buscais estes partidos:
Bela se dar a ti, nah, feia talvez!

Trad: Raphael Soares

¹O poema conta com um estereótipo racial do que seria uma mulher bonita e uma feia, que devia ser claro para os leitores cartaginenses da época. O estereótipo da mulher bonita não é claro, pois não é muito claro se Pontica significa da costa (como sugere Pontus) ou é corrupção (Poenica, i.e. Púnica) ou de alguma cidade específica desconhecida, mas o estereótipo da feia é pontual, Garamas são mulheres da tribo Garamantes, que eram os Berberes da Líbia e Tunísia, e, diferente do que alguns tem assumido por ser tribo africana, os Berberes não eram negros (e, o próprio poeta representa elogiosamente a beleza negra, o que também se reflete em outros poemas da Anthologia). O estereótipo racial também tem ares de "manter-se romano" do fim da África (os Garamantes nunca se tornaram romanos como outros grupos étnicos do norte da África)


A postagem, contudo, já ficou enorme. Não editei a parte anterior, para deixar claro que fiquei devendo Namatiano, Servasius e Avieno.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Antilogia i-tradutória da poesia latina tardia [pt. 2] - Poetas "Pagãos", pt.1

Primeira parte aqui.

Decimius Magnus Ausonius (310 - 395)

Se há um autor que deve ser individualmente analisado antes de qualquer julgamento de valor sobre a poesia tardia, esse autor é Décimo Magno Ausônio. Entre a morte de Juvenal e a obra de Ausônio há um grande vazio do nosso conhecimento, havendo poucos autores conhecidos e poucas obras sobreviventes (Pervigilium Veneris é provavelmente a mais importante delas, se é que podemos realmente datar ela como pré-Ausoniana). A reputação de Ausônio contudo tem de lidar com o duro (e factualmente incorreto) julgamento de Gibbon de que "[a] fama poética de Ausônio condena o gosto de sua era", de modo que reabilitar a literatura da época envolve primeiramente reabilitar Ausônio. Contudo, deve ser bem lembrado que a fama do poeta na época se dava principalmente pela sua atuação como professor e gramático, seguido de amplo respeito pela sua atuação política (aparentemente ele não foi um grande político de fato, e como co-governador na Gália o filho dele deve ter feito a maior parte do trabalho), e havia na época poetas mais famosos, o que ele próprio reconhece em sua correspondência. A verdadeira fama poética de Ausônio veio no Renascimento Carolíngeo, com um segundo Boom no Renascimento Humanista, e ninguém jamais condenaria o gosto da época. Dentre os humanistas, Petrarca, Bocácio, Erasmo e todos os outros tinham a poesia ausoniana em alta estima; em Portugal Achiles Estaço possuía um manuscrito de Cesares (Valicelliana ms.D 54) além de mencionar outros poemas de Ausônio em seus comentários (ex: menção ao poema Oratio na página 14 de seu comentário sobre Horácio) e Camões imitou um poema que ele devia encontrar dentro das obras de Ausônio (De Rosis Nascentibus, 15-16; comparar com Lusíadas, IX 61 2-4... A obra entrou nas edições de Ausônio em 1511 e era a atribuição mais comum no XVI) e possivelmente teve influência de Bissula, dos Idílios e talvez de Cupido Cruciatus em alguns de seus poemas (Camões, contudo, parece tomar a descrição das musas de outra fonte clássica); além do mais, Ausônio é o grande modelo literário para os epigramas e epitáfios portugueses do XVI, muito mais que Marcial. Chaucer provavelmente usa Ausônio como autoridade para a função das musas Cleo e Calíope, já que não conhecia grego (comentário mais detalhado aqui). Na Alemanha e França a fama literária de Ausônio nunca desapareceu completamente.

Mas por conta dos ataques ao valor do poeta, ataques esses que eu pessoalmente cheguei a repetir de modo pouco crítico, acho que devo falar um pouco das principais críticas que a ele são feitas antes mesmo de falar da vida e obra, já que tudo o que é dito contra Ausônio é, de algum modo, repetido ou modificado ao tratar da literatura latina tardia. As quatro principais queixas contra o Ausônio são as seguintes: 1) se removermos a dicção e versificação de Ausônio não sobra nada; 2) o poeta não tinha nada o que dizer (frequentemente em oposição); 3) o estilo dele é decadente e já não mais clássico; 4) os melhores momentos dele são nada mais que ecos da literatura anterior.
 
1) A primeira crítica é a mais comum, e também é a mais fácil de refutar. É o tipo de crítica que parece dizer alguma coisa, mas no fundo não diz nada. Se tirarmos a dicção e versificação (entendendo seja do ponto de vista mais estrito como mais amplo) de QUALQUER poeta, o que é que sobra? Talvez em alguns casos sobre uma filosofia ou crítica social pertinente ou história relevante, mas a poesia de qualquer poeta desaparece se dela removermos a dicção e versificação. Coleridge, um brilhante poeta e crítico, disse exatamente a mesma coisa de Virgílio, e se isso pode ser aplicado ao maior dos poetas latinos, o pode ser para qualquer um.

2) A segunda crítica é ligeiramente mais útil para compreender o poeta e a posição dele na poesia latina, mas dificilmente é algo que vai determinar o valor por si só. A primeira coisa é que ela não é completamente verdade, e a respeito disso a carta para o São Paulino de Nola, o Protrepticus ad Nepotem, sua pro fissão de fé em Ephemeris (embora pode não ter sido planejado nesse caso) e muitos poemas de Parentalia são poemas que definitivamente mostram inteligência ao falar de algo relevante para a ocasião e para o poeta. Contudo, em muitos dos poemas de Ausônio, incluindo seu famosíssimo Mosella, não há um "tema" de discussão, mas o tema é circunstancial e Ausônio usa seu talento na composição, não no desenvolvimento de uma ideia ou argumento. De fato, comparado com as críticas sociais dos satiristas Pérsio e Juvenal, dos epigramas de Marcial, da composição da ideia nacional de Virgílio ou da filosofia e retórica de Lucrécio e Lucano, Ausônio parece não ter muito sobre o que falar. Mas ter o que falar não é o bastante para ser poeta, como vimos no Disticha Catonis, que nem é mais lido como poesia hoje em dia, e se a ausência de uma "tese" ou "temática relevante" predica a má qualidade de um poeta, muito da melhor poesia moderna tem de ser jogada na lata de lixo também, incluindo grande parte da literatura neoclássica e quase toda a poesia simbolista. Se não me engano, Manuel Bandeira disse de Mallarmé que a maior de suas qualidades era que quase todos os seus poemas eram "de circunstância", e o mesmo pode ser dito seguramente de Ausônio, e é nisso que provavelmente jaz o apelo que o autor pode ter nos nossos dias.

3) A terceira crítica é completamente estúpida e sem sentido, mas exatamente essa estupidez que pode nos ajudar a compreender o nosso erro em lidar tanto com a poesia de Ausônio como com a poesia tardia em geral. Se assumimos que "poesia latina" é a "linguagem clássica de Virgílio", qualquer coisa que não é Virgílio vai ser sem refinamento (como Ênio e Lucrécio) ou decadente (como Estácio ou Ausônio) em comparação (e, paradoxalmente, tudo o que soar virgiliano será imitação barata ou fraude); contudo, se alterarmos o padrão, apenas como experiência, e dizermos, por exemplo, que a "poesia latina" é o "estilo de Estácio", a coisa vai repentinamente mudar de figura: o uso de linhas espondaicas em hexâmetros em palavras não gregas de Juvenal e Horácio (Ars 467), e os hiatos na Eneida (e em Catulo, se Catulo tiver, de fato, hiatos) vão parecer bárbaros, e a sintaxe de quase todos os poetas vai parecer muito pouco variada. Podemos fazer essa experiência em qualquer língua: se "poesia inglesa" é o "estilo de Dryden", Shakespeare e Spencer vão parecer bárbaros, e os românticos completamente afetados; se a "poesia brasileira" é o "estilo de Bilac", Varella e Gonçalves Dias vão parecer preguiçosos (o que não são), Alberto de Oliveira simplório, Augusto dos Anjos obscuro e Jorge de Lima simplesmente errado. Não é só injusto comparar um autor e época no padrão inalcançável de outro, mas não faz o menor sentido e não tem o menor valor crítico. Se toda a literatura representar uma decadência em relação ao padrão inalcançável de outrem, o fazer literário em si não tem sentido. Além do mais, o próprio latim "clássico" de Cícero e Virgílio foi condenado como já decadente por Fronto, em comparação com o "mais puro" latim pré-clássico.

4) A última crítica parece ser feita por pessoas que não conhecem a literatura latina ou não sabem como a própria literatura funciona, mas curiosamente é feita por latinistas e críticos literários competentes. Se esse padrão é levado a sério, Virgílio, Dante, Camões, Shakespeare, Tennyson e Machado estão todos no mesmo barco, já que o melhor de suas obras ecoa as obras de seus antepassados. O que é relevante é como o autor em si desenvolve esses temas e técnicas em sua obra como um todo e em seus poemas isoladamente. O julgamento deve ser específico, nunca geral.
 
Considerando a ignorância geral a respeito de quem foi o poeta e suas obras, é importante falar um pouco sobre ele e sobre sua obra, o que eu definitivamente não quero fazer nem tenho qualquer competência. Ausônio nasceu na Gália, de família cristã provavelmente falante de grego (ao menos a família da mãe era tradicionalmente da região desde os tempos do império gaulês, a estirpe do pai, contudo, é um mistério... a educação de Ausônio foi em grego, assim como a do filho dele, e o neto, Paulino de Pella, aprendeu latim já quase adulto), e bem jovem se tornou famoso pela sua inteligência como gramático e passou a lecionar em Bordeux por volta de 330-334 (ao menos 30 anos antes de ser convocado a Trier, na metade de 360... a data 334 é a mais provável), o que é uma idade excepcionalmente baixa para lecionar em universidades. Contudo, um pouco antes da carreira de Ausônio decolar, uma grande amargura provavelmente se sucedeu, já que Juliano famosamente baniu todos os cristãos de lecionarem em escolas e universidades por todo o império, e havia um confronto entre as facções cristã e pagã em Bordeaux. No meio de 360 (após 364, mas antes de 368, quando Ausônio acompanhou Graciano nas campanhas germânicas) Ausônio foi convocado para ser tutor do futuro imperador Graciano, e assumiu diversos cargos políticos desde então. Aqui, vale a pena apontar que a grande maioria da obra Ausoniana é posterior a esse período, e de fato não temos nenhuma obra indisputavelmente genuína que deve ter sido escrito antes de 345, embora sem dúvidas ele escreveu muitos poemas desde o início de sua carreira de grammaticus e mesmo antes. Algumas obras disputáveis, contudo, podem ser de período anterior, mas é difícil de acreditar na maioria dessas atribuições, seja porque elas são muito estúpidas mesmo para um poeta jovem, mas que conhecia bem o grego (como Periochae Homeri), ou são simplesmente muito boas para um poeta amador cujo ápice de escrita se deve a um período bem posterior (De Rosis Nascentibus, que como imitação virgiliana deve ser necessariamente de um período anterior).
 
Quanto ao cristianismo de Ausônio, algo mais precisa ser dito por conta de confusões que ainda permanecem a respeito do mesmo. Em matéria de estudo da literatura, Ausônio certamente não é um "poeta cristão" (como são, por exemplo, Prudêncio, Paulino, Venâncio, etc...), mas apenas no sentido de que a maior parte de sua obra é profana. Com tudo, é um erro crasso seguir Gibbons ao dizer que ele era "declaradamente pagão", o que definitivamente não é verdade, nem seguir Chisholm (para a Enciclopédia Britânica) em dizer que ele foi convertido ao cristianismo tardiamente e não era um grande entusiasta. Como já foi dito, Ausônio foi confessadamente Critão, e, de fato, professou sua fé em mais de uma ocasião dentro de sua poesia (Ephemeris 3 [Oratio], Versus Paschales), possui linguagem marcadamente cristã (gentes com sentido de "gentil", sanctius...reverentia... ambas em textos seculares), diversas vezes apresenta valores marcadamente cristãos, particularmente nos epitáfios. Não temos nenhuma evidência de que Ausônio sequer foi pagão em qualquer momento de sua vida, e muitas evidências do contrário, dentre as quais eu cito apenas duas. 1) a conversão ao cristianismo era matéria de orgulho entre autores antigos, de modo que os convertidos faziam questão de descrever sua conversão, e aqueles que sempre foram cristãos (como Paulino de Nola ou Paulino de Pela) costumam descrever suas experiências em termos de conversão também... Ausônio, que como dizia Symmachus, era incapaz de mentir mesmo em verso, nunca usa esse tipo de linguagem nem figurativamente, assumindo o pensamento e prática cristãs como algo "garantido"; 2) a família de Ausônio certamente apresenta comportamentos e valores que só podem ser explicados em contexto cristão, como a opção da tia de Ausônio (que o criou... ver Parentalia VI, que traduzo aqui) pelo celibato, e a conquista de status por parte da mulher através do celibato é algo que só pode existir dentro do contexto da antiguidade cristã, já que até mesmo a excessão romana (as Virgens Vestais), que assumem uma função mandatória para a sociedade, e por isso mesmo são tidas como "aberração" (Cf. Mary Beard e Peter Brown), ao ponto de que um dos ataques feitos à cristandade era exatamente a presença e aceitação dessas mulheres virgens, e a maior frequência (segundo os opositores) de mulheres celibatárias que casadas entre os cristãos (Cf. Santo Agostinho, Contra Faustum), de modo que numa sociedade e família cristã se esperava que Hilária casasse para garantir o seu status e o do marido e não ficasse "pra titia" cuidando do filho dos outros, o que é razoável e louvável num contexto cristão do IV século.

Em matéria de obra, uma coisa completamente externa mas que chama atenção é o fato de que Ausônio era quase certamente falante nativo de grego (a despeito do comentário do próprio de que os estudos dele de grego [i.e.: homérico] não avançaram de modo desejado, grego era a sua língua familiar, a língua de sua educação e da educação de seus familiares...), e isso é curiosamente persistente entre os melhores autores da antiguidade tardia: Amiano e Claudiano eram gregos, Luxório vivia num lugar de fala grega (e provavelmente o latim era puramente literário), e Paulino de Pela relata em seu poema-biografia o quão difícil foi aprender latim.
 
De resto, acho que muitas vezes os poemas falam por si só. Uma lista de obras interessantes do poeta talvez não seja muito relevante, visto que pouco se traduziu dele. Devo mencionar que o Gouvêa Júnior traduziu o Cento Nuptialis, que pode ser lido aqui, e que Daniel da Silva Moreira traduziu alguns epigramas aqui. O volume mais recente do Augusto de Campos aparentemente contém versões de Ausônio, mas não sei quais textos, mas de qualquer modo não espero muito do Augusto quando o assunto é latim. O Matheus de Souza está traduzindo todo o Parentalia, todos os domingos, no seu blog pessoal, e pode ser acessado pelo marcador Ausônio (aqui). O Matheus também foi bem generoso em contribuir com a tradução de um dos meus epigramas favoritos, que eu vou apresentar aqui na versão dele e na versão do João Ângelo.

Por fim, algo precisa ser dito quanto ao texto e numeração. Numeração de texto e verso, na maioria dos autores clássicos, é na maioria das vezes padronizado mesmo quando não faz o menor sentido (por exemplo, Catulo não tem poemas de número 18-20, de modo que em linhas gerais a numeração posterior não faz o menor sentido, mas permanece para evitar confusões), tudo isso para facilitar referência. Ausônio, contudo, é um daqueles raros poetas de corpus volumoso que não possui um sistema padronizado de numeração, de modo que ela é segue diferentes critérios e virtualmente todas as edições relevantes apresentam numeração diferente de uma para outra (excessão: Evelyn-White segue a mesma numeração de Peiper). O resultado disso é que dizer algo como "Epigrama 23" ou "Epigrama 90" não tem sentido por si só, sem fazer referência a edição em questão (o que, aqui no Brasil, ninguém faz), e pode ser ridiculamente difícil achar o texto em edições diferentes. Para a minha tradução eu vou usar a numeração que aparece na edição mais recente da obra, por Roger Green; a edição possui uma concordância (como todas as edições de Ausônio deveriam ter), mas eu vou apresentar os textos que possuem diferença em numeração do seguinte modo:
Epigr. 8G (Epit. 30S; Epit. 31Pe; Epit. 31Pr)
O que eu quero dizer com isso é que o poema seria o Epigrammata 8 na edição de Green, o Epitaphia 30 na edição de Schenkl (para o MGH, numeração idêntica à de Pastorino para as coleções, mas a organização geral das duas edições é distinta), Epitaphia 31 na edição de Peiper (Teubner... idêntica organização de Evelyn-White para a Loeb), e Epitaphia 31 na edição de Prete (organização parecida, mas não igual, à de Peiper nos epigramas e epitáfios, mas distinto nas cartas). Isso é uma bosta, mas é o melhor que posso fazer para garantir que os poemas sejam referenciados corretamente e qualquer um possa achar em sua própria edição ou versão favorita. Para os poemas que a numeração não varia (ou varia apenas se os prefácios são numerados), eu simplesmente seguirei Green. Para o poema que o Matheus e o Ângelo traduzem, eu vou seguir o texto que eles o Matheus usou (Evelyn-White... O Ângelo lê "ut" de T na primeira linha, porém não tenho ideia de onde ele tirou o número 50), mas vou manter o mesmo modelo de numeração (ou seja, o texto é da Loeb mas a numeração segue como Green, Schenkl, Peiper e Prete...). A ortografia é minha, que é a ortografia que acho mais fácil para transcrever. Em professores, a despeito de eu ler egregiam no texto (o manuscrito, aceito por Green e Pastorino) eu deixo a qualificação ambígua, aceitando ao menos tacitamente a opção egregia de Heinsius (como lido por Schenkl, Peiper) ou egregio de Holford-Strevens (que Green propõe mas não aceita no texto) como possibilidades implícitas. Não que importe com uma tradução dessa qualidade.

Parentalia VI [Trad: Raphael Soares]
Aemilia Hilaria matertera [uirgo deuota]
Tuque gradu generis matertera, sed uice matris
affectu nati commemoranda pio,
Aemilia, in cunis Hilari cognomen adepta
quod laeta et pueri comis ad effigiem;
reddebas uerum nom dissimulanter ephebum,
more uirum medicis artibus experiens.
Feminei sexus odium tibi semper, et inde
creuit deuotae uirginitatis amor,
quae tibi septenos nouies est culta per annos;
quique aeui finis, ipse pudicitiae.
Haec, quia uti mater monitis et amore fouebas,
supremis reddo filius exsequiis.
E tu, que é tia em grau, porém és vice-mãe
Em afeto o filho deve celebrar,
Emília, cujo nome Hilaro lhe é apenso
Porque no berço qual menino é alegre;
Sem dissimulação vera feição de um jovem,
Qual homem experiente em artes médicas.
Teu sexo feminino odiaste sempre, e assim
Veio o amor da devota virgindade,
Que mantiveste por nove sétimas de anos;
E o fim da vida é o fim da castidade.
Aqui, quem como mãe mantém amor, lições,
O filho a retornar ritual extremo.

 

Professores XVIII [Trad: Raphael Soares]
Marcello Marcelli filio grammatico Narbonensi
Nec te Marcello genitum, Marcelle, silebo,
aspera quem genetrix urbe, domo pepulit,
sed fortuna potens cito reddidit omnia et auxit;
amissam primum Narbo dedit patriam.
Nobilis hic hospes Clarentius indole motus
egregiam natam coniugio attribuir;
mox schola et auditor multus praetextaque pubes
grammatici nomen diuitiasque dedit.
Sed numquam iugem cursum fortuna secundat,
praesertim praui nancta uirum ingenii.
Verum oneranda mihi non sunt, memoranda recepi
fata; sat est dictum cuncta perisse simul,
non tamen et nomen, quo te non fraudo, receptum
inter grammaticos praetenuis meriti.


Nem esqueço a ti, Marcelo, herdeiro de Marcelo,
Áspera mãe forçou-te a outras plagas,
Tudo e mais a fortuna então te restaurou;
Assim, primeiro em Narbo, achaste pátria.
Aqui Clarêncio, nobre, a ti concedeu sua
Filha p'ra desposar, egrégia índole;
A seguir tuas lições atraíram mil jovens
Pela fama e carreira do gramático.
Mas a fortuna, embora longa, não prossegue,
Principalmente em depravada índole.
Não é o meu dever dar peso, mas lembrar
Do fado; basta lembrar: perdeu tudo
Só não renome, não te roubo, recebido
Qual gramático de mísero mérito.

 

Epigr. 20G (Epigr. 18S; Epigr. 40Pe; Epigr. 40Pr)
[AD VXOREM]
Vxor, uiuamus quod uiximus, et teneamus
nomina, quae primo sumpsimus in thalamo:
nec ferat ulla dies, ut commutemur in aeuo;
quin tibi sim iuuenis tuque puella mihi.
Nestore sim quamuis prouectior aemulaque annis
uincas Cumanam tu quoque Deiphoben;
nos ignoremus, quid sit matura senectus.
Scire aeui meritum, non numerare decet.
Trad: Matheus de Souza
Vivamos, minha
esposa, tudo o que vivemos,
guardando ainda o nome de casados.
Que eu seja o teu rapaz e tu a minha garota
sem que um dia a velhice nos ocorra.
Mais velho que Nestor eu seja e muito embora
emules a Sibila pela idade,
desconheçamos o que seja a senectude,
sabendo os dons do tempo sem contá-lo.

Trad: João Ângelo de Oliva Neto
Mulher, vivamos qual vivemos e tenhamos
os nomes que à primeira noite usamos.
Não haja um dia só, bem que mudemos sempre,
Que não me digas "jovem" e eu, "menina".
Mais velho embora que Nestor, rival que venças
em anos a Deífobe de Cumas,
a velhice madura ignoremos: o mérito
convém saber do tempo, não a soma.

 
Um epigama Jurídico comentado:
Epigr. 99
[Trad: Raphael Soares]

Iuris consulto, cui uiuit adultera coniux,
Papia lex placuit, Iulia displicuit.
Quaeritis, unde haec sit distantia? semiuir ipse
Scantiniam metuens non metuit Titiam.


Advogado que tem esposa adúltera,
lei Pápia aceita, a Júlia lei deplora.
Qual é a diferença? o imoral
Scantínia teme mas não teme a Titia.
Essa é uma pérola do humor jurídico da antiguidade, e um poema que sempre vale a pena apresentar para classes de latim e cultura romana. O conceito é bem simples, do advogado que é imoral e hipócrita: 4 leis são mencionadas, e o advogado se beneficia (lhe agrada) pessoalmente de duas delas, enquanto duas outras leis ele viola. O contexto das leis em si precisa ser mencionado. O advogado se beneficia pessoalmente da lei Pápia (Lex Papia Poppaea), que promove (basicamente força) o casamento, e se beneficia do status de casado por causa dela; contudo, lhe desagrada a lei Júlia, já que a sua esposa é adúltera e ele sabe disso (vive com esposa adúltera)... Para quem não sabe, ser corno manso em Roma era crime grave (Digesta 4, 4, 37). Porque ele aceita uma lei mas rejeita outra, sendo ele um advogado? Porque além de advogado ele é semiuir (a palavra é bem complicada em muitas situações... aqui, contudo, ela tem um sentido claro, que é o de pederasta... de fato, é o sentido usado por todos os apologistas cristãos do período, mas o sentido não é exatamente parte do vocabulário cristão... Cf. explicação de Servio Danielis para a palavra em Aen. IV 215: ab ipsis enim ferunt coepisse stupra puerorum), especificamente um pederasta. Por ser pederasta ele teme a lei Scantínia (ou Escantinia), que criminalizava o stuprum contra ingenui (o sexo com menores homens), porém ele se aproveita da lei Titia, que permitia que magistrados designassem tutores para jovens (o que, presumivelmente, o advogado em questão usa de algum modo para satisfazer seus desejos).

Por fim, recomendo que alguém tome ciência do poeta e traduza para nós Bissula, Mosela e Cupido Cruciatus... Eu não farei, decerto...


Sem fotos, bustos ou pinturas do autor.
Claudius Claudianus (c. 370 - 404 prob.)

Se é quase obrigatório começar a falar da antiguidade tardia com Ausônio, o passo seguinte é necessariamente falar de Claudiano. Claudiano, diferentemente de Ausônio, foi um poeta profissional, circulando a corte do imperador Honório após a morte de Teodósio. Enquanto Ausônio foi tomado como poeta nacional da França e nunca esquecido lá (Hugo, por exemplo, sabia versos dele de cor, e também escreveu Le Rhin, em prosa, mas de caráter similar ao Mosela) a reputação dele sofreu muita oscilação nos outros lugares; Claudiano, sendo lembrado como "o último pagão de Roma", "o último grande poeta latino" tendeu a ser visto em geral com simpatia, embora eu duvido muito que ele tenha tido quantidade significativa de leitores em qualquer época. Hoje em dia a crítica literária favorece o estudo de Claudiano, tendo em vista que a obra dele é em sua quase totalidade política, o que resultou em um grande número de dissertações de doutorado sobre obras específica.

Pouco sabemos da vida de Claudiano. O poeta era grego de Alexandria, numa época em que a intelectualidade da parte oriental do império era raramente bilíngue. Ele provavelmente escreveu sempre em grego, e de fato 7 epigramas dele da fase inicial sobrevivem em grego na Anthologia Palatina (I 19, 20; V 86; IX 139, 140, 753, 754), e um fragmento (Gigantomachia) sobrevive em tradição manuscrita isolada. Contudo, em 394 ele parte para a parte ocidental do império, e no ano seguinte escreve o poema mais antigo que chegou até nós: "Panegyricus fictus Olybrio et Probino consulibus", um elogio aos seus jovens patronos. Após o período ele escreveu diversos Panegíricos para seu mais poderosos patronos, Stilicho e Honorius, dois poemas para as núpcias de Honorius, invectivas contra inimigos dos mesmos, narrativa político-histórica e ensaiou a composição de dois épicos (De raptu Proserpinae e Gigantomachia); de resto, alguns poemas menores e de circunstância sobreviveram. A morte dele se presume pela ausência de qualquer texto ou alusão aos feitos de patronos após 404.

Se Claudiano era realmente pagão ou cristão é algo de debate e provavelmente não pode ser definida para além da incerteza, ao menos com base nas informações que temos. Dois poemas cristãos são atribuídos a Claudiano: Laus Christi e Miracula Christi, mas o primeiro também é atribuído a Merobaudes em melhores bases, e o segundo foi atribuído tardiamente sem bases manuscritas. Mesmo considerando que os poemas fossem de Claudiano, não há nada nos mesmos que não possa ser feito com base em conhecimento superficial das histórias e crenças cristãs, e naquele período não as conhecer era praticamente impossível: Miracula Christi, em particular me parece simplesmente muito apressado (cada dístico um milagre, e de fato o presente dos reis magos no segundo distico não é um... há um possível mal entendimento também no 7º). O que ainda se pode dizer é que autores antigos como Agostinho e Orósio afirmavam que Claudiano sempre fora pagão e nunca se converteu; Scourfield escreve que "como um poeta em uma corte fortemente cristã, é improvável que ele tenha sido pagão", contudo outros estudiosos têm notado que a época em que ele se mudou para o ocidente é extremamente suspeita. Em 393 Teodósio eliminou toda a legalidade dos ritos pagãos, e em 394 massiva perseguição e destruição ocorreu na parte oriental do império (é incerto se o imperador promoveu tais perseguições pessoalmente, mas é certo que ele permitiu que elas ocorressem), então é bastante razoável que o poeta esteja seguindo a tendência da intelectualidade pagã do período e escapando à perseguição.

Como eu já mencionei aqui e na postagem sobre Amiano, é algo bem notável que os melhores autores latinos do período eram falantes de grego. Com tudo, o que é fascinante em Claudiano é o quão "latina" é a sua dicção. Amiano deve ter usado muito latim no período do exército, e Ausônio teve educação bilíngue, ao mesmo tempo que ambos os autores escrevem com muita excentricidade de dicção, sintaxe ou semântica baseado no grego; Ausônio, em paticular, aprecia a escrita macarrônica. Claudiano, contudo, é possivelmente o mais "latino" de todos os autores latinos, ou, ao menos de todos os autores da antiguidade tardia latina. Pelo fato de que ele era grego, muita gente, inclusive eu, tem procurado marcas de grecismo e excentricidades na dicção do poeta, e as poucas que alguns tem identificado parecem ser todas falsas. Aqui eu vou dar os exemplos que eu conheço:

Panegyricus Dictus Olybrio et Probino Consulibus:
122. "in hastam"
Segundo Dewar in hastam tem sentido modal, e por isso seria grecismo. Contudo, Hall e Charlet pensam que in hastam tenha sentido final, portanto é latim natural. De qualquer modo, mesmo esse grecismo é poético desde o período augustano.
De Consulato Stilich. Lib I:
29. Sed pacem foedat vitiis; hic publica felix,
Burman, Heinsius, Dietrich consideram que publica é grecismo (hic ad quod publica). Hic publica com sentido de hic in publica já aparece em Plínio contudo, e publica aqui é por antimetria lugares/ambientes públicos, não exatament "em público".

De Consulato Stilich. Lib II:
389. Depulsa terris iterum regnare dedisti.
Lemaire diz que dedisti é grecismo, e tem o sentido de fecisti. Eu não sei nem mesmo se pode-se dizer que do com sentido de facio é grecismo, mas isso é irrelevante aqui de qualquer modo. Em linguagem militar, do pode significar conceder (permissão, segurança, prêmio), devolver ou restaurar, todos sentidos mais adequados que criar ou produzir.

Panegyricus dictus Honorio sextum consuli
361. dissimulata diu tristes in amore repulsas
Eu não entendo o bastante de grego para saber exatamente porque dissimulata tristes repulsas seria graecismo eleganti (Gesner). Contudo, Birt deve estar certo em interpretar dissimulata com o sentido de neglecta (usado por Ausônio e por Claudiano em outra passagem), e construir repulsas como acusativo de queror.

Por fim, traduzo duas passagens curtas, com base no texto estabelecido por John Barrie Hall. Claudiano é um pouco mais difícil de traduzir, porque a melhor poesia dele é significamente grande em tamanho, por isso eu vou traduzir o trecho mais curto da Fescennina e um poema da Carmina minora, que me parece interessante pelo contexto de divulgação de poemas na época. Até onde sei, há apenas uma tradução de Claudiano para o português europeu, do De Raptu Proserpinae, e em prosa.

Fescennina Dicta Honorio Augusto et Mariae [Trad: Raphael Soares]
III (13)
Solitas galea fulgere comas,
Stilicho, molli necte corona.
Cessent litui saeuumque procul
Martem felix taeda releget.
Tractus ab aula rursus in aulam
redeat sanguis. Patris officiis
iunge potenti pignora dextra.
Gener Augusti pridem fueras,
nunc rursus eris socer Augusti.
quae iam rabies liuoris erit?
uel quis dabitur color inuidiae?
Stilicho socer est, pater est Stilicho.


Sobre o cabelo brilha o elmo em luz,
Stilicho, e brando pões o louro à testa.
Cessem trompetes, e que o sevo Marte
Seja afastado pela tocha fértil.
Que se una a real com a real
Estirpe. O ofício que é do pai
Junge os amantes com potente destra.
Genro de Augusto outrora o foste tu,
E em retorno agora és sogro Augusto.
Que espaço há p'ra raivas da inveja?
Ou o que é que justifica a cor da inveja?
Stilicho é sogro, e pai é Stilicho.

Carmina Minora [Trad: Raphael Soares]
19 - Epistula ad Gennadium ex Proconsule
Italiae commune decus, Rubiconis amoeni
incola, Romani fama secunda fori,
Graiorum popules et nostro cognite Nilo
(utraque gens fasces horret amatque tuos),
carmina ieiunas poscis solantia fauces?
testor amicitiam nulla fuisse domi.
Nam mihi mox nidum pinnis confisa relinquunt
et lare contempto non reditura uolant.

Da itália gente orgulho, e em Rubicão ameno
habita, e em fama lácia o segundo,
Famoso à gente grega e alcança até o Nilo
(Que amaram e odiaram teu ofício),
Me pedes versos para alentar tua garganta?
Tenho nenhum, te digo como amigo.
Quando confiam nas suas asas os meus versos
Fogem de case e nunca mais se voltam.



[Avianus] (~400)

Nada sabemos sobre quem escreveu as fábulas geralmente conhecidas pelo nome autoral "Avianus". As 42 fábulas em dístico elegíaco foram certamente escritas por uma só pessoa, para um Teodósio (presumivelmente Macrobius Ambrosius Theodosius, o que coloca a construção da coleção por volta do ano 400). Se ele é o poeta que Teodósio menciona posteriormente, seu nome era Avienus. Os manuscritos não concordam em nome (Avianus, Avianius, Avienus... o nome Flávio é invenção posterior baseado em má identificação), e aparentemente o autor foi confundido com o outro poeta, Avienius (conhecido no período medieval como Avieno), o que abre a possibilidade para o fato de que o poeta tinha qualquer nome.

As fábulas de "Aviano" gozaram popularidade imensa no período medieval, o resultado é que a tradição textual do poeta é muito contaminada e interpolada (há enormes séries de finais distintos entre os manuscritos) e muitos manuscritos apresentam scholia, comentários e glosas. Robert Gregory Risse editou um desses comentários, e eu recomendo que todo mundo leia porque ele é hilário... Aquele tipo de comentário e leitura que é tão ruim, mas tão ruim, que chega a ser até bom e divertido... Eu iria apresentar uma tradução minha para a Fábula 2, contudo ainda há muitos outros escritores de maior interesse e mérito que precisam ser comentados, e se eu dedicar tanto tempo assim para cada um a série nunca acaba. Também preciso revisar minhas escolhas textuais: no verso 10 eu li excidit com Baehrens, que é a expressão correta e adequada, mas depois de ver como alguns classicistas (que são poetas muito melhores que "Aviano") lidam com substituições por sinônimos e cometem algumas falhas e absurdos de expressão, referência ou fato bem piores que occidit, me parece hoje que a pior forma é legítima, se tratando de uma versão indireta por um versificador que demonstra pouca riqueza de vocabulário.

"Aviano" recebeu uma tradução integral, disponível livremente na internet: a versão de Jorge Manuel Tribuzi Correia de Melo, que preparou uma versão e notas para a sua dissertação (aqui).



Bônus: Publilius Optantianus Porfirius (336+)

Por fim, apresento alguns poemas de Optantianus (que antecede Ausônio) e que não requerem tradução. Optantianus era um político romano, e poeta diletante, que após ser banido em algum momento da carreira escreveu elogios e bajulações para Constantino e foi permitido retomar postos políticos. O que é particularmente notável desse poeta é como a má qualidade e diletantismo podia se passar por poesia que presta, numa época de baixo nível cultural... Como muitas pessoas sabem, a história tende a se repetir, porque aparentemente o ser humano não aprende de verdade com ela. O "texto" é retirado da Patrologia Latina.






quarta-feira, 29 de julho de 2020

Antilogia i-tradutória da poesia latina tardia [pt. 1] - Poetas Anônimos

Há um grande problema no estudo da literatura latina, um problema que é extremamente óbvio para qualquer um que pensa a seu respeito, mas por uma razão ou outra não pensamos. O latim foi sistematicamente usado como principal forma de expressão literária no ocidente desde os tempos clássicos até o renascimento, o que dá em torno de 1500 anos de literatura, mas quando falamos de "literatura latina" (particularmente poesia) quase sempre nos restringimos a um período de duzentos anos indo de Lucrécio a Marcial. O renascimento, a despeito de seu monumental esforço em resgatar e comentar os clássicos, é um dos principais culpados dessa negligência, por conta do desprezo geral que o período teve em relação à era medieval. Com isso surgiu uma ideia geral de decadência do "Latim de Ouro", para um inferior "Latim de Prata" e um deplorável e decadente "Latim Medieval", relegando o latim tardio a um irrelevante meio.

Antes de qualquer coisa, essa postagem não pretende criar uma revisão violenta de valor, alegando que o latim tardio (e seus autores) é, de algum modo, superior ao clássico, e não por concordar ou discordar com a periodização e o julgamento de valor recebido, mas unicamente porque o latim clássico tem Virgílio, o que faz qualquer disputa um caso perdido. Mas do mesmo modo que é necessário que nós estudemos não-Virgílios, pelas mais diversas razões, não é mais justificável, em nosso tempo, ignorar mais de mil anos de história literária baseado nos preconceitos de nossos avós intelectuais. Precisamos conhecer a literatura latina tardia, e precisamos conhecer a literatura latina medieval, seja para reforçar ou rejeitar os juízos recebidos. Não é possível avaliar propriamente algo que não conhecemos, e no presente momento conhecemos muito pouco.

Essa antilogia foi influenciada por dois livros que não poderiam ser mais díspares em seleção e método. O primeiro é o Medeias Latinas de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, que na minha opinião é o melhor livro de poesia latina publicado nos últimos anos (a despeito do latim horrendo e porcamente revisado da edição), que ao construir uma seleção baseada em tema deu espaço particular para a poesia da antiguidade tardia, o que me chamou atenção e me comoveu profundamente pela qualidade do que eu li, seja pelo talento do tradutor, seja pelo interessante valor agregado dos próprios textos escolhidos. O segundo foi o Poesia Tradução e Versão de Abgar Renault, que me ensinou duas coisas importantes para me encorajar a escrever e traduzir esses poetas, a de que mesmo uma tradução ruim é melhor do que tradução nenhuma, e que mesmo em poesia é possível que uma má tradução, que apaga muito da mágica positiva do poema, ainda traga um pouco do que é bom do poeta. Já informo que todas as traduções aqui que forem minhas provavelmente serão ruins, feitas um tanto às pressas e organizadas quase aleatoriamente por um amador sem amor ou talento, mas eu espero que a exposição ao menos sirva para criar um diálogo ou chamar atenção para o período. Se meu violento abuso e presunção na terra das musas ofenderem tanto o leitor, espero o encorajar a salvar a dignidade da língua latina oferecendo uma versão melhor, ou melhores poemas que os casualmente selecionados por mim.

Comecemos a jornada...


Manuscrito musical do Disticha, Sec. XIII
- Disticha Catonis (Sec. III-IV)
Se o objetivo for unicamente fazer as pessoas se interessarem pela poesia tardia, Disticha Catonis é um péssimo ponto de partida. A obra, atribuída tardiamente a um Dionísio Catão (porém o nome é um equívoco, por associação à Catão, o velho), não agrada mais nosso paladar moderno. A obra não é o que conhecemos hoje como poesia, sendo basicamente moral versificada, e embora as viradas dos séculos parecem reviver a preferência à leitura moralizante das obras, e embora nosso próprio século parece estar engajado em ler obras exclusivamente pelo "valor moral", ou pela "agenda" que o autor e obra trazem, "cancelando" tudo aquilo que for condenado, o nosso século não está muito apto a aceitar os valores morais de dos velhos latinos. A despeito de ser muito difícil hoje em dia de ver a Disticha como grande poesia ou mesmo grande moral, é muito importante lembrar que esse foi provavelmente o texto latino mais influente na educação medieval e mesmo na educação moderna. Todos leram os Dísticos, todos parafrasearam os Dísticos, e muitos autores genuinamente os consideravam grande poesia ou grande moral. De resto, vão umas versões:

Livro I. 21 (Trad: Ary de Mesquita)
Infantem nudum cum te natura crearit,
paupertatis onus patienter ferre memento.
Fazendo o homem nascer sem roupa, a natureza
Ensina a suportar o fardo da pobreza.
Livro II. 11 (Trad: Ary de Mesquita)
Aduersum notum noli contendere uerbis:
lis uerbis minimis interdum maxima crescit.

Evita discutir com pessoas amigas:
De tolas discussões, às vezes, surgem brigas.
Livro III. 3 (Trad: Ary de Mesquita)
Productus testis, saluo tamen ante pudore,
quantumcumque potes, celato crimen amici.

Obrigado a depor contra um amigo, evita
Mostrar-lhe a falta enquanto a honra to permita.
Livro III. 4 (Trad: Raphael Soares)
Sermones blandos blaesosque cauere memento:
simplicitas ueri forma est, laus ficta loquentis.

Cuidado com lisonja indiscriminada:
Louvores faz o falso, franqueza a verdade.
Livro IV. 5 (Trad: Raphael Soares)
Cum fueris locuples, corpus curare memento:
aeger diues habet nummos, se non habet ipsum.
Quando te enriquecer da saúde vá cuidar:
Ou adoecer, tendo vinténs para gastar.
Livro IV. 19 [?] (Trad: Ary de Mesquita)
Disce aliquid; nam cum subito Fortuna recessit,
ars remanet uitamque homnis non deserit umquam.
Deve ter profissão a própria gente rica:
Os bens se podem ir, mas a profissão fica.
Bônus Round:
Livro I. 17
Ne cures, si quis tacito sermone loquatur:
conscius ipse sibi de se putat omnia dici.
Chaucer (Trad: José Francisco Botelho)
Aproximou-se. Disse assim Catão:
Quem tem culpa a pesar no coração
Suspeita sempre da conversa alheia.
A diferença do original para a "tradução" Chauceriana se dá pela leitura medieval de "conscius ipse sibi" (consciente de si, que conhece bem a si) como pessoa culpada, com senso de culpa. Mas isso é assunto para outra ocasião.


Cópia do livro disponível para a leitura aqui.

- Epigrammata Bobiensia (~400 A.D.)
Essa coleção da antiguidade tem uma boa e longa história, do tipo WTF... Essa coleção de poemas foi produzida ainda na antiguidade, no início do século V (Naucellius, autor de alguns poemas da coleção, ainda estava vivo, e possivelmente Claudiano também), e o livro sobreviveu à idade média até que uma cópia dele (possivelmente do século VII), a única, foi encontrada em Bobbio em 1493. Até então, os editores só se interessaram por um poema atribuído a Sulpícia, e por alguma razão aleatória e inexplicável Avantius resolveu atribuir vários dos poemas Anônimos à pena de Ausônio, e depois disso o manuscrito se perdeu. Como o livro havia se perdido e não sabíamos exatamente quais os critérios para a atribuição dos poemas, esses poemas permaneceram sendo editados como se fossem de Ausônio até que no meio do século XX Augusto Campana encontrou uma cópia (aparentemente com algumas omissões) da coleção em meio aos manuscritos do Vaticano (Vat. Lat. 2836), e então a obra inteira pode ser lida, avaliada e as atribuições de autoria confirmadas ou questionadas.

A Epigrammata Bobiensia (que não é uma coleção de epigramas, e ironicamente sobrevive em um manuscrito do Vaticano, não de Bobbio) é uma miscelânia antiga, construída por poetas competentes, embora muito da coleção é tradução de poemas da Antologia Grega, alguns dos poemas (como o 6, o 36-37 ou 70) só podem ser latinos; além do mais, uma das traduções é muito interessante também, como veremos, por "traduzir" a primeira linha da Ilíada como "arma virumque". Aqui vão alguns poemas da Bobiensia, que certamente não são de Ausônio. Apenas mencionando que Bob. 53, em tradução do Gouveia, é referido por ele como Ausônio Ep. 129, baseado na edição bipontina (o poema certamente não é de Ausônio, mas circulou com os textos do poeta até a redescoberta do codex), porém estou apresentando uma versão mais correta, já que a edição Medeias Latinas apresenta non digna est no verso 7, que na verdade é um erro de digitação para nan digna da edição Bipontina, que o tradutor usa, enquanto eu imprimo o indigna (-a sensum 'valde digna' attribuentes, ThLL) do manuscrito, que não me convence muito, mas pode justificar melhor a tradução.

Bob. 7 [Trad: Raphael Soares]
[In marmoreum signum]
E marmore hanc me carneam effinxit Scopas,
Baccham euhiantem. tange: digito cesserim.
de mármore formastes a mim tal carne, Escopas,
Bacante boquiaberta!. Toque e eu recuarei.
Bob. 47 [Trad: Raphael Soares] 
De matrimonio grammatici infausto
"Arma uirumque" docens atque "Arma uirumque" peritus
non duxi uxorem, sed magis arma domum.
namque dies totos totasque ex ordine noctes
litibus oppugnat meque meumque larem
atque ut perpetuis dotata <a> matre duellis
arma in me tollit nec datur ulla quies.
iamque repugnanti dedam me, ut denique uictus
iurger ob hoc solum, iurgia quod fugiam.
"As armas e os barões" ensino, "As armas..." douto,
As armas, não mulher, à casa trouxe.
Pois todo santo dia e toda santa noite
assalta a mim e ao lar com seus litígios
Porque a mãe por dote deu duelos eternos
armada contra mim sem dar descanso.
Desisto de lutar, enfim, só assim que venço,
Só essa queixa: a de fugir das queixas.
Bob. 53 [Trad: Gouveia Jr.]
In Medeae imaginem
Medeam uellet cum pingere Timomachi mens
uoluentem in natos crudum animo facinus,
immanem exhausit rerum in diuersa laborem,
fingeret adfectum matris ut ambiguum.
ira subest lachrymis, miseratio non caret ira:
alternum uideas ut sit in alterutro.
cunctantem satis est: indigna* est sanguine mater
natorum, tua non dextera, Timomache. 
Quando Timômaco u'a Medeia quis pintar,
com crueldade intentando o crime contra os filhos,
realizou grande esforço em coisas diferentes,
para representar o ambíguo amor materno.
Há compaixão na ira, há ira sob as lágrimas -
o que vires em um, assim seja no outro.
Está muito exitante: a tua mão não merece
ó Timômaco, u'a mãe com o sangue dos filhos.

Bônus Round:
Bob. 70
In Romulum
M mutaris et R sedes si, Basse, notarum
nominis, altae Urbis moenia qui statuit,
alternasque ueli
s apicum †a se† scribere uoces,
Morulus hac fuerit, qui nunc est Romulus, arte.
 Assim na edição de Speyer, do link postado. Esse poema eu apresento como uma provocação e convite à leitura, tradução, e imitação. O poema é de cara interessante por gênero e estrutura: o gênero é um tipo de poema conhecido como lusus in nomine (lit.: brincadeira partindo do nome), havendo mais outros exemplos na própria Epigrammata, como Bob. 41 e Bob. 61, ou integrado em poemas maiores, como em Carmen Pascale de Sedulius (Convenit Heliae! meritoque et nomine fulgens | Hac ope dignus erat: nam si sermonis Achivi | Una per accentum mutetur littera, sol est. I. 185-7), em que Elias (lat. Heliae) se torna o próprio sol (gr. Helios) com a mudança de uma letra em pronúncia Argiva. A forma é um caso curioso de dois estilos métricos inseridos no poema, sendo um dístico elegíaco seguido de um dístico em hexâmetros. Por conta do conteudo do poema, podemos estar certos de que não é tradução ou imitação latina, mas uma composição nova dentro do gênero e que necessariamente foi composta em latim (mesmo que o autor seja grego ou falante primário do grego, como Claudiano ou Ausônio, a composição é original latina) por alguém que dominava a língua grega, já que o jogo de palavras envolve a alternância das letras M e R do nome Romulus, para construir a palavra grega Morulus (μωρός; Morulus é latinização, como se fosse um cognomen). Speyer sugere a autoria de Anicius Probinus, mas não possui qualquer base sólida, e embora esse é, de todos os epigramas da coleção, o mais "Ausoniano" deles, quase certamente não é de Ausônio também, ou ao menos não há qualquer base para essa atribuição, contudo, sendo de um poeta romano que não veio da Gália esse seria o único exemplo de poema polimétrico conhecido que não foi escrito por autor gálico. Vamos tentar falar dos versos.

1-2 "M mutaris et R sedes si...notarum | nominis": Basicamente qual o início do jogo do poema. Aqui eu vou chamar atenção primeiro para a prosódia, e o fato de que embora "m" e "r" sejam apenas consonantes e com a pronúncia com vogais curtas, o fato de serem consideradas "semivogais" (em terminologia latina) faz com que a pronúncia sega "em" e "er" (ao invés de "me" ou "re", ou os portugueses "eme" e "erre") tornando as vogais longas por posição. A construção "mutaris sedes" é algo relativamente simples de entender no discurso. De resto, "notarum" tem o sentido de "das letras".

2 "altae Urbis moenia": Construção poética tradicional, dando ênfase épica ou solene. Ex: "moenia mundi" + adj (Lucretius, repetidas vezes); "altae moenia Romae" e "incluta...moenia Dardanidum" e outras (Virgílio); "Romulus aeternae nondum formauerat urbis | moenia" (Tibullus); "Karthaginis alta moenia?" (Valerius Maximus).

3 "alternasque uelis apicum †a se† scribere uoces". O manuscrito apresenta "velit", que é facilmente corrigido para "velis". "uox" significa novamente as letras, a pronúncia, escrita. O texto da tradição permanece extremamente complicado, por conta de que "a si" não chega a trazer exatamente um sentido, e, de fato, as vozes escreverem "a si" parece muito mais indicar a forma "correta", ou sendo tautológico ao se referir à forma alternada. Zicàri propôs "apicum has excribere", que é paleologicamente provável e em teoria tem um bom sentido, contudo, embora a alegação do comentarista de que "excribere" como composto pode significar algo como "inverter" (referindo-se a has, "tais letras em específico") é algo que faz sentido e há paralelos, mas todos esses paralelos sempre fazem referências ao fato de copiar diretamente um texto, produzir uma cópia. A solução mais simples me parece ser a de Courtney "apicum rescribere", que tem o sentido atestado que parece correto. Deixo, claro, para o leitor decidir. Minha intuição, provavelmente falsa é que ao invés de †a se† devêssemos ler "nam" (porque, porque está scribere), e "scribere" com o sentido de "registrar", oficializar, fazemos com que Morulus, o idiota, se torne Romulus, o rei e imperador de Roma; contudo devo estar lendo Anne Carson demais.



Anthologia Latina, Riese. Cópia aqui.
- Anthologia Latina
A única coleção conhecida da antiguidade que chegou ao nosso tempo foi a Epigrammata Bobiensia, e, portanto, não existe uma "Antologia Latina" no mesmo sentido que existe uma "Antologia Grega". Contudo, várias antologias, florilégios e coleções foram feitas durante o período medieval, com diversas finalidades (quase nunca puramente artísticas), e por conta da parca sobrevivência dos textos clássicos, quando os críticos modernos começaram a organizar os textos latinos (como Veterum Poetarum Catalecta do Scaliger, até a Anthologia de Burmann) o objetivo não foi o de preservar o que de melhor existia em matéria de poesia latina para a posteridade, mas coligir tudo o que fosse possível de encontrar para preservar, mesmo que não fosse de grande valor literário. A consequência disso é óbvia, e faz com que, em termos gerais, a Anthologia Latina não seja nem de longe comparável em valor que a contraparte grega, e de certo modo não podemos nem mesmo chamá-la de antologia. Alexander Riese publicou a primeira recensão e organização crítica dos textos, e até o presente momento é ainda a única (não vamos falar da tentativa de Shackleton Bailey... Podemos fingir que ela simplesmente nunca aconteceu, para não manchar a imagem do grande crítico). Porque não podemos falar de uma Anthologia Latina, eu decidi então falar de um único poema, Anônimo, da mesma.

O poema que vou traduzir é o 130 (Riese, III. 171 de Burman), que está presente num dos mais antigos códices que temos (Codex Salmasianus, ou Codex Parisinus Lat. 10318), é um poema que antecede o 5º século (se crê que a coleção de poemas do Codex seja cópia de uma coleção composta na África por volta de 534), devendo ter sido escrito entre os tempos de Hosídio Gueta e Luxorius, sendo portanto do período tratado. O poema é bem interessante quando você desconsidera a misoginia, típica dos latinos, e trata de uma prostituta de nome Caballina, que não apenas tem nome equino como comporta-se como tal. Do ponto de vista linguístico, é um dos primeiros casos de bestialização violenta da linguagem, pois "iunctas" do último verso só pode se referir a um animal (e foi a mesma razão para Bailey tentar remover a palavra, substituindo por "pugnas"), e, de fato, se omitirmos o título do poema é possível lê-lo sem se dar conta de que o mesmo trata-se de uma mulher, já que fremebat intransitivo é geralmente usado para animais (e, de fato, Virgílio usa para cavalos, frementem equum nas Geórgicas). Por conta disso, o poema tem, de acordo com o meu conhecimento, sido tratado como que "demasiadamente obscuro", o que, a meu ver, não é preciso, já que a obscuridade é mais aparente que real. Segue o texto e versão. Só mencionando que "Parium nitens colorem" (que traduzi como "Alva cor de Paros") se refere ao mármore de Paros, famoso pela brancura e semi-transparência.

Anth. Lat. 130 R (Trad: Raphael Soares)
De Caballina meretrice
Caballina furens amanda nulli
Excussis modo calcibus fremebat;
Quae quamuis facie micet rubenti
Et uibret Parium nitens colorem,
Hirsutis tamen est petenda mullis,
Qui possint pariles citare iunctas.
A puta Cavalina
Cavalina loucaça e não amada,
como ela relinchava e dava coices;
Mesmo a vibrar rubor da sua face,
E vibrando sua alva cor de Paros,
Porém é duro o ataque de uma mula
Que pode se jungir nesse andamento.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Raja Ali Haji - Gurindam Dua Belas XI

Raja Ali Haji foi um poeta e historiador malaio-indonésio de etnia Bugis. De etnia e linguagem minoritária na Malásia peninsular, Raja Ali Haji construiu sua carreira em Riau sobre a administração do Sultanato Riau-Lingga. Durante esse período histórico, com a liberdade de investigação e produção intelectual no arquipélago de Riau, que se pode dizer que a construção da forma clássica e literária da língua malaia e indonésia teve início (para quem não sabe, a despeito de serem oficialmente reconhecidas como línguas nacionais diferentes, malaio e indonésio são, de fato, a mesma língua), de modo que o presente autor é uma importante figura para o desenvolvimento de ambas as línguas e culturas, sendo considerado um herói nacional da Indonésia.

Raja Ali Haji escreveu um número de obras extremamente importantes, dentre as quais as principais são Tuhfat al-Nafis (isso é árabe, mas comumente traduzido como O Dom Precioso), um importante livro sobre a história malaia após os "Anais" (Sejarah Melayu), e o Kitab Pengetahuan Bahasa, uma espécie de gramática e dicionário da língua Malaia, que ficou incompleto. Dentre as obras menores temos poesias como os 12 Gurindam e alguns Syair (possivelmente espúrios), além de cartas e outros fragmentos. A obra dele nos foi transmitida através de manuscritos em escrita Jawi, o que gera seus próprios problemas de transmissão e edição quando passamos para a escrita Rumi (i.e. o alfabeto romano, atualmente usado tanto na Malásia como na Indonésia).

O gurindam é uma das formas tradicionais da poesia malaia, como o pantum ou o syair. A origem do gurindam deve-se provavelmente à escrita poética árabe e sua relação com o Alcorão, e a ausência de metro provavelmente provém do fato de que a prosódia entre essas línguas é muito distinta. O gurindam é composto de uma sucessão de dísticos (em Jawi usualmente escritos em uma só linha) rimados, e embora o poema inteiro tem uma unidade de caráter (a respeito de qual lição a ser ensinada), os dísticos isolados são sempre completos e autossuficientes em sentido, podendo ser citados isoladamente como aforismo ou peça de sabedoria. O paralelo mais similar que temos na poesia ocidental são as Sententiae de Publilius Syrus ou a Disticha Catonis se resolvermos organizar esses textos por tema, como alguns manuscritos o fazem. O "equilíbrio" do verso é semântico, sendo que o segundo verso do dístico é o mais importante e o primeiro sua condição, em modelo "questão-resposta" ou "causa-consequência" ou "problema-solução". O primeiro verso, o syarat (lit. condição, termos) apresenta a condição necessária para a lição ou cláusula principal da jawab (lit. resposta). A medida do poema tende a ser o equilíbrio semântico, e a melodia é adquirida exclusivamente por intermédio das rimas marcando esse equilíbrio.

O texto que estou traduzindo é o que aparece na Wikisource da Indonésia (aqui). Como mencionei antes, o texto chegou até nós por intermédio de cópias manuscritas distintas e escrito em Jawi, não Rumi. Duas palavras aqui me parecem erradas: dimulai (início, começo, iniciar) deve ser provavelmente algo como dimalui (essa mudança linguística é processo comum, e aparece em outras línguas austronésicas), mas o sentido aqui me parece correto (seria dimulai atualização "ortográfica" que distorceu o som?). Há, contudo, outras opções a considerar: 1) tomando paralelo com outras línguas entender dimalui como ditakuti (i.e. temer, temido); 2) corrigir dimulai para dilalui (i.e. impassável, ao menos em bali). Nenhuma das alternativas me parece tão boa semanticamente, então eu vou simplesmente manter o texto como está por causa da minha completa incompetência linguística ou filológica. A outra palavra é mais problemática hajat não só não rima (isso é, se não houve mudança fonológica entre o t e o h) como não me parece muito clara ou equilibrada semanticamente, se é que eu entendi direito. De qualquer modo, deixo marcado esses dois problemas com obeli no original, só para facilitar caso alguém mais competente que eu possa refletir sobre essas questões.



Raja Ali Haji - Gurindam Dua Belas - Gurindam XI

Ini gurindam pasal yang kesebelas:

Hendaklah berjasa,
kepada yang sebangsa.
Hendaklah jadi kepala,
buang perangai yang cela.
Hendaklah memegang amanat,
buanglah khianat.
Hendak marah,
dahulukan hajat†.
Hendak dimulai†,
jangan melalui.
Hendak ramai,
murahkan perangai.


(quem quiser me comprar esse livro, estou aceitando)


Raja Ali Haji - Doze Gurindam - No. 11

Eis aqui o décimo primeiro Gurindam:

Deves seus deveres cumprir
Para o irmão que mora aqui.
Deves para ser um cabeça
Livrar-se de conduta adversa.
Deves para ganhar confiança
Livrar-se de traição sem tardança.
Antes da irritação
Priorize a celebração.
Antes de começar
Não vá se apressar.
Antes de se acercar do povo
Temperamento tenha generoso.

Trad: Raphael Soares